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A Real Biblioteca Pública da Corte, 1796

No documento 1. Vol. 1 Tese Doutoramento.pdf (páginas 165-200)

PARTE II UM OLHAR SOBRE AS BIBLIOTECAS NO SÉCULO XVIII

Capítulo 6 A Real Biblioteca Pública da Corte, 1796

Com o Terramoto, em um ambiente generalizado de caos e desagregação, as carências identificadas em matéria de bibliotecas parecem agudizar-se e torna-se insuportável a ausência de um repositório bibliográfico. A existência de muitos livros não seria suficiente para colmatar a ausência assim sentida porque uma biblioteca está para lá da reunião de muitos livros; esta é uma ideia que vai fazendo o seu caminho, são várias as personalidades que através do seu pensamento e da sua intervenção contribuem para concretizar essa ambição.

Ao referir o período pós-Terramoto, é impossível fugir à pessoa, à acção e ao pensamento de Sebastião José de Carvalho e Melo, então Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, assim como é impensável não equacionar a responsabilidade das intervenções de Manuel da Maia, Engenheiro-Mor do Reino. Ambas as figuras são bem conhecidas mas pareceu-nos ter sentido, no âmbito desta investigação, referir a intervenção directa de Carvalho e Melo, no tocante à Real Biblioteca Pública, na respectiva sequência cronológica articulando-a com a acção de Frei Manuel do Cenáculo. Obviamente será uma referência muito breve, pontual mas fica assinalada.

Outro significado tem a intervenção do Engenheiro-Mor do Reino Manuel da Maia. Antes de mais nada por razões históricas e depois porque a análise das suas Dissertações o catapulta, inesperadamente, para outra esfera de intervenção, altera alguns dados importantes e dados como adquiridos no tocante à criação da Real Biblioteca Pública, reabre um debate que parecia ter-se esgotado. Assim, reputamos como indispensável introduzir a pouco conhecida mas decisiva contribuição de Manuel da Maia no que será uma longa caminhada até à concretização do projecto da Real Biblioteca.

Manuel da Maia, Engenheiro-Mor do Reino 1677-1768

Autor - José Machado, 1866. Óleo sobre tela, 82 x 99 cm. Foto: José Morais Arnaud

6.1 – Um urbanista pragmático: Engenheiro Manuel da Maia (1677-1768)

A leitura de alguns documentos assinados por Manuel da Maia (1677-1768), no exercício das suas funções como Engenheiro-Mor do Reino submetidos a despacho do Ministro D. Luís da Cunha (1662-1749) até às suas propostas para a reconstrução de Lisboa, em 1755 e 1756, apresentadas então a Sebastião José de Carvalho e Melo, dá-nos o perfil de um homem essencialmente pragmático. Não que as suas propostas fossem destituídas de fundamentação ou pensamento teórico mas porque são documentos muito objectivos, concretos, mensuráveis. A leitura daqueles documentos transmite muito claramente que Manuel da Maia não se perdia em diplomacias. Não se desgastou com etiquetas mais ou menos protocolares no tempo de D. Luís da Cunha nem se alterou com a situação criada pelo Terramoto. A situação de emergência provocada pela catástrofe natural exigia, no entanto, um projecto lúcido e uma enorme capacidade de resolução. As suas Dissertações são uma prova insofismável desta atitude. No contexto da criação da Real Biblioteca Pública, as suas

Dissertações introduzem uma atitude nova; a sensação com que se fica é de que não há tempo

a perder. De facto, não havia; a urgência da reconstrução sobrepunha-se a tudo o mais.

Parece razoável relacionar o aparecimento da Real Biblioteca com a grande reconstrução de Lisboa exigida após a devastação causada pelo Terramoto de 1 de Novembro de 1755, logo, com Manuel da Maia, Engenheiro-Mor do Reino, o seu mais directo responsável. Por tradição, as figuras de Sebastião José de Carvalho e Melo e de Manuel da Maia associam-se à reconstrução de Lisboa entendida na sua dimensão urbanística o que, sendo verdadeiro e exclusivo para Manuel da Maia, já não o é tanto para Sebastião de Carvalho e Melo, a quem competiu sempre a decisão política. A leitura atenta de documentos da época irá, contudo, relacionar estas personalidades com a eclosão da Real Biblioteca Pública da Corte o que, no caso de Manuel da Maia constitui, sem dúvida, um dado novo. Aos poucos, a revelação de factos, nomes, datas vão, em conjunto, aprontando a cofragem da Real Biblioteca.

6.1.1 – No rescaldo do Terramoto, uma biblioteca pública – No momento do Terramoto, a Biblioteca Real estava instalada no Paço da Ribeira e era composta por “um pequeno resto da

Livraria antiga da Sereníssima Casa de Bragança”318 ainda que enriquecida por “edições mais

raras, grande número de manuscritos, instrumentos matemáticos, admiráveis relógios, e outras muitas cousas raras, que ocupam muitas casas e gabinetes”319

e que havia sido sobremaneira enriquecida com as aquisições por iniciativa régia de D. João V 320. O Paço da Ribeira, edifício muito irregular e que remontava ao tempo de D. Manuel I, estendia-se entre o Tejo – com o opulento Torreão de Terzi, um misto de influência da austeridade da engenharia militar de Herrera, concretizada no Escorial, e da elegância maneirista, italianizante, torreão que distingue a paisagem de Lisboa até ao Terramoto321 – e a actual Rua do Arsenal322. Esta biblioteca real, que teria 70 mil volumes323, desapareceu consumida pela catástrofe natural. Seria “uma das jóias do palácio, a magnífica livraria que mal cabia em uma grande sala no edifício chamado o Forte”324. A biblioteca que lhe sucedeu, ainda que em formação e no

âmbito da Real Mesa Censória desde 1768, veio a alojar-se também no mesmo edifício, desta vez no segundo piso da ala poente da Real Praça do Comércio – designação pombalina a substituir a de Terreiro do Paço – e foi objecto de uma muito curiosa reconstituição feita por Cristina Dias325. Sobre os antecedentes da Real Biblioteca, apresentámos um pequeno historial na Secção 5.1 e aí comentámos o trabalho de Dias. Torna-se, porém, oportuno inserir aqui o presente apontamento sobre a Biblioteca Real para com maior acuidade se reflectir sobre as seguintes palavras do próprio Manuel da Maia, tão premonitórias em 1755:

“Também não posso deixar de lembrar, que no tal novo, e real Palácio se poderá formar uma Biblioteca pública para evitar o justo reparo de a não haver na Corte de Portugal, e junto a ela a casa do Real Archivo, que ainda que o terremoto o não destruísse, sempre necessitava de uma tal acomodação à imitação do Archivo

318 S

OUSA, António Caetano de – Historia genealogica da Casa Real Portuguesa…t. 8: 273; t. 11: 335. 319 Idem, ibidem.

320

Esta problemática é bem equacionada por SCHWARCZ, Lilia – Obra cit. As questões relacionadas com as bibliotecas reais portuguesas foram analisadas em 4.2.

321 F

RANÇA, José-Augusto – Lisboa pombalina e o Iluminismo. 1977: 28 - 29. Outra obra indispensável e rica em

informação sobre Lisboa é a de CASTILHO, Júlio de – A Ribeira de Lisboa…. 1956.

322 Sobre as influências arquitectónicas do edifício, em particular do Torreão, Ver KUBLER, George – Portuguese

plain architecture. Between spices and diamonds, 1521-1706. Middletown, Conn.: Wesleyan University Press,

1972 (trad. portuguesa de CORREIA, José Eduardo Horta e SILVA, Jorge Herique Pais da – A arquitectura

portuguesa chã: entre as especiarias e os diamantes 1521-1706. Lisboa: Veja, 1988) e mais recentemente

MOREIRA, Rafael – “O Torreão do Paço da Ribeira”. 1983: 43-48. 323

FRANÇA, José-Augusto, ibidem: 65. 324

CONCEIÇÃO, Cláudio da – Gabinete histórico (…). 1818-1831, T. 11 apud CASTILHO, Júlio de – Obra cit., v. 3: 113. 325 D

IAS, Cristina – “Real Praça do Comércio: momentos de construção e ocupação de D. José a D. João VI”. In FARIA, Miguel Figueira de, coord. – Do Terreiro do Paço à Praça do Comércio … 2012: 271-298.

Romano, para o qual se entra pela Bibliotheca do Vaticano. E para o duplicado, de que também há grande precisão, se escolherá sítio separado326.

De facto, o Engenheiro-Mor do Reino Manuel da Maia, decorrido um mês sobre a tragédia, no afã de informar o Ministro Carvalho e Melo sobre as intervenções arquitectónicas e urbanísticas inadiáveis, regista as suas impressões sobre a necessidade do “tal novo e Real Palácio se poderá formar uma Biblioteca pública” para calar qualquer crítica, isto é, “para evitar o justo reparo de a não haver na corte de Portugal” aproveitando logo para expandir a ideia para um “Real Archivo” sobre cuja acessibilidade parece conhecedor do que se passava com o “Archivo Romano para o qual se entre pela Bibliotheca do Vaticano”327. A sensibilidade

de Maia é tão apurada que nem sequer lhe escapa a necessidade de um espaço para duplicados “de que também há grande precisão”. Esta visão opinando sobre os equipamentos indispensáveis é muito mais profunda do que a mera perspectiva técnica de engenheiro, temática a merecer alguma reflexão.

Encarregado por Sebastião José de Carvalho e Melo de apresentar um plano para a reconstrução de Lisboa, Manuel da Maia, elabora três Dissertações (ou Relatórios) entre 4 de Dezembro de 1755 e 31 de Março de 1756 os quais apresenta superiormente ao Duque [de Lafões] Regedor das Justiças, D. João Carlos de Bragança, na altura encarregado por Carvalho e Melo de superintender os trabalhos de socorro necessários após o grande desastre natural. Estas Dissertações foram transcritas e publicadas pela primeira vez por Cristóvão Aires328 e, mais tarde, foram também referidas por José-Augusto França329 como peça fundamental para a interpretação das soluções urbanísticas utilizadas na reconstrução de Lisboa. Os documentos de Manuel da Maia são pormenorizados e, por vezes, sugerem várias soluções em alternativa não porque o autor não tivesse uma opinião formada sobre a melhor solução mas porque, colocando várias opções para escolha, induz, de uma forma muito subtil e sem compromisso, a alternativa que no seu entender melhor configurava os interesses gerais. No meio do articulado relativo à nova malha lisboeta, de súbito, uma referência à necessidade deste novo

326 M

AIA, Manuel da – 1ª Dissertação sobre a renovação da Cidade de Lisboa, 4 Dezembro 1755. Ms., cópia. Tb.

AIRES, Cristóvão – Manuel da Maia …1910, § 14: 30.

327 Desconhecemos quais as fontes de Manuel da Maia mas entre os engenheiros a trabalhar na sua dependência havia vários italianos nomeadamente provenientes de Nápoles e nos círculos sociais de Lisboa, particularmente nas Academias, a comunidade italiana também marcava presença. Ver GOMES, Paulo Varela –

“As iniciativas arquitectónicas dos Teatinos…”. 1993: 73-82. 328 A

IRES, Cristóvão – Obra cit. 329 F

equipamento de carácter cultural. Nem Aires nem França, embora transcrevam o documento e apesar de França ser mais minucioso, se aperceberam da precocidade da referência feita à Real Biblioteca e das consequências que essa menção temporã acarretava.

O extracto que aqui usamos pertence à 1ª Dissertação sobre a renovação da Cidade de

Lisboa por Manuel da Maia Engenheiro-Mor do Reino (4 Dezembro 1755) documento com o

qual nos deparámos pela primeira vez numa cópia feita pelo Padre João Baptista de Castro existente na Biblioteca Pública de Évora330. Embora se designem de Dissertações (o próprio Manuel da Maia designa o texto inicial de 1ª Dissertação), o que é facto é que também Manuel da Maia designa os textos seguintes, respectivamente, de segunda e terceira parte da

Dissertação sobre a renovação de Lisboa. Sejam três dissertações ou apenas três partes da

mesma dissertação, o que interessa é que apenas na 1ª parte (ou Dissertação) é referida a Biblioteca pública – a urgência da biblioteca pública! – referência que até agora passou despercebida na plenitude do seu significado cultural.

A Dissertação não era um documento inédito quando nos cruzámos com ele no âmbito das pesquisas que estávamos a realizar na Biblioteca Pública de Évora; para nós, no entanto, constituiu uma surpresa e, portanto, só depois de verificarmos que o mesmo já havia sido publicado é que pudemos avaliar em toda a extensão a importância da informação que acabáramos de recolher uma vez que agora, pela primeira vez, o seu conteúdo é considerado à luz de outro olhar. Na sua obra, J.- A. França331 chama a atenção para a menção feita por Maia à falta que uma biblioteca lhe fazia, lamentando-se por não ter a informação indispensável:

“As duas renovações mais célebres das Cortes da Europa, têm sido a de Londres, e a de Turim; e desejando eu saber o como se procedeu com os particulares na sua execução, sem ter livro de que me valer, nem Biblioteca pública que nunca mais precisa me pareceu que na presente ocasião, nem ocasião mais própria para se lhe dar princípio que esta, ainda que não seja logo tão numerosa como hoje são as maiores que não principiaram tão grandes […]” 332.

330 BPE Cód. CXII 2-9, f. 1. O original encontra-se no ANTT, Conselho da Guerra. 331 Idem, ibidem: 90.

332

O comentário de Manuel da Maia não passa despercebido a França como também não passara a Aires; o que passa despercebido, sim, aos dois historiadores é que o comentário de Manuel da Maia sobre a falta dessa infra-estrutura denuncia uma preocupação que devia pairar no ar, uma preocupação expressa pelo Engenheiro-Mor com enorme sentido prático a qual, ao ser verbalizada, faz recuar em quase vinte anos a primeira vez que é expressa a preocupação com a necessidade de ter uma Real Biblioteca contribuindo para reconfigurar o debate em torno da sua criação, já que as próximas menções à necessidade de uma biblioteca pública são de 1772333 e de 1773334, ambas da responsabilidade de Cenáculo. A falta de uma biblioteca pública que pudesse fornecer a informação de que ele, Manuel da Maia, urgentemente necessitava, mesmo que de início essa biblioteca fosse mais modesta. Um debate que se tem mantido em aberto sobre a emergência da ideia da Real Biblioteca Pública da Corte e para esclarecimento do qual julgamos estar a contribuir agora com este novo olhar e esta nova avaliação.

A esta preocupação, Manuel da Maia acrescentará outro comentário, também em 31 de Março de 1756, a reforçar a ideia da necessidade de dispor de uma biblioteca pública “que nunca mais precisa me pareceu que na presente ocasião” 335 à qual reconhece não se poder

exigir ser “tão numerosa como hoje são as maiores” 336. Portanto, por duas vezes entre 1755 e 1756, Manuel da Maia sublinha a necessidade de construir uma biblioteca pública a qual haverá de ser como as maiores da Europa. Um entendimento claro sobre a ocasião, a imprescindibilidade e a missão de um tal equipamento. Na intenção, também se manifestava “uma espécie de disciplina militar, vinda directamente da Academia do Exército, que Manuel da Maia dirigia” 337

, disciplina à qual este não se conseguia eximir.

No estudo que dedica a Manuel da Maia, e que já referimos, José-Augusto França alonga-se na análise dos aspectos técnicos que preocupavam Manuel da Maia enquanto caracterizariam a sua intervenção e, de forma sucinta, dá-nos o perfil do engenheiro-mor:

333 Sobre o estabelecimento dos Estudos Menores, parecer como Presidente da Real Mesa Censória. Referiremos o documento mais em pormenor em 6.2.

334 C

ENÁCULO, Manuel do – Faz-se indispensável para Biblioteca… Dado o significado deste documento, para além das citações extensas que faremos em 6.4, optámos por reproduzi-lo na íntegra. Ver Anexo 1 - Documentos

reproduzidos, nº 17-17.2.

335

Idem, ibidem: 23-24. 336 Idem, ibidem: 23-24. 337 F

“[…] podemos observar que o seu notável pensamento urbanístico é comandado, por um lado, pela vontade de fazer novo e, por outro, pelos hábitos enraizados na sua memória de cortesão de outros tempos […]”338.

Ao que nós acrescentaríamos, como se coadunava tão bem esta “vontade de fazer novo” com a preocupação de ter uma biblioteca pública!

Não estamos a confundir planos de intervenção nem responsabilidades, mas é indispensável fazer corresponder as ideias ao tempo em que são formuladas; e a ideia que Manuel da Maia expressa nos primeiros dias de Dezembro de 1755 é, certamente, muito precoce, fazendo recuar quase vinte anos a data a que podemos atribuir o aparecimento, pela primeira vez, da ideia duma biblioteca pública, neste caso, da Real Biblioteca Pública da Corte. Mais do que a mera questão do tempo e de prioridades, o que importa mesmo é registar o facto como mais uma pedra colocada na longa e multifacetada participação e responsabilidade que desemboca na construção da Real Biblioteca. Uma responsabilidade que se veste das mais variadas roupagens. Manuel da Maia, por exemplo, era engenheiro e projectista da nova urbanização. Sebastião José de Carvalho e Melo político, mentor do regime, com outras preocupações e com uma responsabilidade global, também se pronunciou sobre a necessidade de dispor de uma biblioteca pública339 o que, considerando a data de 1775 em que faz a declaração, tardia neste caso, e a relação muito próxima entre Carvalho e Melo e Cenáculo340, não aconselha a conceder muita ênfase ao seu decreto. Segundo Cenáculo, Carvalho e Melo era um “devorador de livros” 341, o seu cuidado com as bibliotecas (a de Jesus em 1771, a Real Biblioteca em 1775) não espanta. No momento da síntese, portanto, não encontraremos uma mas várias personalidades envolvidas. A perscrutação de cada contribuição individual levar- nos-á até à concretização do projecto da Real Biblioteca Pública da Corte.

338 F

RANÇA, José-Augusto – Obra cit.: 82.

339 Decreto de 2 de Outubro de 1775. Como este documento envolve directamente Cenáculo nas suas funções enquanto Presidente da Real Mesa Censória, voltaremos a ele em 6.2. Ver Anexo1 – Documentos

reproduzidos, nº 3-3.6, onde o reproduzimos na íntegra.

340

Para além dos compromissos políticos, os dois ainda desenvolvem uma colaboração muito próxima por conta da Livraria do Convento de Jesus. Ver 6.2.5.

341 Carta de Cenáculo para Gregório Mayans, Lisboa, 15 Nov. 1768. Ver P

IWNIK, Marie-Hélène – “La correspondance Mayans-Cenáculo. Principaux aspects ». 1986: 490-491.

D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas-Boas 1724-1814

Provável autor português, c. 1770. Óleo sobre tela, 95,5 x 74,5 cm. Biblioteca Nacional de Portugal

6.2 – Um erudito setecentista: Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas (1724-1814)

A figura de D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas imediatamente se associa a bibliotecas e livros. A esta vertente, importa adicionar a de pedagogo porque a articulação destas facetas corporiza um projecto que se identifica com o ideário das Luzes. Acompanhar a sua formação e actividade nos múltiplos aspectos como homem da Igreja, intelectual e pedagogo ajudam a compreender a sua personalidade no contexto da mudança setecentista em curso em Portugal. A bibliografia de que é autor é vastíssima; sempre determinados a atingir o objectivo da investigação, centrámos-nos em alguns impressos e manuscritos cuja compulsação consideramos indispensável para a nossa análise. Com destaque para o Plano de Estudos para

a Congregação dos Religiosos da Ordem Terceira de São Francisco do Reino de Portugal

(1769)342, analisaremos também as Memórias históricas do Ministério do Púlpito… (1776)343 e os Cuidados Literários do Prelado de Beja…(1791)344. A estes, acrescentaremos alguma epistolografia, mormente a trocada com António Ribeiro dos Santos, mas também com alguns eruditos espanhóis, e ainda o seu notabilíssimo manuscrito Faz-se indispensável para

biblioteca (1773). Será também obrigatório considerar e comentar alguns textos, da autoria de

Fr. Vicente Salgado, sobre a intervenção de Cenáculo no Convento de Jesus incluindo a sua Livraria345. O testemunho de Vicente Salgado346, seja através das suas obras impressas mais

342

CENÁCULO, Manuel do – Plano de Estudos para a Congregação dos Religiosos da Ordem Terceira de São

Francisco do Reino de Portugal (três partes, 1769). In Disposições do Superior Provincial para a Observância regular, e literária da Congregação da Ordem Terceira de S. Francisco destes Reinos feitas em os annos de mil setecentos sessenta e nove, e setenta. 1776 (T. I). NB – O Plano de Estudos corresponde à Disposição

segunda, enquanto o documento Sobre a execução do Plano dos Estudos corresponde à Disposição terceira.

343 CENÁCULO, Manuel do – Memórias históricas do Ministério do Púlpito por hum religioso da Ordem Terceira de

S. Francisco. 1776.

344 C

ENÁCULO, Manuel do – Cuidados literários do Prelado de Beja em graça do seu bispado. 1791. 345 S

ALGADO, Vicente – Relação dos Factos que na sua simplicidade e verdade manifesta qualificam a boa

administração da Província da Ordem Terceira da Penitência… ca 1777: f. 157-172. BAC Ms. 136 V. Tb. BPE Cod. CXXVIII 2-5: f. 56-63.

346 A partir de manuscrito de Vicente Salgado, interessa referir a seguinte nota biográfica: “[…] nasceu em Lisboa

aos cinco de Abril de 1732 […] entrou nesta congregação da Terceira Ordem de S. Francisco professando a regra deste santo instituto no Colégio de S. Pedro de Coimbra aos 25 de Agosto de 1748. Estudou as Artes, e Ciências maiores com o sábio Mestre Exmº e Rmº Snr. Bispo de Beja. Estudou as letras antigas com o sábio Professor o P. José Pereira. Adquiriu grande conhecimento das medalhas no Museu Bejense. Teve sempre uma decidida paixão pelas antiguidades nacionais e da sua ordem; em que fez aquisições originais, e por cópias. Foi Pregador Geral Jubilado, Secretário do Conselho, Cartorário, Prelado do Convento de Arraiolos, de Viana do Alentejo, Primeiro Reitor do Real Colégio de Évora, Cronista da Sua Ordem 13 de Junho de 1787, e Ministro Geral Eleito no Capítulo de 1789. O merecimento das obras que tem composto e impresso foram o seu elogio

No documento 1. Vol. 1 Tese Doutoramento.pdf (páginas 165-200)

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