Atualmente a situação das penitenciárias brasileiras é tenebrosa. Há constantes rebeliões e fugas, com um crescente aumento da violência dos presos. Isso se deve, em parte, a situação degradante do sistema penitenciário brasileiro, que submete o condenado a condições sub- humanas dentro da prisão.
O baixo investimento do Estado é o principal fator que provocou o colapso do sis- tema penitenciário brasileiro. Com a deterioração dos presídios ao longo dos anos, a con- dição de vida da população carcerária também foi prejudicada.
A pena de privativa de liberdade no Brasil está mais para o lado de desumanização do apenado, a qual não alcança as medidas propostas na Lei de Execução Penal.
A Lei de Execução Penal em seu artigo 1º dispõe: “A execução penal tem por obje- tivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado”.
45
CAPÍTULO 03
Levando em consideração este artigo, percebe-se que a execução penal possui como finalidade, além do cumprimento da pena, a ressocialização do indivíduo, porém não tem produzido os resultados almejados, ocasionando assim a atual crise que do sistema prisional.
Ademais, a Lei de Execução Penal afirma que são direitos do preso, conforme o artigo 41 que:
Art. 41 - Institui a Lei de Execução Penal.
Constituem direitos do preso:
I - alimentação suficiente e vestuário;
II - atribuição de trabalho e sua remuneração; III - Previdência Social;
IV - constituição de pecúlio;
V - proporcionalidade na distribuição do tempo para o trabalho, o descanso e a recreação;
VI - exercício das atividades profissionais, intelectuais, artísticas e desportivas ante- riores, desde que compatíveis com a execução da pena;
VII - assistência material, à saúde, jurídica, educacional, social e religiosa; VIII - proteção contra qualquer forma de sensacionalismo;
IX - entrevista pessoal e reservada com o advogado;
X - visita do cônjuge, da companheira, de parentes e amigos em dias determinados; XI - chamamento nominal;
XII - igualdade de tratamento salvo quanto às exigências da individualização da pena;
XIII - audiência especial com o diretor do estabelecimento;
XIV - representação e petição a qualquer autoridade, em defesa de direito;
XV - contato com o mundo exterior por meio de correspondência escrita, da leitura e de outros meios de informação que não comprometam a moral e os bons costumes. XVI - atestado de pena a cumprir, emitido anualmente, sob pena da responsabilida- de da autoridade judiciária competente. (Incluído pela Lei nº 10.713, de 2003). Parágrafo único. Os direitos previstos nos incisos V, X e XV poderão ser suspensos ou restringidos mediante ato motivado do diretor do estabelecimento.
A Lei de Execução Penal também dispõe em seus capítulos II e III, do Título II, o trabalho como forma de ocupação e os tipos de assistências ao condenado.
Para promover o retorno do preso à sociedade com sucesso, é preciso que o auxi- liem. Nelson HUNGRIA3, assim se manifesta sobre o assunto:
Os estabelecimentos da atualidade não passam de monumentos de estupidez. Para reajustar homens à vida social invertem os processos lógicos de socialização; impõem silêncio ao único animal que fala; obrigam a regras que eliminam qualquer esforço de reconstrução moral para a vida livre do amanhã, induzem a um passivís- simo hipócrita pelo medo do castigo disciplinar, ao invés de remodelar caracteres ao influxo de nobres e elevados motivos; aviltam e desfibram, ao invés de incutirem o espírito de hombridade, o sentimento de amor-próprio; pretendem, paradoxalmente, preparar para a liberdade mediante um sistema de cativeiro.
Para conseguir a efetiva ressocialização o condenado precisa do efetivo reconheci- mento e poder dos seus direitos, o acesso à saúde, educação, trabalho, dentre outros, con- forme o artigo 41 da LEP, mas conforme o exposto, nas celas o que se vê é um amontoado de presos disputando um pequeno espaço, obrigados a conviver no meio de lixo, insetos e esgotos abertos, sujeitos aos mais diferentes tipos de doenças. Além das doenças do corpo, esses espaços possibilitam o surgimento de doenças mentais, tais como depressão, esquizofrenia, entre outras, possibilitando a incidência de suicídios.
A alimentação também é precária, em alguns locais não existe a mínima higieni-
46
CAPÍTULO 03
zação e em outros, são os próprios presos que fazem sua própria alimentação, sem as condições necessárias.
A superlotação carcerária também é um problema, visto que está presente tanto nas penitenciarias, como nas cadeias públicas. Em média hoje no Brasil, em uma cela onde caberiam cerca de dez presos, são encontrados dezessete. A superlotação está associada ao atraso do judiciário, o aumento da quantidade de prisões efetuadas durante os últimos anos, e também, do descaso do Estado na criação de políticas públicas para a reintegração do preso na sociedade, o que acaba tornando um problema, tornando a reincidência extre- mamente comum e um fato gerador de superlotação.
Sobre o desrespeito a dignidade humana o julgado do Colendo STJ, o qual dispõe:
RECURSO ESPECIAL. DIREITO PENAL. TRÁFICO DE DROGAS. ART. 1º, III, DA CF. PRINCÍPIO DA DIGNIDADE HUMANA. LEI N. 11.343/2006. LIBERDADE PROVISÓRIA. ARTS. 310 E 312 DO CPP. CONDIÇÕES PRECÁRIAS DE SAÚ- DE DO CUSTODIADO E AUSÊNCIA DE MOTIVOS ENSEJADORES DA PRISÃO PROVISÓRIA AUTORIZAM A CONCESSÃO DE LIBERDADE PROVISÓRIA. LE- GALIDADE. (grifo nosso).
1. A República Federativa do Brasil tem como fundamento constitucional a dignida- de da pessoa humana (art. 1º, III, da CF).
2. A custódia cautelar implica necessariamente o cerceamento do direito à liberda- de, entretanto o custodiado em nenhum momento perde a sua condição humana (art. 312 do CPP).
3. Impõe-se ao magistrado verificar, caso a caso, se o sistema prisional detém meios adequados para tratar preso em condições precárias de saúde, caso contrário, ad- mite- se - de forma excepcional - a concessão da liberdade provisória, em atenção ao princípio da dignidade humana, inclusive porque, nos termos da Constituição Fe- deral, ninguém será submetido a tratamento desumano ou degradante (art. 5º, III). 4. Relevante à manifestação do juízo de primeiro grau - ao deferir a liberdade pro- visória -, pois manteve contato direto, a um só tempo, com a situação concreta do acusado, com os fatos a ele imputados e com o ambiente social onde estes ocor- reram.
5. Recurso especial não conhecido. Concessão de habeas corpus de ofício para determinar a expedição de alvará de soltura em nome da codenunciada, a fim de garantir-lhe o direito de aguardar em liberdade o curso da ação penal - mediante o compromisso de comparecimento a todos os atos do processo, sob pena de revo- gação do benefício -, se por outro motivo não estiver presa e ressalvada a possibi- lidade de haver decretação de prisão, caso se apresente motivo concreto para tan- to, nos termos do voto. (Resp1253921, Rel. Ministro SEBASTIÃO REIS JÚNIOR, SEXTA TURMA, DJE: 21/05/2013).
Portanto é visível que todos esses fatores, tornam muito comum a prática de vio- lência e rebeliões dentro dos presídios, tornando a realidade do sistema penitenciário e ressocialização quase impossível.