Capítulo 1. A emergência de uma educação pela ciência
7. A realidade escolar reflectida nos manuais no 3º CEB
De acordo com Figueiroa (2001), é a partir do manual escolar que se dá início aos estudos exploratórios e
aos temas a desenvolver na sala de aula, sendo este também um orientador do percurso de conteúdos
programáticos, no que respeita ao currículo a ensinar. Esta mesma autora refere, ainda, que muitos
professores depositam toda a confiança nos manuais escolares, admitindo que o seu conteúdo é científica e
pedagogicamente correcto, vendo nos mesmos uma autoridade do conhecimento.
A oportunidade de uma investigação centrada no discurso do manual escolar e das consequentes reflexões
que pode abrir para o ensino e para o estudo do sistema educativo, encontram justificação, entre outros, nos
seguintes argumentos e resultados (Michael, 2002): o manual é o principal guia curricular de muitos
professores; influencia, significativamente, o que se ensina nas aulas e define o currículo em todos os
modernos sistemas escolares; é o elemento mais padronizador na generalização da instrução pública. Na
realidade, o manual persegue um modelo mais ou menos uniforme e é utilizado por grande parte dos
membros da sociedade escolar, tendo um papel significativo porque, embora o nível de qualificação dos
professores, seja seguramente um elemento diferenciador todos os professores, alunos e encarregados de
educação dispõem, em cada estabelecimento de ensino do país, de um mesmo manual para cada disciplina
e de hábitos de leitura convergentes.
Os manuais escolares interferem com muitos actores educativos e sociais, designadamente professores,
alunos, pais, Ministério da Educação, editores, autores e livreiros (Santos, 2001). Estes actores, na sua
qualidade de utilizadores, produtores, distribuidores ou agentes reguladores, motivados por questões de
natureza pedagógica e eficiência educativa, por razões relativas à qualidade, preço e peso ou, ainda, por
questões de orçamento familiar, debatem e problematizam os manuais escolares, colocando questões e
suscitando reflexões que podem contribuir para uma melhoria dos processos de concepção e de utilização
deste material didáctico (Idem). Para além dos problemas educativos genéricos e dos problemas sociais e
políticos, os manuais escolares colocam ainda problemas específicos aos educadores.
Ao longo da história da educação em Portugal, existem períodos de livro único e períodos onde a escolha do
manual escolar é da responsabilidade dos professores e das direcções das instituições escolares. Assim, de
uma experiência de manual escolar único ao longo de cinco décadas, no período do Estado Novo, assiste-se,
com o 25 de Abril, a uma extraordinária proliferação de manuais escolares em todas as disciplinas, a par da
liberdade editorial para a sua concepção, e à passagem da responsabilidade da respectiva escolha para os
professores e instituições escolares, acompanhando o que, de resto, acontece na generalidade dos países
europeus (Almeida, 1995). De igual modo, em Portugal, a responsabilidade da elaboração dos manuais
escolares é das editoras, no pressuposto de que estas seguem as orientações dos programas e sem que
exista qualquer apreciação oficial prévia. Note-se, no entanto, que existem países europeus, tais como a
Irlanda, Grécia, Alemanha, Espanha e Luxemburgo, que têm controlo prévio sobre a qualidade científica e
pedagógica dos manuais escolares (Relatório sobre os Manuais Escolares, 1997: 31). Isto é, no nosso país,
o actual governo apresentou em Dezembro de 2005, um anteprojecto de proposta de lei sobre o regime de
avaliação e adopção dos manuais escolares, que tem motivado uma discussão pública mais alargada sobre
a avaliação dos manuais escolares, os critérios de qualidade a que devem obedecer e o modelo de um
possível sistema de acreditação prévia oficial. No entanto, a legislação sobre a política dos manuais
escolares portugueses, ainda em vigor, resulta do Decreto-Lei n.º 369/90, de 26 de Novembro, que define o
manual escolar como: um instrumento de trabalho, impresso, estruturado e dirigido ao aluno, que visa
contribuir para o desenvolvimento de capacidades, para a mudança de atitudes e para a aquisição dos
conhecimentos propostos nos programas em vigor (artigo 2.º)
6.
De acordo com o Relatório sobre os Manuais Escolares (1997), os manuais escolares encerram alguns
problemas, no que diz respeito a aspectos pedagógicos, científicos e didácticos, bem como na aplicação da
legislação em vigor. Sendo assim, considera-se que os manuais escolares contêm problemas decorrentes:
da reforma curricular; relativos à qualidade científico-pedagógica, à sua qualidade gráfica e durabilidade,
preço, edição e distribuição; adopção dos manuais escolares pelos professores e análise da qualidade e
certificação dos manuais escolares.Vasconcelos e Souto (2003), referem que o manual escolar de Ciências
deve ser um instrumento capaz de promover a reflexão sobre os vários aspectos da realidade estimulando a
capacidade investigativa do aluno. Refere ainda que, um manual assim contribui para a autonomia de acção
e pensamento. Sanmartí (2000) refere a importância de, ao nível dos conteúdos, estes serem relevantes e
actuais, pois cada vez há mais conhecimentos científicos e novos campos de conhecimento como a
engenharia genética, a electrónica e os novos materiais.
6 Neste decreto, são apresentadas as linhas gerais orientadoras da política educativa no que diz respeito aos manuais escolares, é estipulado o período de vigência de três ou quatro anos para a sua adopção e é previsto um sistema de avaliação dos manuais escolares. Pelo seu lado, as Portarias n.º 186/91, de 4 de Março, e n.º 724/91, de 24 de Julho, definem o regime de preços de venda de manuais escolares e livros auxiliares utilizáveis em cada disciplina ou actividade destinados aos vários anos da escolaridade obrigatória. Finalmente, as orientações a seguir na selecção e adopção dos manuais escolares são enviadas por uma circular anual a todas as escolas e agrupamentos escolares.