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PARTE II – O TRABALHO DE CAMPO

CAPÍTULO 2. O PROCESSO DE INVESTIGAÇÃO

3. A recolha e o tratamento dos dados

Na aplicação técnica do método do inquérito por entrevista, definimos, depois da constituição da amostra, o número de entrevistas a realizar tendo em conta que a decisão sobre esse número dependem ―do estádio de conhecimento do objeto, do estatuto da pesquisa, do tipo de definição do universo em análise, dos recursos disponíveis para o investigado‖ (Guerra, 2010, p.47). Optámos, como referido, pela entrevista semiestruturada, semidirectiva, ou semidirigida, para a qual preparámos um guião – ―uma série de perguntas-guia, relativamente abertas‖ (Quivy & Campenhoudt, 2008, p.192), um instrumento orientador cuja aplicação não necessita obedecer a uma ordem rígida na sequência das questões, permitindo uma grande flexibilidade no processo de exploração e uma constante adaptação ao perfil do entrevistado. Esse guião é apresentado em Anexos.

Este tipo de entrevista – semiestruturada - é classificado por Lessard-Hébert et al. (2010) na categoria da entrevista orientada para a resposta, revelando uma aproximação com a entrevista clínica, pois ―o investigador, orientado por questões ou hipóteses de investigação, tenta suscitar, à medida que a entrevista se desenrola, a revelação de informações que lhe permitam (…) elucidar o problema formulado‖ (p.164), devendo o investigador ir adaptando cada nova questão em função da resposta ou da informação que o indivíduo acabou de lhe dar, a fim de a aprofundar e melhor a compreender.

Para a aplicação da entrevista, cumprimos os passos recomendados: procurámos familiarizar-nos com as técnicas da entrevista; realizámos contactos preliminares com os sujeitos a entrevistar, de modo a verificar a sua adequação ao perfil previsto e a sua disposição para partilhar com o investigador as informações pertinentes; explicitámos, nesses contactos preliminares, todas as informações necessárias e esclarecemos os

princípios éticos observados; entregámos aos sujeitos a entrevistar o guia da entrevista, com vista à sua preparação pessoal, e agendámos o local e a data da entrevista individual.

Como referem Quivy e Campenhoudt (2008, pp. 191-192),―nas suas diferentes formas, os métodos de entrevista distinguem-se pela aplicação dos processos fundamentais de comunicação e de interação humana. Corretamente valorizados, estes processos permitem ao investigador retirar das entrevistas informações e elementos de reflexão muito ricos e matizados‖. Assim, durante a realização das entrevistas, inspirámo-nos na técnica da escuta ativa, fitando e encorajando o indivíduo, pois as boas entrevistas ―caracterizam-se pelo facto de os sujeitos estarem à vontade e falarem livremente sobre os seus pontos de vista‖ (Bogdan & Biklen, 1994, p. 136), devendo o entrevistador possuir uma postura empática, aproveitando os silêncios para dirigir o rumo da conversa para os tópicos que interessam, evitando parcialidade nas questões e perguntas indutoras, procurando utilizar perguntas de aquecimento e focagem e manter o controlo com diplomacia.

As entrevistas decorreram como uma conversa informal, em locais como o jardim público, a casa do entrevistado ou uma sala de aula desocupada, tiveram a duração média de 90 minutos e foram gravadas em suporte áudio; o guião da entrevista foi respeitado, tendo sido adaptada a formulação das perguntas ao desenvolvimento da conversa e introduzidas questões com vista à recuperação de aspetos considerados pertinentes. Durante o decurso do encontro, procurámos captar, através da observação, outros aspetos relativos ao comportamento do entrevistado e ao ambiente vivido durante a entrevista, pois Quivy & Campenhoudt (2008, p. 194) recomendam ― a elucidação daquilo que as perguntas do investigador, a relação de troca e o âmbito da entrevista induzem nas formulações do interlocutor‖; nesta linha, anotaremos fundamentalmente a convivialidade profissional – marcada pela forma de tratamento por ‗tu‘ e pela partilha de um universo de referência comum –, facilitadora do diálogo, e também a observação de pausas e silêncios coincidentes com a atitude introspetiva necessária à recuperação da memória ou à atribuição de significados aos acontecimentos vividos – num sinal, a nosso ver, de autenticidade das respostas. Como o referem Lessard-Hébert et al. (2010, p.84), a validade da recolha de dados depende também da colaboração e da relação de confiança estabelecida entre investigador e indivíduos; para tal, a observância dos princípios éticos revela-se fundamental: a informação correta aos indivíduos, no início

do trabalho de campo, sobre os objetivos da investigação; a proteção das informações e a proteção dos indivíduos contra riscos psicológicos ou sociais; a neutralidade de juízos face aos indivíduos; a garantia de confidencialidade.

Como técnica de tratamento da informação recolhida, utilizámos a análise de conteúdo, que Bardin define como ―um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (…) que permitam a inferência de conhecimentos.‖ (2009, p.44)

Na análise de conteúdo aqui desenvolvida, foi usado o método indutivo, tendo sido adotado o tipo de análise exploratório e qualitativo. Foram cumpridas as etapas fundamentais apontadas de seguida na Figura 10, procurando concretizá-las de acordo com Bardin (2009), com vista à concretização da análise de conteúdo categorial.

Figura 10 : As etapas desenvolvidas na análise de conteúdo Fonte: Elaborado a partir de Bardin, 2009

A inferência surge como um ―procedimento intermédio que permite a passagem, explícita e controlada‖ (Carmo & Ferreira, 2008, p.270) da análise de conteúdo à interpretação dos dados recolhidos; pretende-se que esta interpretação, feita à luz dos objetivos, contribua para uma compreensão e explicação do fenómeno que é o objeto de estudo. O critério de categorização adotado foi o semântico, tendo as categorias sido induzidas pela análise temática. Na definição das categorias, procurou-se o respeito pelos atributos indicados por Bardin (2009): exclusão mútua, homogeneidade, pertinência, objetividade, fidelidade e produtividade.