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4. PEREGRINAÇÃO METODOLÓGICA

4.4 DISCUSSÕES DOS DADOS QUALITATIVOS O QUE OS OLHOS NÃO VEEM, OS

4.4.1 TEORIA ATOR-REDE (TAR)

4.4.1.2 A REDE DA CEGUEIRA

Contrapondo os dados obtidos, especialmente através dos diários de campo (DC) I, II e III, verificamos que a composição da rede de actantes da situação pesquisada, isto é, as aulas de Ciências Naturais da professora P1 e da estudante cega, é formada da associação de humanos e não-humanos, materialidade e imaterialidade escolar aliada intrinsecamente ao processo de ensino-aprendizagem do componente curricular.

A rede da Figura 6 destrincha o que ocorre na sala de aula e fora dela, o que a precedeu e a formou, como ocorre a articulação entre os atores frente aos conceitos chave: ensino, formação e prática docente, professor, aprendizagem, deficiência visual/cegueira, escola.

Figura 6 - Rede da pesquisa “O Ensino de Ciências com Ênfase na Alfabetização Científica de Estudantes com Deficiência Visual”.

Autoria própria (2020)

Destaca-se que dos recursos de Tecnologia Assistiva disponíveis para o ensino na escola, durante as seis horas/aulas observadas, identificamos que a estudante cega fez uso apenas da classe de materiais gráficos com textura e relevo.

O material gráfico em relevo disponibilizado pela professora nas folhas de atividades para exercitar o domínio do conhecimento sobre Forças físicas, poderia ser potencializado se aliado a recursos tridimensionais.

Tais informações remetem a necessidade de diversificar a abordagem metodológica das aulas de Ciências Naturais, recorrendo aos recursos e tecnologias assistivas que podem promover uma aprendizagem mais significativa para a estudante cega.

Durante as aulas P1, demonstra grande esforço e preocupação em ensinar, sendo que de maneira recorrente se dirige física e oralmente para a estudante cega que pouco interage. A postura da estudante denota interesse e a predisposição em aprender frente as necessidades educacionais especiais que apresenta.

A monitora que a acompanha a estudante cega durante atua constantemente como intermediária do ensino e da aprendizagem no ambiente da sala de aula, tomando por vezes o papel de professora em segundo plano, corroborando através da descrição oral, ao pé do ouvido de A1, dos acontecimentos da sala, no auxílio com o manuseio do caderno, folhas e demais

materiais, evitando que sejam obsoletos frente a cegueira da estudante, ou no encorajamento para que ela não seja apenas expectadora, mas participante da aula.

Considerando a priori que a TAR não faz distinção entre agentes humanos e não-humanos, identificamos os actantes e as traduções do Diário de Campo (I) evidenciando as entidades que trabalham em prol do processo de ensino aprendizagem, no contexto de uma sala de aula com estudante cega inclusa, e suas representações espaço-temporalmente que resultam em controvérsias e caixas-pretas na rede.

Figura 7 - Agregado heterogêneo das aulas de Ciências.

Autoria própria (2020)

As aulas descritas nos Diários de Campo II e III foram desenvolvidas sobre o mesmo aporte metodológico e o objeto de conhecimento esteve centrado na Termometria.

A representatividade dos actantes dos referidos diários de campo foi verificada através de uma nuvem de palavras, um gráfico digital que mapeia o grau de frequência das palavras que identificam os atores nas descrições etnográficas deste estudo de caso.

•“A1 dá de ombros e parece não saber

especificar.” •“Monitora: - Está cansada

A1? A aluna cega acena positivamente com a

cabeça.” •Os grupos permanecem

compenetrados com seus deveres. “A monitora incentiva dizendo: - Só

faltam duas, vamos terminar logo!”

•Material tátil; quadro branco; folhas de atividades; conversando, um soprando na caneta, outro mexendo no celular; •Professora (P1); Estudante

cega (A1); Monitora; Classe; Folhas de atividades; Pesquisadora; Grupos de estudantes; Professor de Geografia; Calculadora Científica; Chuva; Caderno.

Actantes translaçãoTradução ou

Controvérsias Caixas-pretas

Devido a maior frequência de menções nos DC II e III, os agentes de ação nas situações de ensino e aprendizagem ganham destaque na nuvem, dispositivos humanos e não-humanos foram aplicados para interpretação e compreensão dos fenômenos apresentados nos experimentos de termometria testados.

Figura 8 - Nuvem de actantes do Diário de Campo II.

Autoria própria. Criada em 19 de maio de 2020 e disponível em: <https://wordart.com/kjqolsnvvuz5/di%C3%A1rio-de%20campo%20ii>.

Figura 9 - Nuvem de actantes do Diário de Campo III.

Criada em 19 de junho de 2020 e disponível em:

Os atores moldam a rede e se relacionam, vezes como protagonistas ou coadjuvantes, e associam para que os conteúdos da Ciência sejam mobilizados e transmitidos através da reprodução de protocolos experimentais, com a mediação e intermediação da materialidade.

A escolha metodológica da docente evidentemente visava empregar os recursos, equipamentos científicos e materiais de apoio, como quadro branco, smartfones, copo/caneca, bacia, água, termômetro, caderno, potes plásticos e de vidro, classes, tintas, pratos, vela e livro didático, para eliminar as barreiras que impediam a estudante cega de ter acesso às habilidades que estavam sendo desenvolvidas, estes antes tratados como objetos ganharam o tônus de sujeitos da situação, inclusive as situações de aprendizagem observadas não seriam possíveis sem a materialidade.

Um estudo de caso etnográfico com ênfase qualitativa como este exige que o pesquisador esteja atento ao processo de descoberta de novos elementos de se sobressaem na trama, descrevendo o contexto escolar na íntegra, ponderando que as respostas às indagações motivadoras estão ligadas àquela situação específica.

A dimensão analisada neste estudo, embora tive uma variedade limitada de informantes de dados, permite observar a complexidade, multiplicidade e inter-relacionalidade da composição de atores da rede, bem como é possível vislumbrar o estreitamento e a extensão dos laços entre os actantes, porém a interdependência de ação entre muitos é perene.