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Na abordagem e no atendimento de uma demanda complexa e de múltiplos fatores, uma rede de atendimento que funcione de forma integrada, intersetorial e multidisciplinar é outra tarefa tão difícil e complexa quanto a própria violência contra a mulher. Apesar da execução das Políticas Públicas estarem desenhadas com essa configuração, encontram-se entraves, desafios e dificuldades para o funcionamento pleno e eficaz desse sistema. Por causa disso, o trabalho da rede e dos profissionais é prejudicado, coibindo essa ferramenta importante e constante para o enfrentamento/combate da violência contra a mulher.

A violência contra mulher traz sequelas/consequências físicas e psicológicas que podem ser eclodidas no corpo. Sofrimentos psíquicos em geral, abusos de drogas/alcoolismo, cefaleias, distúrbios gastrointestinais, dores e inflamações pélvicas crônicas, doenças sexualmente transmissíveis, AIDS e gravidez indesejáveis são alguns quadros de saúde associados à violência contra a mulher (ANDRADE, 2008; HASSE, 2014; DESLANDES, 2000).

Estudos apontam (LETTIERE, NAKANO, RODRIGUES 2008; SCHRAIBER, 2001; HASSE, 2014) que os serviços de saúde nem sempre conseguem decodificar ou oferecer uma resposta satisfatória no atendimento dessa demanda, o que acaba passando despercebido se comparado a outros agravos de saúde que as mulheres apresentam, já que não é estabelecida uma correlação entre a violência sofrida e o estado de morbidade. Essa falha contribui para que a violência contra mulher não seja contabilizada ou reconhecida nos registros de diagnósticos realizados, sendo compreendida no sistema de saúde como uma dificuldade a ser abordada. Com isso, promovem-se sub-registros de informações e a hiperutilização da rede de atendimento; pois, uma vez que o enquadre dos motivos para a busca do serviço médico não é corretamente identificado, a violência contra mulher é tratada como um problema privado, isolado e individual (FRANZOI, FONSECA, GUEDES 2011; LETTIERE, 2008; DESLANDES, 2000; HASSE, 2014; D’OLIVEIRA, 1999).

Assim, as usuárias dos serviços públicos de saúde apresentam demandas que nem sempre são “traduzidas” pelos profissionais, o que, por sua vez, facilita a geração do que Schraiber (2001) denomina como uma dúvida genuína quanto à atuação, ou não, sobre a violência. Os técnicos, por atuarem representando um modelo e cultura médica já estipulada, não suprem essa tradução. Com isso, não se alcança um suporte técnico necessário para uma atuação que vá além dessa compreensão biológica existente.

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A autora, ainda, complementa que levar em consideração esse aspecto da dúvida é extremamente importante para encontrar alternativas para a ação técnica dos profissionais, na medida em que se toma a questão da violência contra a mulher uma demanda apresentada no cotidiano do trabalho da rede de serviços.

Outro ponto merece ser destacado quando, na rede de serviços públicos de saúde, é percebido o atravessamento da violência. Em seu artigo: “Violência contra as mulheres e

políticas de saúde no Brasil: o que podem fazer os serviços de saúde?” Schraiber (2001)

nomeia problema violência o fato de que mesmo sem reconhecimento em dados, visibilidade e abordagens adequadas, o sistema de saúde já possui uma questão clara de atuação: a violência. Entretanto, suas ações limitam-se aos impactos posteriores, como lesões no corpo ou sofrimentos de natureza emocional.

A autora resume que as respostas oferecidas pela rede de atendimento para as necessidades das mulheres em situação de violência são ineficazes, uma vez que a situação de violência não se é trabalhada, e as repercussões sobre o adoecimento físico/mental ressurgem ou retornam a inchar os serviços e a pressionar os profissionais.

Esse movimento foi indicado como uma espiral de incompetência ética e técnica para assistir integralmente as mulheres; além de representar situações onerosas do ponto de vista econômico para a rede de atendimento (SCHRAIBER, 2001; DESLANDES, 2000).

Na ótica dos profissionais, essa incompetência gera sentimentos de frustração, falta de motivação para o acolhimento e trabalho com os casos, que muitas vezes são visualizados como sem solução, de difícil manejo, indesejáveis, e até desqualificados como um real atendimento, fazendo com que as mulheres passem a ser vistas apenas como pessoas problemáticas (SCHRAIBER, 2001). Apesar das dificuldades que o trabalho apresenta para compor a atuação com a demanda da violência contra a mulher, um avanço significativo pode ser apontado: a construção de uma rede de proteção ou atendimento.

Mas o que se entende por rede de proteção, ou rede de atendimento da violência contra mulher?

Nos últimos 20 anos, houve avanços significativos para a ampliação da rede de atendimento, não ficando restrito a uma única política – casas abrigo, centros de referência multiprofissionais, defensoria pública, vara judicial especializada, entre outros. Com essa interação de serviços e de órgãos, formalizaram-se vínculos e configuraram-se papéis a serem desempenhados por cada um, formando uma rede de atendimento para combater a violência contra mulher dentro das Políticas Públicas (GROSSI, 2008).

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Segundo a etimologia da palavra, o termo “rede” deriva do latim, que significa “[...] entrelaçamento de fios, cordas, cordéis, arames, com aberturas regulares fixadas por malhas, formando uma espécie de tecido [...]” (GROSSI, 2008). Na analogia da autora, os fios e as malhas compõem o corpo da rede, ou a forma de como ela está desenhada; correspondendo às relações entre atores e organizações, essas últimas sendo representadas pela malha ou nós. Ou seja, os serviços, profissionais e até as próprias mulheres em situação de violência podem ser identificados como os fios ou cordões que se conectam, formando intersecções entre os fios, entrelaçando-se para formar os nós, que são onde se encontram as Políticas Públicas.

A autora ainda aponta características sobre o conceito de rede, distribuindo-o em redes primárias e redes secundárias. As primeiras são todas as relações significativas que uma pessoa constrói ao longo de sua vida – familiares, vizinhos, amigos, colegas de trabalho. Já as redes secundárias seriam as relações estabelecidas com grupos coletivos: religião, profissionais das políticas, organizações privadas, comunitárias e governamentais. As últimas possuem a obrigatoriedade de fornecer atenção especializada de orientação, apoio, informação e acompanhamento para quem se encontra no centro dessas relações.

Referente à mulher em situação de violência, podemos acrescentar o que Grossi (2008) apontou como peculiar na sua configuração de rede primária. Esta estaria fragilizada ou, de certa forma, rompida em seu convívio, pois quando a mulher não consegue buscar apoio em sua família de origem ou relação próxima primária, ela acaba por isolar-se. Em algumas situações, o seu agressor é a única referência que ela possui.

Quando um ato de extrema gravidade ocorre com a mulher, e ela opta por movimentar suas relações, ela sai em busca da rede secundária e acessa os serviços públicos. Para o profissional que compõe a rede de proteção, ter esse entendimento é ponto chave no diferencial para o acolhimento dessa usuária. Um bom trabalho de vínculo entre política- profissional-usuária servirá de base para o fortalecimento das mulheres enquanto sujeitos autônomos e de direitos. A organização em rede tem como valores fundamentais a corresponsabilidade, a liberdade, o respeito mútuo, a democracia e a transparência (GROSSI, 2008).

Segundo a literatura especializada, a rede de proteção e os profissionais ainda não estão organizados como Grossi (2008) descreveu acima. Dessa forma, os valores fundamentais ainda não saíram da teoria e tanto a rede como os profissionais precisam avançar em alguns valores apontados, principalmente naqueles que estão envoltos por aspectos culturais, sociais, históricos e misturando-se nas intervenções/trabalho junto à

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violência contra mulher (DESLANDES; GOMES; SILVA, 2000; D’OLIVEIRA; SCHRAIBER, 1999; FRANZOI; FONSECA; GUEDES, 2011).

Um exemplo disso é a pesquisa realizada por Lettiere, Nakano e Rodrigues (2008) intitulada “Violência contra mulher: a visibilidade do problema para um grupo de

profissionais da saúde”. Nesse estudo, os autores se propuseram a levantar as concepções que

os profissionais de uma maternidade filantrópica de Ribeirão Preto possuíam a respeito da violência contra a mulher. Foi observado que, apesar de eles reconhecerem a violência contra a mulher como uma questão social muito importante que merece ser abordada e enfrentada, ainda assim a visão estereotipada de mulher-vítima e homem-agressor também fazia parte da visão que os profissionais possuíam.

Alguns deles descreveram “[...] a mulher sem perspectiva, submissa e sem atitude[...]” (LETTIERE, NAKANO, RODRIGUES 2008. p. 470). Durante o atendimento, as observações apontaram para uma supervalorização para queixas físicas, onde a condução do cuidado fundamenta-se em concepções biológicas e fragmentadas; assumindo uma postura de silêncio e/ou descaso não questionando a mulher diante de uma violência visível ou suspeita concreta, por possuírem a crença de que não se sentem preparados, falta de intimidade durante o atendimento, frustração/impotência frente a uma questão complexa.

Essa visão corrobora com os apontamentos Schraiber et al. (2003, p. 44) quando aponta que o silêncio das mulheres e a invisibilidade do vivido no plano assistencial provocam indagações que se referem a “[...] por que as mulheres não contam? Por que os profissionais não perguntam? [...]”. Questionamentos esses que, ainda hoje, se encontram atuais para os atendimentos, serviços e profissionais referenciados para o trabalho com a violência contra a mulher.

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3 DESENHO METODOLÓGICO