CAPÍTULO 4 – JUVENTUDE DE NOVA OLINDA: AS APROPRIAÇÕES DAS
4.1. A REDE DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES COMUNICADORES DE LÍNGUA
No ano de 2002, um dos principais financiadores da Fundação Casa Grande, o UNICEF, propôs um projeto de integração entre experiências do Brasil, Moçambique e Angola, na área de comunicação e desenvolvimento, geridas por crianças e adolescentes. A proposta inicial previa intercâmbios de saberes entre os jovens produtores de conteúdos para rádios comunitárias ou educativas, apoiadas pela agência de cooperação internacional. A troca de conhecimentos, ademais de incrementar a qualidade dos produtos comunicacionais, previa o fortalecimento da autoestima dos envolvidos, os quais, excetuando-se as especificidades histórico- políticas dos países, convivem em um cenário de similares contingências.
O objetivo principal da rede é promover e fortalecer experiências de comunicação coordenadas por crianças, adolescentes e jovens. Mais especificamente, pretende estimular a formação de uma rede solidarística de sujeitos sociais e comunidades que, tendo o idioma como principal elo e as incipientes condições estruturais, possam manter os jovens envolvidos em atividades protagonísticas, de ativismo social e cultural. É válido salientar que, a formação desta rede foi impulsionada pelo UNICEF. Se envolveram na empreitada três organizações da sociedade civil, uma de cada país.
75 seis jovens de Nova Olinda estão envolvidos diretamente com seu funcionamento desde o início, estabelecendo contatos e produzindo materiais. Os demais participam de forma indireta e passiva, acompanhando a elaboração de peças de comunicação ou mesmo através dos repasses de informações em reuniões institucionais periódicas.
A formação da Rede intercontinental compreendeu a divisão de tarefas entre as organizações que a integram. No projeto que deu origem à iniciativa, a entidade cearense aparece como a principal mobilizadora das atividades, estando responsável pela capacitação em produção de rádio de jovens de Moçambique e Angola, bem como, ficou a seu cargo a produção de vídeos-documentários sobre a articulação internacional. Os jovens africanos, por sua vez, produzem programas radiofônicos e realizam extensa seleção musical típica dos seus países, os quais são enviados periodicamente para Nova Olinda.
No entanto, estes limites foram extrapolados. A Rádio Casa Grande FM foi inserida nos diálogos, o que possibilitou o uso do veículo de comunicação para a veiculação de entrevistas sobre as realidades africanas e de músicas deste continente. Os jovens de Nova Olinda produziram programas radiofônicos para serem remetidos aos países parceiros.
Pela estrutura, a rede se parece com um mosaico de projetos financiados pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância para retroalimentar as atividades locais e, por outro lado, potencializar o repasse de recursos. Segundo Alemberg Quindins, a necessidade de participar da rede, além do impulso do UNICEF, atendeu a uma demanda de diversificar as linguagens utilizadas na organização cearense e também de estabelecimento de contatos para manutenção das atividades:
A cultura em rede existe desde a pré-história. Não é algo novo e tem como objetivo ligar compreensões, metodologias, navegar por mares antes não navegados. Pelo menos, para nós é isso que significa. Nosso maior lastro é a qualidade da rede de amigos que estabelecemos. Captamos apoios para manter as atividades e a casa funcionando mais pelos conhecimentos que estabelecemos, local e internacionalmente, do que procurando editais. (QUINDINS, 2010)33
Os canais de diálogo e as interações entre os jovens desvendam um pouco mais sobre o funcionamento da Rede, além de aportar dados que permitem refletir
33 Entrevista concedida pelo coordenador da Fundação Casa Grande, Alemberg Quindins, no dia 08 de janeiro de 2010, na cidade de Nova Olinda, Ceará.
76 sobre os usos que a juventude de Nova Olinda faz da mesma.
3.1. Participação dos jovens de Nova Olinda na Rede de Crianças e Adolescentes Comunicadores de Língua Portuguesa e o papel das mediações tecnológicas
Os seis jovens entrevistados para esta pesquisa atuaram de formas distintas ao longo dos oito anos de existência da rede internacional. Dois estiveram a cargo da produção de vídeos-documentários que mostram semelhanças e diferenças entre os três países; dois, por atuarem na Rádio Casa Grande FM, são responsáveis pela produção dos programas que são remetidos para Moçambique e Angola; os outros dois, por estarem na Editora, onde se desenvolvem as ações de comunicação institucional, tiveram mais contatos com jovens de outros países, estabelecendo diálogos via ferramentas virtuais de comunicação, a fim de manter a rede em funcionamento. Atualmente, as interações são quase inexistentes por motivos que, mais adiante, detalharemos.
Os contatos presenciais da Rede são escassos. As respostas ao roteiro de entrevistas nos apontam que apenas o coordenador da Fundação, Alemberg Quindins, esteve em Moçambique e Angola, onde ministrou oficinas de rádio e TV para os jovens africanos. Dois representantes de Moçambique também estiveram em Nova Olinda para conhecer presencialmente a experiência desenvolvida na cidade cearense. Assim, a comunicação entre os jovens, desde o início, foi mediada pelas Tecnologias de Informação e Comunicação, assim como, pelos contatos e informações repassados pelos coordenadores das instituições envolvidas que conheceram a realidade dos outros países presencialmente.
Mídias sociais e programas de conversação são os meios de comunicação mais utilizados para as interações entre os jovens Nova Olindenses, de Moçambique e de Angola. Os mais citados foram o Skype, o MSN e o e-mail. Os primeiros dão suporte aos diálogos pré-agendados. O último é utilizado, principalmente, para envio de dados como pequenos programas, trilhas e mesmo para contatos interpessoais cujo conteúdo era voltado ao estabelecimento de uma rede virtual de amizades.
A cultura da internet se expande, em um movimento contínuo, em escala global, desde a década de 1990. Seu uso estabelece novas formas de interação, de
77 linguagens e de práticas sociais. Há uma quebra de paradigmas tradicionais, expandindo as noções de território e tempo, assim como, de relações de poder, visto que todos podem ser produtores de conteúdo. No entanto, as dinâmicas na rede mundial de computadores são complexas e baseadas em uma superposição de estruturas sociais:
A cultura da internet caracteriza-se por uma estrutura em quatro camadas: a cultura tecnomeritocrática, a cultura hacker, a cultura comunitária virtual e a cultura empresarial. Juntas elas contribuem para uma ideologia da liberdade que é amplamente disseminada no mundo da internet. Essa ideologia, no entanto, não é uma cultura fundadora, porque não interage diretamente com o desenvolvimento do sistema tecnológico: há muitos usos para a liberdade. Essas camadas culturais estão hierarquicamente dispostas: a cultura meritocrática especifica-se como uma cultura hacker ao incorporar normas e costumes a redes de cooperação voltadas para projetos tecnológicos. A cultura comunitária virtual acrescenta uma dimensão social ao compartilhamento tecnológico, fazendo da Internet um meio de interação social seletiva e de integração simbólica. A cultura empresarial trabalha, ao lado da cultura hacker e da cultura comunitária, para difundir práticas da Internet em todos os domínios da sociedade como meio de ganhar dinheiro (CASTELLS, 2003, p. 34-35).
As interações na Rede de Crianças e Adolescentes Comunicadores de Língua Portuguesa aparecem inseridas no contexto da cultura da Internet e balizadas pelo modelo comunicacional contemporâneo vigente, o qual está vinculado às relações que tem na sua base componentes associados a globalização comunicacional, a ligação em rede dos media e às crescentes formas de interatividade. Nos diálogos via skype e MSN, segundo as respostas, os recursos disponíveis eram utilizados em sua completude: áudio, vídeo e texto. Para o jovem H.F., as ferramentas virtuais de comunicação são fundamentais para a rede:
Se não tivesse essas ferramentas não teria acontecido nada. Cada vez mais a internet tem se apresentado para nós como importante, por isso também já temos página no youtube, estamos no twitter e queremos colocar a nossa rádio na web, mas a internet por satélite aqui é muito ruim. Muitos dos meninos não sabiam utilizar bem a internet, mas agora as coisas estão mudando (H.F., 2011).34
É interessante observar que,
Sobre esta tendência de convergências e abertura cada vez maior para as mediações tecnológicas, Cardoso, Espanha e Araújo afirmam:
78
Como seres sociais não usamos apenas um único media como fonte de comunicação, informação, ação e entretenimento, mas combinamo-los, usamo-los em rede. Só uma análise aprofundada das dietas de media pode revelar a complexidade dos nossos usos e representações da sociedade através de e com os media. Precisamos ir mais além para podermos compreender a mudança social na paisagem mediática e nas relações dos utilizadores de media no seu dia-a-dia, isto é, os novos processos de mediação que dão sentido a nossa realidade (CARDOSO; ESPANHA; ARAÚJO, 2009, p. 21).
Retornando aos resultados das entrevistas, foi possível perceber que o uso das tecnologias comunicacionais, de redes sociais virtuais e da convergência mediática faz parte do cotidiano dos jovens de Nova Olinda em diversas esferas. Quatro possuem computadores em casa e manejam diferentes sistemas operacionais (Mac, Linux e Windows); todos têm acesso diário à internet, via Fundação ou alguma lan house; os seis possuem blogs e perfis no Orkut e Facebook, além de utilizarem o MSN e o Gtalk para trocas instantâneas de mensagens. O uso do Skype, em especial, foi incentivado pela participação na Rede, mas não é muito popular, tendo sido utilizado poucas vezes pelos entrevistados.
No seu dia a dia, os jovens afirmam não sentir falta de equipamentos fotográficos, de vídeo, rádio ou mesmo dos conhecidos Music Play ou Ipod, uma vez que possuem celulares multifuncionais. Como afirma A.S. (2011): “Estes equipamentos mais profissionais tem aqui na Casa Grande para fazer os trabalhos. Mas hoje a gente não precisa mais ter um monte de equipamento se já tem um bom celular. Eu passo o dia ouvindo música e rádio pelo celular”.35
O fenômeno está associado à mundialização da cultura, o que passa, impreterivelmente, pelo uso de TICs e medias.
Seria mais convincente compreender a mundialização como processo e totalidade. Processo que se reproduz e se desfaz incessantemente (como toda sociedade) no contexto das disputas e das aspirações divididas pelos atores sociais. Mas que se reveste, no caso que nos interessa, de uma dimensão abrangente, englobando outras formas de organização social: comunidades, etnias e nações. (...) O processo de mundialização é um fenômeno social total que permeia o conjunto das manifestações culturais. Para existir, ele deve se localizar, enraizar-se nas práticas cotidianas dos homens, sem o que seria uma expressão abstrata das relações sociais (ORTIZ, 2000, p. 31)
79 Não parece ser à toa que a Rede de Crianças e Adolescentes de Crianças Comunicadoras de Língua Portuguesa tenha investido em uma experiência solidarística entre países geograficamente distantes e com atores sociais que não dispõem de recursos financeiros para realizar viagens constantes. As TICs abrem espaços para interações que dificilmente seriam viáveis sem suas ferramentas. A dinâmica das redes também oferta possibilidades pela flexibilidade em um ambiente em contínua mudança. Mas nem tudo é concertação: pela sua própria estrutura sistêmica apresenta debilidades, que se ampliam dependendo do grau de complexidade que possuem.
Uma rede é um conjunto de nós interconectados. A formação das redes é uma prática humana muito antiga, mas as redes ganharam vida nova em nosso tempo transformando-se em redes de informação energizadas pela internet. As redes têm vantagens extraordinárias como ferramentas de organização em virtude de sua flexibilidade e adaptabilidade inerentes, características essenciais para se sobreviver e prosperar em um ambiente em rápida mutação. É por isso que as redes estão proliferando em todos os domínios da economia e da sociedade (...). Contudo, apesar de suas vantagens em termos de flexibilidade, as redes tiveram tradicionalmente de lidar com um grande problema, em contraste com hierarquias centralizadas. Elas têm tido considerável dificuldade em coordenar funções, em concentrar recursos em metas específicas e em realizar uma dada tarefa dependendo do tamanho e da complexidade da rede (CASTELLS, 2003, p. 07).
Nem as tecnologias e nem mesmo as redes são redentoras. O fato dos jovens possuírem determinados bens materiais hi tech não significa que possuam plenas condições de uso. Ou seja, os celulares multifuncionais citados anteriormente, por exemplo, permitem acesso à internet e infindas possibilidades de interação via áudio, vídeo e mensagens, no entanto os planos para estes serviços, disponibilizados pelas operadoras de telefonia móvel são caros, o que os torna proibitivos para alguns contextos, em especial os populares. Assim, as novas configurações sociais estabelecidas no bojo da cultura da Internet também criam condições de exclusão.
La sociedad, concebida antes en términos de estratos y niveles, o distinguiéndose según identidades étnicas o nacionales, es pensada ahora bajo la metáfora de la red. Los incluidos son quienes están conectados, y sus otros son excluidos, quienes ven rotos sus vínculos al quedarse sin trabajo, sin casa, sin conexión. Estar marginado es estar desconectado (…) (CANCLINI, 2008, p. 73).
80 É na própria tecnologia que está a primeira dificuldade de comunicação com os jovens de outros países apontadas pelos entrevistados: são incipientes as condições de acesso à internet em Nova Olinda. Na cidade, a internet é via satélite e apresenta falhas constantes de conexão. H.F., ao falar sobre as formas de troca de produtos na Rede, aponta a fragilidade:
Eles nos enviam alguns programas pela internet, nós sempre enviamos produções de vídeo mas, no início, o contato era maior. Na maioria das vezes, agendávamos para que entrassem pela internet, ao vivo, no Papo Cabeça. Muita gente daqui passou a entender melhor a realidade dos países africanos e muito da nossa história, que também é a história dos negros africanos que vieram para o Brasil. Mas é muito difícil. A internet cai muito e depois a gente vai perdendo o ânimo. (H.F., 2010)36
A Rede de Crianças e Adolescentes Comunicadores de Língua Portuguesa ao apostar nas TICs como a única forma de comunicação entre os jovens se tornou susceptível a descontinuidades e a problemas de funcionamento. A conjuntura de desigualdades no acesso à bens e serviços que envolve os jovens dos três países foi um ponto de mobilização – uma vez que o objetivo da articulação é fortalecer experiências para superação deste quadro, estimulando o protagonismo juvenil -, mas também de dispersão e enfraquecimento da iniciativa, visto que a requerida inclusão digital não é plena por empecilhos estruturais.
As respostas dos entrevistados reiteram que as mediações tecnológicas são importantes, mas cumprem um papel complementar. As estratégias presenciais de interação parecem ser imprescindíveis para a formação de laços de solidariedade e cooperação que caracterizam as redes sociais.
Para alguns momentos as tecnologias são boas, mas os encontros presenciais são mais importantes, eu acho. Trocar figurinhas de perto é mais fácil e mais legal (H.F., 2011)37.
Eu acho que a internet não substitui os encontros presenciais, acho que complementa. Você pode conversar com uma pessoa pela internet, mas nunca saberá se ela é como realmente quer dizer que é. Por uns minutos ou por um chat qualquer um pode mentir, fingir ser outra pessoa que nunca saberemos qual é a verdade. O fato da internet nos deixar menos distantes não significa que estejamos perto (J.A., 2011)38.
36 Entrevista concedida por H.F. no dia 06 de janeiro de 2011, na cidade de Nova Olinda, Ceará. 37 Entrevista concedida por H.F. no dia 06 de janeiro de 2011, na cidade de Nova Olinda, Ceará. 38 Entrevista concedida por J.A. no dia 08 de janeiro de 2011, na cidade de Nova Olinda, Ceará.
81 É interessante observar que para o sucesso de uma empreitada como a de formação de um coletivo internacional de jovens outros fatores devem se somar à disponibilidade de mediações tecnológicas. Outras dinâmicas da rede foram apontadas pelos jovens como fragilidades que, aos poucos, parecem ter diminuído os contatos entre os países. Dentre estas: os horários para os encontros eram previamente acordados, mas não havia uma periodicidade estabelecida, nem uma pauta de reunião; e, apesar de todos falarem português, as variações do idioma exigiam a mediação de uma tradutora.
Acho que foi difícil me comunicar com eles. A internet caia muito, eu queria utilizar o vídeo do skype, mas a conexão ficava pior ainda. Muitas vezes não entendia o que estavam falando... se não fosse a tradutora... e também ficava assim de falar com uma pessoa que nunca vi de perto. O que eu ia dizer de importante para eles? (V.M., 2011)39.
A fala dos jovens nos aponta que Rede tem estruturas frágeis. Ao responder o roteiro de entrevistas, eles pareceram mais seguros em definir o trabalho da Fundação Casa Grande, com a qual estabeleceram um forte sentimento de pertença, do que em descrever o da Rede. Os jovens não aparecem como propulsores da iniciativa – que foi gestada desde um órgão de cooperação internacional -, nem como principais gestores das pautas da mesma. Mais aparentam estar na posição passiva de beneficiários de uma ação do que como promotores dela. A identidade, considerada “um lugar que se assume, uma costura de posição e contexto” (SOVIK in HALL, 2008, p. 15), parece ser condição sine qua
non para a articulação de forças de um determinado grupo social. Aparentemente,
faltou este componente de sentir-se partícipe, responsável pela continuidade e pela funcionalidade da Rede.
Ainda que frágil, esta primeira inserção dos jovens em uma rede movimentalista internacional reconfigurou algumas formas de produzir programas e de interagir com as novas tecnologias de informação e comunicação, aguçando o interesse por estar, de forma ativa, inseridos nas páginas da rede mundial de computadores. As apropriações foram multidirecionais, impactando em distintas frentes nas vidas dos jovens como observaremos a seguir.
82
4.3. As apropriações da experiência com o coletivo internacional por parte dos