7 ANÁLISE DE REPORTAGENS
7.1 A rede de sementes do Parque Indígena do Xingu
A primeira reportagem (R1) analisada foi publicada na última semana de setembro de 2017 em jornal de circulação nacional e foi produzida pela Participante 2 (P2) em parceira com o Instituto Socioambiental (ISA), organização não-governamental com atuação na Amazônia que pagou a viagem da repórter ao Parque Indígena do Xingu, no nordeste do Mato Grosso (MT), região de transição entre os biomas Cerrado e Amazônia. Trata-se de uma grande reportagem que usou como elementos multimídia o texto, seis fotos destacadas, três galerias de imagens cedidas, dois infográficos produzidos por profissional do jornal e dois audiovisuais do ISA. A reportagem foi produzida durante evento comemorativo aos dez anos do projeto Rede de Sementes do Xingu criado pela entidade que pagou a viagem da repórter e outras organizações que atuam na região. O tema, o método de apuração, as funções do jornalismo ambiental, a diversidade das fontes e os enquadramentos encontrados no texto são apresentados no quadro a seguir.
Quadro 15 – Análise da reportagem 1
TEMA DA REPORTAGEM 1
Solução econômica: a inovação, o potencial e os desafios da Rede de Sementes do Xingu
MÉTODOS DE APURAÇÃO
Reportagem de campo com imersão na realidade descrita (financiada pela fonte principal) e entrevistas presenciais. Documentos de divulgação do projeto tema da reportagem também foram consultados e citados.
FUNÇÕES DO JORNALISMO PRESENTES NO TEXTO
Promover, informar e educar.
FONTES
Indígenas (6) . Makawa. Makupa Kaiabi, líder indígena . Atakaho Waurá, cacique do Alto Xingu . Kampot Ikpeng
. Oreme Ikpeng, jovem de 24 anos técnico em agroecologia, . Tirawá Waurá
. Ikpeng, líder indígena
Agricultores e coletores (5)
. Acrisio Luiz dos Reis, 65 anos, agricultura mineiro que coleta dentro do assentamento Manah, em Canabrava do Norte.
. Placides Pereira, agricultura do assentamento Manah, sanfoneiro e coletor de sementes
. Ivan Loch, coletor e produtor rural de Canarana
. Vera Alves da Silva Oliveira, coletar de Nova Xavantina que antes era empregada doméstica
. Milene, de 19 anos, filha de Vera, liderança jovem da Rede e estudante de biologia Empresários (2) . Artemizia Moita, gerente ambiental do grupo Agropecuária Fazenda Brasil
. Edimarcio de Araújo Prudente, empresário ex-funcionário da Gerdau
Especialistas do ISA e dirigentes do projeto (12)
. Rodrigo Junqueira, agrônomo coordenador do Programa Xingu do ISA . André Villas-Bôas, secretário-executivo do ISA
. Junior Micolino da Veiga, gestor ambiental e técnico de restauração do ISA . Eduardo Malta, consultor do ISA
. Dannyel Sá, biólogo do Programa Xingu do ISA
. Claudia Alves de Araújo, uma das diretoras da Associação Rede de Sementes do Xingu
. Bruna Dayanna Ferreira de Souza, também diretora da Associação. . Acrísio dos Reis, o terceiro diretor da Associação
. Raquel Pasinato, coordenadora do programa Vale do Ribeira do ISA . Danilo Ignacio, consultor da Rede
. Heber Queiroz Alves, gerente do escritório de Canarana do ISA.
. Nurit Bensusan, bióloga coordenadora-adjunta do programa de política e direito socioambiental do ISA
Outros especialistas (3)
. Daniel Luis Mascia Vieira, ecólogo pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
. Ricardo Abramovay, sociólogo professor da Universidade de São Paulo
. Fatima Piña-Rodrigues, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar-Sorocaba)
Fontes documentais (2)
. Marcio Santili, um dos sociofundadores do Instituto Socioambiental (ISA) em crônica recente
. Um boletim do ISA
ENQUADRAMENTOS
O jovem intérprete que a traduz explica que a renda da venda de sementes
ajuda os índios a comprar artigos que precisam. Makawa está sem o delicado
cocar que usou há pouco, ao dividir a fala com outros caciques xinguanos, mas está de óculos. Com a renda das sementes ela agora enxerga, diz. A mulher espera o intérprete terminar a frase e sorri timidamente: “E fiz minha
dentadura”. (R1_P2_SA1)
Na ocasião imaginava-se que 300 mil hectares de matas ciliares precisavam ser reconstruídos na região das nascentes do Xingu no Mato Grosso -- depois das mudanças no Código Florestal, a estimativa baixou para 200 mil hectares. Neste
contexto, e articulando atores normalmente divergentes, nasceu a Rede de Sementes do Xingu, em 2007, hoje a maior rede de sementes florestais
Soluções ambientais com ganhos econômicos, a agrofloresta sustentável
(SA)
nativas do Brasil. No Diauarum, durante três dias de agosto, coletores de sementes, pesquisadores e ambientalistas se reuniram para debater o futuro de um caminho que valoriza a biodiversidade e inclui povos da floresta e gente da cidade. (R1_P2_SA2)
O esforço já produziu renda de R$ 2,5 milhões para as comunidades e
recuperou mais de cinco mil hectares de áreas degradadas na região das bacias
do Xingu e Araguaia, e em outras áreas de Cerrado e Amazônia. (R1_P2_SA3)
Entre os waurá da aldeia Piyulaga, no Alto Xingu, a dinâmica da coleta inicia quando recebem o pedido. “As coletoras saem atrás de sementes de orelha de macaco, copaíba, mamoninha”, conta Tirawá Waurá. “A renda que vem é
importante para que a gente compre sabão, facão, camisas, anzóis, chinelos. Compramos o que necessitamos e continuamos mantendo a nossa cultura. E
também usamos as sementes para reflorestar perto da aldeia, se perdemos alguns pedaços de mata com as roças”, explica. (R1_P2_SA4)
A história de Vera é singular. Moradora de Nova Xavantina, foi empregada doméstica até o dia em que a vida virou. Começou a coletar sementes usando uma bicicleta velha. “Hoje tenho moto e carro, quero construir minha casa.” (R1_P3_SA5)
O sociólogo Ricardo Abramovay, professor da Universidade de São Paulo, classifica a experiência da Rede de Sementes como uma faceta da “economia do
cuidado”. Ele atrai os olhares dos participantes do encontro ao dizer que a coleta de sementes nativas é vetor que cultiva a diversidade e se opõe ao que ocorre como regra, uma “economia de destruição da Natureza”. Ele explica: “É
assim que o Brasil tem encarado esta região: aqui tem energia, matérias-primas, um pouco de agricultura. A Amazônia virou uma espécie de almoxarifado de
onde se tiram coisas. Mas o que vocês têm feito é uma economia do conhecimento da natureza, de mobilizar informações que nas escolas de
agronomia não se ensinam”, continua.
A sombra da mangueira atrai uma revoada de pássaros que fazem algazarra. Abramovay segue com sua análise sobre o movimento econômico da Rede. “Entrar na economia de mercado com este conhecimento é muito arriscado, ninguém tem garantia que isso dará certo”, alerta. “Mas já deu certo”, corrige-se, na sequência. “Deu certo nos milhares de hectares reflorestados a partir da
economia da muvuca. Que é linda, porque reúne diversidade e conhecimento.”
(R1_P2_SA6)
“Com a muvuca tivemos um resultado excelente. Nos 450 hectares que plantamos em 2012 já conseguimos um sub-bosque”, diz ele, que saiu da
Gerdau e montou uma empresa que trabalha neste mercado. A Borges & Prudente “depende totalmente das sementes do Xingu”, diz. Ele acredita que
com a regularização ambiental dos proprietários rurais, iniciativas como esta “só farão crescer”. (R1_P2_SA7)
A experiência da Rede começa a servir de modelo também na Mata
Atlântica, entre as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. (R1_P2_SA8)
A Rede é uma experiência em que “a produção de sementes florestais para a restauração de ecossistemas degradados pode constituir um caminho para
valorização da biodiversidade com inclusão socioeconômica”, resume o
agrônomo. (R1_P2_SA9)
Temos que conhecer e valorizar os nossos biomas e também conseguir que a sociedade reconheça a importância de se fazer a recomposição dos ecossistemas”, continua Rodrigo Junqueira. “Como podemos restaurar o Brasil achando que o governo cuidará de cada árvore?”, pergunta. “Temos que criar as condições
Agronegócio devastador (AD)
Basta olhar ao redor para se ver o caldo de visões distintas de como viver no Cerrado e na Amazônia. A estrada que leva de Goiânia a Canarana revela muito do desenvolvimento da região. Cartazes promovem serviços de aviõezinhos agrícolas, terraplanagem e galpões para alugar. Os anúncios vendem sementes
de soja e “defensivos agrícolas” – nunca “agrotóxicos”. Pátios têm tratores,
máquinas e pequenos caminhões. A pujança é agrícola, não há nada de
economia florestal nesta região de transição de biomas. (R1_P2_AD1)
As Reservas Legais parecem ter sido deixadas ali de má vontade, porque a lei obriga e pronto. Lideranças do agronegócio usam uma imagem tosca para
explicar a RL: é como ter uma casa com 10 quartos, mas só dois podem ser usados. Não dizem que os dois quartos são gigantescos e nem que os outros oito garantem água, comida, móveis, ar fresco, negócios e vida a todos na casa. As RL no Mato Grosso são retângulos naturais artificiais –- uma oposição
em si, mas é olhar para baixo e confirmar o contrassenso. Fauna e flora estão
confinadas a perímetros desenhados pelas máquinas da produção.
(R1_P2_AD2)
Soluções ambientais com fundamentação técnica
(ST)
A restauração das matas ciliares dos rios exigia sementes e técnicas de
restauração florestal. (R1_P2_ST1)
Começamos a investigar e a beber na fonte da agrofloresta, que mistura
agricultura e floresta. Ou seja: se semeamos sementes agrícolas por que não fazer o mesmo com sementes florestais? Foi assim”. (R1_P2_ST2)
Beneficiar sementes florestais nativas exige conhecimento, criatividade e
adaptação. A Rede trabalha com mais de duas centenas de espécies diferentes, cada uma com suas características. (R1_P2_ST3)
Fonte: Dados da pesquisa
Para descrever a inovação econômica e ambiental da Rede de Sementes do Xingu, a principal técnica de apuração utilizada foi a reportagem de campo (financiada pela fonte principal, o Instituto Socioambiental). As seis fontes indígenas e os cinco agricultores e coletores entrevistados in loco confirmam a tese central da reportagem defendida pelos 12 especialistas do ISA e pelos outros três especialistas entrevistados: soluções ambientais inovadoras na região são aquelas que proporcionam ganhos econômicos para todos os envolvidos no empreendimento e conservam a floresta.
A possibilidade de uma agrofloresta sustentável é o enquadramento mais saliente na reportagem, confirmando a função do jornalismo ambiental descrita pela Participante 2 na resposta dada à segunda pergunta do questionário: “ajudar a formar consciência sobre estes temas, desafios e oportunidades na sociedade. Jornalistas investigativos fazem denúncias (mas este não é o meu perfil, embora seja um trabalho fundamental)”. Outros dois enquadramentos estão presentes na grande reportagem indicada como sendo um dos três trabalhos que a participante sente orgulho de ter feito.
Um deles é o do agronegócio devastador, contraponto a um agronegócio mais sustentável representado na reportagem por produtores rurais que recompõe suas áreas com a muvuca de sementes. A repórter, que escreveu o texto na terceira pessoa do singular, deixa
escapar sua opinião contrária ao agronegócio devastador quando constata que “a pujança é agrícola, não há nada de economia florestal nesta região de transição de biomas” (R1_P2_AD1), que as “lideranças do agronegócio usam uma imagem tosca para explicar a Reserva Legal” e lamenta que a “fauna e flora estão confinadas a perímetros desenhados pelas máquinas da produção” (R1_P2_AD2).
O terceiro enquadramento encontrado na Reportagem 1 é o das soluções ambientais com fundamentação técnica e científica. Fontes indígenas das etnias que não participam do projeto não foram ouvidas para explicar suas razões, nem lideranças de entidades do agronegócio devastador para falar da iniciativa, como, por exemplo, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato). Fontes oficiais (LAGE, 2001; SCHMITZ, 2010) também não foram consultadas para responder sobre entraves burocráticos do Registro Nacional de Sementes e Mudas (Renasem) apontados por fontes especialistas.
Três funções do jornalismo ambiental foram identificadas na reportagem: promover soluções econômicas possíveis na Amazônia; informar sobre o que acontece de positivo no maior bioma do país; e educar os empresários leitores do jornal sobre formas sustentáveis de fazer dinheiro na região sem derrubar a floresta. A função promocional predomina.
Quando perguntada sobre como deve ser uma boa reportagem ambiental, a Participante 2 citou a necessidade de ir a campo para contar uma boa história, sem jargões, o que de fato ela fez nessa grande reportagem indicada por ela para análise. A boa história é contada com texto vivo, influenciado por sonoridades: “Diauarum (palavra musical)”, “funciona como concerto”, “juntos fazem uma sinfonia”, “pássaros que fazem algazarra”, “muvuca de pessoas”.
Mas a Particiante 2 também responde no questionário que é preciso ouvir todos os lados, o que ela não fez nessa reportagem cuja função que predomina é a promocional, e revela um receio: “Não deve cair no ativismo ou perde credibilidade”. A viagem dela foi paga pela fonte principal, mas a repórter deixou clara essa informação no texto. A falta de fontes contrárias ao projeto (outras etnias e lideranças do agronegócio devastador) não comprometeu o objetivo principal da grande reportagem que foi apresentar uma solução econômica inovadora capaz de viabilizar uma economia agloflorestal sem destruir a floresta amazônica. Já a falta de uma fonte oficial para falar sobre o Renasem pode ser considerada uma falha de apuração.
Do ponto de vista do jornalismo autodeclarado imparcial, a repórter poderia ser considerada parcial porque não ouviu todos os lados e teve a viagem paga pela fonte, a maior interessada na promoção da solução econômica apresentada com a chancela de um jornal de referência. No entanto, para o jornalismo ambiental, que sim é ativista e engajado na luta por um novo modelo de desenvolvimento, ela não perde sua credibilidade por ser ativista e
engajada. Pelo contrário. Promoveu nacionalmente, com seu conhecimento especializado lapidado em 30 anos cobrindo “temas ambientais e de desenvolvimento”, uma solução inovadora criada por uma rede que atua no maior bioma do Brasil.
Perguntada sobre os atributos que considera relevante na escolha das fontes, a Participante 2 respondeu: “pesquisadores renomados, ribeirinhos, lideranças indígenas, advogados ambientais, ambientalistas. É a mesma relação de fontes e jornalistas, tem que ter confiança”. Essa confiança na fonte, testada e retestada no cotidiano da reportagem, fez com que a repórter aceitasse a viagem paga e chancelasse o projeto de dez anos. Essa relação de confiança com a fonte é uma das características do jornalismo especializado: econômico, político, científico, cultural, esportivo. No ambiental não é diferente.