1. O ENSINO PORTUGUÊS NO ESTRANGEIRO (EPE) NO QUADRO DA POLÍTICA EXTERNA DE PORTUGAL 3
1.3. A REDE DO E NSINO P ORTUGUÊS NO E STRANGEIRO
A rede do Ensino Português no Estrangeiro encontra-se bem definida na Portaria n.º 194/2012 de 20 de junho de 2012, que aprova os estatutos do Camões, I.P., no seu artigo 7.º. Sob a sua tutela estão as estruturas de coordenação do ensino português no estrangeiro, o corpo de docentes de educação pré-escolar, dos ensinos básico, secundário e superior, bem como os centros de língua portuguesa. As funções desempenhadas por cada uma das entidades está cabalmente definida e é diversa, porquanto, as coordenações de ensino deverão elaborar um plano de atividades anual em consonância com as demais atividades desenvolvidas pelas chefias das missões diplomáticas dos espaços geográficos em que se encontrem. Deverão igualmente, promover a realização de cursos de PLE, LS, LH e português para fins específicos nos diversos regimes, presencial, a distância e/ou híbrido. Sem descurar a formação de professores de português, e fazendo por ultrapassar eventuais constrangimentos geográficos, através de cursos em regime híbrido ou presencial.
A despeito do anterior, também se designam rede EPE do Camões, I.P. as escolas ou centros associados que enformam o “conjunto internacional de instituições de ensino do português como língua estrangeira, públicas ou privadas, que se dedicam ao ensino e divulgação da língua e cultura portuguesas no estrangeiro ou em Portugal”, esta definição consta da página dos dados estatísticos disponibilizados pelo Observatório da Língua Portuguesa. A rede do EPE está presente nos cinco continentes, o seu início remonta a
1972 e surgiu, segundo Rupio (2022)21, no Luxemburgo, em Esch-sur-Alzette, com os primeiros cursos de língua e cultura portuguesas para filhos de emigrantes (ainda que tenha sido em 1977 que o Estado português reconheceu “os direitos educacionais dos cidadãos portugueses e seus descendentes no estrangeiro”), foi em 1979 que o ME criou o Gabinete de Ensino Português no Estrangeiro, encarregue de assegurar, como atividade extracurricular o ensino da língua, história, geografia e cultura portuguesas para crianças e jovens lusodescendentes, residentes em países que não têm o português como língua oficial (Pinto, 2015).
Decorreram cinquenta anos desde então, efetuam-se balanços e reflexões, sendo possível identificar períodos de ascensão, crescimento exponencial e um decréscimo no EPE. O próprio Estado reconhece e tenta contrariar a tendência quando no preâmbulo do DL n.º 165/2006 admite que as suas expectativas nem sempre foram correspondidas. No mesmo artigo, Rupio (2022) faz referência ao ano letivo 1983/84, como sendo um dos mais gloriosos, na medida em que o número de alunos era superior a 90 mil e os docentes um pouco mais de mil. Afirma ainda que os anos seguintes foram estáveis, com um decréscimo no número de professores para cerca de seis centenas e no número de alunos para 60 mil, sensivelmente entre 1990 e 2008, como resultado quer da transferência de tutela, quer pelas alterações à contratação de docentes.
Ainda assim, este crescimento não foi linear nos anos que se seguiram e, não obstante a publicação do já citado DL n.º 165 em 2006, as várias transições de tutela parecem ter influenciado, de modo significativo, a trajetória evolutiva do EPE. Certo é que a legislação produzida entre 2006 e 2013 pressupõe a difusão e valorização da língua portuguesa priorizada pelos diferentes Governos, espelhada nas ações do Camões, I.P., no que à difusão da língua diz respeito, mas será em outubro de 2016, com a publicação do Decreto-Lei 65-A/2016, de 25 de outubro de 2016, que procede à alteração do regime jurídico do EPE22, é que ficarão claramente reforçadas e reguladas as iniciativas que visam uma inequívoca planificação, monitorização, certificação e avaliação do ensino português no estrangeiro, mormente na definição de normas aplicáveis ao recrutamento dos docentes, coordenadores de ensino e demais iniciativas diplomáticas, que tenham em vista a integração do português nos sistemas educativos dos países estrangeiros e o
21Pedro Rupio é presidente do Conselho Regional das Comunidades Portuguesas na Europa. Autor do artigo de opinião
“Uma reflexão sobre os 50 anos da criação da rede oficial do EPE”, retirado de https://comunidadeslusofonas.pt/uma-reflexao-sobre-os-50-aos-da-criacao-da-rede-oficial-do-epe-ensino-de-portugues-no-estrangeiro/
22O Decreto-Lei n.º 234/2012, de 30 de outubro de 2012, institui o regime jurídico do ensino português no estrangeiro e a sua regulação.
consequente acompanhamento destas mesmas iniciativas. De facto, e tal como expresso nesse decreto, a nova conjuntura mundial, o papel da CPLP, bem como todo um vento de mudança do público-alvo, dos perfis dos alunos, a par de novos e mais dinâmicos meios tecnológicos de difusão e ensino da língua, mas sobretudo a certificação e promoção de ações pelos vários países de imigração impunham a “visão integrada da rede (...) de forma mais eficaz e adequada (...)” como podemos constatar no preâmbulo do Decreto-Lei.
Ainda segundo Rupio (2022), no ano de 2013, registou-se um considerável decrescimento no número de alunos, que de 54.083 ficou reduzido a 45.220 e a justificação pode residir na introdução da propina, segundo este autor.
Objetivamente é-nos permitido observar uma oscilação nos dados disponibilizados no sítio do Camões, I.P., constatando que a rede do ensino português no estrangeiro está presente nos quatro cantos do mundo, com as coordenações de ensino sediadas nas Embaixadas e Consulados portugueses nos vários países para que os docentes possam usufruir de apoio logístico. Dados que reportam a 2016 permitem-nos registar 17 Coordenadores de Ensino e Adjuntos de Coordenação e 611 docentes ao abrigo de protocolos de cooperação.
Recorrendo a uma análise fina de dados cedidos pela Divisão de Programação, Formação e Certificação, do Camões, I.P. e que reportam ao ano letivo 2017-2018, contabilizamos números robustos em três continentes, nos ensinos pré-escolar, básico (2.º e 3.º ciclos) e secundário (Figura 1).
Figura 1 - Rede EPE (ano letivo 2017-2018)
Fonte: Dados cedidos pela Divisão de Programação, Formação e Certificação, Camões, I.P. (não publicado)
PAÍS
N.º PROFS
HORAS LETIVA S
ESCOLAS 2018
PRÉ-ESC./BÁSICO BÁSICO 2/3 SEC Total
Alunos PARAL. INTEGR. PARAL. INTEGR. PARAL. INTEGR.
ALUNOS
ALEMANHA 35 796 108 970 73 1.135 145 363 114 2.800
ANDORRA 2 45 10 45 0 35 48 15 45 188
ESPANHA 23 536 55 0 1.288 0 3.275 0 828 5.391
BÉLGICA 6 142 18 18 486 23 119 0 55 701
HOLANDA 4 4 7 206 0 44 0 13 0 263
LUXEMBURGO1 24 557 65 831 849 0 503 506 0 2.689
FRANÇA 89 1.959,5 431 170 11.853 757 407 0 269 13.456
REINO UNIDO 25 556 54 899 505 879 356 675 390 3.704
SUÍÇA 78 1.722 261 3.598 297 4.584 40 1.168 0 9.687
TOTAL EUROPA 286 6.318 1.009 6.737 15.351 7.457 4.893 2.740 1.701 38.879
ÁFRICA DO SUL2 18 450 127 946 229 0 0 904 386 2.465
NAMÍBIA3 3 75 6 0 0 0 65 25 8 98
SUAZILÂNDIA4 2 50 3 0 0 0 0 0 0 0
ZIMBABUÉ5 1 25 1 0 510 0 0 0 0 510
TOTAL ÁFRICA 24 600 137 946 739 0 65 929 394 3.073
TOTAL REDE OFICIAL 310 6.918 1.146 7.683 16.090 7.457 4.958 3.669 2.095 41.952
CANADÁ6 175 1.225 67 2.493 1.726 1.428 1.375 252 96 7.370
EUA (Boston) 245 4.840 95 280 995 260 920 0 11.900 14.355
EUA (Califórnia) 57 1.254 24 375 442 75 146 0 1.158 2.196
EUA (Newark) 75 820 39 495 121 672 164 95 540 2.087
EUA (Total) 377 6.914 158 1.150 1.558 1.007 1.230 95 13.598 18.638
VENEZUELA7 58 9 278 0 265 87 233 240 1.103
TOTAL AMÉRICA 610 8.139 234 3.921 3.284 2.700 2.692 580 13.934 27.111
AUSTRÁLIA 17 371 0 152 44 108 0 675
TOTAL REDE APOIADA 610 8.139 251 4.292 3.284 2.852 2.736 688 13.934 27.786
TOTAL REDE BÁS. E SEC. 920 15.057 1.397 11.975 19.374 10.309 7.694 4.357 16.029 69.738
No que respeita aos docentes, Portugal dispõe de um total de 920 professores, sendo que 310 fazem parte da rede oficial e encontram-se na Europa e em África e os restantes 610 na América, pertencendo à rede apoiada. Relativamente aos alunos, distribuídos respetivamente pelas redes oficial e apoiada, contabilizamos 38.879 discentes na Europa, 3.073 em África, 27.111 na América e 675 na Austrália, perfazendo um total de 69.738 aprendentes na rede do ensino do português no estrangeiro. É igualmente relevante referirmos que, em 2018, a rede de escolas contabilizava na sua totalidade 1.397 estabelecimentos de ensino. Estes têm a possibilidade de oferecer duas modalidades de ensino distintas: ensino integrado e ensino paralelo. Na primeira tipologia, “a língua portuguesa faz parte do currículo da escola e surge como opção de escolha nas línguas estrangeiras”, na segunda, “a língua portuguesa não faz parte dos currículos e acontece depois das atividades escolares, como uma atividade extracurricular”. Existindo ainda a possibilidade de as escolas serem associadas da rede EPE, i.e., receberem apoio no ensino da língua e da cultura portuguesas através da formação de professores locais e da disponibilização de conteúdos.
Em 2021 o Ministro dos Negócios Estrangeiros23, no início do 6.º Encontro da rede EPE, afirmou publicamente à imprensa que a rede seria reforçada através do aumento do número de professores e alunos, aceleração do processo de modernização do digital, assim como veria alocada uma verba de 23 milhões de euros para que fosse possível concretizar os objetivos definidos pelo governo, destacando a necessidade de investimento e modernização da modalidade de ensino a distância, que por força da pandemia se verificou ser urgente otimizar largamente os mecanismos de resposta para o ensino do português sem constrangimentos geográficos ou temporais, tornando-o cada vez mais digital.
Por seu turno, o Presidente do Camões, I.P., por ocasião do 7.º Encontro da Rede de EPE, realizado em julho de 2022, enalteceu o trabalho dos docentes e apresentou os dados mais atuais de que dispunha, a saber: 323 docentes nos ensinos básico e secundário, dedicados ao ensino da língua e da cultura portuguesas em 17 países.
As vozes críticas apontam na direção das entidades reguladoras, dos decisores políticos e das políticas linguísticas, que são acusados de um “desinvestimento” no EPE
23 Retirado de https://www.instituto-camoes.pt/sobre/comunicacao/noticias/portugal-sessao-de-abertura-do-6-encontro-da-rede-de-ensino-portugues-no-estrangeiro-epe
proporcionado aos lusodescendentes a favor de uma maior internacionalização da língua, beneficiando os aprendentes estrangeiros e o ensino integrado.
O Presidente do Camões, I.P., refuta estas críticas e augura boas perspetivas para o futuro da rede EPE, sobretudo na rede paralela, onde está previsto um forte investimento na digitalização e modernização do ensino, através da aquisição e distribuição de equipamento informático aos alunos, assim como o aumento da fatia orçamental destinada a esta modalidade de ensino. Sem negar que é gaudio para qualquer país, e Portugal não é exceção, que os demais cidadãos do mundo se interessem pela aprendizagem da língua e da cultura portuguesa e que as iniciativas previstas na rede, quer através do ensino integrado, quer nos centros de língua estejam à altura de prestar esse serviço, sendo essa a estratégica política da governação definida para o EPE, com o objetivo de atrair falantes e conferir um carácter de internacionalização à língua portuguesa, reforçando a sua dimensão transnacional.
2. O ENSINO E A AQUISIÇÃO/APRENDIZAGEM DA LÍNGUA PORTUGUESA