Tão logo a notícia da viagem chegou ao domínio público, os jangadei- ros passaram a acionar a rede de relações, composta por autoridades civis, políticas e religiosas, em que estavam envolvidos cotidianamente, a fim de obter os meios materiais para a concretização do projeto.15 Os primei-
ros “amigos” procurados foram alguns jornalistas dos Diários Associados no Ceará, redatores dos jornais Correio do Ceará e Unitário, que, após sa- berem da intenção dos pescadores, se comprometeram em fazer o “patro- cínio jornalístico” da viagem, que, dentro da linguagem de época, passou a se chamar raid.
Ora, a leitura que fizeram do campo de possibilidades que se colocava para a efetivação de suas demandas foi engenhosa e perspicaz, demons- trando que faziam alguma ideia do efeito simbólico que uma viagem de jangada causaria. Parece claro que a intenção de presentear a Escola e por extensão o presidente da República e sua esposa escondia um propósito mais ousado. Eles também achavam que, através dela, poderiam “demons- trar a coragem e o arrojo” dos jangadeiros cearenses,16 correspondendo,
assim, à representação da figura do trabalhador na ótica do Estado Novo. Essa importância simbólica da viagem, percebida pelos pescadores e pelos jornalistas, em parte explica a insistência com que os jangadeiros defenderam essa intenção, contrariando as orientações, que, em nome de uma maior segurança, sugeriam que as demandas fossem enviadas pelo correio, ou em uma viagem de navio. O jornal cearense Correio do Ceará, entre agosto e início de setembro, deu conta da polêmica em torno da de- mora da emissão de autorização para a realização da viagem de jangada. O que estava se insinuando, claramente declarado na matéria “Escândalos
14 Jacaré registrou em seu diário que, em Natal, na hora das bebidas um “doutor”, sabendo que era
ele que estava escrevendo o “diário de bordo”, propôs um brinde exclamando: “salve o Pero Vaz de Caminha da Jangada heróica”. Intrigado, o jangadeiro perguntou: “salve quem, homem? Após o tal doutor repetir, Tatá emendou: “esse não veio, não senhor” ver DIÁRIO DOS JANGADEIROS. Fortaleza: Museu do Ceará/Secretaria da Cultura, 2004. p. 191. Edição fac-similar.
15 A noção de projeto dá conta da “performance, as explorações, o desempenho e as opções, ancora-
das a avaliações e definições da realidade”. Isso pressupõe uma carga de racionalidade que orienta a ação dos indivíduos, portanto, de seus projetos. (VELHO, 1999).
N a t rilh a d a j an ga da : p es ca do re s e lu ta p or d ir ei to s n o B ra sil d o E st ad o N ov o
na Pesca”, de 10 de setembro de 1941, é que algumas entidades locais te- miam as denúncias a serem feitas pelos pescadores.
Após intervenção do capitão dos portos do Ceará, Henrique César Moreira, e do interventor federal, Menezes Pimentel, o Ministro da Marinha Mercante, senhor Aristides Guilhen, decidiu autorizar a viagem, mediante a assinatura de um documento pelo qual os quatro pescado- res eximiram as autoridades de qualquer responsabilidade por quaisquer acidentes que viessem a sofrer.17 Ressalte-se que, na carta enviada pelo
capitão Henrique César ao ministro da Marinha, foi enfatizado que o raid era uma atividade “puramente esportiva”, fato assinalado também no do- cumento que assinaram mestre Jerônimo e Mané Preto, representando os quatro pescadores.
Em conformidade com o telegrama recebido pelo Dr. Menezes Pimentel, d.d. Interventor Federal, em que o exmo. Sr. Ministro da Marinha conside- ra indispensável a declaração escrita perante essa Capitania, de que a pro- va esportiva do “raid” em Jangada Fortaleza-Rio, é feita expontaneamente e de responsabilidade exclusiva dos respectivos pescadores, vimos com o presente declarar que se trata de um movimento espontâneo, ficando essa capitania e quem quer que seja exonerado de qualquer responsabilidade sobre o bom ou mal êxito, desastres ou quaisquer imprevistos que nos possam acontecer. Confiamos em Deus e no Padroeiro dos pescadores que levaremos ao Presidente da Republica a prova do nosso destemor e arrojo de pescador nortista.
Eles assumiam todos os riscos. Enxergavam o risco e os sacrifícios que teriam de passar para chegar até o Rio desse modo. Apesar de contarem com a experiência e a habilidade, já comprovadas, de mestre Jerônimo, o comandante da São Pedro, não sabiam quando, de fato, chegariam: teriam de enfrentar mais de 1.500 milhas em mar aberto, enfrentando todas as adversidades da natureza, temporais, falta de ventos, tubarões e o que mais estivesse por vir.18
Estavam dispostos a ir de jangada e ela teria o nome do padroeiro dos pescadores, São Pedro. Sabiam que era esse o capital – recurso de poder utilizado como trunfo em uma dada negociação da realidade (BOURDIEU, 1989) – de que dispunham para o encontro com o presidente: presentea- riam o Estado Novo e Vargas com a coragem e a fibra dos homens do mar. Domando ondas, “desafiando as tempestades e rindo da morte”, segui- riam os “herdeiros de Dragão do mar” em seis paus de piúba, pela costa brasileira. (MOREL, 1941, p. 2).
17 Esse documento foi transcrito no Jornal Unitário, Fortaleza, 14 de setembro de 1941, última página. 18 Segundo o navegador brasileiro Amir Klink, a jangada de velas é ideal para a navegação em alto mar.
O problema de uma viagem como essa era a falta de conforto e a ausência de instrumentos de loca- lização. Ele assegura ainda que essa era uma viagem que gostaria de fazer, se pudesse contar com a habilidade de um bom mestre de jangadas. Revista Nossa História, Rio de Janeiro, n. 8, jun. 2004.
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Os custos da viagem aumentavam com essa decisão, pois eles teriam de mandar confeccionar uma jangada especificamente para esse fim. A madeira da embarcação custava caro, vinha importada do Pará, tornan- do, por isso, bastante custosa sua aquisição. Jacaré, em suas declarações aos jornalistas no Rio, enfatizou que, no caso da São Pedro, adquiri- da por 1:640$000, o gasto com a importação da madeira representava 1:100$000. Informava o abusivo preço da jangada para demonstrar a im- possibilidade dos próprios jangadeiros de a possuírem, ficando, por isso, subordinados aos proprietários das embarcações.19
A ampla rede de relações dos jangadeiros foi mobilizada para a concre- tização da viagem. Se, na obtenção da autorização, foi decisivo o apoio do interventor Menezes Pimentel e da imprensa, agora essa rede se amplia- va para a obtenção dos meios materiais necessários para custeá-la. Além dos jornalistas dos Diários Associados, o padre da paróquia, a presidente da Associação de São Pedro da praia de Iracema, convertida em “madri- nha do raid”, os presidentes de clubes da praia de Iracema, comerciantes e cidadãos prestaram sua ajuda, amplamente divulgada pelos jornais, à viagem dos jangadeiros.
Em 14 de setembro, quando “soprava um bom Nordeste”, a jangada São Pedro foi lançada ao mar, comboiada por inúmeras outras pequenas e grandes jangadas, tripuladas por outros pescadores, os “irmãos de palho- ça e de sofrimento”, nas palavras de Jacaré, em nome de quem os janga- deiros iriam falar.