4 GLOBALIZAÇÃO: A AGENDA NEOLIBERAL BRASILEIRA
4.1 A reentrada brasileira no Mercado Financeiro Internacional
No plano político, o Brasil apresentava-se em uma transição lenta da ditadura militar para uma democracia inacabada (MERCADANTE, 1998). Barros e Giambiagi (2009)destacam duas grandes mudanças na estrutura economia brasileira a partir de então: o desenvolvimento de ações sociais e o fim da restrição externa. A vulnerabilidade externa foi reduzida uma vez que, na visão dos investidores, a estabilidade fiscal e monetária traziam maior previsibilidade, recriando condições de segurança.
Porém, se observamos a tabela 4, percebe-se que os saldos em transações correntes foram sistematicamente negativos, enquanto os sucessivos superávits do balanço de pagamentos entre 1992 e 1996 mascaram a vulnerabilidade externa ainda presente. De acordo com Resende et al. (2012), tais superávits implicaram em um crescimento da oferta de finance e a redução da incerteza para os investidores quanto à disponibilidade futura de recursos externos, com efeitos positivos sobre o crescimento da economia.
Tabela 4 – Balanço de Pagamentos - Brasil (US$ Milhões) 1990-2000
Data Balança co-
mercial Exportações Importações
Transações correntes Conta capi- tal e finan- ceira Balanço de Paga- mentos 1990 10.752 31.414 20.661 -3.784 -3.855 -7.965 1991 10.580 31.620 21.040 -1.407 -4.342 -4.873 1992 15.239 35.793 20.554 6.109 9.947 14.670 1993 13.299 38.555 25.256 -676 10.495 8.709 1994 10.466 43.545 33.079 -1.811 8.692 7.215 1995 -3.466 46.506 49.972 -18.384 29.095 12.919 1996 -5.599 47.747 53.346 -23.502 33.968 8.666 1997 -6.753 52.994 59.747 -30.452 25.800 -7.907 1998 -6.575 51.140 57.714 -33.416 29.702 -7.970 1999 -1.199 48.011 49.210 -25.335 17.319 -7.822 2000 -698 55.086 55.783 -24.225 19.326 -2.262 Fonte: Ipeadata (2015).
Sendo assim, percebe-se o crescimento da economia brasileira conforme o crescimento da liquidez internacional (ver capítulo 2, gráfico 2), saldos deficitários em transações correntes e superavitários no balanço de pagamento, o que para os Resende et al. (2012) está de acordo com o padrão de crescimento de uma economia com Sistema de Inovação Nacional16 imaturo.
16 De acordo com a Escola Evolucionária, o progresso tecnológico é a principal variável explicativa dos
diferenciais de crescimento de longo prazo entre os países. Segundo esta, o progresso tecnológico é determinado pelas características e grau de desenvolvimento do Sistema Nacional de Inovação (SI) de um país e/ou região. Na
Todavia, com a abertura comercial, o Brasil iniciou um processo de liberalização de importações de modo a melhorar a eficiência produtiva pela competição externa17. Para
Coutinho, Hiratuka e Sabatini (2008) o Brasil apresentou uma melhora considerável nas condições de sua inserção externa, resultando na redução da vulnerabilidade da economia frente a choques externos. Embora estimulado pelas condições macroeconômicas de taxas de crescimento elevadas, expansão do crédito, baixa inflação e equilíbrio nas contas externas, o boom de investimento de empresas brasileiras no exterior, foi visto como um elemento fundamental dentro das estratégias competitivas e de acumulação no longo prazo.
Entretanto, ao analisar a tabela 4, percebe-se, mais uma vez, que a fragilidade financeira estava presente na economia brasileira a partir de 1994. A crescente especulação contra a moeda mexicana faz haver especulações contra a moeda brasileira devido às similaridades dos dois países18. A crise do México em 1994 provocou uma fuga de capitais no Brasil e, com isso, a queda de reservas19. Os crescentes déficits nas transações correntes foram financiados por meio da elevação das taxas de juros domésticas e dos superávits na conta de capital financeira do balanço de pagamentos afetando a capacidade de crescimento, porém, mantendo-se financeiramente atrativo internacionalmente (RESENDE et al., 2012).
Com a nova ordem internacional, a partir de 1990 percebe-se o crescimento de investimentos em carteira, que durante quase toda a década supracitada, representou a principal forma de obter divisas para economia brasileira. A partir de então, no sistema dólar-flexível, o Investimento Externo Direto passa a ser um componente essencial para o desenvolvimento brasileiro, mais precisamente, a partir dos anos 2000, conforme Gráfico 7 a seguir:
Gráfico 7 – Entrada de divisas – Brasil (US$ Milhões) 1990-2014
escola pós-keynesiana, a despeito da relevância do progresso tecnológico para o crescimento econômico, este é afetado também pela interação entre variáveis reais e monetárias. Neste contexto, há nessa literatura indícios de que os ciclos das economias em desenvolvimento são mais aderentes aos ciclos da liquidez internacional do que os ciclos das economias desenvolvidas (TORRES; RESENDE, 2013).
17Esse processo foi influenciado por recomendações de organismos internacional. Destaca- se o FMI e o Consenso de Washington.
18Essa relação é conhecida por Efeito Tequila.
Fonte: Ipeadata (2015)
*Investimento externo direto corresponde a participação no capital total ou parcial de empresas sediadas no país e os empréstimos intercompanhia, concedidos pelas matrizes no exterior a suas filiais no país e os recebidos pelas matrizes no exterior concedidos por suas filiais no Brasil.
** Compreende, dentre outras coisas, os empréstimos e financiamentos brasileiros a curto e longo prazos concedidos a não-residentes, e os concedidos por instituições financeiras.
*** Registra fluxos de ativos e passivos constituídos pela emissão de títulos de crédito comumente negociados em mercados de papéis.
Em um primeiro momento essa enxurrada de capitais seria importante para o financiamento da economia brasileira e poderiam representar fonte para o investimento produtivo e contribuir para o desenvolvimento econômico do país. Entretanto, nesse novo cenário mundial, os fluxos de capitais apresentam natureza volátil o “que tomam a forma de ciclos, nos quais se encadeiam fases de elevada liquidez seguidas por períodos de absoluta escassez de recursos” (MUNHOZ; GONCALVEZ, p. 5, 2012). Com isso, contar com um tipo de financiamento que pode escassear subitamente não é benéfico para a economia doméstica, uma vez que tais fluxos de capitais de curto prazo são fortemente dominados por movimentos expectacionais, que geram efeitos macroeconômicos, como os impactos negativos sobre os juros domésticos, dívida pública e risco-país.
Portanto, o alto peso desses capitais flexíveis sobre a Conta Financeira leva o país a continuar impactado por importantes movimentos de volatilidade a qualquer mudança nas expectativas dos mercados financeiros internacionais, podendo levar a uma fuga de capitais.
-60000 -40000 -20000 0 20000 40000 60000 80000 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 Entrada de divisas - Brasil