4 Resultados
4.2 Como os executivos têm aprendido nas suas trajetórias educacional e profissional
4.2.4 A reflexão como mecanismo de aprendizagem
A reflexão como possibilidade de revelação do "encoberto ao primeiro olhar", das opções estratégicas assumidas, dos resultados alcançados, do incontrolável nos cenários imaginados, entre tantas outras motivações, é um exercício presente no dia-a-dia do executivo, seja intencional ou não. A partir desta constatação, que inclusive é tratada na
literatura, esta seção se propõe a descrever o uso da reflexão pelos executivos investigados como geradora de seus insights e idéias, conformada num mecanismo de aprendizagem e mudança da ação gerencial, além do que, uma possibilidade de rever crenças e valores norteadores do comportamento desses profissionais.
A análise dos dados dos respondentes, permitiu perceber que todos lançaram mão da reflexão para tornarem-se mais efetivos nas suas organizações. Pôde-se verificar que o exercício da reflexão esteve presente em dois contextos típicos; no primeiro, o executivo refletiu sozinho, e no segundo, ele refletiu acompanhado de outros membros da organização. Também se percebeu que a reflexão intencional e direcionada esteve mais associada ao contexto de colegiado que ao exercício individual.
O executivo José, revelou que costuma refletir logo após acordar, quando procura revisar as realizações do dia anterior, a agenda do dia, seus projetos pessoais e reajustar os objetivos do curto prazo. Comentando sobre a reflexão, ele disse: "você tem de dedicar parte do seu tempo pra poder procurar novas idéias. Você tem que parar, você tem que ter seu tempo, a sua hora: que seja de manhã cedo, que seja no almoço, [...] você tem que ter um tempo pra reavaliar o que você está fazendo".
Costuma-se associar o gerente a uma pessoa que está tomando decisões "o tempo todo". De certa forma, os levantamentos sobre a ação gerencial, indicam que a disponibilidade de escolha é um desejo almejado pelos executivos. E a minimização dos riscos embutidos em cada uma delas, passa a ser uma preocupação inerente ao processo. Na pesquisa, o Executivo Israel destacou que a reflexão é parte do seu processo decisório, especialmente nas decisões mais relevantes.
[...] no momento do pênalti, tipo assim, estamos nos 45 do primeiro tempo, e você vai bater o pênalti, aí o juiz pára e volta no segundo tempo pra você bater o pênalti; é como se tivesse tido uns quinze minutos pra você pensar de que lado você ia bater. E esses quinze minutos aí, no intervalo do primeiro pra o segundo tempo, é exatamente isso, é a reflexão [que ele entende que faz]. Eu acho que a reflexão é muito importante; dificilmente você sai de
onde trabalha, vai pra casa e não fica remoendo e refletindo o que é que pode acontecer e daí surgindo novas idéias, idéias melhores. Eu acho fundamental essa questão. (Israel, entrevista, 09/02/05).
Por sua vez, alguns executivos apontaram para a reflexão, como um exercício individual e também em colegiado, a partir da análise dos indicadores de desempenho e das pesquisas realizadas. A executiva Sônia, comentando acerca de elementos que a instigam na reflexão como via de sua aprendizagem, disse: "acho que as pesquisas internas e externas, avaliação de desempenho, elas têm dado, são bons mecanismos, instrumentos". Já o executivo Antônio, reportando-se à importância da reflexão no modelo de uma gestão colegiada, falou:
A gente tem uma lógica de trabalho que é uma lógica em colegiado. Então, por exemplo, colegiado de gestão se reúne uma vez por semana, onde a gente vai dividir lá em dois momentos: primeiro momento a gente fala do dia-a-dia da empresa, o que é que houve, se alguém foi demitido, qual foi o problema que você teve na semana, enfim, dá uma discutida sobre números da empresa, o que foi que a gente bateu de meta naquela semana; o segundo tempo da discussão é sempre voltado para a reflexão sobre o que a gente está fazendo na empresa, qual é o caminho que a gente está construindo nela, pra onde a gente quer ir, o que é que a gente quer conquistar; então, dois momentos. Essa mesma lógica cada gerente repete com sua equipe durante a semana, então, na segunda, o colegiado gerencial se reúne e faz esse trabalho, na quarta o colegiado de administração, na quinta, o da operação e na sexta, o da manutenção repete isso; e cada encarregado tem que desdobrar isso com sua equipe lá; então é uma lógica de disseminação das idéias dentro da empresa que facilita com que as coisas aconteçam; então você acaba tendo um ciclo semanal de tomada de decisão. (Antônio, entrevista, 03/02/05).
Os dados analisados indicaram que a adoção nas empresas investigadas de um formato de gestão participativa, que tem nos vários fóruns de diretores, gerentes e de outros níveis na empresa, um dos seus pilares de sustentação, tem facilitado a presença da reflexão como possibilidade de compartilhamento de informações e conhecimentos, além disso, este formato tem funcionado como um potente estímulo à contribuição com sugestões de melhorias e idéias pelos diversos membros, independente de sua função. Nesse sentido, o executivo Mauricio falou:
Às vezes estala uma de 'professor Pardal' [...] é isso, eu jogo e a turma monta e dá umas idéias e tal, às vezes eu mesmo vou e faço o negócio. Muita coisa tem, às vezes, você tá viajando vê uma coisa [...] por exemplo, eu fui numa empresa, que é a... 'nada se cria, tudo se copia', a empresa Flores, uma das melhores empresas do sistema [de transportes urbanos] do país e tem um formulário de avaliação de equipes, eu peguei o formulário de lá e simplesmente dei pra um funcionário lá e disse olha eu quero fazer algo desse tipo, joguei pra ele". (Mauricio, entrevista, 01/02/05 ).
A reflexão sobre as crises, os erros e os acertos mostraram-se como destacada fonte de aprendizagem e transformação para os executivos. A executiva Silvia, comentando sobre a reflexão nos seus desafios diários disse: "Quando a gente passa por algumas situações, quando eu paro, reflito e vejo (...); agora mesmo eu tenho a experiência dessa com outra empresa [uma empresa concorrente que fez uma parceria de gestão], olho pra trás e vi que perdi oportunidades, querendo fazer o máximo perdi de fazer uma boa negociação, me faz repensar que às vezes é melhor ceder logo do que querer o excelente, se contentar com o bom". Por sua vez, o executivo Sérgio, reportando-se ao enfrentamento de uma das mais fortes crises ocorridas há cinco anos no setor de transportes da RMR, quando a reflexão propiciou encontrar alternativas, e ele exemplificou com o relato:
[na busca por] otimização de trabalhos, de serviços, de redução de custos; nós criamos os famosos padrinhos de contas, então, o que é que nós fizemos aqui? [...] nós separamos algumas contas aqui, manutenção, contas de telefone, é (...) despesas operacionais, enfim, cada despesa com impostos, com emplacamento etc., licenciamento. Então, nós elegemos aí algumas contas e elegemos padrinhos dessas contas. Então, o camarada é responsável por duas, três contas dessas, ele tá mapeando a todo momento, sabendo porque cresceu, porque que parou, porque que reduziu, não é? (Sérgio, entrevista, 31/03/05 )
Como vimos, todos os respondentes lançaram mão da reflexão como meio de rever seus conhecimentos experienciais e incrementar a sua aprendizagem. Sob a luz da intencionalidade, verificou-se a predominância da reflexão em colegiado. Quando exercitada individualmente, há a utilização de espaços específicos na agenda para sistematicamente fazê- la, seja antes de ir ao trabalho ou no almoço, por exemplo. Relatos indicaram que ela antecede às decisões relevantes no processo decisório dos executivos, tanto individual como
coletivamente. A partir da análise dos indicadores de desempenho organizacional e das pesquisas disponíveis, a reflexão é estimulada em prol de novas melhorias. E, por fim, os executivos apontaram que ela propicia um aprendizado especial, quando debruçada sobre os erros cometidos e as crises enfrentadas.