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2. Bluteau e a vida cultural portuguesa

2.3. Intervenções académicas

2.3.2. A reflexão metalinguística no contexto académico

Considerando o destaque que é concedido à Academia Francesa nas Prosas

Portuguezas77, esta instituição seria para Bluteau o modelo inspirador no que respeita à reflexão autorizada sobre a língua e a eloquência. A Academia havia sido fundada em 1635 pelo Cardeal Richelieu, com o objectivo de estabelecer regras claras para a língua, torná-la pura, eloquente e dotada de vocabulário suficiente para fazer face às exigências

75 «Que nos homens deste tempo a memoria, e o juizo tenhaõ ou igual, ou ainda mais vigor, que nos

antepassados, claramente o demonstra a perfeiçaõ, e altura, em que hoje estaõ as Artes, e Sciencias; os livros, que nellas escrevem os modernos, excedem no numero, methodo, noticia, e elegancia todas as obras dos antigos» (Prosas Portuguezas, I: 39). Alberto de Andrade resume a posição filosófica de Bluteau com a expressão «peripatético moderno», que nos parece bem adequada (1945b: 542). Como afirma Sebastião Silva Dias, não encontramos no pensamento de Bluteau uma filiação explícita em Descartes, embora certamente conhecesse aspectos da sua obra e do seu pensamento, ainda que por intermédio de comentadores, que com regularidade cita no Vocabulario (Dias, 1952: 309-313).

76 Cf. cap. IV.6.

impostas pelas artes e pelas ciências78

. De acordo com os estatutos, os académicos procederiam à leitura atenta dos melhores autores da língua francesa, examinando e seleccionando as palavras e as frases que constituíssem os exemplos a partir dos quais se estabeleceriam as regras de bom uso, nomeadamente a respeito da ortografia. Toda a actividade se direccionava para a publicação de obras em que se recolhesse o fruto das observações dos académicos, permitindo a divulgação dos tão desejados instrumentos de normalização linguística: um dicionário, uma gramática, uma retórica e uma poética79

. Como já observámos, Bluteau lamenta que, entre nós, as academias se limitassem à composição literária, observando temáticas indignas do talento e sabedoria dos seus membros, quando se podiam dedicar ao aperfeiçoamento da língua80

. Nas Conferências de D. Francisco Xavier encontra as condições para promover a tão desejada reflexão sobre as palavras. As Prosas registam o formulário do assento da sessão inaugural, em que se percebem semelhanças com o plano de trabalhos delineado pelos académicos franceses, particularmente a procura da perfeição da língua, garantindo que fosse capaz de tudo exprimir81

.

78 Além destes objectivos explícitos, a Academia pretendia contribuir para a unificação linguística no

território, bem como para o incremento do prestígio do francês no conjunto das línguas europeias: «La langue françoise, qui jusqu’ à present pu rendre la plus parfaite des modernes, est plus capable que jamais de le devenir, vu le nombre des personnes qui ont une connoissance particulière des avantages qu’elle possède, et de ceux qui s’y peuvent encore ajouter» (Académie Française, Lettres

patentes … , 1995a (1635)).

79 Cf. Académie Française, Statuts et règlements…, 1995b (1635), artigos XV-XVI. Só em parte se

cumpriram os objectivos, com a edição do dicionário em 1694 e a tardia publicação de uma gramática, em 1932; de acordo com o artigo XVII dos estatutos, a maior parte do tempo das sessões deveria ser consagrado ao exame dos textos e à preparação das obras referidas. Sobre a organização das primeiras sessões dedicadas à redacção do dicionário, cf. Catach, 1998: 70-75.

80 «Destes, e outros frivolos assumptos estaõ cheas as obras dos nossos Academicos, e como muitos

delles tem a imaginaçaõ depravada com estas, e outras semelhantes idêas, a solidas, e proveitosas proposições fechaõ os ouvidos; e esta é huma das razões, porque taõ pouco fruto fez a indagaçaõ das palavras, que com mais propriedade, e elegancia podiaõ ornar no idioma Portuguez o discurso» (Prosas Portuguezas, I: 27). Os académicos franceses pretendiam contribuir para um aperfeiçoamento da língua, tornando-a um instrumento de pensamento, equiparável às línguas antigas. Cf. Cahné, 1998: 129.

81 «Como a lingua Portugueza naõ cede na elegancia a alguma das viventes, pareceo aos scientes de

Lisboa, que como propria, e eloquente, era digna do seu estudo, e capaz da sua applicaçaõ [...] a varios assumptos, e sobre tudo em palavras da Lingua Portugueza, ou já introduzidas com significaçaõ propria, ou já antiquadas, ou ainda naõ admittidas. Examinaraõse os mais estimados Escritores da lingua, a necessidade, que havia de algumas vozes estranhas, para que nos faltavaõ nomes proprios, e sobre tudo o uso, que he o melhor arbitro, a etymologia, a pronuncia, a Orthografia, e Grammatica» (Prosas Portuguezas, I: 1-2).

O estudo sobre as palavras foi introduzido nas sessões para responder às dúvidas com que Bluteau se deparava à medida que avançava a composição do Vocabulario. Nesse momento já teria coligido bastante informação respeitante às primeiras letras e a nomenclatura básica também se encontraria definida, tanto mais que o teor das reflexões que propõe nas Conferências pressupõe um conhecimento experimentado do corpus lexicográfico e literário português82

. No que respeita à organização dos trabalhos, as questões seriam apresentadas numa sessão e a discussão teria lugar na seguinte, submetendo-se a decisão ao voto dos académicos.

Os objectivos do teatino, patentes no «Oratorio requerimento de palavras portuguezas», apontavam para um ambicioso estudo diacrónico da língua, agrupando as palavras em três categorias83

. Em primeiro lugar, as «supplicantes aggravadas», ou seja, as palavras antigas e já fora de uso, pretendendo averiguar qual o seu significado e preservar essa informação, para uma correcta interpretação dos documentos antigos.

Seguiam-se as «suplicantes desconfiadas», definidas como as palavras «nativas», por oposição àquelas que no passado haviam sido introduzidas por godos, árabes, franceses e ingleses. Demonstrando o empenho na defesa do vernáculo, lembra que aos académicos caberia assegurar «o direito das palavras nativas para conservaçaõ, e confirmaçaõ da posse, em que estaõ»84, perante o perigo de serem substituídas pelas estranhas.

Por último, apresentar-se-iam as «supplicantes pretendentes», que correspondiam aos neologismos, designados pelo autor como palavras «estranhas», ou «peregrinas». A introdução ou criação de novos vocábulos justificar-se-ia em três circunstâncias: a «indigencia», que se verificava sobretudo na insuficiência de palavras ao nível dos termos técnicos; a «elegancia», na medida em que o ornato do discurso reclamava o emprego de termos incomuns e que não se encontravam nem na «mais opulenta lingua do Mundo»; a «decencia», que impunha a substituição das palavras disfémicas, «que naõ só nos

82 Tendo em conta que em 1697 parte para Paris e aí ensaia uma primeira impressão do dicionário. 83 Recitado na primeira sessão das Conferências, o «Oratorio requerimento» constitui um plano de

trabalho sob a forma de um discurso alegórico, em que as palavras — os réus — se apresentam perante um tribunal, cujos juízes são os académicos.

Pulpitos, e nas Academias, mas nem nas praticas mais familiares se podem pronunciar sem pejo»85.

O debate linguístico não atingiu a dimensão desejada, em primeiro lugar devido às contingências políticas que motivam o regresso a França no ano seguinte, mas também porque a adesão dos académicos foi inferior à que Bluteau previra86

. Graças à transcrição das palavras analisadas conservada nas Prosas, podemos avaliar o trabalho efectivamente realizado ao longo de doze sessões, reagrupando-as de acordo com a natureza da dúvida:

— esclarecimento do significado de palavras e expressões em uso:

Abada, Abies (palavra latina), Agrestes, Animosidade, Crocodillo, Ema, Endoenças, Entrudo, Fallar critico, Feniz, Florente, Florescente, Florescido, Florîdo, Flôrido, Graveza, Gravidade, Infanta, Infante, Leveza, Levidaõ, Mencionados, Sussurro;

— introdução de novas palavras e declaração do seu significado:

Amnistia, Anarchia, Bloquear, Bloqueo, Claudicar, Collisaõ, Destacamento, Destacar, Feniz, Infatuar, Paragonar, Projecto, Recruta;

— ortografia e pronúncia:

Alagoa, Alambique, Alampada, Armazem, Arrecadar, Chaminè, Philosophia;

— supressão de palavras fora de uso:

Afaõ, Afanar;

— substituição de palavras indecentes:

Cagalume.

O catálogo presente nas Prosas poderá não ser exaustivo, mas permite-nos constatar que a maior parte dos casos aduzidos se relacionava com a precisão do significado e a introdução de novos termos, geralmente decalcados a partir de palavras francesas que o uso progressivamente introduzira na escrita87

. Dos assentos das decisões infere-se que as discussões seriam bastante participadas, invocando-se a língua latina e a tradição dos autores clássicos, a comparação com o espanhol e o francês, mas também as lições dos dicionários.

85 Ibidem, I: 12. Desenvolvendo a questão da decência dos termos, Bluteau conclui o Oratorio com o

caso da palavra «Pyrilampo», composto erudito que solucionaria a dificultosa questão de nomear o insecto que o vulgo conhecia por caga-lume, designação que, de resto, nunca é introduzida no discurso (ibidem: 13-15).

86 Cf. ibidem, I: 27. As temáticas linguísticas continuariam presentes, por iniciativa de D. Francisco

Xavier, a quem Barbosa Machado atribui a autoria de «vinte e oito discursos filológicos», como:

Observações ortográficas; Se na língua portuguesa hão-de preferir na ortografia a origem ou a pronúncia (Monteiro, 1962: 212).

87 Tomemos como exemplo a decisão acerca da palavra recruta: «He Francesa, Recrüe, usada entre

Hespanhoes, e pelo Conde da Ericeira, Historia de Portugal Restaurado, 2. part. significava as levas, que se fazem para reencher as companhias, a quem faltaõ soldados por mortos, ou por fugidos: propunha-se reforço, e achando que naõ explicava, se admittio Recruta» (Prosas Portuguezas, I: 16).

Quando a Academia Portuguesa inicia as suas sessões em 1717, Bluteau retoma as preocupações de 1696, agora sob a forma de questões concernentes à ortografia e significado de algumas palavras, a par de orações sobre temas da física, geografia e história88

. A orientação eminentemente historicista da Academia Real, fundada em 1720, constituiu certamente uma desilusão para o teatino, ao ponto de ter manifestado o seu protesto nas sessões da Academia Portuguesa, através da «Prosa apologetica, justificaçaõ de huma soberana princeza, injustamente exclusa das doutas Conferencias da Academia Real de Lisboa», sendo a referida princesa a ortografia, «Emperatriz de toda a escritura»89

. Em virtude desta desatenção, a casa do Conde da Ericeira continua a ser o palco privilegiado da reflexão linguística, empreendendo o teatino uma série de lições sobre ortografia, recuperando e actualizando as notícias que publicara no Vocabulario, no início de cada letra90

.

A leitura dos artigos do Vocabulario e Supplemento correspondentes às palavras analisadas nas Academias permite-nos concluir que as reflexões foram integradas no texto lexicográfico, com referências que por vezes incluem uma síntese do debate91

. O facto de

88 Ao todo apresenta nove questões: «I. Se a penultima syllaba deste nome Academia se ha de

pronunciar breve, ou longa. II. Se no idioma Portuguez esta palavra Colonia, tem terceiro significado. II. Se he boa Ortographia a de certo Autor Portuguez de boa nota, que em lugar de C com cedilho, poem dous SS. verb. gratia, Conceissaõ, Anunciassaõ, &c. ao contrario do commum que diz, Conceiçaõ, Annunciaçaõ, &c. IV. Se tambem havemos de seguir a Ortographia dos que a todas as palavras, que começaõ por ST. ou or SP tiraõ o E, escrevendo em lugar de Estrella, Strella, e por Espirito, Spirito. V. Se assim como de alguns substantivos Latinos, que acabaõ em As, v. g. Bonitas, Gravitas, Magnanimitas, &c. tomamos Bondade, Gravidade, Magnanimidade, &c. Poderamos tomar do Latim voluptas, voluptade. VI. No quinto tomo dos seus Sermoens pag. 318. diz o Padre Antonio Vieira, fallando em huma tormenta: Achicaraõ de repente as bombas, que quer dizer, aqui, Achicar. VII. Na Chronica delRey D. Affonso o V. cap. 30. pag. 203. col. 2. fallando de Duarte de Menezes, cercado em huma Praça de Africa, diz o Author: Mostrando que queriaõ recolher o almargem em huma Praça de Africa. Pergunta-se que quer dizer Almargem neste lugar.

VIII. Na Chronica do Condestable de Portugal D. Nuno Alvarez Pereira, pag. 53. col. 1. diz o

Author: Os Castellaõs, e Castoens com seu roubo jaziaõ, &c. Perguntase que quer dizer Castoens.

IX. Se no idioma Portuguez Cobra he o mesmo que Serpente» (Prosas Portuguezas, I: 23-25).

89 Prosas Portuguezas, II: 170-185. As sessões da Academia Portuguesa prolongaram-se até 1722. 90 «Prosa grammatonomica, portugueza, ou regras, e leys, para o uso das letras do Alfabeto

Portuguez, na escritura, e na pronunciaçaõ» (Prosas Portuguezas, II: 186-220). Trata-se de uma importante reflexão crítica, em que Bluteau confronta as lições dos ortógrafos portugueses e explicita as opções seguidas no Vocabulario, no que respeita à ortografia. À data, os oito volumes estavam concluídos e o autor assume inúmeras falhas e incongruências, como notaremos oportunamente (cf. cap. IV.4.2.).

91 Por exemplo, no artigo RECRUTA (cf. supra a informação registada nas Prosas) Bluteau incluiu a

seguinte nota: «Nas conferencias eruditas, que se celebràraõ na livraria do Conde da Ericeyra, anno de 1696, em lugar de Recruta, vocabulo estrangeyro, foy proposto Reforço, palavra nacional, mas achando, que não explicava adequadamente, se admittio Recruta […]» (Voc., s.u.). Cf. também os

a opinião expressa pelo autor ser secundada por um grupo de homens doutos certamente constituiria uma acreditação suplementar, mas a referência aos académicos é ocasional e, na maior parte das vezes, aduzida a título de curiosidade. De resto, o número de palavras estudadas constitui uma percentagem reduzidíssima da globalidade das entradas.

A Academia Portuguesa extinguiu-se sem que, no entender de Bluteau, avançassem os estudos em duas áreas problemáticas da língua portuguesa: a normalização da ortografia e a dicionarização do vocabulário antigo92

. Perante tais lacunas, lembra que em outros reinos — novamente a França — essas obras haviam encontrado bom acolhimento93

.

Apesar das referidas divergências, Bluteau consolidou nos últimos anos de vida o prestígio entre os eruditos portugueses. O dicionário, as contribuições académicas e a publicação de uma colectânea como as Prosas Portuguezas (1727-1728) transformaram o teatino em árbitro linguístico e estético, numa época em que o domínio das belas letras constituía uma importante mais-valia nos complexos mecanismos de reconhecimento social94

. As Prosas caracterizam-se pela variedade temática das composições, o conhecimento abrangente e integrador dos múltiplos ramos do saber que são próprios do sábio cristão. O discurso académico, tal como D. Rafael o concebe, não se confina aos limites do literário ou do científico, residindo o desafio precisamente na conjugação da literatura e da erudição, da ciência e da religião.

Nas Prosas a reflexão linguística não se circunscreve ao «Oratorio Requerimento», à «Prosa Apologetica» e à «Prosa Grammatonomica», alargando-se a um conjunto de excursos em que a temática da língua está presente, inserida em discursos académicos que não lhe são subordinados. É possível identificar casos de intertextualidade entre as Prosas e o Vocabulario, sob a forma de remissões para artigos em que se resumem intervenções nas reuniões do Conde da Ericeira:

Nesta mesma Academia dos Generosos […] tenho recitado outras lições Academicas, das quaes as principaes saõ: Da possibilidade da Pedra Filosofal. Se ha no Mundo huma naçaõ de Pygmeos? Se o Phenix he ave verdadeira, ou fabulosa? Se he verdade, que o Pelicano abre com o bico o peito,

artigos do Vocabulario ANIMOSIDADE, DESTACAMENTO, EMA, PROJECTO. As palavras cuja introdução foi considerada desnecessária, como PARAGONAR, não constituem entrada no dicionário.

92 «finalmente na Orthografia Portugueza, como na casa onde naõ ha paõ, todos gritaõ, e ninguem

tem razaõ, porque até naõ assentarem os Doutos, como o tem feito os das outras naçoens, o modo com que se ha de escrever, sempre haverá contendas, e naõ saberá o vulgo quem tem razaõ» (Supp., I: «Advertencias a todo o leitor»).

93 Prosas Portuguezas, I: 26. 94 Almeida, 1996: 224.

para com o sangue sustentar o filhos? Naõ trago aqui as liçoens, que recitey sobre estes assumptos, por naõ repetir nellas muitas noticias, e razões, que no meu Vocabulario se acháraõ impressas na letra P, na declaraçaõ das palavras Pedra Filosofal, Pelicano, Pheniz, Pygmeo95.

Este caso particular, além de ilustrar o reaproveitamento de materiais, demonstra a intercomunicação entre os textos académico e lexicográfico, só possível porque existe uma convergência tanto no que respeita à selecção de temáticas, como ao nível da recepção, uma vez que se considera que o público académico e o leitor implicado do

Vocabulario partilham os mesmos interesses. Esta associação de contextos, que dignifica

o conteúdo do dicionário ao ponto de permitir a citação nas academias, concorre, indirectamente, para a nobilitação da obra lexicográfica.