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A Reforma Antimanicomial e o tema das drogas

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2 CAPÍTULO: O MOVIMENTO DA REFORMA ANTIMANICOMIAL

2.2 A Reforma Antimanicomial e o tema das drogas

A Reforma Antimanicomial em curso nasce da demanda histórica e crescente dos movimentos de trabalhadores e usuários dos serviços de atenção aos portadores de transtorno mental, e dos diversos setores da área dos direitos humanos, organizados em protesto contra as condições dos hospitais psiquiátricos, que em denúncia, eram identificados como verdadeiros campos de concentração.

O movimento brasileiro teve a influência no plano internacional dos seguintes determinantes conjunturais: havia uma influência dos acontecimentos, como os movimentos de comunidades terapêuticas nos Estados Unidos e na Inglaterra que tratavam os soldados durante e após a Segunda Guerra Mundial; mudanças nas conjunturas sociais e políticas dos países que estiveram diretamente ligados às grandes guerras; havia a emergência de novos movimentos sociais na afirmativa dos direitos civis e políticos (reconhecimento dos direitos dos doentes mentais); o desenvolvimento dos sistemas de bem estar social; a diminuição dos sistemas hospitalares, em busca de sistemas alternativos públicos mais econômicos com

reformas implementadas por governos de recortes neoliberais (VASCONCELOS, 2010, p.22).

Pensadores na área das Ciências Humanas como Goffiman (1958), na Sociologia, os trabalhos de Michel Foucault (1971 a1984) tiveram influência no plano intelectual dos estudos de filósofos, assim como os pensamentos decisivos daquele que veio a se tornar o pai

da Antipsiquiatria: Franco Basaglia (1968 e 1982),26 o qual, sob forte influência dos

pensamentos de Michel Foucault, propôs uma mudança radical no sistema de tratamento de Saúde Mental italiano. No âmbito intelectual, aconteciam reflexões epistemológicas sobre os conceitos e na condução do tratamento da loucura. Toda uma forma de exclusão social determinava uma visão do homem e dos sistemas institucionais de tratamento da loucura quando se entendia, a partir daí, qual era a lógica do lidamento com a loucura dentro da sociedade capitalista, qual a função das instituições neste processo, como que o saber/poder determinava toda uma geopolítica de espaços que eram segregadores e opressores.

Havia denúncia dos hospitais privados como verdadeiras indústrias da loucura, os quais eram conveniados com o – Instituto Nacional de Assistência Médica e Previdência Social – INAMPS. Havia denúncias sérias de locais de hospitais como verdadeiros depositários de pessoas, as quais eram submetidas a condições sub-humanas de tratamento, lembrando os campos de concentração do Sistema Nazi-fascistas. No registro histórico, esta foi à fala de Franco Basaglia quando da sua vinda ao Brasil, em 1979, momento em que visitou o hospício Colônia na cidade de Barbacena – Minas Gerais. Segundo história contada por Daniela Arbex, jornalista investigativa, para lá eram levados os “alcoólatras, epiléticos, prostitutas, homossexuais, meninas grávidas, homens e mulheres que perderam seus documentos, gente que se rebelava e se tornava incômoda para alguém com mais poder” era um verdadeiro campo de concentração nazista (ARBEX, 2013, p.14).

As mudanças no pensamento em relação à saúde no Brasil já vinham acontecendo com o movimento mais tarde denominado de Movimento de Reforma Sanitária, no qual trabalhadores da saúde propunham mudanças no sistema de tratamento de saúde para uma forma hierarquizada “que no início dos anos 80 iriam ser chamadas de ações integradas de saúde” (VASCONCELOS, 2010, p.24). O movimento propunha:

Expansão e formalização do modelo sanitarista (Ações Integradas de Saúde e Sistema Único de Saúde, 1986); Montagem das Equipes Multiprofissionais

26 A antipsiquiatria , uma feérica crítica a psiquiatria enquanto tal surgiu no seio da psiquiatria a partir da década de sessenta deste século, tendo como nomes de destaque: Ronald David Laing (1927 a 1889), David Cooper (1931 a 1986) e Thomas Stephen Szasz (1920 ).

Ambulatoriais de Saúde Mental; Controle e Humanização do Setor Hospitalar; Ação a partir do Estado. (...) primeira conferência Nacional de Saúde, 1986, e Constituição Federal, 1988 (VASCONCELOS, 2010, p.24).

Nesta luta Antimanicomial, o Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental – MTSM propunha que não se criassem mais leitos em hospitais psiquiátricos, queria especialização das equipes de atendimento e redução onde possível; regionalização das ações em saúde mental, integrando os hospitais com a rede e setores ambulatoriais do SUS em áreas geográficas de referência; controle das internações em hospitais psiquiátricos via central de expedição de Autorização de Internação Hospitalar – AIH, a partir dos hospitais de emergência do setor público; expansão da rede ambulatorial em saúde mental composta basicamente por psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e às vezes enfermeiros, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos; humanização e processos de reinserção social dentro dos asilos estatais com equipes multiprofissionais. (VASCONCELOS, 2010).

Em 1989, o Projeto de Lei Paulo Delgado, que definia a Lei Antimanicomial foi lançado e a sua aprovação aconteceu em abril de 2001, Lei 10.216, Lei Antimanicomial como a conhecemos hoje. Houve muitas mudanças neste período e não poucas resistências a sua implementação como até hoje ainda há. Um demonstrativo estatístico da Coordenação de Saúde Mental/MS, no quesito diminuição na oferta de leitos hospitalares no Brasil, mostra o processo de redução dos leitos desde a sua implantação. Em 2002, havia 51.393 leitos de hospitais psiquiátricos, já em 2009 caiu para 35.426, com uma média redução de 2.184 leitos ao ano (Fontes: Em 2002-2003, SIH/SUS, Coordenação Geral de Saúde Mental e Coordenações Estaduais. A partir de 2004, PRH/CNES, 2009). Em contrapartida, em Goiás, muito a baixo da média proposta, o número de leitos nos hospitais gerais saltou de seis leitos em 2002, para 73 leitos em 2009 (Fonte: SIH/CNES, 2006). A criação de leitos nos hospitais gerais não acompanhou a redução de leitos nos hospitais psiquiátricos e tão pouco esta demanda de tratamento de transtorno mental/álcool e drogas, foi acompanhada com a criação de mais CAPs A/D, na proporção do crescimento como vimos acima.

2.3 A implementação da Política Antimanicomial CAPs A/D em Goiás/Goiânia e a

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