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1.2 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL: DO GOVERNO FHC AO

1.2.1 A reforma do Estado e o programa neoliberal em FHC

Na década de 1980, o Brasil, bem como outros países da América Latina, passou por um período de estagnação de seu crescimento, principalmente em decorrência da alta inflação e do endividamento externo. Com o declínio dos movimentos desenvolvimentistas nacionais iniciados após a Segunda Guerra Mundial, vislumbrava-se “o florescimento, nos anos 1990, da nova economia, com a qual os EUA e alguns países do Leste da Ásia supunham que poderiam liderar o mundo na sua glória econômica (TEODORO, 2011, p. 28, destaque nosso).

Essa nova economia, na qual países ricos fortaleceriam seu domínio sobre os países periféricos, era necessária a um mundo capitalista que se encontrava em profunda recessão.

Assim, em 1986, no mandato do então presidente José Sarney (1985-1990), foi lançado o Plano Cruzado, que concentrou as esperanças de retomada do crescimento econômico do país. No entanto, no mesmo ano, o plano entrou em colapso, o que para

Bresser-Pereira15 justifica-se pelo fato de que o “Plano Cruzado, bem pensado em termos teóricos, foi realizado no quadro de irresponsabilidade fiscal e cambial reinante no país” (Bresser-Pereira, 2012, p. 114). O insucesso do Plano Cruzado contribuiu para que o discurso da necessidade de responsabilidade fiscal ganhasse força e ocupasse o centro da reforma do Estado realizada, alguns anos mais tarde, no governo de FHC.

Seguindo uma linha de tempo histórica, tem-se que o sucessor de Sarney, Fernando Collor, adotou políticas que levaram o Estado brasileiro a perder gradualmente sua autonomia nacional e dar lugar a expansão das ideologias neoliberais.

O neoliberalismo, lógica revisitada do liberalismo clássico16 (SOUZA, 2007) foi definido por Harvey (2005 apud Teodoro, 2011) como sendo:

Uma teoria da economia política que propõe que o bem-estar e o desenvolvimento humanos podem ser mais bem alcançados por meio da libertação das capacidades empresariais individuais, no interior de uma estrutura institucional caracterizada por fortes direitos de propriedade privada, mercados livres e comércio livre. Essa teoria da economia política atribui ao Estado (nacional) o papel de criar e preservar as estruturas institucionais apropriadas a essas práticas, garantindo a qualidade e a integridade do dinheiro [...] Nos setores onde os mercados ainda não existem, como a terra, a educação [...] competirá ao Estado criar esses mercados. Por outro lado, o Estado deve abster-se de intervir nos mercados ou ter uma intervenção mínima (HARVEY 2005 apud TEODORO, 2011, p. 50-51).

Considerando a definição de neoliberalismo, verifica-se que o primeiro país a implementar pública e abertamente uma política neoliberal foi a Inglaterra, em 1979, por meio de Margaret Thatcher, que ficou conhecida como a “dama de ferro”, embora o Chile tenha iniciado um duro programa de raízes neoliberais já nos anos 70, com Pinochet. A partir de 1980, Reagan empenhou-se para implantar o programa neoliberal nos Estados Unidos, sendo seguindo por Khol na Alemenha (1982), Schuluter na Dinamarca (1983) e pela maioria dos países da Europa ocidental.

No início, somente governos explicitamente de direita radical se atreveram a pôr em prática políticas neoliberais; depois, qualquer governo, inclusive os que se autoproclamavam e se acreditavam de esquerda, podia rivalizar com eles em zelo neoliberal (ANDERSON, 1995, p. 14).

15

Como será visto adiante, Bresser-Pereira foi o Ministro da Administração e Reforma do Estado no governo de FHC.

16 “A doutrina liberal tem suas origens na Inglaterra do século XVIII [...] tendo como um dos principais

fundamentos que os homens, movidos por leis naturais, deveriam dispor de liberdade para dar vazão aos seus instintos egoístas e que, ao fazer isto, estariam promovendo benefícios a toda a sociedade, mesmo que não fosse esta a sua intenção” (SOUZA, 2007, p. 114).

Anderson (1995) e Teodoro (2011) ao discorrerem sobre as formas de materialização do neoliberalismo em países diversos apontam a capacidade que ele tem de flexibilizar-se e encontrar “saídas” para crises de diferentes ordens, o que reforça o fato de não haver uma homogeneidade de ações, em nível mundial, para implementação da agenda neoliberal.

No entanto, apesar das especificidades de cada país, podem ser enumerados alguns pressupostos gerais do programa neoliberal:

a) diminuição de impostos sobre altos rendimentos; b) criação de desemprego massivo;

c) endurecimento com movimentos sindicais; d) cortes em gastos sociais;

e) amplo programa de privatização;

f) diminuição do controle sobre fluxos financeiros por parte do Estado;

g) abstração da economia, por meio da transferência do poder do capital industrial para o capital financeiro;

h) transnacionalização da economia.

Sob esta perspectiva, Oliveira (1995) defende que, no Brasil, apesar no neoliberalismo ter ganhado mais força nos anos de 1990, foi o regime ditatorial que preparou o terreno para as políticas neoliberais. Foi ele que deu início ao

processo de dilapidação do Estado brasileiro, que prosseguiu sem interrupções no mandato “democrático” de José Sarney. Essa dilapidação propiciou o clima para que a ideologia neoliberal, então já avassaladora nos países desenvolvidos, encontrasse terreno fértil [...] A eleição de Collor deu- se nesse clima, no terreno fértil onde a dilapidação do Estado preparou o terreno para um desespero popular, que via no Estado desperdiçador, que Collor simbolizou com os marajás, o bode expiatório da má distribuição de renda, da situação depredada da saúde e de todas as políticas sociais (OLIVEIRA, 1995, p. 24-25, destaque do autor).

Nesse contexto, o autor destaca a força de organizações da sociedade civil, principalmente das centrais de trabalhadores, que articularam-se pelo impeachment de Collor, o que acabou resultando em um retardamento do avanço neoliberal no Brasil.

Depois da saída de saída de Collor de Melo, Itamar Franco assumiu a frente do poder executivo (de 1992 a 1995), “enfrentando” nos primeiros anos de seu mandato a hiperinflação que, segundo Oliveira (1995, p. 26), é “administrada a conta-gotas [...] precisamente para produzir o terreno fértil no qual se joga a semente neoliberal e ela progride”. Assim, com taxas de inflação que chegavam a 50%, deu-se início a uma série de ajustes na política

econômica do país com o objetivo de “atacar” a hiperinflação.

Nesse contexto foi lançado o Plano Real – de autoria do então Ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso (FHC) – que, conforme explica Zago (2013, p. 48), orientou-se pela “desindexação da economia, acompanhada de um amplo processo de privatizações, equilíbrio fiscal, abertura econômica, contingenciamento de serviços públicos e por políticas monetárias restritivas”, tudo isso em consonância com as premissas neoliberais.

A implantação do Plano Real foi um dos principais fatores que levaram à eleição de FHC para presidente da república em 1994, o que permitiu a continuidade do Plano Real acompanhada de uma ampla reforma do aparelho estatal. Como parte dessas ações reformistas, a Secretaria da Administração Federal foi transformada em Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado (Mare), liderado por Bresser-Pereira.

Nessa direção, em 1995 o Mare deu início a uma Reforma Gerencial, elaborando em seu primeiro semestre o Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. Este Plano teve como inspiração as experiências internacionais de Bresser-Pereira, no que diz respeito às reformas realizadas na Inglaterra e demais países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Segundo afirma Silva (2009)

o MARE participou diretamente de transformações gerenciais importantes. É relevante destacar a implementação das terceirizações para vários setores do Poder Executivo federal e a criação de Agências Reguladoras como instituições que criaram os marcos regulatórios, principalmente, para setores econômicos vitimados pelas privatizações. Gerencialmente as novidades apareceram na forma do foco no cliente, nos programas de qualidade, no controle por resultado, etc. [...]. De modo sintético, poder-se-ia concluir que o movimento reformador inaugurado em 1995 possui a marca indelével da minimização do Estado e a adaptação da administração pública aos parâmetros, lógicas e mecanismos privados, destacando-se a preocupação derradeira com as contas públicas (SILVA, 2009, p. 2).

Assim, sob a égide da ineficiência da burocracia estatal da época, a reforma veio propor, dentre outros fatores, a desburocratização dos serviços públicos de natureza social17 (saúde, educação, ciência, etc.), sob o argumento de que por serem ofertados pelo Estado, eram ineficientes, por outro lado, eram serviços referentes à direitos sociais e humanos e, portanto, não deveriam ficar a cargo do setor privado que objetiva prioritariamente o lucro (BRESSER-PEREIRA, 2001).

Dessa forma ganhou destaque assim, o terceiro setor formado por propriedades

17 Neste sentido, desburocratizar seria alcançar “a coerência dos meios em relação aos fins visados”, empregando

“um mínimo de esforços (meios) para a obtenção de um máximo de resultados (fins)” (MOTTA; BRESSER- PEREIRA, 1986 apud MARIANO, 2011, p. 6).

públicas não-estatais, de direito privado, com finalidade pública, sem fins lucrativos.18

Em meio a esse contexto maior de reforma do Estado foram propostas reformas também na educação, as quais configuraram um processo de transformação da educação enquanto direito para uma educação enquanto serviço, aproximando-se de uma lógica mercadológica.

Embora Bresser-Pereira (2001) tenha afirmado que atividades sociais, como educação e saúde, não deveriam ser privadas, para ele, elas também não precisariam se submeter ao controle da “burocracia estatal”. Assim, para Pinto (2000), há nesse aspecto uma transferência de responsabilidades do Estado para o terceiro setor, constituindo o que chamou de “privatização dissimulada”.