4.5 EXERCÍCIO DE ANÁLISE DAS CRÔNICAS DE MACHADO DE ASSIS
4.5.5 A Reforma pelo Jornal 23 de Outubro de 1859
Machado de Assis escreve a crônica “A reforma pelo jornal”, no final da década de 50, no século XIX, na qual descreve com entusiasmo o advento da imprensa, que aconteceu depois da invenção de Johan Gutenberg (século XV) e intensificou-se na sociedade industrial do século XIX, quando temos velocidade e distância em transformações.
Na escrita da crônica, Machado de Assis (1944, p. 45) comenta: “O jornal que tende à unidade humana, ao braço comum, não era um inimigo vulgar, era uma barreira [...] de papel, não, mas de inteligências, de aspirações”. Há possibilidade de articular o jornal idealizado por Machado à proposição de Ricoeur quando diz que:
a ação como o texto podem ser considerados como obra aberta, endereçada a uma infinidade de ‘leitores’, pois o jornal é um veículo do pensamento democrático, porque aproxima ‘uma infinidade de leitores’, construindo elos entre a humanidade das suas origens à contemporaneidade.
Machado de Assis nos remete então à história, construindo metáforas entre a palavra desde a criação, passando pelas narrativas bíblicas do livro do Gênesis, à
introdução do Evangelho segundo João que é parodiado em parte na expressão: “O verbo é a origem de todas as reformas”; enquanto no texto bíblico encontramos: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o verbo era Deus” (Jo 1, 1).
Machado atribui à palavra o poder do prodígio, da criação e, no espaço do jornal, torna-se palavra de discussão. A partir do vocábulo discussão, agregado ao jornal e, mesmo antes do vocábulo, o autor conduz o assunto encadeado através de perguntas/questões com o objetivo de obter anuência do leitor sobre a superioridade da palavra impressa no jornal difundido entre as massas, porque Machado acredita na contradição operário e proletário x aristocracia e mais ainda crê na supremacia do povo em relação aos aristocratas.
Machado explicita, em seu texto, um pacto com o leitor, isto é, nos conduz à credibilidade em seus enunciados, porque constrói uma tessitura com a habilidade de um filósofo construindo/argumentando um silogismo.
Outra leitura que podemos extrair nas entrelinhas da crônica “A reforma pelo jornal” é aquele tom de liberdade, que vem das aspirações européias à liberdade, à evolução e ao progresso, é o resultado dos avanços não mais restritos às classes dominantes, mas que serão compartilhados no destino coletivo da humanidade. Constrói-se então aqui um contraponto ao destino individual que não faz parte das crenças do autor.
Cumpre-nos destacar a construção de belas e peculiares metáforas em relação ao jornal que transformam o autor (Machado) em futurista, pois, a partir do surgimento da imprensa escrita, ele prevê seu crescimento, seu desenvolvimento e expansão até o estágio atual. Destacamos algumas: “asas de águia que se lança no infinito”; “horizonte largo às aspirações cívicas, às inteligências populares”; “clarão deste fiat humano”, reconhecendo assim a posição grandiloqüente que Machado de Assis confere/dispensa ao jornal.
Seguimos a louvação de Machado ao jornal em seus primeiros tempos e à sua luminosidade aproximando a uma reflexão de Ricoeur (1990, p. 44) cujo significado atribuímos ao jornal enquanto texto que pretende comunicação: “O texto é, para mim, muito mais que um caso particular de comunicação inter-humana: é o paradigma do distanciamento na comunicação”. Para Ricoeur o texto passa a existir realizando-se em dois pólos dialéticos que são o caráter do evento do discurso e o da significação. Ambos explicitados em outros termos por Machado de Assis no momento em que optou por dizer que o jornal instalou uma reforma na sociedade, a
significação evidencia-se na discussão, no questionamento, na leitura diária e atenta, na comunhão do alimento espiritual que o autor empresta ao jornal.
Pereira (1955, p. 73) transpõe a motivação latente que Machado nutria pelo jornal: partindo de um artigo intitulado “A reforma pela imprensa” em que deixava bem patente as tendências liberais, louvando o jornal pela sua ação democratizante, declarando-se adversário das aristocracias, porém, em outro período, comentou que não possuía opiniões “fixas nem determinadas”, quando fora convidado para trabalhar no Diário do Rio de Janeiro pelo amigo Quintino Bocaiúva.
Roberto Schwarz (1977, p. 63) alinha-se na mesma perspectiva de Pereira, pois reconheceu a filiação de Machado de Assis às idéias liberais, resultando assim um discurso do progresso e da igualdade.
Faz-se necessário reconhecer a apropriação quotidiana do jornal enquanto meio de comunicação de massa. Contudo o próprio autor reconhece em um outro texto que as pessoas que dominam a leitura e a escrita compõem um grupo reduzido no país: “E por falar neste animal [o burro], publicou-se há dias o recenseamento do Império, do qual se colige que 70% da nossa população não sabem ler. [...] A nação não sabe ler”.
Então o entusiasmo com o jornal é questionável, pois há uma grande parcela da população que ainda não usufrui desse avanço, que é a informação e a cultura advinda das páginas do jornal.
Sabemos que o período do surgimento do jornal, no século XVII, na Europa “aumentou a ansiedade sobre os efeitos da nova tecnologia”, segundo Briggs e Burke (2004, p. 28), e que era louvado por alguns e contestado por muitos outros.
Marlise Meyer (1992, p. 456) revela o modo de circulação dos jornais e de livros no Rio de Janeiro imperial que, através do empréstimo, multiplica o número de leitores, porém reduz o lucro dos editores, que conclamam os leitores a não emprestarem seus periódicos. O redator L. H. citado pela autora em 1882 escreveu:
[...] não há talvez país nenhum no mundo em que emprestem livros e jornais com tamanha profusão como entre nós.
O tendeiro que assina o Jornal do Comércio, não julgue a leitora que o faça para recreio seu, mas sim para o emprestar a vinte ou trinta famílias, que o reclamam vinte ou trinta mil vezes na roda do dia.
As palavras do cronista sintonizam com o aspecto multiplicador que o jornal vem operar na população: “Com o jornal eram incompatíveis esses parasitas da
humanidade. [...] O jornal tende à unidade humana. [...] É fácil prever um resultado favorável ao pensamento democrático”.
Dessa forma, a prática do empréstimo condenada pelo editor preocupado, é lógico, com o lucro da venda de suas publicações, desempenha o papel de tornar cada homem, cada mulher mais cidadão, embora o próprio cronista reconheça o reduzido número de leitores em potencial no período.
Então temos o fascínio do cronista com o advento do jornal comparando-o ao FiatLux da criação. A função de irmanar a humanidade também é uma característica do jornal. O cronista confere importância ímpar à palavra como manifestação dos anseios do homem do Gênesis até a publicação de livros com o surgimento da imprensa, invento de Gutenberg (século XV).
Destacamos ainda as idéias liberais defendidas por Machado e a difusão da cultura e da informação para a massa, um traço democrático do jornal. Entretanto há uma reduzida parcela da população que pode usufruir da leitura, conforme dados do período apenas 30% da população é alfabetizada.