Capítulo II: Transformar ou Maquilhar?
II.3. A Reforma Prisional de 1954:
Em 1954 o Código Penal Português de 1886 estava ainda em vigor em conjunto com as várias alterações que lhe foram feitas e, apesar de a Reforma Prisional de 1936 referir a necessidade de ser criado um novo Código, em 1954 os estudos para a sua redacção não tinham ainda sido sequer iniciados. Por esse motivo, sentia-se uma grande contradição entre as penas do Código Penal e a realidade da sua execução, por não fazerem já sentido penas como os castigos físicos ou o degredo.
«E, por isso, parece de grande utilidade o esclarecimento da natureza das penas e definição do seu regime e duração, clarificando o sistema penal, agora custosamente extraído de uma multiplicidade de diplomas legais, oriundos de princípios e atinentes a objectivos diferentes.»176
Para evitar o longo trabalho de redigir um Código Penal tinham vindo a ser publicados uma série de decretos e de portarias que pretendiam colmatar essas falhas, regulamentando a aplicação das penas de acordo com as necessidades que surgissem e consentâneas com a Reforma Prisional de 1936. A Reforma Prisional de 1954 surge então devido à necessidade de clarificar o sistema penal e de organizar a abundância de textos legais que foram aparecendo, por vezes contraditórios entre si. O seu principal objectivo prende-se com a adaptação de conceitos desactualizados. Como tal, difere pouco da Reforma de 1936, pois pretende apenas criar uma escala de penas que corresponda efectivamente ao que havia sido estabelecido pela primeira reforma.
«Mais do que a conveniência a necessidade urgente de integração no Código Penal de um novo sistema penal revela-se na enumeração das escalas das penas que se sucederam em vigor após a publicação do Código Penal de 1852 e na exposição sucinta do sistema actual.»177
Como referido no primeiro capítulo, a Reforma Prisional de 1936 estabelece as cadeias comarcãs (para cumprimento de penas até três meses), as cadeias centrais (para penas superiores a três meses) e as penitenciárias (para penas de prisão maior). A Reforma
175 Decreto-Lei n.º 39.688, de 5 de Junho de 1954. 176 Decreto-Lei n.º 39.688, de 5 de Junho de 1954. 177 Decreto-Lei n.º 39.688, de 5 de Junho de 1954.
Prisional de 1954 mantém essa mesma escala de penas, alterando apenas os tempos de cada uma. Assim, as cadeias comarcãs passam a servir para o cumprimento de penas até seis meses e as cadeias centrais para penas superiores a seis meses.
Em relação às penitenciárias reafirma a necessidade de serem de tipo agrícola ou industrial, devido à importância que continua a ser dada à obrigação ao trabalho para todos os condenados a penas privativas de liberdade. É também neste sentido que se decreta a possibilidade de ocupar os presos em trabalhos fora das prisões, para execução de obras públicas ou de interesse público, com remuneração. Assim, são criados os campos de trabalho e as brigadas de trabalho, que serão uma parte importante do sistema penal daqui em diante, especialmente nas colónias178. Estas serão aplicadas aos africanos
por se considerar crueldade excessiva a sua permanência em regime celular, se o problema da «delinquência indígena» era consequência do desrespeito pela soberania portuguesa, então, a sua reabilitação só poderia ser obtida através do trabalho que ajudaria a incutir essa mesma soberania, ao passo que a pena intimidativa consistia no seu afastamento da sua residência e comunidade.
A prisão correccional passa a denominar-se simplesmente de prisão, pois era considerado que todas as prisões portuguesas tinham o objectivo da reabilitação, a prisão maior, por outro lado, absorve completamente a prisão maior celular e o degredo. A abolição legal de todas as formas existentes de degredo seria uma das transformações mais importantes desta Reforma, no entanto, à semelhança do que acontecera em 1932 e em 1936 a supressão do degredo não é total.
Todas as penas de degredo são substituídas por penas de prisão, mas as medidas de segurança passam a permitir a aplicação do desterro para os mais variados crimes. Como tal, deixa realmente de ser possível deportar pessoas de Portugal continental para as colónias, mas continua a ser possível a aplicação dos mesmos objectivos do degredo: o afastamento de um indivíduo da sua comunidade através do desterro que, nas colónias,
podia implicar a fixação de residência em outra colónia que não aquela onde havia sido cometido o crime179.
As principais mudanças efectuadas pela Reforma de 1954 são feitas para passar a considerar as medidas de segurança como uma das penas principais, sendo que já estavam contempladas na Reforma de 1936 mas em menor escala. Mudam-se os títulos de várias secções do Código Penal para «Das penas e seus efeitos e das medidas de segurança», bem como a alteração de alguns artigos que passam a ter a redacção «para prevenção e repressão dos crimes haverá penas e medidas de segurança». Estas medidas poderiam ser a caução de boa conduta, a interdição do exercício de profissão ou ofício, a liberdade vigiada e ainda o internamento em casa de trabalho, em colónia agrícola ou em manicómio criminal. Os tribunais podiam decidir aplicar medidas de segurança aos que considerassem vadios180 ou mendigos181, aos que vivessem total ou parcialmente da prostituição, aos que facilitassem a aquisição ou venda de objectos furtados, aos que favorecessem a depravação ou a corrupção de menores, aos que «têm vícios contra a natureza» e aos condenados por «crimes de associação de malfeitores, quadrilha ou bando organizado», como era o caso dos militantes do PCP e dos movimentos de libertação africanos. Em certa medida, podiam ser aplicadas a todos os que o Governo considerasse indesejáveis.
Passa ainda a permitir que todas as penas de prisão aplicadas a «delinquentes perigosos e de difícil correcção» possam ser prorrogadas por períodos sucessivos de três anos, até que o condenado «mostre idoneidade para seguir vida honesta». Em nenhum momento determina a que corresponderiam as características de idoneidade, ficando essa tarefa nas mãos dos juízes, que eram nomeados pelo Governo, logo, ficava nas mãos do Governo decidir ou não libertar estes prisioneiros, que poderiam ficar indeterminadamente encarcerados.
179 «Art. 62.º A pena de desterro obriga o réu a permanecer em um lugar determinado pela sentença no
continente ou ilha em que o crime for cometido ou a sair da comarca por espaço de tempo de três meses a três anos» in Decreto-Lei n.º 39.688, de 5 de Junho de 1954.
180 Eram considerados vadios os indivíduos que, com mais de 16 anos e menos de 60, sem terem
rendimentos não exercitem habitualmente alguma profissão ou mester em que ganhem a sua vida e não provem necessidade de força maior que os justifique de se acharem nestas circunstâncias.
181 Eram considerados mendigos os que, aptos a ganhar a vida pelo trabalho, se dedicassem
Se na Reforma de 1936 se preocupam em definir as penas para os considerados presos políticos, a Reforma de 1954 concentra-se nos «presos difíceis», que deveriam, à semelhança dos presos políticos, cumprir pena em prisões especiais.
Na Reforma de 1936 há uma clara preocupação com a construção de edifícios, que eram insuficientes e em desacordo com os novos objectivos, em 1954 esta questão não constitui já um problema, pede-se que sejam utilizados os estabelecimentos já existentes e que os prisioneiros sejam distribuídos por estes de acordo com a sua personalidade.
Apesar de não se debruçarem muito sobre a aplicação da reforma nas colónias, pois a maior parte seria regulada pelo Estatuto do Indigenato ou por Portarias especiais, não deixa de ser sublinhada a diferenciação entre europeus e africanos e a necessidade da sua separação. Se para os europeus a intimidação penal tinha em vista a reabilitação, para os africanos tinha em vista a assimilação.
A convite de Sarmento Rodrigues e financiado pelo Ministério do Ultramar, Adriano Moreira visita as colónias portuguesas em África, em 1953, para elaborar o projecto de reforma do sistema prisional do Ultramar. Começara a leccionar na Escola Superior Colonial no ano lectivo de 1950-1951 e candidata-se ao cargo de professor ordinário com a dissertação O Problema Prisional do Ultramar (1954), publicação que deriva da sua investigação nas colónias e na qual conclui que o sistema prisional devia continuar a servir a acção colonizadora e «civilizadora» e que devia ser cumprida a total separação dos criminosos «não-indígenas» dos «indígenas», sugerindo que estes últimos sejam colocados preferencialmente em colónias agrícolas e em aldeamentos onde pudessem constituir famílias monogâmicas e hábitos de vida «ocidentalizados», o que viria a ser concretizado especialmente a partir de 1961 com a criação das regedorias, sob alçada do seu ministério182.
Conclui que o sistema prisional devia continuar a servir a acção colonizadora e civilizadora e que a deportação devia ser o inverso do que se vinha a praticar, ou seja, os
criminosos brancos nas colónias deviam ser deportados para a metrópole e não os da metrópole para as colónias, sugestões que são colocadas em prática.