2.2 Alterações legislativas (in)eficientes
2.2.2 A reforma trabalhista de 2017
A Lei nº 13.467 de 2017, foi uma reforma significativa na CLT, com o objetivo de combater a crise econômica no país e o desemprego. O projeto de lei foi proposto pelo
Governo Federal da época – Michel Temer –, com apoio maciço da classe empresarial e de diversos economistas, entretanto, a mudança legislativa foi criticada pelo Ministério Público do Trabalho, pela Central Única dos Trabalhadores e pela Organização Internacional do Trabalho. Nesse contexto, foram alterados mais de 100 artigos da legislação trabalhista, sendo que os pontos que mais chamam a atenção são da terceirização e das mudanças referentes aos acordos coletivos em prevalência sobre a lei.
O projeto de lei parte da premissa que a mudança do direito geraria empregos e o estancamento da crise econômica vivida pelo país, entretanto, isso não foi constatado após quase dois anos da sua vigência. O novo padrão de regulação do trabalho, expõem que as promessas se mostraram totalmente equivocadas, como também, praticamente não há existência de impulso da atividade econômica, sendo perceptível a deterioração das condições laborais no Brasil. Nesse contexto, os efeitos são devastadores para o obreiro sem qualquer conhecimento jurídico, limitando seu acesso à Justiça do Trabalho e, aumentando exponencialmente a informalidade.
A terceirização foi uma das alterações realizadas, que consiste na permissão de uma empresa transferir para outras suas atividades-meio – a qual já era permitido na legislação – e suas atividades-fim, com o objetivo de diminuição de custos. Esse processo foi implantado de forma gradativa na legislação pátria, devido ao grande investimento empresarial feito no país, em busca de menores burocracias. Cabe ressaltar, que a terceirização já havia sido mencionada pela Lei n. 13.429 de 2017, sendo anterior a reforma trabalhista, porém, de forma menos extensiva.
Assim, a equipe de sistematização do Centro de Estudo Sindicais e de Economia do Trabalho – CESIT, do Instituto de Economia – IE e da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP (2017, p. 39) ressaltaram que:
Para reduzir seus custos, as empresas poderão transferir parte ou todo o processo produtivo, que poderá ser realizado dentro ou fora de suas dependências. É grande, pois, a probabilidade de que todas as ocupações que não necessitam de qualificação ou se configuram como trabalho não especializado serão terceirizadas, especialmente nas categorias profissionais em que as normas coletivas proporcionaram avanços salariais e benefícios significativos, como vale alimentação e refeição, auxílio creche, ampliação da licença maternidade, entre outras. Esses benefícios se restringirão as pessoas cuja atividade é definida pela empresa como essencial para o seu
negócio, transferindo o restante para uma prestadora de serviços cuja atividade econômica não corresponderá, necessariamente, à mesma da tomadora de serviços. Nesse movimento, os jovens e as mulheres tendem a ser os primeiros a terem seus postos de trabalho eliminados, as mulheres por estarem nas ocupações mais facilmente transferíveis e os jovens porque seu ingresso no mercado de trabalho se dará através de uma terceirizada.
Consequentemente, a terceirização tem mascarado situações intensas de exploração, rompendo vínculos empregatícios diretos, ao mesmo tempo em que se apropria de trabalho com menor qualificação em categorias mal organizadas coletivamente e mais vulneráveis. A precariedade não é enfrentada pelos mecanismos institucionais e há uma expectativa de que essa flexibilidade outorgue ao trabalhador maior autonomia quanto à organização da sua vida em geral. Com efeito, a terceirização também se materializa na reprodução da escravidão nas suas formas contemporâneas, pois, grande parte dos obreiros em situação análoga à escravidão estão em regime terceirizado (KREIN; GIMENEZ; DOS SANTOS, 2018).
Um segundo ponto alterado pelo projeto lei que chama a atenção, é a prevalência de acordos coletivos e individuais sobre à legislação. Havia o objetivo de gerar menos burocracia – para os empregadores – e a promessa de reduzir o desemprego e evitar dissídios trabalhistas, na medida em que modernizaria e flexibilizaria as negociações entres as partes na relação de emprego. Entretanto, como alertado por diversos profissionais da área, isso produziria insegurança aos trabalhadores ao negociar de forma direta com o empregador, pois, o empregado sozinho, não possui a força econômica consigo.
Deste modo, Krein, Gimenez e Dos Santos (p. 103) fazem um alerta quanto ao problema estrutural da mudança legislativa:
A reforma trabalhista não traz perspectiva de resolver esse problema estrutural, mas tende a agravá-lo ao difundir formas de contratação atípicas, institucionalizar formas precárias de contratação e baratear os custos da despedida com os “acordos” diretos e a não realização da homologação nos sindicatos.
Tal como, esse modo de prevalência não fortalece a negociação, pois os trabalhadores são forçados a abrir mão de direitos e a aceitar acordos rebaixados, como também utilizado para evitar o acesso ao judiciário. Sendo que a classe obreira não possui sozinha força suficiente para enfrentar o poder econômico, que gera os efeitos laborais. Esse movimento observado nessas categorias é referendado pela reforma, que busca estabelecer o local de
trabalho como novo espaço de negociação, esvaziando as prerrogativas sindicais (KREIN; GIMENEZ; DOS SANTOS, 2018).
Naturalmente, para as matérias da reforma trabalhista se concretizarem, foi necessário um breve enfraquecimento da Justiça do Trabalho. Segundo Krein (2018, p. 95), foi preciso “colocar limitações a todas as instituições que impõem freios à acumulação capitalista ou limites à liberdade dos empregadores de manejar a força de trabalho de acordo com suas necessidades”. Assim, a reforma trouxe mudanças substantivas, porém, o embate em torno da regulamentação do trabalho continua sendo sentido atualmente, tornando-se possível ter noção dos impactos dessa mudança legislativa.
Porquanto, as motivações políticas e econômicas desse projeto de lei sempre foram cristalinas, e com a mesma argumentação de produção de empregos, desburocratização e a alegação que a CLT é um documento legal “fascista”. Ainda, conforme a classe trabalhadora possui ampla dificuldade do acesso à Justiça do Trabalho, os empregadores sentem-se estimulados a fomentar a informalidade, com o objetivo de ganhos econômicos. Em resumo, o trabalhador fica em condição de maior vulnerabilidade na questão da relação trabalhista, para que se sujeite a lógica da concorrência com outros para poder se inserir no mercado.
Do mesmo modo, após quase dois anos de vigência da reforma trabalhista, a recuperação econômica é insignificante, mesmo com o resultado positivo de 2017 e 2018. Igualmente, o ano de 2019 é bastante complicado, mostrando uma desaceleração que pode se desdobrar em recessão ou até crise econômica, sendo um cenário bastante pessimista. No entanto, repara-se que as taxas acumuladas demonstram nitidamente que o consumo do núcleo familiar e das exportações são responsáveis pelo pequeno crescimento econômico do Brasil nos últimos dois anos.
Logo, Krein, De Oliveira e Filgueiras (2019, p. 63) ressaltam que:
[...] é um paradoxo esperar que a reforma trabalhista que flexibiliza direitos e gera vulnerabilidades pelas suas múltiplas formas de contratação possa alavancar a atividade econômica, uma vez que o consumo das famílias, que responde por 64% do PIB, será imediatamente afetado pelo efeito de postos de trabalho mais precários e inseguros com impacto sobre a demanda agregada. Decisões sobre gastos serão adiadas ou inviabilizadas frente ao contexto de instabilidade.
Outro dado importante, é o aumento da informalidade trabalhista – outra promessa da mudança legislativa – na qual iria diminuir após a flexibilização de direitos. Inclusive, a reforma trabalhista colaborou para o aumento exponencial da informalidade, com salvo conduto em títulos como o “trabalho autônomo”, com menor risco de dissídio trabalhista. A persistência da informalidade é, provavelmente, a alternativa à implementação das modalidades de contrato inspiradas nos processos internacionais de flexibilização e precarização das relações de trabalho.
Com isso, Mariana Bomfim, jornalista do Uol Economia, realizou um estudo acerca dos dados relativos ao mercado de trabalho, que atestam o crescimento significativo da informalidade no período – em novembro de 2018 contabilizaram-se 11,5 milhões de trabalhadores prestando serviços por conta própria ou sem carteira de trabalho, contra os 10,979 milhões verificados em novembro de 2017.
Vale ponderar, além disso, que a conjuntura de quase estagnação econômica e altas taxas de desemprego e informalidade favoreceram o lado dos empregadores, nas mesas de negociação. A alta informalidade que historicamente assola o mercado de trabalho brasileiro faz com que um percentual pequeno de trabalhadores seja representado por sindicatos (KREIN; OLIVEIRA; FILGUEIRAS, 2019).
Ademais, a alegação que a mudança de direitos gera empregos, se mostra totalmente errada, como diversos juristas e órgãos alertaram, em que a reforma trabalhista beneficiaria apenas a classe patronal. Ao se analisar todas as experiências que outros países tiveram com reformas nestes moldes, mostram o fracasso quanto ao enfraquecimento dos trabalhadores. Nesse contexto, Krein, Gimenez e Dos Santos (2018, p. 187) asseveram que:
De todo modo, restará claro que os argumentos pró-flexibilização das leis trabalhistas não passam de uma falácia: a experiência europeia permite afirmar que – em todos os casos investigados – a redução da proteção ao emprego falhou em trazer quaisquer benefícios econômicos. se, por um lado, não se verificaram aspectos positivos após as reformas, são amplas as evidências de que as reformas trabalhistas trouxeram o aumento do emprego precário e a piora na segmentação do mercado de trabalho. Ao se analisarem os resultados obtidos em países da Europa e da América Latina, não restará dúvidas de que, se houve algum resultado a se destacar das reformas trabalhistas, salta aos olhos a deterioração das condições de trabalho, um
processo que se manifesta por meio de oportunidades cada vez mais escassas de se encontrar um emprego seguro, decente e bem remunerado.