• Nenhum resultado encontrado

4. AS REGRAS DA PROVISÃO PARA CRÉDITOS DE LIQUIDAÇÃO DUVIDOSA

4.3. A regra de provisionamento adotada pelo SFN

É atribuição do Banco Central disciplinar o funcionamento e as práticas do sistema financeiro no sentido de assegurar a liquidez e solvência das instituições integrantes, já que, na prática, sua sobrevivência depende da confiança de aplicadores e depositantes. Desse modo, é sua responsabilidade garantir que as empresas desse segmento dispensem tratamento adequado aos riscos a que estão sujeitas, sobretudo ao risco de crédito.

A primeira medida nesse sentido, adotada pelo Bacen logo após a sua criação por ocasião da reforma de 1964, foi a limitação da alavancagem das instituições financeiras, então considerada como o principal fator de risco. Determinou-se, então, que o valor da carteira de crédito de um banco seria limitada a doze vezes o valor de seu patrimônio líquido, ou seja, o contingenciamento foi a alternativa adotada para prevenir as empresas desse segmento quanto ao risco de crédito.

No SFN, a regra para o cálculo da despesa com a PCLD segue a diretriz do Acordo de Basiléia, sendo regulamentada pelo CMN através da Resolução n. 2.682 do Banco Central. Essa norma se caracteriza pelo rigor em relação não só à que vigorava anteriormente, como também à equivalente adotada em outros países também signatários do Acordo de Basiléia.

77

De acordo com o art. 1º. dessa Resolução, as instituições financeiras são obrigadas a classificar as operações de crédito em ordem crescente de risco, no intervalo de AA a H, com base na avaliação de risco do cliente e da operação, em que devem estar contemplados os aspectos abordados no item 3.3 deste estudo.

Dentre os principais aperfeiçoamentos introduzidos por essa regulamentação está o fato de que a inadimplência de uma única operação poderá obrigar o banco a provisionar todas as demais operações da mesma empresa, bem como, caso integre grupo econômico, as operações das demais empresas do grupo que opere no banco. O art. 3º, que prevê essa situação, abre exceção apenas para as operações que, pelas características de suas garantias, especialmente quanto à liquidez, minimizem o risco de inadimplência.

Quanto à periodicidade em que deve ser revista a classificação de risco da operação, o art. 4º da Resolução n. 2.682 determina que a revisão deve ocorrer em duas situações distintas e independentes, quais sejam:

a) Mensalmente, por ocasião dos balancetes e balanços, em função de atraso verificado no pagamento de parcela de principal ou de encargos, conforme detalhado no Quadro 12.

Nível Atraso Máximo (*) (Dias) Provisão Mínima (%)

AA 0,0 A 0,5 B 15 a 30 1,0 C 31 a 60 3,0 D 61 a 90 10,0 E 91 a 120 30,0 F 121 a 150 50,0 G 151 a 180 70,0 H superior a 180 100,0 Quadro 13 – Níveis de classificação de risco, conforme a Resolução n. 2.682.

Fonte: Adaptado da Resolução n. 2.682 do Banco Central do Brasil (BRASIL, 2005d). (*) Para operações com prazo a decorrer maior que 36 meses, admite-se a contagem em dobro e desses atrasos.

78

b) A cada período de seis meses, em função de nova avaliação do risco-cliente, quando se tratar de operações de mesmo cliente ou grupo econômico com saldo total superior a 5% do Patrimônio de Referência, representado pelo somatório do capital Nível I com o capital Nível II, ou a cada período de doze meses nas demais situações.

Ainda com relação à classificação de risco da operação, o art. 8º prevê que a operação objeto de renegociação deve ser mantida, no mínimo, no mesmo nível de risco em que estiver classificada, observando que aquela registrada como prejuízo deve ser classificada como de risco H, isso porque pela Resolução n. 1.748/90,

anterior à vigência da Resolução n. 2.682, o fato de a operação ser renegociada já propiciava a dispensa da contabilização da provisão e conseqüente reversão da despesa anteriormente contabilizada.

O art. 7º determina que uma vez a operação classificada no nível H, a baixa do ativo ou a transferência para conta de compensação, com o correspondente débito em provisão, somente deve ocorrer seis meses após a sua classificação nesse nível. Após seu registro em conta de compensação, deve permanecer ali por um prazo mínimo de cinco anos, e enquanto não esgotados todos os procedimentos para cobrança.

No tocante ao reconhecimento de receitas, o art. 9º veda esse procedimento em operações de crédito que apresentem atraso igual ou superior a sessenta dias, no pagamento de parcela de principal ou encargos. No caso da Resolução n. 1.748/90, somente era vedado o reconhecimento de receitas geradas pelas parcelas em atraso.

Por ocasião dos balancetes mensais, a contabilização da Provisão para Créditos de Liquidação Duvidosa obedece à seguinte sistemática:

Suponha que no balancete do mês X1 os saldos das contas relativas ao crédito concedido por um banco sejam as seguintes:

79

Tabela 5 – Dados para o cálculo da provisão

CONTA7 NOME VALOR (R$ mil)

1.6.0.00.00-1 OPERAÇÕES DE CRÉDITO 50.500 1.6.9.00.00-8 (-) PROVISÕES PARA OPERAÇÕES DE CRÉDITO (4.200) 3.1.1.10.00-0 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL AA 12.000 3.1.2.10.00-3 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL A 10.000 3.1.3.10.00-6 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL B 8.000 3.1.4.10.00-9 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL C 7.000 3.1.5.10.00-2 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL D 6.000 3.1.6.10.00-5 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL E 4.000 3.1.7.10.00-8 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL F 2.000 3.1.8.10.00-1 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL G 1.000 3.1.9.10.00-4 OPERAÇÕES DE CRÉDITO NÍVEL H 500 9.1.1.10.00-2 CARTEIRA DE CRÉDITOS CLASSIFICADOS (50.500) Fonte: Freire Filho (2002, p. 89).

No exemplo em questão, a instituição financeira contabiliza as provisões pelos percentuais mínimos relativos ao nível de risco de crédito. O procedimento começa com a verificação do saldo das provisões existente na conta 1.6.9.00.00-8, posição do balancete anterior, para atestar sua adequação ao nível de risco das operações de crédito na posição atual. Para tanto, calcula-se o valor da provisão para cada um dos níveis de risco, obtendo-se, ao final, o valor total da provisão, que será comparado com o saldo de provisão da posição anterior, da seguinte forma:

Tabela 6 – Cálculo do valor a ser provisionado NÍVEL DA

OPERAÇÃO VALOR (crédito concedido) % de Provisionamento Provisionado Valor a ser

AA 12.000 0,0 0 A 10.000 0,5 50 B 8.000 1,0 80 C 7.000 3,0 210 D 6.000 10,0 600 E 4.000 30,0 1.200 F 2.000 50,0 1.000 G 1.000 70,0 700 H 500 100,0 500 TOTAL 50.500 4.340 Fonte: Freire Filho (2002, p. 89).

7 Contas extraídas do PLANO CONTÁBIL DAS INSTITUIÇÕES DO SISTEMA FINANCEIRO

NACIONAL (COSIF).

80

Utilizando-se o exemplo de Freire Filho (2002), o saldo de provisão existente no balancete anterior é de R$4.200,00, e o valor atual calculado é de R$4.340,00, chegando-se, portanto, a uma necessidade adicional de provisão da ordem de R$140,00 (R$4.340,00 – R$4.200,00).