1.4 A teologia levítica
1.4.1 A reinterpretação de Levítico 20,13 (Sitz im Leben)
A proposta apresentada pela literatura Levítica é retratada a partir da separação racial de toda uma nação, que condena toda a prática sexual familiar em meio ao discurso de santidade apresentado pela comunidade do pós-exílio (17-26). A narrativa em Levítico 20,13 possui um estilo narrativo com caráter propriamente legislativo, o que reforça a sua construção baseada em leis e proibições. O vocábulo é de fácil entendimento por se tratar de um trecho pequeno e devido a sua aplicação penal. Desta forma, o texto nos oferece subsídios para que possamos entender que o sexo entre iguais era realmente condenado no período do pós-exílio babilônico, devendo apenas esta análise, estar permeada em todo o seu contexto histórico.
Segundo Cardoso (2001, p. 13,14) existem algumas implicações em relação à aplicação da morte no recorte em 20,13 de Levítico, como uma possível influência do código de Hamurabi,52por se tratar de um escrito bem mais antigo do que os textos
bíblicos, e que regulava todos os aspectos da vida social babilônica, tais como: comércio, família, propriedade, escravidão, herança etc. O código de Hamurabi tinha como destaque a famosa expressão “olho por olho e dente por dente”, podendo estar relatada mesmo que de forma indireta com os escritos Levítico em 20,13 em que a morte passa a ser a referência desta expressão. No entanto, O Código de Hamurabi (1.750 a.C.) e o Código Draconiano (621 a.C.) já previam a morte como pena para diversos delitos. O Velho Testamento também previa a morte para mais de 30 condutas como a fornicação, infidelidade, pederastia e assassinato (PINHEIRO, 2015, p. 1).
O entendimento contemporâneo em relação à homossexualidade, não tem a morte como punição primária a tal prática, mas é retratada como um ato imoral e antissocial, levando o indivíduo ao menosprezo pela descriminalização dos seus atos. Além disso, a intolerância anti-homossexual, é influenciada diretamente em meio a interpretações de textos Sagrados, a fim de envergonhar e difamar os praticantes da homossexualidade em nosso período hodierno.
Alguns grupos religiosos pós-modernos,53procuram em ofender os praticantes
da homossexualidade, relatando episódios bíblicos que fazem jus às suas maleficências. Os mais contidos, traduzem a homossexualidade como um ato de infecundidade, e que a existência do pecado estaria relacionada à não procriação. Não podemos esquecer que os heterossexuais estéreis, a bestialidade, a masturbação, e às práticas anticonceptivas, sejam elas por meio da interrupção do
52 Código de Hamurabi, representa o conjunto de leis escritas, sendo um dos exemplos mais bem preservados desse tipo de texto oriundo da Mesopotâmia. Acredita-se que foi escrito pelo rei Hamurabi, aproximadamente em 1772 a.C. Foi encontrado por uma expedição francesa em 1901 na região da antiga Mesopotâmia, correspondente à cidade de Susa, no sudoeste do Irã. As 281 leis foram talhadas numa rocha de diorito de cor escura. Escrita em caracteres cuneiformes, as leis dispõem sobre regras e punições para eventos da vida cotidiana. Os arqueólogos apresentam, além da data de 1792 a.C., as de 1848 e 1728 a.C. como possíveis para o ano em que Hammurabi começou a reinar (ARCHER JR, 1999, p. 130). Já Merril Unger em “Arqueologia do Velho Testamento” data a época do reinado de Hamurabi de 1728 a 1676 a.C. sendo seu famoso Código de c. de 1700 a.C. [Nota de rodapé] (MOURA, 2006, p. 19,20).
53 Existem diversos autores que tentaram definir pós-modernidade, mas não há um consenso sobre essa definição. Alguns autores nem utilizam a expressão pós-modernidade para definir o momento contemporâneo que estamos vivendo. Por exemplo, Bauman (1998, 2005) denomina de modernidade líquida, Giddens (1991, 2002) usa a expressão modernidade tardia (DE SOUZA, 2012, p. 270-271). Contudo, utilizaremos a expressão pós-modernidade ao nos referir ao nosso período contemporâneo.
coito ou pela utilização de pílulas abortivas, também estão inseridas neste mesmo contexto de entendimento, e eram consideradas na concepção primitiva e pré- científica da procriação humana como um aborto ou até mesmo a um assassinato (HUTCHINSON, 2007).
A prática homossexual inserida na literatura Neotestamentária expressa o amor entre homens, descrevendo talvez a homossexualidade feminina uma única vez, como encontradas nos registros Neotestamentários em Romanos 1,26. Segundo Gerstenberger (1999, p. 15) provavelmente o tratamento diferenciado dado às práticas homossexuais entre homens e mulheres, poderia ser causado pelo desinteresse ou pela ignorância dos homens guardiões das tradições nos tempos antigos. Certamente, estes, não se importavam com tais práticas, pois consideravam o comportamento feminino não significativo em termos cultuais, e que cabia somente ao homem a responsabilidade do culto a Yahweh. Eram estes homens que se aproximavam do altar, a fim de oferecerem sacrifícios a Yahweh.
No período pós-moderno, o termo usual dado à discriminação em relação a homossexualidade é a “homofobia”,54este termo é utilizado tanto para homens para
mulheres. A homossexualidade feminina em tempos hodiernos, é tão recriminada quanto a masculina. Qualquer discurso atribuído à homossexualidade, é descrito tendo como ator principal o homem. Assim, os maiores exemplos e a máxima discriminatória recaem sobre os ombros da comunidade masculina. Welzer Lang (2001, p. 2) desenvolveu o seu entendimento em relação ao formato da dominação masculina sobre as mulheres, tanto de forma coletiva quanto individual. Esta dominação masculina está ligada tanto na perspectiva da esfera pública quanto na esfera privada, proporcionado certos privilégios ao homem, podendo estar relacionada ao estupro, traduzindo acontecimentos de dominação desde a antiguidade.
Talvez, este domínio existencial do masculino sobre o feminino possa se traduzir na possibilidade da relação homoerótica masculina ser mais discriminada em
54 Creio oportuno inicialmente lembrar que o termo “homofobia” é um neologismo cunhado pelo psicólogo clínico George Weinberg (1972), que agrupou dois radicais gregos homo, pseudoprefixo de homossexual e phobos para definir sentimentos negativos em relação a homossexuais e às homossexualidades. Com esse sentido, o termo costuma ser empregado quase que exclusivamente em referência a conjuntos de emoções negativas (tais como aversão, desprezo, ódio, desconfiança, desconforto ou medo) em relação a pessoas homossexuais ou assim identificadas. (JUNQUEIRA, 2012, p. 3). Autores como Jurandir Freire Costa (1992 e 2000, 113-122) e John H. Gagnon (2006, p. 372) consideram impróprio o uso dos termos “homossexualidade”, “homossexualismo” e “homossexual”. Sem discordar deles, emprego aqui o primeiro e o último (juntamente com “homoerotismo” e os seus derivados), não só para manter certa uniformidade lexical, mas por não saber como evitá-los sem dificultar a leitura. [Nota de Rodapé] (JUNQUEIRA, 2012, p. 4).
relação ao lesbianismo. A homossexualidade nos dias atuais, é vista com repulsa, devido ao fato do homem reproduzir toda a feminilidade destinada a mulher, assim, o travestismo e a feminilidade masculina deva ser a grande problemática em relação às práticas homossexuais da pós-modernidade. O problema atual da homossexualidade, não está fundamentada na prática em si, mas nas atitudes que permeiam os olhos de uma sociedade que luta em não aceitar que um homem possa se “passar por mulher” durante a prática homossexual masculina.
A utilização do termo abominação em relação às práticas homossexuais inseridas no contexto de Levítico 20,13 é entendida hodiernamente como um ato hostil, e que pode ser traduzida como algo terrível e maléfico, como no caso da expressão “o abominável homem das neves”55. Portanto, o recorte desta pesquisa,
traduz todo o nosso entendimento hodierno em que a prática homossexual se torna algo desprezível e repugnante, um ato que deve ser condenado. Não podemos deixar de relatar que tanto a homossexualidade (Lv 20,13) quanto a heterossexualidade (Lv 20,10), estão inseridas no mesmo contexto condenatório, tendo a morte como prerrogativas a estas práticas.
Corroborando com esta análise, verifica-se que a prática homossexual na atualidade é amplamente discriminada, pois reproduz conceitos sociais que atribuem estes atos como repugnantes e imperdoáveis. Em nossa sociedade, a sexualidade passa a representar o caráter de cada indivíduo.
Portanto, podemos dizer que o julgamento dado à prática homossexual depositada na Bíblia hebraica parte de uma compreensão que não é a nossa. O entendimento em relação à homossexualidade a partir da construção da Bíblia hebraica está relacionado à idolatria, prostituição cultual e dominação (escravidão). Segundo Schneider, a Bíblia desconhece a prática homossexual entre parceiros iguais que tenham os mesmos direitos e consintam quanto à sua ação. Entretanto, não podemos aplicar a rejeição bíblica da prática homossexual sem restrições à nossa realidade contemporânea (1999, p. 70).
Quando se fala da relação entre cristianismo histórico e sexualidade se alude a um tema sumamente complexo. É difícil englobar em uma afirmação unitária posições tão diversas como se deram em diferentes épocas da Igreja, e ainda dentro de cada época, nos diferentes estágios que integram o
55 O “abominável” neste contexto se torna algo mau. O abominável homem das neves é tratado como um ser sanguinário capaz de cometer maldades, assim é o entendimento de quem escuta ou lê esta estória.
chamado cristianismo histórico. Esta complexidade do tema impede-nos de dar soluções simplistas à relação entre sexualidade e cristianismo [...] temos que confessar também o alto nível traumático que alcançou a vivência sexual dentro da Igreja (FORCANO, apud HABOWSKI; ROCHA, 2016, p. 114).