CAPÍTULO 2. CONSOLIDAÇÃO DA CIDADE UNIVERSITÁRIA: PAMPULHA ─ MODERNISMO
2.1 A Reitoria e os primeiros prédios modulares
Na análise da implantação do Campus Pampulha, destacamos o prédio da Reitoria, pois é a primeira construção de vulto e o principal marco da ocupação deste. Marco da arquitetura moderna, projetado ainda na primeira metade dos anos de 1950, foi inaugurado em 1962, sob administração do Reitor Orlando Magalhães de Carvalho e a presença do presidente João Goulart, com apenas três pavimentos já construídos. O saguão foi aberto com uma exposição de obras de celebrados artistas27 que retratavam 350 anos de pintura no Brasil. De autoria dos arquitetos Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Gaspar Garreto, trata-se de inegável ícone da arquitetura moderna mineira e brasileira, com vários de seus postulados: altos pilotis; estrutura clara em formas geométricas puras; aspecto plástico sem adornos; fachadas envidraçadas; integração de jardins, paisagismo e obras de artes ao prédio; e, uso de cobogós,28 especialmente desenhados por Guimarães Júnior, que será um elemento alinhavador de todas obras do Campus até o ano 2000.
O edifício encontra-se estrategicamente implantado em um grande largo ao final da principal avenida do campus, hoje nomeada Prof. Mendes Pimentel, sobre platô elevado em relação a esta avenida e domina todo o panorama, com sua imponente altura de sete pavimentos. O edifício modernista, ao se destacar por ser uma edificação vertical, implantada estrategicamente, resgata a dimensão simbólica
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Ver: https://www.ufmg.br/noticiasnº17122003. Acesso em março de 2016. 28
Elementos de vedação vazados que permitem a entrada de luz e ventilação, de inúmeros modelos, tamanhos e formas, muito usado na arquitetura modernista brasileira. Segundo o arquiteto Vitor Delaqua (http://www.archdaily.com.br/br/author/victor-delaqua) entre outros estudiosos, é um elemento constritivo tipicamente brasileiro, inventado em Recife nos anos 1920 e difundido no Brasil pelo arquiteto Lucio Costa.
demonstrando, na sua imponência perante as demais construções, que é a sede da instituição. É cercado por jardins, um grande espelho d'água e extensos gramados, onde desde sempre ocorrem atividades públicas. Seus robustos pilotis externos, em “V”, com pé-direito triplo, produzem um majestoso pórtico enquadrando e integrando o prédio à paisagem circundante refletida nas paredes de vidros do prédio.
Figura 26 ─ Estrutura do prédio da Reitoria, em 1956.
Fonte: Acervo DPP/UFMG.
Figura 27 ─ Cobogó padrão UFMG, criado em 1956.
Figura 28 ─ Vista da Reitoria, na década de 1970. Ao fundo o estádio "Mineirão" projetado também por Eduardo Mendes Guimarães Júnior e Gaspar Garreto, em 1958.
Fig. Acervo Fonte: DPP/UFMG
F onte: Acervo CEDECOM/UFMG.
Figura 30 ─ . Lago do prédio da Reitoria.
Fonte: Foto de E. F. Soares, 2016.
No seu lado direto, na larga escadaria que une os dois arborizados estacionamentos, ocorrem as principais assembleias do corpo técnico e
administrativo da Universidade, o que levou tal categoria a batizar o local com o nome de Praça Tiãozinho, homenagem a Sebastião Feliciano Ferreira, um funcionário morto durante uma manifestação na grande greve das universidades federais, em 1984.
Figura 31 ─ Placa da Praça "Tiãozinho", na escadaria da Reitoria.
Fonte: Foto de E.F. Soares, 2016.
Figura 32 ─ Assembleia na escadaria da Reitoria, 2015.
Fonte: Acervo SINDIFES.
Esteticamente, a proposta do edifício pretendia equacionar a representação de uma edificação que fosse um forte marco monumental e, ao mesmo tempo, uma escala que não inibisse as pessoas que por ali transitavam e exerciam suas funções. Guimarães descreve sua criação como:
Dois grandes blocos – o primeiro horizontal e compreendendo o grande hall de entrada, salões de exposições, pequeno auditório e serviços diversos, e o segundo desenvolvido verticalmente, destinado a conter serviços administrativos propriamente. (GUIMARÃES JÚNIOR, 1957, p.9.)
Desta forma, a escala humana seria percebida através do bloco horizontal que teria o papel de definir a entrada e o contato do grande público. Seu funcionamento é notoriamente marcado pelas hierarquias de acessos, espaços coletivos e privados, e fachadas que induzem seu uso pela comunidade, nas mais diversas situações e eventos dos mais diversos portes. Todos esses espaços do térreo são conectados entre si pôr um pátio interno, quadrado, bem dentro da sintaxe de nossa arquitetura colonial, recuperada pela arquitetura modernista.
Figura 33 ─ Pátio da Reitoria, com o cobogó padrão UFMG.
Fonte: Foto de E. F. Soares, 2016.
Fonte: Acervo DPP/UFMG.
Figura 35 ─ Escultura “Ao Aleijadinho", de Sylvio de Vasconcellos, criada em 1967.
Fonte: Acervo DPP/UFMG.
Sua entrada nobre é conectada à avenida por um lago artificial e um imenso gramado ligeiramente inclinado para acomodações do público por ocasião dos eventos que ocorrem no platô calçado, mais abaixo, onde se encontra a uma
marcante escultura, "Monumento ao Aleijadinho", criada pelo renomado arquiteto Sylvio de Vasconcellos.29
No grande saguão de entrada, de pé-direito duplo, encontram-se a portaria principal, o salão de exposições, o mezanino, a entrada para o Auditório – com capacidade para 350 pessoas –, e um grande painel da pintora modernista mineira Yara Tupynambá, "A Inconfidência Mineira”. São nesses nobres espaços que ocorrem as mais importantes atividades públicas/acadêmicas/políticas/culturais/sociabilidade institucionais.
Figura 36 ─ Saguão da Reitoria, destaque para o painel de Yara Tupynambá, de 1967.
Fonte: Foto de E. F. Soares, 2016.
Ao longo dos anos, a edificação passou por diversas interferências que alteraram significativamente o seu uso e perfil originais. Na década de 1970 houve instalação em seus pilotis de agências bancárias e atualmente setores administrativos da UFMG. Na década de 1980 foi instalada escada de incêndio por exigência do Corpo de Bombeiros e brises diferentes dos originalmente projetados. Na década de 1990 eliminaram-se restaurante e cantina para a instalação de setores administrativos e houve alteração da volumetria do bloco horizontal pela instalação de laje impermeabilizada. Estas modificações se mostraram um equívoco, não apenas por mutilar uma imagem, mas
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Sylvio de Vasconcellos (1916-1979), foi arquiteto e historiador mineiro, considerado um dos mestres e precursores da arquitetura modernista brasileira. Renomado e premiado estudioso da arquitetura colonial mineira, foi chefe da Coordenadoria Regional do Inttituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em Minas Gerais, entre 1939 e 1969, e Diretor da Escola de Arquitetura da UFMG, entre 1963 e 1964, quando foi afastado pelo Governo Militar. A partir de 1970, se exilou em Washington, EUA, onde veio a falecer.
também o pleno e desejado funcionamento do prédio, no caso com a exclusão do restaurante/cantina.
Figura 37 ─ Pilotis da Reitoria. Figura 38 ─ Escada de incêndio da Reitoria.
Fonte: Foto de E. F. Soares, 2006. Fonte: Foto de E. F. Soares, 2006.
Conforme já exposto, a edificação se insere no coração do Campus com maior densidade predial e populacional, numa posição de destaque e de total integração com o meio ambiente construído e natural. Com relação à malha urbana da cidade, na Zona Norte onde se situa, se nos primórdios da implantação do Campus era isolado da cidade, hoje se encontra inteiramente envolvido por ela.
O valor e a importância de tal obra são comprovados pelo tombamento municipal em 2003 com inscrição nos três livros do Tombo: livro do Tombo Histórico; livro do Tombo das Belas Artes e livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. Com esse tombamento, o prédio da Reitoria passa a ter o mesmo status de outras edificações da Pampulha, como o Mineirão e a Igrejinha São Francisco, por exemplo. Em meados dos anos 1990, por ocasião dos 75 anos de seu nascimento, tentamos, como técnico do planejamento da universidade, fazer uma homenagem ao arquiteto Eduardo Mendes Guimarães Júnior e aos antigos desenhistas do Escritório Técnico, Teixeira e Sétimo, exímios profissionais que o acompanharam, num grande evento, no entanto a Reitoria não se entusiasmou.
Figura 39 ─ Cartaz criado para Evento em homenagem a Eduardo Mendes Guimarães Júnior, que não aconteceu, em 1995.
Fonte: Acervo do autor.
Em 1965, com a federalização das universidades federais do país, a Universidade de Minas Gerais passa a ser denominada Universidade Federal de Minas Gerais- UFMG. Nesse mesmo ano são inaugurados o Mineirão e o Colégio Universitário, atual Faculdade de Educação-FaE. Em 1966 inaugura-se o Pavilhão Central de Aulas-PCA do ICEXe o prédio do Departamento de Química. Nestes últimos prédios, Guimarães Júnior inicia a experiência de construção mais racional, modulada, semi pré-moldada, que se repete no ano seguinte, em 1967, no Restaurante Setorial I, no prédio do grupo de Tório do Instituto de Pesquiosas Radioativa. Agora, já no reitorado de Gerson de Brito Mello Bonzon, que substitui Aloísio Pimenta, exonerado pelo Governo Militar durante o período de intervenção militar na Universidade. Em 1968, é publicado o Plano Paisagístico do Campus Pampulha, de Waldemar Cordeiro e falece Eduardo Mendes Guimarães Júnior. É o fim de uma era de autoria quase única dos projetos para a Cidade Universitária, que já começa a ser tratada como campus Pampulha, cujo planejamento passa a ser feito por uma equipe de arquitetos e pensadores. No entanto, nessa transição é contratado o arquiteto Márcio Pinto de Barros, na época formado a pouco tempo, que já inicia sua prticipação projetando os prédios para o Instituto de Pesquisa radioativa-IPR, dando continuidade à uma concepção mais racionalista, modulada, sendo o primeiro a utilizar o sistema construtivo em grelhas moduladas, reticuladas, quadradas.
2.2. Transição: Arquiteto Marcio Pinto de Barros e criação do Departamento de