3. O Jornalismo Cultural
4.5. O caso do Jornal de Letras: o único jornal de literatura e artes em papel
4.5.1. A relação do Jornal de Letras com a internet
A internet e as redes sociais não representam, no momento, uma grande aposta para o Jornal de Letras. O órgão de comunicação social tem presença, apenas, no Facebook e mantém um sítio online que funciona como uma secção ou apêndice do sítio da revista Visão. Segundo a própria equipa do JL, há uma tentativa de preparar uma plataforma digital muito mais inovadora e pioneira, enquanto tal não acontece, disponibilizam após a saída nas bancas, na íntegra, as edições físicas do jornal.
Se com as edições em papel o JL já não consegue marcar a diferença, o mesmo acontece online. Fazendo uma comparação, o Ípsilon, que é apenas um suplemento, tem 77 572 seguidores no facebook. O Público, o jornal que o mantém, conseguiu o total de 1 171 602 seguidores na mesma plataforma. O DN, o jornal que foi responsável pelo Q, tem o total de 1 322 126; o Observador, 756 520 e, por último, a Vice Portugal tem, no total, 56 972. O JL, de entre todos os órgãos aqui analisados, em papel ou online, é o que tem menos seguidores com 56 927. A diferença entre a Vice e o JL é mínima, é certo. Há que lembrar, no entanto, que a página da Vice Portugal é, apenas, uma pequena parte do todo que é a Vice: a página oficial da Vice Internacional tem, no total, 7 854 427.
Pouco ou nada acrescenta ao leitor seguir, no facebook, a página do Jornal de Letras. Em primeiro lugar, esta não é atualizada com frequência. Apenas serve para estabelecer uma ponte com o jornal na sua edição impressa. A cada saída de mais um JL é feito, por dois jornalistas, um vídeo de apresentação dos conteúdos do jornal e é só. Ao contrário dos outros órgãos de comunicação social, não são elaborados artigos, notícias ou reportagens, em específico, para o online. Podemos dizer que o mesmo acontece, também, com o sítio do jornal: parcamente atualizado e sem conteúdos exclusivos. O que acontece é, apenas, destacar a capa do jornal que vigora nas bancas.
Para um jornal que se tornou elitizado e demasiado seletivo, a verdade é que poderia fazer uso das redes sociais para uma maior aproximação com o seu público, uma vez que tem uma menor presença nas bancas, mas não. A escassez de recursos humanos obriga a que se dê toda a atenção, apenas, a um formato, neste caso o papel, algo que está, igualmente, a falhar. Se olharmos, no entanto, para os conteúdos jornalísticos do próprio jornal, vemos que o JL incorre nos mesmos erros da restante imprensa tradicional — pesquisa baseada, principalmente, na internet, pouca investigação e pouco aprofundamento dos conteúdos
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impressos. Analisaremos, posteriormente, com acuidade, esses mesmos conteúdos. Mas se o leitor não encontrar diferença, tanto na edição em papel como na presença online, então não haverá motivo para recorrer ao JL. Neste caso, podemos concluir que se trata de mais um jornal que, por um lado, não se soube adaptar à nova realidade online nem, por outro, soube inovar nos seus conteúdos impressos para marcar a presença devida nas bancas. Infelizmente, a cultura literária não é apetecível para a cultura de massas, a não ser que haja uma viragem para o que é Kitch. Esta realidade não mudará enquanto, por outro lado, a cultura literária continuar elitista.
O JL começou com o intuito de colmatar a falta de um jornalismo cultural especializado em Portugal, primordial num período pós 25 de Abril quando o ensino e a disseminação da cultura nunca haviam, antes, sido prioridade. Ao longo do tempo pôde-se observar, contudo, que o objetivo de levar a cultura à população portuguesa independentemente do extrato social, ou seja, a tentativa de garantir que a cultura não pertença, somente, a uma elite, não resultou por parte do Jornal de Letras. Ao tornar-se um jornal de nicho, este órgão de comunicação social destituiu-se dessa missão.
Mesmo que a direção aponte a crise como principal responsável pela diminuição da presença do JL no mercado, a solução encontrada acabou por minar, cada vez mais, o jornal. Se se diz que o online matou a imprensa escrita, isso só é verdade porque a imprensa escrita não se soube afirmar pelos seus conteúdos e, tal facto, só trouxe ao de cima problemas endémicos que já há muito faziam parte dos nossos órgãos de comunicação social. Os média (e as pessoas no geral) é que deveriam saber como controlar a world wide web, não o oposto. Se os conteúdos empobreceram, tanto no online como no papel, então seria mesmo de esperar o desinteresse por parte do público. Podemos formular a seguinte questão: não será, antes, o próprio público de massas que não se interessa por grandes conteúdos, e com profundidade? Há essa ideia, mas também é verdade que, mesmo com os seus problemas, o que esta dissertação nos está a ensinar é que enquanto os média tradicionais pensaram que a adaptação ao online tinha de ser feita por meio de conteúdos mais curtos, breves e sem aprofundamento, já os de raiz online tentaram ir por uma via diferente.
Claro que, por exemplo, a questão da promoção nos novos média não deixa de estar, e muito bem, em cima da mesa, sendo esse um factor que deve ser questionado. Coloca-se, também, a questão da precariedade e a falta de recursos humanos para desempenharem, na totalidade, o que propõem mas, mesmo assim, conseguem uma outra relação e proximidade com o seu público alvo.
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O JL descurou esse aspecto e é por isso mesmo que tanto no papel como no online não consegue alcançar os seus objectivos. A questão ou problema não se pode pôr, somente, na plataforma (que é e apenas será isso mesmo, uma plataforma) mas no conteúdo ― é a isso que as pessoas respondem. Se, pelo contrário, o público procura mesmo notícias curtas, fáceis, de preferência que se insiram no lifestyle e sejam pautadas por uma grande dose de sensacionalismo ― desculpa na qual o JL se refugia ― então é porque a democratização da cultura nunca chegou a ser feita, tal como nós pensámos que tinha. Nesse particular, então é erróneo afirmar que a internet servirá, por si só, esse propósito de democratização. Precisamente por se tratar de um oceano vasto onde cabe tudo aquilo que possamos imaginar ― verdade e mentira ― é que precisamos de uma educação para o online, para sabermos usufruir daquilo que tem de bom e, por conseguinte, da sua democratização.