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A relação dos idosos com os netos e bisnetos

A co-construção de um contexto de relações e actividades intergeracionais

5.1 As relações intergeracionais no meio familiar

5.1.7 A relação dos idosos com os netos e bisnetos

Importância na qualidade de vida dos idosos

Embora não tenha sido referido directamente pelos idosos a importância da relação com os netos para a sua qualidade de vida, essa questão era evidente no entusiasmo com que falavam deles. As características físicas, psicológicas e sociais dos netos, a vida escolar ou profissional, e o casamento eram assuntos muito referidos pela maioria dos idosos, revelando-se como motivos de orgulho para estes idosos.

“Ela *neta+ trabalha lá nos computadores. Ela é danada. Ela nunca ficou mal na escola nem nada. Era «levada do cigano»!” (Antónia, 86 anos)

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“Ai o meu netito, aquilo é uma coisa impecável. O João Pedro. É uma maravilha de um menino.” (Fátima, 79 anos)

“(…) e a garota *bisneta+ tem 8 anos e é muito linda, muito querida. Anda na 3.ª classe, mas é muito mexida, muito credo… Todos os dias faz ginástica.” (Francisca, 87 anos)

“Eu tenho lá *em casa+ uma bisneta, fez agora 4 anos, é uma esperteza que eu sei lá. Mas há muito respeito lá em casa!” (Leonor, 88 anos)

“Só tenho uma *neta+ solteira, que é professora. Faz 28 anos agora para Julho. É a única que tenho solteira. O resto estão todos casados e têm todos filhos.” (Deolinda, 85 anos)

O facto de os idosos poderem participar na vida e educação dos netos revela-se como algo fundamental no seu bem-estar, qualidade de vida e inclusão social. Neste sentido, aqueles que não tiveram netos ou cujo contacto com os mesmos é muito dificultado mostram tristeza pela situação, pelo que se pode considerar que os netos/bisnetos são elementos importantes na vida dos idosos.

Em relação ao José, devido a ele não ter tido filhos e consequentemente não ter netos, faz com que o seu contacto com crianças se limite àquelas que encontra na rua, no CPSB e outras que eventualmente conhece ou com quem se cruza. Apesar dessa escassez de contacto, ele refere que gosta muito das crianças, estando subjacente no seu discurso a forma que encontrou de se relacionar com elas e de criar alguma afinidade com o grupo geracional que, por circunstâncias da vida, não teve oportunidade de conhecer tão bem.

“Convivo! Gosto muito de criancinhas e, às vezes, dou uma moedazinha. Alguns vêm ter comigo e tudo.” (José, 89 anos)

Factores de influência nas oportunidades de convívio entre os idosos e os netos/bisnetos

Quando direccionamos o olhar para a realidade em que os idosos se relacionam com os seus netos e/ou bisnetos, encontram-se outras circunstâncias, caracterizadas por menos oportunidades de convívio entre eles. Neste caso, considera-se que esta situação esteja associados vários factores como a idade avançada dos idosos, a distância a que vivem de uma parte dos netos (devido à emigração), a institucionalização em lar de uma parte dos idosos do grupo e os conflitos familiares.

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O factor idade torna-se pertinente na medida em que estes idosos já são bisavós e até trisavós, e a maioria dos seus netos já são adultos. As crianças da família são os bisnetos ou trinetos, compreendendo-se o porquê de os laços afectivos já não serem tão próximos como aqueles que normalmente existem entre avós e netos. Deste modo, o convívio entre estes idosos e as crianças da família (maioritariamente bisnetos) não é tão regular como quando os seus netos eram crianças, nessa altura eles ainda tiveram a oportunidade de participar na sua educação.

“Criei três netos. É que os governava, é que os educava. É que fazia tudo e agora tenho dois, uma já está casada.” (Paula, 85 anos)

“Agora é os bisnetos é que são pequeninos. Mas já tenho uma bisneta… já tenho um bisneto casado.” (Deolinda, 85 anos)

Existe ainda outro factor pertinente na relação dos idosos com os netos/bisnetos, nomeadamente os conflitos familiares, os quais acontecem normalmente com os filhos mas acabam por influenciar o contacto entre avós e netos. Tanto no caso da Aurora como no da Antónia, este convívio encontra-se ameaçado, para além da distância, por conflitos familiares. Em ambas as situações as idosas não convivem com uma parte dos netos por conflitos com os filhos ou respectivos cônjuges.

“Com as outras *netas+ a relação não é nenhuma. Eu não as vejo. Elas não me vêm ver. (…) As outras [netas], se as vir não as conheço.” (Aurora, 79 anos)

“Não tenho cá netos. (…) Ainda tive cá uma [neta] que está no Canadá. Agora foi para longe, vê-se raras vezes.” (Antónia, 86 anos)

Além das situações de co-habitação referidas anteriormente, existem ainda quatro idosos que vivem no lar: a Maria, a Manuela, o José e a Francisca; deste modo, têm um contacto mais limitado com os netos. Ao contrário daqueles que vivem com algumas crianças da família, os idosos que vivem no lar apenas vêem os seus netos quando estes os visitam ou quando são convidados pelos filhos para irem a suas casas em situações especiais (i.e. datas festivas, almoços de família, ou outros acontecimentos).

“Eu estou aqui *no CPSB+, a minha vida é aqui, e eles *os netos+ estão lá em Aveiro. (…) Tenho muita pena deles, de não os ver e estarem mais tempo comigo.” (Maria, 78 anos)

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“Oh amiga, sobre as crianças, eu também gosto de crianças, mas não estou com as crianças, não é?” (Francisca, 87 anos)

“O rapaz *vejo+ poucas vezes… vem mais a mãe ou mais a avó.” (Francisca, 87 anos)

No caso da Manuela, o contacto com todos os netos é ainda mais difícil, uma vez que grande parte dos seus netos vive no Canadá, sendo que a última vez que os visitou foi há cerca de 5 anos e foi visitada pelos mesmos há cerca de 2 anos.

“Os do Canadá, quando vou lá estou em casa deles. Os de cá, visitam-me aqui no lar. Também vou lá assim pela Páscoa, Natal ou quando eles se lembram de fazer assim algum almoço, também vou lá” (Manuela, 74 anos)