6 EDITH STEIN E MARTIN HEIDEGGER: CONFRONTO SOBRE O TEMA DA
6.1 A relação entre Edith Stein e Martin Heidegger
Stein conheceu Heidegger pessoalmente em 1916, por ocasião de uma visita a Edmund Husserl. O caminho acadêmico de ambos se cruzou muitas vezes e foi sendo marcado por uma condição de ambivalência que ia de cooperação acadêmica até enfrentamentos teóricos significativos.
Na ocasião em que Edith Stein deixou de ser assistente de Edmund Husserl, no ano de 1918, Martin Heidegger assumiu essa colaboração com seu mestre na Universidade de Friburgo, conforme apontam Ingarden (1962), Spiegelberg (1972) e Ricci (2010). Stein vinha encontrando dificuldades nos trabalhos que vinha realizando de transcrição dos textos e das lições de Husserl, devido ao grande tempo que consumia nessas tarefas e à demora em receber um retorno dele em relação aos manuscritos. Motivada pela necessidade de aprofundar suas próprias pesquisas, Stein acabou optando por interromper o trabalho como assistente, o que não significou ruptura em termos de relacionamento pessoal com Husserl ou com a Fenomenologia. Uma e outra, relação pessoal e com a Fenomenologia, a acompanhariam, respectivamente, por muitos anos e até seus últimos escritos.
Martin Heidegger era conhecido como um brilhante professor e, ao assumir o cargo de assistente, reunia em torno de si muitos jovens acadêmicos interessados em aprender Fenomenologia. Contudo, apesar de seu interesse na Fenomenologia, Heidegger vinha gradativamente desenvolvendo seu próprio pensamento e se afastando cada vez mais dos princípios teóricos fundamentais da Fenomenologia Clássica.66 Em 1921, Edith escreve uma carta a seu amigo Roman Ingarden, demonstrando preocupação em relação ao impacto do ensino heideggeriano que, aproveitando-se da confiança de Husserl, ganhava espaço no meio acadêmico como expoente da Escola Fenomenológica, mas começava a apresentar uma perspectiva teórica que se afastava gradualmente das propostas originais da Fenomenologia propriamente husserliana (Guzman, 2010).
66 A obra de Martin Heidegger foi classificada por muitos autores como uma Fenomenologia Hermenêutica. Se
por um lado adotava a Fenomenologia como um método de “voltar às coisas mesmas” sem partir dos pré- conceitos teóricos, sobretudo no que se refere à tradição filosófica da ontologia, priorizava destacar a discussão sobre o horizonte que antecedia a própria análise fenomenológica.
Logo após a publicação de Martin Heidegger de seu livro Ser e Tempo, em 1927, lido no mesmo ano por Stein, em suas férias, ainda que neste primeiro contato de forma inconclusa devido a outras preocupações pessoais que ela vivenciava naquele momento, ela escreve uma nova carta a Roman Ingarden, no dia 02 de outubro de 1927, expressando a imediata preocupação sobre o que Husserl estaria pensando da posição intelectual assumida por Heidegger, naquele momento com sua nova obra. O que vinha naquele momento preocupando Edith Stein eram as conclusões a que Heidegger chegava em suas análises, atribuindo ao método fenomenológico o caminho que o permitiu acessar suas novas descobertas, quando parecia partir de pressupostos já assumidos e mantidos antes mesmo de concluir suas análises sobre o ser e o tempo (Stein, 1936/1999l).
Em 1931, Stein prestou um exame para habilitação docente em Friburgo, apresentando o trabalho Potência e Ato como material de seu amadurecimento acadêmico enquanto pesquisadora, sendo reprovada no exame pelo próprio Martin Heidegger. Em suas pesquisas, Stein procedeu uma abertura em relação ao exame da tradição filosófica da Escolástica, favorecida pelo seu processo de conversão religiosa ao cristianismo, não se detendo em um preconceito que a impedisse de examinar a descrição do que é o ser e o que é a pessoa em diálogo com a tradição filosófica anterior. Foi justamente o interesse inicial de buscar a verdade e conhecer o que é a pessoa que a motivou a examinar a fundo as análises de uma filosofia aristotélico-tomista, encorajada por Erich Pryzwara. O período em que Edith se dedicou a tradução das obras de Tomás de Aquino, para a língua alemã, certamente contribuiu para um conhecimento profundo dos aspectos filosóficos da metafísica medieval.
A obra Potência e Ato (Stein, 1931/2003) apresentava aprofundadas análises relacionadas ao sentido do ser, colocando em confronto argumentações filosóficas de Tomás de Aquino e as de Edmund Husserl, bem como de outros autores da Fenomenologia como Hedwig Conrad-Martius, sem deixar de marcar seu posicionamento pessoal enquanto realizava tais análises. Esta obra foi publicada apenas postumamente, uma vez que, na ocasião da ascensão do nazismo, não apenas os judeus eram impedidos de assumir cargos de docentes, mas também de publicar suas pesquisas, devido à perseguição que já ocorria nessa década de 1930. Os verdadeiros motivos que contribuíram para uma reprovação do exame para cátedra de Friburgo não poderiam ser afirmados com precisão. É certo, todavia, que Heidegger não compartilhava de seu posicionamento em relação aos temas da metafísica, dada sua rejeição em relação à Filosofia Medieval, que considerava que deveria ser erradicada do cenário da Filosofia Ocidental Contemporânea, como mais tarde explicitará Stein (1936/1999l, 1934- 36/1999f) sobre este aspecto. Por volta de 1936, Edith Stein retoma o trabalho de sua análise
do tema do ser, através de sua obra Ser finito e Ser eterno: ensaio de uma ascensão ao sentido do ser (1934-36/1999f) e publica um apêndice que enfrenta diretamente alguns dos equívocos e limitações que, a partir de suas análises e aquelas já realizadas por Husserl, estariam propostas por Heidegger na obra Ser e Tempo, publicada em 1927.
Este apêndice da obra Ser finito e ser eterno é chamado “A filosofia existencial de Martin Heidegger”. Nele, Edith Stein (1934-36/1999f) fez uma análise clara e uma precisa explanação sobre os principais aspectos teóricos trabalhados por Martin Heidegger em Ser e Tempo67. Este apêndice, inaugurou vários estudos comparativos entre a Fenomenologia Hermenêutica de Heidegger e a Fenomenologia Clássica de Stein (MacIntyre, 2008; Ballard, 2007; Orr, 2013; Wargo, 2011; Wilk, 2007; Ales Bello, 1999; Messinessi, 2015; Mac Dowel, 2017). A crítica proferida por Stein a Heidegger é acompanhada por grandes debates que, longe de se conduzirem a um consenso, mostram a complexidade dos conceitos envolvidos. O confronto de ideias fez emergir algumas suspeitas sobre quais aspectos históricos e biográficos poderiam estar motivando essas diferenças, como a conversão religiosa de Stein ao catolicismo, por um lado, e a vinculação de Heidegger ao Partido Nazista, por outro lado, assim aludindo que a desavença teórica poderia ter fundamentos em aspectos pessoais, o que não é confirmado por outros historiadores.68 Outros pesquisadores, como Messinessi (2015) e Orr (2013), validam a crítica de Stein, mas ressaltam que ela teria sido apressada em assumir argumentos teológicos e propor uma visão de mundo alternativa àquela que criticava em Heidegger. Há ainda aqueles que apontaram que a crítica realizada por Stein, levou em conta uma fase do pensamento heideggeriano que teria sido superada em sua virada histórica e que, portanto, seus trabalhos posteriores teriam respondido muitos dos aspectos que Stein acusou de ambiguidade a partir de sua leitura. MacDowel (2017) chega a afirmar que Stein não assumiu o horizonte existencial do projeto de Heidegger, criticando-o mais sobre o que ele deveria ter dito do que sobre o que ele disse mesmo, interpretando-o a partir de uma tradição metafísica externa a obra desse autor.
O que está em jogo em nossa pesquisa não é abrir uma nova linha de defesa, ou mesmo judicativa, sobre as argumentações de Stein. Buscamos revisitar como as releituras
67 Vale ressaltar que o desejo de Edith Stein era que esse apêndice fosse publicado juntamente com a obra Ser
finito e Ser eterno (1936/2010). Contudo, por motivos que ainda não foram esclarecidos, a primeira publicação
dessa obra, não constou com o referido apêndice. Apenas mais tarde, postumamente em 1962, é que virá a tona a publicação (Ales Bello, 1999).
68 Sobre esse aspecto, remetemos a uma recente publicação de Von Herrmann & Alfieri (2016), que discutem o
chamados “Cadernos Negros” de Heidegger, examinando detalhadamente nas anotações heideggerianas os indícios de uma acusação de antissemitismo, descartadas por eles após rigorosa análise (H. Heidegger, 2016; Messinessi, 2016; Alfieri, 2016).
desse debate nos auxiliam a destacar como a noção de autenticidade, descrita por Heidegger em Ser e Tempo, pode ter seu horizonte de discussão ampliado a partir dos aspectos evidenciados pela Fenomenologia Clássica, adotada por Edith Stein, ao analisar esse mesmo fenômeno. Percorrer as argumentações críticas de Stein sobre a obra heideggeriana em questão, evidenciando o comparecimento do tema da autenticidade, é o que visamos aqui.
Após uma apresentação sistemática inicial da obra Ser e Tempo, Stein apresenta sua análise crítica levantando três perguntas: a) O que é o Dasein?; b) É fidedigna a análise do Dasein?; c) A análise do Dasein é fundamento suficiente para colocar adequadamente a pergunta pelo ser?