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A RELAÇÃO ENTRE PRÁTICA DOCENTE E A CULTURA

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 66-69)

As categorias do trabalho pedagógico escolar, como currículo, avaliação,

prática docente, entre outras, demandam compreensões sobre a cultura no âmbito

escolar, uma vez que os processos culturais atuam sobre o seu desenvolvimento e,

embora nem sempre se mostrem de forma clara e transparente, nem por isso estão

menos presentes e participantes dos direcionamentos das práticas que se

desenvolvem na escola.

Educar no século XXI, tendo em vista uma educação escolar comprometida

com uma sociedade mais democrática, implica refletir sobre os aspectos culturais

presentes no espaço educacional escolar, que tende a naturalizar os preconceitos

e os processos de reprodução das desigualdades sociais, mesmo que se pretenda

um processo escolar que atenue os processos da exclusão social na escolarização.

A prática docente, sem a análise dessas influências, reduz seu papel no processo

de ensino e formação dos alunos e se torna menos capaz de revertê-lo.

A proposta de investigação das práticas docentes diante da cultura digital

requisita a busca de elementos de maior compreensão sobre as influências da

cultura escolar nas práticas docentes, que revela os processos culturais vividos por

professores e alunos diante da complexidade da cultura contemporânea,

decorrente da evolução da ciência e dos processos cultura digital.

Forquin (1993), em seus estudos, ao estabelecer uma relação entre os

aspectos culturais e a escola, define a cultura como o conjunto dos conteúdos

cognitivos e simbólicos que, selecionados, organizados, normalizados, rotinizados,

sob efeito dos imperativos da didatização, constituem habitualmente o objeto de

uma transmissão deliberada no contexto das escolas. Para o autor, essas

compreensões são indispensáveis diante dos obstáculos que os professores

enfrentam ao levar os alunos às aquisições dos vários tipos de conhecimentos,

capacidades e/ou atitudes no âmbito escolar.

A cultura da escola compõe um mundo social que tem suas características

de vida próprias, seus ritmos e seus ritos, sua linguagem, seu imaginário, seus

modos de produção de regulação e de transgressão, seu regime próprio de

produção e de gestão de símbolos (FORQUIN, 1993).

Mafra (2003) auxilia essa compreensão da cultura da escola ao mencionar

que os estudos voltados para a dimensão cultural no ambiente da escola propõem

dar visibilidade ao que se denomina ethos cultural de um estabelecimento de

ensino, sua marca ou identidade, constituída por características ou traços culturais

que são transmitidos, produzidos e incorporados pela experiência cotidiana vivida.

Os estudos da autora sobre a abordagem cultural na sociologia dos

estabelecimentos escolares contribuem ainda para a compreensão sobre os

estudos que se referem à cultura na escola. Esses estudos examinam, nos

estabelecimentos escolares, as características ou manifestações socioculturais

específicas ou a diversidade e diferenças étnico-culturais marcantes entre os

corpos discente e docente.

Tais processos são movidos ainda por outras questões relativas a como se

diferem as formas de apreensão de uma cultura hegemônica por grupos culturais

diversos, que marcas de identidade são engendradas nas relações socioculturais

entre seus atores e como a escola é ressignificada por diferentes grupos culturais

(MAFRA, 2003).

Esses conceitos e compreensões encontram-se diretamente relacionados às

práticas docentes na escola atual e, por isso, são aqui apontados como elementos

necessários a uma investigação que trata das relações que se estabelecem no

cotidiano escolar e surgem nas práticas de grupos de professores em função dos

processos culturais contemporâneos. No que se refere aos aspectos culturais

inseridos nas práticas dos professores, no decorrer da investigação realizada,

buscou-se analisar a presença da cultura digital como também inserida na atuação

pedagógica dos professores investigados, tornando-se parte da questão cultural

escolar.

Para Hagemeyer (2006), quando a escola abre a possibilidade e não tolhe o

professor, pode-se vislumbrar a inovação, a criação de novas formas de lidar com a

desorganização social, com a evolução científica e tecnológica, com as novas

linguagens da sociedade digital, refletidas no aluno. Na cultura escolar, no entanto,

os ritos, a confirmação e repetição de ações ao longo do tempo e as propostas

pedagógicas oficiais tendem a ditar ao professor formas de ser e de se movimentar

no seu tempo/espaço, cerceando muitas vezes a criação do novo, que precisa ser

criado.

A organização do trabalho escolar se reflete na pesada burocracia disposta

em hierarquias e segmentada por especialidades. A supervalorização do trabalho

dos especialistas e administradores pode reduzir a atuação do professor na

execução de normas e preceitos, nem sempre bem entendidos, possibilitando um

controle mais fácil por parte das autoridades de ensino.

O que é possível constatar na pesquisa que foi realizada é que os

professores, em suas trajetórias, desenvolvem também processos culturais a partir

de suas compreensões sobre a natureza de trabalho pedagógico que constroem.

As mudanças que se observa em todas as áreas da vida humana apresentam

questões novas, as quais não aceitam velhas respostas, como afirmaram Gimeno

Sacristán e Pérez Gómez (1998).

Neste sentido, Morin (2001) expõe a necessidade de incentivar no processo

educativo um pensamento capaz de não se fechar no local e no particular, mas de

conceber os conjuntos, estando apto a favorecer o senso da responsabilidade e

alteridade necessários à cidadania contemporânea.

Nessa perspectiva, e considerando que os professores constroem espaços

de autonomia conquistados nos processos culturais da escola com novas práticas

diante da cultura digital, buscou-se esclarecer o conceito de cultura digital adotado

para a pesquisa, a seguir.

3.2 O PROFESSOR E A NECESSIDADE DE COMPREENSÕES SOBRE A

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ (páginas 66-69)