As categorias do trabalho pedagógico escolar, como currículo, avaliação,
prática docente, entre outras, demandam compreensões sobre a cultura no âmbito
escolar, uma vez que os processos culturais atuam sobre o seu desenvolvimento e,
embora nem sempre se mostrem de forma clara e transparente, nem por isso estão
menos presentes e participantes dos direcionamentos das práticas que se
desenvolvem na escola.
Educar no século XXI, tendo em vista uma educação escolar comprometida
com uma sociedade mais democrática, implica refletir sobre os aspectos culturais
presentes no espaço educacional escolar, que tende a naturalizar os preconceitos
e os processos de reprodução das desigualdades sociais, mesmo que se pretenda
um processo escolar que atenue os processos da exclusão social na escolarização.
A prática docente, sem a análise dessas influências, reduz seu papel no processo
de ensino e formação dos alunos e se torna menos capaz de revertê-lo.
A proposta de investigação das práticas docentes diante da cultura digital
requisita a busca de elementos de maior compreensão sobre as influências da
cultura escolar nas práticas docentes, que revela os processos culturais vividos por
professores e alunos diante da complexidade da cultura contemporânea,
decorrente da evolução da ciência e dos processos cultura digital.
Forquin (1993), em seus estudos, ao estabelecer uma relação entre os
aspectos culturais e a escola, define a cultura como o conjunto dos conteúdos
cognitivos e simbólicos que, selecionados, organizados, normalizados, rotinizados,
sob efeito dos imperativos da didatização, constituem habitualmente o objeto de
uma transmissão deliberada no contexto das escolas. Para o autor, essas
compreensões são indispensáveis diante dos obstáculos que os professores
enfrentam ao levar os alunos às aquisições dos vários tipos de conhecimentos,
capacidades e/ou atitudes no âmbito escolar.
A cultura da escola compõe um mundo social que tem suas características
de vida próprias, seus ritmos e seus ritos, sua linguagem, seu imaginário, seus
modos de produção de regulação e de transgressão, seu regime próprio de
produção e de gestão de símbolos (FORQUIN, 1993).
Mafra (2003) auxilia essa compreensão da cultura da escola ao mencionar
que os estudos voltados para a dimensão cultural no ambiente da escola propõem
dar visibilidade ao que se denomina ethos cultural de um estabelecimento de
ensino, sua marca ou identidade, constituída por características ou traços culturais
que são transmitidos, produzidos e incorporados pela experiência cotidiana vivida.
Os estudos da autora sobre a abordagem cultural na sociologia dos
estabelecimentos escolares contribuem ainda para a compreensão sobre os
estudos que se referem à cultura na escola. Esses estudos examinam, nos
estabelecimentos escolares, as características ou manifestações socioculturais
específicas ou a diversidade e diferenças étnico-culturais marcantes entre os
corpos discente e docente.
Tais processos são movidos ainda por outras questões relativas a como se
diferem as formas de apreensão de uma cultura hegemônica por grupos culturais
diversos, que marcas de identidade são engendradas nas relações socioculturais
entre seus atores e como a escola é ressignificada por diferentes grupos culturais
(MAFRA, 2003).
Esses conceitos e compreensões encontram-se diretamente relacionados às
práticas docentes na escola atual e, por isso, são aqui apontados como elementos
necessários a uma investigação que trata das relações que se estabelecem no
cotidiano escolar e surgem nas práticas de grupos de professores em função dos
processos culturais contemporâneos. No que se refere aos aspectos culturais
inseridos nas práticas dos professores, no decorrer da investigação realizada,
buscou-se analisar a presença da cultura digital como também inserida na atuação
pedagógica dos professores investigados, tornando-se parte da questão cultural
escolar.
Para Hagemeyer (2006), quando a escola abre a possibilidade e não tolhe o
professor, pode-se vislumbrar a inovação, a criação de novas formas de lidar com a
desorganização social, com a evolução científica e tecnológica, com as novas
linguagens da sociedade digital, refletidas no aluno. Na cultura escolar, no entanto,
os ritos, a confirmação e repetição de ações ao longo do tempo e as propostas
pedagógicas oficiais tendem a ditar ao professor formas de ser e de se movimentar
no seu tempo/espaço, cerceando muitas vezes a criação do novo, que precisa ser
criado.
A organização do trabalho escolar se reflete na pesada burocracia disposta
em hierarquias e segmentada por especialidades. A supervalorização do trabalho
dos especialistas e administradores pode reduzir a atuação do professor na
execução de normas e preceitos, nem sempre bem entendidos, possibilitando um
controle mais fácil por parte das autoridades de ensino.
O que é possível constatar na pesquisa que foi realizada é que os
professores, em suas trajetórias, desenvolvem também processos culturais a partir
de suas compreensões sobre a natureza de trabalho pedagógico que constroem.
As mudanças que se observa em todas as áreas da vida humana apresentam
questões novas, as quais não aceitam velhas respostas, como afirmaram Gimeno
Sacristán e Pérez Gómez (1998).
Neste sentido, Morin (2001) expõe a necessidade de incentivar no processo
educativo um pensamento capaz de não se fechar no local e no particular, mas de
conceber os conjuntos, estando apto a favorecer o senso da responsabilidade e
alteridade necessários à cidadania contemporânea.
Nessa perspectiva, e considerando que os professores constroem espaços
de autonomia conquistados nos processos culturais da escola com novas práticas
diante da cultura digital, buscou-se esclarecer o conceito de cultura digital adotado
para a pesquisa, a seguir.
3.2 O PROFESSOR E A NECESSIDADE DE COMPREENSÕES SOBRE A
No documento
UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ
(páginas 66-69)