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a relação estado, capital e trabalho alienado

No documento Gestao publica e sociedade vol 1 (páginas 174-180)

Para o marxismo, a chave para a compreensão do capitalis- mo é a produção. É bastante conhecida a frase de Marx em que ele mostra que os “trabalhadores têm que pedir permissão aos proprietários dos meios de produção para viver”. Quando param de trabalhar, “morrem no dia seguinte”. Os trabalhadores vivem da venda da sua força de trabalho, “trabalham sem nada con- sumir”, e os capitalistas “consomem sem nada produzir”. Não são poucos os filmes que nos mostram que os capitalistas podem ficar vários anos sem receber lucros, mas os trabalhadores depen- dem da venda da sua força de trabalho pra sobreviver.3

É também bastante conhecida a frase de Marx na qual ele observa que “se o trabalhador pudesse, fugiria do trabalho como foge da peste”. Sob a égide do capital, o trabalho é fonte de so- frimento, mera atividade de sobrevivência sem nenhum sentido social (Mészáros, 2002; Lukács, 2010), mas isso não significa que este tipo específico de trabalho seja eterno e esteja em to- dos os momentos da história da humanidade. Poderíamos lem- brar, por exemplo, que muitos pensadores sociais observaram o surgimento de cooperativas e associações de trabalhadores que carregavam em si embriões de desalienação do trabalho, mesmo reproduzindo as sequelas da forma de produção anterior. Tam- bém podemos lembrar as sociedades indígenas da América Lati- na pré-colombiana, onde não existiam classes sociais, proprieda- de privada e Estado.

No século XX, com a sofisticação das técnicas de controle do tempo de trabalho tendo em vista a produção e reprodução ampliada do capital, surge uma “classe auxiliar” dos proprie- tários dos meios de produção, chamada de gestores (Bernardo,

3 Ver, por exemplo, os filmes “A classe operária vai ao paraíso”, de Elio Petri,

1987), tecnocratas ou burocracia das grandes corporações, mui- tos deles sendo engenheiros, economistas, administradores de empresas etc.4

Com a revolução industrial e o surgimento da maquinofa- tura, o capitalismo inaugura a divisão entre o trabalho de con- cepção e de execução, a separação entre o homo faber e o homo

sapiens. Os tecnocratas ficam com as funções estratégicas das

grandes corporações e tentam manter as relações de trabalho harmoniosas. Os trabalhadores tendem a lutar pelo aumento do seu salário ou, em momentos de acirramento das lutas sociais, buscam controlar os meios de produção, via autogestão.

Se Lenin (1981) verificou processos de fusões e aquisições no final do século XIX que geraram inúmeros monopólios e oli- gopólios, Braverman (1987) e Tragtenberg (2004) ressaltam a brutal assimetria de poder entre capital e trabalho nas corpora- ções que surgiram no século XX. Isso nos permite desmascarar o mito da democracia liberal, principalmente no chão de fábrica. Os trabalhadores não decidem o que produzir, como produzir, para quem produzir, isto é, não há nenhum sentido no trabalho realizado. Fourier, um socialista utópico, dizia que as fábricas capitalistas são “prisões brandas”.

João Bernardo (2004) afirma que o capitalismo das grandes corporações é o capitalismo da “democracia totalitária”. Bernar- do (2000) chama de Estado Restrito o “conjunto das instituições que compõem o governo, o parlamento e os tribunais”. O Estado Amplo abrange de maneira mais específica a manutenção das condições de exploração capitalista. Ele teria “o poder de orga- nizar a força de trabalho, de regulamentar a produção, de impor

4 Sobre este debate em perspectiva histórica e mais aprofundada, cf. o artigo

de Felipe Silva nesta coletânea. Sobre a relação entre este tema, o tayloris- mo-fordismo e a educação para o trabalho, cf. o artigo de Novaes e Castro, também nesta coletânea.

a disciplina de fábrica. O Estado Amplo é constituído, em suma, pelos mecanismos que asseguram às classes dominantes, no inte- rior das unidades econômicas, a extorsão da mais-valia” (Bernar- do, 1987 apud Sardá de Faria, 2005). No entanto, reza a teoria liberal que vivemos numa sociedade de troca entre “iguais”, onde as pessoas são “livres” como pássaros.5

Ainda seguindo os passos de Bernardo, este pensador ques- tiona a falsa liberdade difundida no final do século XX. Para ele, “Liberdade” é hoje a possibilidade de escolher entre um núme- ro cada vez maior de produtos equivalentes (...). “Democracia” é hoje a possibilidade de alimentar com o nosso trabalho, engenho e iniciativa uma elite social que se apropria dos principais frutos dessa atividade (Bernardo, 2000).

Harvey (2005) destaca que o sistema jurídico do capital possui um papel crucial na sustentação e na garantia da estabili- dade dos contratos “legítimos” entre trabalhadores e patrões. Em resumo, garantia do direito da propriedade e garantia da venda da força de trabalho numa sociedade onde a propriedade privada é majoritária.6

Para fins didáticos, podemos lembrar uma passagem de Marx em que ele narra a história de um capitalista britânico que resolveu produzir tecidos na Austrália, já que a exportação do produto para tal país já era um negócio lucrativo. Com essa in- tenção, adquiriu maquinaria e matéria-prima, recrutou trabalha- dores e para lá embarcou tudo, homens e coisas. Ao chegarem

5 Trata-se de um tema bastante atual no Brasil, pois estamos vivendo não

uma democracia, mas o retorno da açucarocracia, sojacracia, empreitero- cracia e plutocracia da ditadura civil-militar dos anos 1964-1985. George Soros, um dos maiores investidores individuais do capitalismo financeiriza- do, observou que “os mercados votam todos os dias”. Sobre a açucarocracia no nordeste brasileiro, ver Oliveira (2008).

nesta ilha então pouco povoada, os trabalhadores renunciaram à condição de assalariados do capitalista, apoderando-se cada um de um pedaço da terra que era farta, e transformaram-se em pequenos camponeses. As máquinas e matérias-primas enferru- jaram ou apodreceram com a inatividade.

A partir desta reflexão de Marx, João Bernardo (1987) ex- trai a seguinte conclusão: esse algodão ou essa lã, essa maquinaria eram capital? O seu proprietário era capitalista? Tinham deixado de sê-lo – é isso que nos mostra esta fábula verídica – a partir do momento em que os trabalhadores deixaram de ser operários assa- lariados e se estabeleceram como camponeses por conta própria. A história não diz se esse logrado patrão o compreendeu, mas tanto o autor que a narrou, como Marx que a reproduziu, como nós hoje, todos podemos entender que o dinheiro, as ações, as máquinas, a matéria-prima só funcionam como capital enquanto os trabalha- dores se comportarem como proletários (Faria, 2005).

Ao refletir sobre a construção dos pilares que sustentam o capitalismo, Marx nos mostra no texto “A assim chamada acu- mulação primitiva” o papel violento do Estado, comandado pelas classes dominantes que chegam ao poder, no divórcio inicial do trabalhador e seus meios de produção (o caracol e sua concha). Este divórcio realizou-se pela força direta (espoliação de terras, expul- são de pequenos produtores etc.) ou através da violência legalizada por via do Estado. Na Inglaterra isso se deu através do cercamento das terras (Engels, 2004). Mesmo sendo muito extensas, as duas ci- tações de Engels abaixo reproduzidas são muito importantes para a compreensão da “origem” do Estado na história da humanidade:

Assim, o Estado não é, de modo algum, um poder, de fora, im- posto sobre a sociedade; assim como não é “a realidade da ideia moral”, “a imagem e a realidade da razão”, como sustenta Hegel. Em vez disso, o Estado é o produto da sociedade num estágio es- pecífico do seu desenvolvimento; é o reconhecimento de que essa sociedade se envolveu numa autocontradição insolúvel, e está ra-

chada em antagonismos irreconciliáveis, incapazes de serem exor- cizados. No entanto, para que esses antagonismos não destruam as classes com interesses conflitantes e a sociedade, um poder, aparentemente situado acima da sociedade, tornou-se necessário para moderar o conflito e mantê-lo nos limites da “ordem”; e esse poder, nascido da sociedade, mas se colocando acima dela e, pro- gressivamente, alienando-se dela, é o Estado (Engels, 1991). O Estado que se origina da necessidade de manter os antago- nismos de classe sob controle, mas que também se origina no meio da luta entre as classes, é, normalmente, o Estado da classe economicamente dirigente que, por seus recursos, torna-se tam- bém classe politicamente dirigente, e, assim, obtém novos meios de controlar e explorar as classes oprimidas. O Estado antigo era, antes de mais nada, o Estado dos senhores de escravos para controlar os escravos, assim como o Estado feudal era o órgão da nobreza para oprimir os servos camponeses, e o Estado re- presentativo moderno é o instrumento para explorar a mão de obra assalariada pelo capital. No entanto, ocorrem períodos ex- cepcionais – quando classes antagônicas se igualam em forças – em que o poder do Estado, como aparente mediador, adquire, naquele momento, certa independência em relação a ambas as classes (Engels, 1991).

No livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra, Engels (2004) nos mostra a função do Estado durante a Revolu- ção Industrial na Inglaterra. A vantagem de Engels é que ele ob- serva este momento histórico de uma forma totalizante: analisa todas as questões que envolvem o cotidiano do trabalho que vão desde as condições de trabalho, as leis que impõem a disciplina do trabalho, o problema da habitação, passando pelo transporte, o surgimento de instituições filantrópicas, o papel das escolas para os trabalhadores e para a burguesia, as prisões, a alimenta- ção dos trabalhadores, o surgimento dos sindicatos e associações de trabalhadores como embriões de resistência ao avanço do ca- pital, entre outras.

Todos estes autores consideram que há uma enorme assi- metria de poder entre as classes sociais. Um pequeno número de enormes corporações possui uma importância exageradamente desproporcional na economia, principalmente depois da ascen- são dos grandes monopólios e oligopólios, sob hegemonia do império estado-unidense (Lenin, 1981)7. Para nós, o Estado do

bem-estar social é um momento de rara exceção na balança do poder capital-trabalho.

Tentando estabelecer a relação entre governos capitalistas e o apoio destes às corporações no século XX, Miliband (1972) se pergunta: por que os governos geralmente auxiliam o empresa- riado de todas as maneiras possíveis? Segundo este intelectual:

O interesse nacional está indissoluvelmente ligado aos azares da empresa capitalista: ao servir aos interesses do empresariado e ao ajudar a empresa capitalista a prosperar, os governos estão real- mente desempenhando o seu apregoado papel de guardiões do bem de “todos”. Desse ponto de vista, a tão ridicularizada frase “o que é bom para a General Motors é bom para a América” tem o único defeito que tende a identificar os interesses de uma empresa parti- cular com o interesse nacional. Mas se a General Motors é o protó- tipo do mundo da empresa capitalista como um todo, a expressão pode ser subscrita, às vezes explicitamente, pelos governos dos paí- ses capitalistas. Isso porque eles aceitam a noção de que a racionali- dade econômica do sistema capitalista é sinônimo de racionalidade e que ela oferece, dentro de um mundo necessariamente imperfeito, o melhor possível de arranjos humano (Miliband, 1972)8.

7 Para o debate contemporâneo do imperialismo, ver o livro organizado por

Panitch e Leys (2006).

8 Clauss Offe (1984) nos lembra que o Estado capitalista possui quatro ca-

racterísticas ou “determinações funcionais”, isto é, necessita da democracia para se legitimar; depende de impostos; possui a responsabilidade de ga- rantir a manutenção da acumulação e a produção da riqueza material que se encontra sob custódia dos capitalistas; dessa forma, tem a acumulação como seu ponto de referência. Para eles, há uma dependência do Estado em relação às decisões dos agentes privados em termos de alocação de re-

Miliband (1972) desconstrói os argumentos dos empresá- rios, que sustentam a falácia de que estão engaiolados e confina- dos por governos “burocraticamente intrometidos”.

Engels (2004) e Harvey (2005) observam que podemos es- tabelecer uma relação bastante interessante entre empreiteiras e o reforço da ideologia da propriedade privada. Retornaremos ao tema da ideologia na próxima seção, mas podemos destacar que a garantia do direito à casa própria alimenta a ideologia da pro- priedade privada, um dos cernes do capitalismo. Principalmente na Europa, esta prática também proporcionou padrões mínimos de abrigo para os trabalhadores, além de abrir um novo mercado para a produção capitalista (reprodução ampliada do capital) – tendo a habitação como valor de uso9.

o processo de legitimação da dominação: o poder da

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