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A relação do INCRA com os assentamentos da região de Pé de Serra

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PARTE III: RETRATOS DE ASSENTAMENTOS

5.2. Superintendência Regional do Distrito Federal e entorno – SR (28)

5.2.1. A relação do INCRA com os assentamentos da região de Pé de Serra

A Superintendência Regional do Distrito Federal e entorno SR (28), iniciou o seu trabalho na região de Pé de Serra, no município de Padre Bernardo, em 1998, a partir da

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Na região a eletrificação rural chegou ao final de 2005 e início de 2006, através do Programa Luz para Todos do Governo Federal em Parceria com a Companhia Elétrica de Goiás.

solicitação das lideranças do sindicato dos trabalhadores rurais do município e de representantes do MST de Brasília, para que fosse realizada a vistoria dos imóveis rurais considerados improdutivos. Na mesma ocasião foi feito o cadastramento de famílias acampadas na região.

Assim, o primeiro contato dos assentados com a SR (28) se deu durante o período de acampamento, época que foi feito o cadastro de relação de beneficiários a chamada RB. O cadastramento fez parte do processo necessário para a classificação e seleção dos beneficiários. Com a homologação da lista, o próximo passo foi a assinatura do contrato de assentamento.

Nessa etapa da seleção dos beneficiados houve algumas divergências entre INCRA e assentados, pois havia mais demandante por terra do que a capacidade dos assentamentos. Isso fez com que os assentados desconfiassem do processo de seleção, achando injusta a escolha de uns e a eliminação de outros. Essa desconfiança foi mais marcante no assentamento Vereda II.

Segundo explicações de Marques (2004), a seleção dos assentados segue critérios como idade, experiência de trabalho no campo, tamanho da família, renda, e é vedada a seleção de funcionários públicos.

“O objetivo de inserção social defendido por essa política pressupõe uma situação de exclusão e, por isso, são considerados seus beneficiários potenciais todos os candidatos que se apresentem numa situação de carência comprovada e que possuem capacitação mínima para a atividade agrícola” (Marques, 259:2004).

Para Neves (1997), o processo de seleção de um candidato a um lote em um assentamento constitui um dos espaços onde se ilustra a relação de poder entre os técnicos sobre os futuros assentados. Pois que se confrontam os que dominam e criam as regras e os excluídos dessa alternativa, mas delas submissos. (idem, 1997:101).

O termo assentamento rural no Brasil data de meados dos anos 60, principalmente como referência aos relatórios oficiais para designar a transferência e alocação de grupos de famílias para um imóvel rural considerado improdutivo. Desta maneira, para o Estado brasileiro, a reforma agrária é uma maneira de inserção de famílias sem-terra numa economia capitalista, a partir de distribuição de terras feita, sobretudo, na forma de unidades familiares.

Segundo Leite (1994), para o Estado, a característica principal do programa de assentamento é a criação de novas pequenas propriedades rurais em terras que, na maioria das vezes, se encontravam totalmente ociosas ou com baixa utilização na produção agrícola, onde as famílias assentadas estariam sujeitas à gestão e à ingerência do Estado.

“O termo tem carregado, historicamente, um confronto de projetos políticos opostos. Se, da perspectiva do Estado, a referência básica era o programa de colonização conduzido sob um esquema de segurança nacional, do prisma dos movimentos sociais e entidades de apoio à luta pela terra, a conquista de novas áreas traduzia um movimento mais geral de afirmação e visibilidade desses segmentos, dando nova conotação política a um termo tido pelas agências governamentais como eminentemente técnico” (idem, 1994:203).

De acordo com Marques (2000), os principais mecanismos legais em que o INCRA se baseia para a política de Reforma Agrária são o Estatuto da Terra (Lei n0 4.504 de novembro de 1964) e o decreto relativo à Colonização e outras formas de acesso à propriedade (Decreto n0 59.428 de outubro de 1966), apesar de algumas modificações recentes na legislação. A idéia da política do Estado é a inserção dos sem-terra na

economia capitalista, partindo da distribuição de terras. O beneficiário é pensado como um indivíduo genérico que é enquadrado na comunidade de assentados; assim, os seus aspectos do ponto de vista sociocultural não são considerados na hora de assentar um indivíduo.

Geralmente o assentamento é pensado em duas etapas: a fase de pré-assentamento e a fase do assentamento propriamente dita. Para Justo (2005), a fase de pré-assentamento é fase que compreende do momento de desapropriação, da escolha das famílias a serem assentadas, à formação da infra-estrutura necessária, construção das casas e liberação dos créditos. Essa fase duraria na visão do autor em media dois anos. No entanto, nos assentamentos da região de estudo, passados quase seis anos, os problemas como a falta de infra-estrutura ainda são recorrentes na região. E a última etapa seria o assentamento propriamente dito, em que as famílias já estariam instaladas e produzindo.

Segundo Marques (2000), ao serem assentados, os sem-terra ainda não se tornam donos definitivos da terra, recebendo apenas um documento de concessão de uso da terra, pois o verdadeiro proprietário é o INCRA. Segundo a mesma autora, com a definição das famílias no assentamento, os assentados passam por um novo ritual, nesse caso, um ritual burocrático estabelecido pelo INCRA.

“Os assentados são introduzidos no ritual técnico burocrático estabelecido pelo INCRA, ao longo do qual, a posse e o uso da terra estão submetidos ao cumprimento de determinadas regras, que restringem sua autonomia e pesam sobre eles como uma ameaça de retomo à condição de sem-terra. Enquanto eles permanecem sob a tutela desse órgão, vivem uma situação na qual elementos de autonomia e dependência se alternam” (idem, 2000:118).

A relação do Estado com os assentados inicia-se antes da assinatura do contrato, quando da definição de quem será assentado, pois os mesmos passam por uma seleção de beneficiários, baseada em critérios definidos pelo próprio INCRA. Entretanto, essa relação com o Estado acontece, sobretudo, quando da criação do assentamento ou ainda na manutenção de projetos, tais como financiamentos, infra-estrutura necessária e assistência técnica.

Essa relação por parte do INCRA faz com que os assentados se tornem sujeitos do Estado, fazendo com que estes passem a prestar contas de quase tudo que fazem no assentamento e, em alguns casos, da formalização das próprias relações interpessoais no assentamento ou até mesmo na autonomia em relação a determinadas decisões. Como a compra de material de insumo utilizando o crédito apoio ou a escolha da assistência técnica74:

“Como foi com a compra do nosso material [arames, ferramentas e adubos], a gente tinha que sempre estar sobre o controle da associação, que por sua vez tinha que ficar prestando conta para o Incra” (Sr. D, assentamento Vereda I, 2004).

“Até para casar você precisa ter permissão do Incra é um absurdo!” (Sr.J, assentamento Vereda I, 2004).

Na fala acima o assentado se referia à possibilidade dele se casar com outra assentada que tinha um lote em seu nome. De acordo com os técnicos do INCRA isso não seria permitido a não ser que um dos beneficiários abrisse mão de um dos lotes. E isso para

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A pessoa ou empresa para oferecer assistência técnica precisa ser cadastrada na Superintendência regional do INCRA.

o assentado seria um absurdo, pois se o casamento não desse certo um dos dois ficaria no prejuízo, então ele preferia levar uma vida “clandestina” com a companheira.

Em alguns casos isso acontece porque o técnico do INCRA, na maioria das vezes, considera o assentado como um despreparado em relação ao perfil de produtor desejado. O assentado acaba sendo pensado como um ator que precisa ser modelado e o assentamento seria o espaço privilegiado desse processo. Provavelmente, episódios desta natureza devem-se ao desconhecimento, por parte dos técnicos do INCRA, das características socioculturais dos assentados.

Depois da definição dos beneficiários o INCRA realizou a demarcação das chácaras, fez os sorteios destas e providenciou a assinatura dos contratos. Na época, o principal elo entre os assentados e o órgão era o técnico do INCRA, denominado empreendedor social75 que, para autores como Macedo (2003), tem o papel de acompanhar os processos de assentamentos. Este seria o funcionário diretamente responsável pelo encaminhamento dos problemas dos assentados até o órgão.

No entanto, a relação entre o empreendedor social e os assentados da região foi muito conflituosa porque, na visão dos assentados, este era uma pessoa “arrogante” e insensível aos problemas que os assentados viviam, além de ser considerado um técnico que circulava nos assentamentos apenas para punir e para disseminar a fofoca.

“(...) aquele trabalho do empreendedor que o cara estava aqui constante direto no assentamento, isso era uma mentira, ele chegava aqui olhava para cara de um para cara de outra e dizia eu não vou com a cara daquele porque aquele tem a cara feia, ai marca no laudo dele sem querer saber. Não estava nem ai para os problemas da comunidade, só pensava em punir e promover as denuncias”. (Sr. Ad, Vereda I, 2006).

Assim, a relação do INCRA e assentamentos desde o início foi tumultuada, por um lado pela insensibilidade dos primeiros técnicos do INCRA que atuaram na região e por outro, pelo próprio processo da reforma agrária que é burocrático e lento.

Um evento que é considerado pelos assentados da região como legitimador da relação entre o INCRA e os assentados foi a assinatura dos contratos e a liberação do crédito fomento ou crédito instalação, entre os anos de 2000 e 2001. Após isso, que a maioria dos assentados se sentiu contemplada na conquista das chácaras. É importante ressaltar que para alcançar esse momento houve uma mobilização intensa entre assentados. Essa mobilização ocorreu principalmente nos assentamentos Vereda I e Vereda II.

“Foi debaixo de muita pressão que o INCRA entregou os créditos e os contratos. Foi preciso a gente filmar todo o assentamento e baixar na porta do INCRA com mais de 50 famílias e ameaçar o pessoal que nós íamos levar a fita no Ratinho. Foi que o superintendente apareceu e assumiu o compromisso com a gente, mais só acreditamos quando foi feita uma ata de compromisso e assinada pelo Sr. Manuel, superintendente do INCRA, na época” (Sra. Ar, Assentamento Vereda I, 2004).

Com assinatura dos contratos, o passo seguinte foi a articulação para a liberação do crédito habitação e o PRONAF A. A liberação desses recursos aconteceu de forma menos conflituosa porque, segundo explicações de um técnico do INCRA, os recursos já constavam no orçamento da superintendência.

No que se refere ao PRONAF A, passados quase quatro anos de sua liberação, os assentados fazem uma avaliação que os recursos foram poucos para começar o trabalho

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Segundo Macedo (2003), o cargo de empreendedor social foi criado durante o governo do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso. Já no governo do Presidente Lula esse cargo não existe mais.

numa terra nua e que faltou acompanhamento e orientação por parte do INCRA em relação ao trabalho da assistência técnica terceirizada, que seria responsável pela orientação para aplicação dos recursos. Desta forma, para os entrevistados, liberar os poucos recursos sem acompanhamento acabou facilitando a utilização errada destes e consequentemente no insucesso na utilização dos créditos.

Outro elemento importante, que os assentados responsabilizam o órgão, é a falta de infra-estrutura ou a demora por realizar melhorias nos assentamentos como: poço artesiano, estradas, luz entre outras. E quando os recursos chegam via Caixa Econômica Federal para a Prefeitura, o órgão acaba não acompanhando a execução das obras.

“Além disso, outros fatores, a responsabilidade de água, que ele poderia estar junto fiscalizando junto com a caixa, os recursos que vão para prefeitura. Porque no caso do poço ai ele foi furado tem água tem tudo, mas não esta atendendo as necessidades da comunidade. A gente foi lá no engenheiro para conversar para que ele fizesse um estudo ele veio aqui e só olhou. O problema do INCRA, e dar atenção de mais nas fofocas”. (Sr.S. Assentado Vereda I, 2006).

Assim, a falta dessa infra-estrutura é motivo utilizado pelos entrevistados para justificar a rotatividade nos assentamentos. Para os técnicos do INCRA, essas observações dos assentados são pertinentes, mas não seriam justificáveis para o abandono ou a venda das chácaras. Além disso, os técnicos reconhecem que o sucateamento do órgão e a falta de infra-estrutura, de orçamento, e de pessoal contribuem para que o atendimento seja prejudicado.

Essa observação das dificuldades encontradas no INCRA e, conseqüentemente nos assentamentos brasileiros, é comungada por outros autores, como Marques (2000), que aponta a dificuldade de se criar condições tantos institucionais quanto financeiras para a estruturação dos assentamentos e de seus sistemas produtivos.

“Não há de fato uma política conseqüente para os assentamentos. O Estado distribui terra, mas não investe capital necessário num planejamento a longo prazo, pondo em risco os objetivos de produção e produtividade por ele próprio estabelecido” (idem, 2000:107).

É interessante observar que os funcionários que compuseram os quadros da SR (28) no início foram em sua maioria técnicos que trabalhavam principalmente na sede Nacional do INCRA em Brasília, e muitos técnicos não tinham experiência de lidar diretamente com os assentados, pois eram considerados funcionários mais burocráticos. A contratação de novos funcionários para atuar na superintendência só ocorreu por concurso público em 2004.

Mais recentemente (julho de 2006) outro entrave entre os assentados da região e o órgão diz respeito às vendas das chácaras e à chegada de outros assentados na região. Esse entrave se dá porque, no olhar dos entrevistados, o INCRA não faria a fiscalização necessária,

“A gente não é contra que o INCRA coloque as pessoas, o que é preciso primeiro o INCRA vim conversar com as pessoas e procurar saber por que as pessoas não estão morando, precisa saber quem vai assumir quem não vai assumir, porque é preciso colocar outras famílias que estão precisando de uma parcela” (Assentados da Boa Vista, 2006).

Em algumas chácaras que foram abandonadas, os técnicos têm colocado outros assentados sem consultar a comunidade, algo que era comum acontecer no início dos

assentamentos. Antes de qualquer pessoa ser assentada na área, os técnicos do INCRA apresentavam a pessoa na assembléia do assentamento, consultavam os assentados e só depois disso que a família era assentada.

“O INCRA traz pessoas de tudo o que é lado e vai colocando aqui e não comunica com as pessoas que moram aqui. Porque nós, aqui já viramos uma família e todo mundo conhece todo mundo. E então antes o INCRA chegava aqui com uma mudança no caminhão ele precisa reunir a gente e dizer que esta vindo uma família para cá e a procedência dessa. Igual era feito no início do assentamento só que isso não esta sendo feito mais” (Assentados do Vereda I, 2006).

Na narrativa acima, os assentados estão preocupados com a chegada76 de mais pessoas estranhas no lugar. Essa preocupação estaria relacionada principalmente com o aumento de violência que acontece na região, ocorrendo nos dois últimos quatro anos casos de assassinatos. Por isso, uma preocupação a mais que os assentados têm se deparado é com a violência na região.

De uma maneira geral os assentados são unânimes em dizer que quase todas as ações que se fazem necessárias nos assentamentos estão ligadas ao órgão e que este tem um papel importante no contexto da reforma agrária e que na atual gestão da SR (28) o diálogo tem melhorado. Porém, o órgão ainda é demorado em suas ações e estas são distantes dos assentados e da realidade em que estes se encontram. Segundo os entrevistados faltaria ao INCRA mais sensibilidade para lidar com o seu público; ele funciona mais como um órgão punitivo, de fiscalização, do que educativo ou de apoio.

5.3. Academia

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