Como explicitado e comentado por numerosos autores, a fixidez da identidade na sua “temporalidade” tradicional, é fortemente afectada pelas transformações estruturais geradas pela modernidade que, dependente da posição teórica tomada, podem ser consideradas como ainda decorrendo, prolongamentos dessa mesma dinâmica de desmobilização e reconstrução de uma estabilidade tradicional, ou, pelo contrário, ser vistas como superadas e substituídas por uma relacionalidade qualitativamente diferente dos padrões modernos. Neste sentido, é necessário ter em conta que a identidade passa a ser reflectida enquanto “identidade de algo” quando esta se torna precária (Bauman, 2004). Melhor dizendo, é quando ela perde a sua fixidez, a sua doxa, a sua incorporação no todo social como natureza, que começa a ser problematizada e, por esse facto, sentida enquanto identidade – como algo que surge por contraste, mas que é simultaneamente periclitante. Será, portanto, quando a sua relacionalidade é colocada em evidência, ou seja, quando a estabilidade inerente ao laço social é vista como provisória e dependente de um feixe de factores que não lhe são directamente dependentes, que ela pode finalmente ser reconhecida na sua dimensão relacional. Em suma, a relacionalidade da identidade torna-se patente porque ela própria
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deixa de ser parte integrante incontestável de uma percepção naturalizada das relações sociais. Este é um primeiro aspecto a ter em conta.
Um segundo factor, porventura corolário do anterior e que importa assinalar, é que a destabilização do “pacto” tradicional coloca igualmente em evidência as interacções entre o nível individual e o nível colectivo. Como diz Jenkins, as relações mutuamente constitutivas dos dois níveis decorrem do “momento interno e externo da dialéctica da identificação” (2000: 7). A que corresponde esta dialéctica? Segundo Jenkins, corresponde ao imbricamento entre identificação grupal e categorização.
No primeiro caso estaríamos perante “uma colectividade explicitamente auto-consciente, cujos membros reconhecem e sabem da sua pertença”. No segundo, teríamos “uma colectividade que é definida do exterior, constituída através do reconhecimento por outros; delineada de acordo com um critério, ou critérios, que segundo o observador os seus membros possuem sem que estes reconheçam o facto “ (Jenkins, 2002: 18). Ou seja, se para os membros de um grupo, a base da identificação “grupal” é a auto-identificação colectiva ou interna – aquilo a que Jenkins chama a capacidade dos membros “saber como fazer afiliação” - no caso de uma categoria, seriam os não membros a conhecerem a identidade categorial. Esta segunda vertente da identificação, desta feita, imposta, exterior, conhece as suas principais propostas nas obras de Hacking, Foucault ou, num dos principais epígonos deste último, Rose7. Em qualquer uma destas três abordagens, sobressai a ideia de que as categorias são formativas da identificação que resulta da sua aplicação. O mesmo é dizer, que é o trabalho de categorização que induz o categorizado e que nada para além deste mesmo trabalho pré-existe antes da sua sujeição a um sistema categorial. Como é sabido, a crítica destes autores estende-se à aplicação das categorias das ciências sociais para efeitos de governamentalização das pessoas, quer através dos mecanismos do Estado moderno, cujo ápice seria o Estado-providência, quer do próprio ensejo objectivante das ciências sociais. Aliás, um e outro retroalimentam-se num círculo infindável de sujeição através do poder instituinte da própria categorização. A talhe de foice, uma tal assunção levaria a um niilismo
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Destes autores ver sobretudo o capítulo “Making Up People” em Hacking, Ian (2002) Historical
Ontology, Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press, pp. 99-114; Foucault, Michel
(1991) “Governamentality”, in The Foucault Effect: Studies in Governamentality, Graham Burchell, Peter Miller e Collin Gordon (eds.) Chicago: University of Chicago Press, pp. 87-104 e Rose, Nicolas (1996) Inventing Ourselves: Psychology, Power and Personhood, Cambridge: Cambridge University Press.
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conceptual da parte das ciências sociais8. Não obstante, a ideia segundo a qual a categorização inscreve a sua própria verdade – determinada por um conjunto de técnicas e discursos que delimitam um espaço de poder – afigura-se-nos indiscutível. Contudo, se assim é, uma tal irredutibilidade negligencia que as categorias sejam igualmente recursos cognitivos indispensáveis para as relações quotidianas e as expectativas produzidas nas trocas entre actores sociais. Mais, escamoteia de facto que as categorias podem ganhar uma aplicação “nativa”, ou seja, serem apropriadas pelos alvos dessas mesmas categorias, inscrevendo-os desta forma numa dialéctica do controlo, assim como esta foi definida por (Giddens 1984).
À parte das questões foulcaultianas da categorização, o que Jenkins salienta são os dois modos de “fazer” o colectivo (Jenkins, 2002: 18). E neste sentido, recoloca o problema do colectivo, não tanto na sua vertente ontológica, mas antes quanto ao seu aspecto prático. Não podemos deixar de concordar com Jenkins que os grupos não são apenas abstracções sociológicas; expressam igualmente identificações colectivas que são usadas quer discursivamente quer na prática, como formas de definir similaridades e diferenças. A natureza, os conteúdos, ou a operatividade dessas identificações é que constituem o resultado variável de processos históricos e sociais.
Jenkins salienta a ligação entre um colectivo, real ou imaginário, e a necessária existência de comunalidades, portanto, que os membros de um grupo se considerem como minimamente similares. Um dos tópicos sociológicos mais interessantes a este propósito é o da “comunidade”. Para além da visão romantizada pelos founding fathers, como Tönnies ou Durkheim, para Jenkins “a comunidade é uma noção quotidiana poderosa através da qual as pessoas organizam as suas vidas” (2002: 105). O conceito de “comunidade simbólica” assim como foi entendido por Cohen (1985) é de particular relevância. Segundo Cohen, cultura é sempre questão de fronteiras (na esteira de Barth). O que quer que se passe, nada tem de substantivo, mas implica sempre uma distinção entre um “nós” e um “eles” que é produzida
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Uma tal afirmação mereceria uma maior explanação. Mas como esse não é o objectivo do presente texto, basta que sucintamente se sugira que o problema do “campo de verdade dos objectos do conhecimento” embora de valor indiscutível, em termos epistemológicos, para as ciências sociais, torna-se paralisante se levado a uma aplicação irredutível. Com efeito, dado que, e contrariamente ao programa filosófico de Foucault, não é a verdade qua verdade que interessa definir (a verdade para além da sua determinação institucional, a parrhesia) as categorias e as suas apropriações interessam mais enquanto identificações, por vezes impostas, mas sempre necessárias, cognitivamente imprescindíveis, do que delimitações de um discurso de verdade.
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pelo “sentido de diferença na fronteira” (ibidem, 58). Todavia, ao contrário de Barth, a comunidade não é nem material nem sequer prática, na medida em que para este último autor, envolve interacções situadas – e tão-pouco é estrutural. O que quer que seja cultura ela é sempre cognitiva. Neste sentido, a comunidade não consiste nem na estrutura nem nos comportamentos, mas antes “é inerente ao pensamento sobre ela” (ibidem, 98).
O jogo entre similaridades e diferenças, se assim nos podemos referir a essa dialéctica permanente, constitui o cerne da teoria das fronteiras simbólicas e culturais assim como esta é perspectivada por Lamont (Lamont e Molnár, 2002; Lamont e Thévenot, 2000). A ênfase é colocada na importância que o estudo dos processos de construção de fronteiras assume para uma sociologia cultural. Processos tais como boundary-work, boundary crossing, boundaries shifting, territoralização, politização, relocalização e institucionalização de fronteiras. Um tema comum atravessa esta perspectiva: a compreensão da utilização de recursos simbólicos (distinções conceptuais, estratégias interpretativas, tradições culturais) na criação, manutenção, contestação ou mesmo dissolução de diferenças sociais institucionalizadas (classe, género, “raça”, desigualdade territorial). Para compreendermos bem estes processos é necessário recorrer à distinção entre fronteiras simbólicas e sociais. Fronteiras simbólicas são distinções feitas pelos actores sociais para categorizar objectos, pessoas, práticas, e mesmo tempo e espaço. São ferramentas com as quais os indivíduos e os grupos lutam e chegam a acordos sobre a definição da realidade. O seu exame permite captar a dimensão dinâmica das relações sociais, enquanto grupos competem na produção, difusão, e institucionalização de sistemas e princípios alternativos de classificação. As fronteiras simbólicas separam as pessoas em grupos e geram sentimentos de similaridade e pertença grupal. Fronteiras sociais (social boundaries) são formas de diferenças sociais objectivadas manifestadas no acesso e distribuição desiguais a recursos, sejam estes materiais ou não, e a oportunidades sociais. Revelam-se igualmente em padrões comportamentais de associação estáveis. (Lamont e Molnár, 2002: 168).
Apenas quando existe um acordo alargado sobre as fronteiras simbólicas podem estas assumir um carácter constrangedor e padronizador da interacção social de maneira significativa. Mais ainda, apenas então podem estas tornar-se fronteiras sociais, traduzir-se, por exemplo, em padrões identificáveis de exclusão ou de segregação racial ou classista. Todavia, tanto as fronteiras simbólicas como as sociais, devem ser consideradas reais, porque, como na velha máxima de Thomas, “tornam-se reais nas suas consequências”: as primeiras existem ao nível intersubjectivo, enquanto as segundas manifestam a sua
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materialidade enquanto agrupamentos de indivíduos. Neste sentido, o que devemos ter em atenção é justamente a articulação entre estes dois níveis.
E os autores concluem dizendo que se a noção de fronteira tem sido tão empregue na literatura sociológica e antropológica é porque “capta um processo social fundamental”: a relacionalidade. Esta por sua vez pode ser identificada num vasto leque de fenómenos sociais, instituições, localizações e identificações.