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3 Metodologia

3.2 A relevância do Conceito e a Pesquisa Conceitual

O processo do conhecimento visa a transcender a aparência dos fenômenos. Assim, Breitbach (1988) ressalta que, do movimento de ir e vir entre o fenômeno e sua essência, resulta a obtenção do conceito. “Formular um conceito significa dizer que se teve acesso à essência do objeto, a partir do que podem ser percebidas as leis do movimento do real, seus desdobramentos, sua estrutura interna” (Breitbach 1988, p. 122).

“Os conceitos são palavras que expressam uma abstração intelectualizada da ideia de um fenômeno ou objeto observado” (Martins & Theóphilo 2009, p.33). São estruturas lógicas que se estabelecem de acordo com um sistema de referência e formam parte dele (Breitbach 1988; Ferrari 1982). São unidades de pensamento estabelecidos para evidenciar uma determinada espécie de fenômeno, bem como são considerados como instrumentos de trabalho do cientista, ou, ainda, como termos técnicos do vocabulário da ciência (Ferrari 1982).

O conceito é o ponto de partida de observação, uma vez que designa aquilo que, num primeiro momento, não é perceptível, contudo, paulatinamente, vai sendo explicado à medida em que a realidade fenomênica se apura. Sua elaboração, conforme Martins e Theóphilo (2009) explicam, é um processo que envolve abstração, generalização, uma vez que isola aspectos, características ou propriedade de determinados objetos, sujeitos ou acontecimentos.

Embora sua formulação ocorra em uma etapa avançada do processo de conhecimento, não significa dizer que seja a última, dado que se trata de um processo que faz e se refaz permanentemente e está presente na mente do pesquisador a partir dos momentos iniciais da pesquisa, ainda que de forma implícita. (Breitbach 1988; Martins & Theóphilo 2009).

O processo de conceituação funciona como um elo fundamental na ciência, bem como consiste em ajustar o termo mais adequado capaz de exprimir, por meio do seu significado, o

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que realmente ocorre na realidade. Assim, Ferrari (1982) adverte que, quando um conceito é definido de modo imperfeito, o progresso da pesquisa se vê ameaçado, e nenhum campo de investigação pode alcançar a categoria de científica. “Daí a necessidade dos conceitos terem apropriada definição com instância empírica e consenso suficiente, a fim de que a terminologia possa ser entendida e empregada da mesma forma por outros estudiosos da disciplina” (Ferrari, 1982, p. 95).

Todavia, cabe pontuar que, por serem símbolos da comunicação científica, os conceitos, amiúde, podem ser objetos de inconsistências, decorrentes do desconhecimento de todos os componentes, elementos ou dimensão do conceito. Além disso, Ferrari (1982) enfatiza que:

A limitação do emprego do conceito se agrava quando: 1) é traduzido para outra língua, porque não existem em todas as línguas os mesmos termos para compartilhar a mesma experiência; 2) um mesmo conceito pode significar coisas diferentes, quando são colocadas em sistemas de referências diversos; 3) dentro de uma mesma disciplina o conceito recebe vários significados, isto porque pode se referir a fenômenos diferentes ou a um mesmo fenômeno que no seu desenvolvimento histórico vem incorporando novos significados como no caso do termo “sistema; 4) diversos termos podem se referir ao mesmo fenômeno, não obstante que na ciência não se admite sinônimos, assim, por exemplo, alguns tratadistas utilizam indiferentemente os termos “uso”, “utilidade”, “propósito”, “motivo”, “intenção”, “finalidade” como sinônimos de “função”. (Ferrari 1982, p. 96).

Desse modo, para que executem seu papel na construção do conhecimento científico, é pertinente que seus atributos essenciais e suas definições sejam analisados periodicamente, almejando o contínuo aprimoramento. Os conceitos, conforme Fernandes et al (2011), mudam com o tempo e não devem ser considerados como um produto finalizado.

Nesse sentido, novas alternativas podem emergir no emprego ou abandono do conceito, uma vez que os significados podem mudar em vista de que a ciência volta a redefini-los na medida em que novos conhecimentos se acumulam. Nessa lógica, no intuito de melhorar a sua compreensão, a revisão dos atributos do conceito e a sua decomposição em suas partes constituintes com o intuito de melhorar a sua compreensão pode envolver também a análise conceitual, processo que examina os elementos básicos que compõem um pensamento, ideia ou noção (Xin, Tribe e Chambers 2013; Fernandes et al 2011).

Na ótica de Xin, Tribe e Chambers (2013), a pesquisa conceitual se caracteriza como uma estratégia particular de pesquisa situada no paradigma subjetivista/interpretativista, com possibilidade de engajamento crítico, podendo apresentar algum elemento do engajamento

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empírico. Esse tipo de pesquisa não apenas tenta rever questões históricas de conceito, mas procura realizar esclarecimentos e análise do uso do conceito.

Logo, este tipo de pesquisa estimula uma revisão sistemática de conhecimentos relevantes, cujo foco está no esclarecimento sistemático do conceito, a história deste, sua origem e o desenvolvimento e igualmente sobre seu uso, esclarecimento e sua diferenciação (Dreher 2003). Todavia, como estratégia de pesquisa no campo do turismo, a pesquisa conceitual é insuficientemente explorada, o que não significa dizer que não ocorra (Xin, Tribe & Chambers 2013).

A análise de artigos para estimar a quantidade e as tendências da pesquisa conceitual no turismo, realizada por Xin, Tribe e Chambers (2013), utilizou o banco de dados da CABABS (www.leisuretourism.com) para mineração de dados no período de 1981 a 2010. Assim, constatou-se que a pesquisa conceitual pura (envolvendo apenas a análise de conceito) corresponde a 4,03% de um total de 50.598 trabalhos.

A pesquisa conceitual pode proporcionar saltos imaginativos, criativos e inovadores aos conteúdos, podendo ser o real oxigênio da produção de novos conhecimentos, desenvolvendo, ainda – quando criativa – novos conceitos, reinterpretando os existentes. Nesta perspectiva, esta tese de doutoramento utiliza a pesquisa conceitual como uma forma de analisar o conceito de recurso e atrativo turístico, no que se refere ao uso e à aplicabilidade do termo na literatura do turismo, além de refletir quanto à essência do conceito.

A finalidade de realizar essa diferenciação entre os termos à luz da ciência foi evidenciar que ambos não correspondem ao mesmo fenômeno, permitindo identificar que o recurso turístico é a matéria-prima do turismo, fundamenta a formatação de atrativos. Além disso, essa diferenciação foi fundamental, uma vez que esses elementos incidem na avaliação de potencial turístico.

Analisar o conceito de potencial turístico permite identificar como acontecia seu uso e os diferentes significados e conotações ao termo. Entender os termos recurso turístico, atrativo turístico como aspectos diferentes, incide também no correto entendimento da expressão potencial turístico, facilitando a proposição de um instrumento de avaliação que reúna atributos correspondentes ao conceito de potencial turístico em seu sentido etimológico, ou seja, potencial enquanto potencial, possível, mas não realizado.

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