O Santo Daime é uma religião brasileira que se caracteriza essencialmente pelo consumo do chá enteógeno de nome homônimo e por ser uma doutrina que agregou e reelaborou um conjunto diverso de elementos culturais: O xamanismo amazônico, movimentos esotéricos, o espiritismo kardecista, catolicismo popular e religiões afro-brasileiras, baseados em um alicerce cristão, estão presentes em sua matriz doutrinária.
Labate e Pacheco (2005) afirmam a existência de um consenso acadêmico, no qual três grandes matrizes estariam presentes no culto do Santo Daime: a indígena ou amazônica, advinda do consumo e preparo da bebida e alguns aspectos ligados ao ritual, a europeia, cuja influência se mostra através do catolicismo e esoterismo, e, por fim, a matriz afro-brasileira marcada pela presença de entidades afro no meio daimista.
As origens da religião do Santo Daime e todo o seu movimento no interior do estado do Acre remontam aos anos de 1920 e 1930; e sua organização, bem como sua cosmologia e características rituais, estão ligadas aos processos de urbanização que ocorriam no país, em decorrência do Ciclo da Borracha e seus desdobramentos na região Norte do Brasil. De acordo com Silva (1983), autor de uma das primeiras etnografias sobre a religião,
o Culto do Santo Daime surgiu no contexto de uma Amazônia humana e social, entre a realidade do sonho e “sonho” de realidade; Amazônia feita de êxodo e exílio, em estase e êxtase, podendo ser descrito como resposta às
necessidades e pressões do ambiente concreto onde existe (SILVA, 1983, p. 18).
No contexto de declínio do ciclo da borracha, muitos ex-seringueiros passaram a viver nas periferias da cidade de Rio Branco, Acre (Goulart, 2006). Dentre eles, Raimundo Irineu Serra, nascido em 15 de dezembro de 1892 em São Vicente Ferrér, no Maranhão, de onde partiu para a Amazônia guiado pela perspectiva de melhoria de vida propiciada pela emergente economia extrativa do látex.
No período em que viveu a função de seringueiro, Raimundo Irineu teve contato com povos indígenas das fronteiras do Brasil com Peru e Bolívia, onde juntamente com seus conterrâneos de São Vicente Ferrér, Antônio e André Costa, conheceu o uso da ayahuasca.
De acordo com relatos orais daqueles que conviveram com o ex-seringueiro, após tomar a ayahuasca em um ritual xamânico na fronteira com o Peru, Irineu passou por diversas experiências extáticas, dentre as quais se destaca a visão que ele teve da Lua se aproximando da Terra com uma águia pousada em seu centro. A lua e a águia traziam a figura de uma entidade divina, Clara, que posteriormente se autoidentificou como a Rainha da Floresta, a qual vinha entregar para Irineu preciosos “ensinos” (MOREIRA; MACRAE, 2011).
A entidade feminina tratava-se da “Virgem”, “Nossa Senhora da Conceição”, “Mãe de Jesus” (GOULART, 2006), que entregou a Irineu esses ensinos bem como a missão de fundar uma igreja, onde a bebida amazônica passaria a ser tomada como um sacramento e distribuída para todos os interessados. E assim, na condição de Mestre, Irineu Serra passou a reunir um grupo de pessoas e
[...] começou o trabalho com a ayahuasca operando, nesse processo, uma cristianização do uso da bebida que passou a obter o status de sacramento religioso, além de outra denominação: daime. A expressão daime, além de mais fácil de ser pronunciada (do que ayahuasca) remete ao verbo dar, indicando a invocação que deve ser feita ao espírito da bebida no momento de sua ingestão (ALBUQUERQUE, 2011, p. 153).
Mestre Irineu passou a ser reconhecido pelo seu trabalho de assistência, amparo e condução de seus seguidores, atuando como curador principalmente dos casos “desenganados” pela medicina. Segundo Moreira e Macrae (2011, p. 147- 148), ele “era um homem de situações de crise, concebido como detentor de poderes e qualidades sobrenaturais que o dotavam de carisma e liderança”.
Colocando em prática os ensinos recebidos da Virgem Maria, Mestre Irineu passou a curar, por meio do daime, inúmeras pessoas que vinham até ele. Dentre elas, estava Sebastião Mota de Melo, também ex-seringueiro, que encontrou a cura para uma grave doença através do daime servido pelas mãos do Mestre Irineu em 1964 (MORTIMER, 2000).
A gratidão e a fé naquela bebida tornaram Sebastião Mota um dos principais seguidores de Mestre Irineu, fazendo com que caminhasse vinte quilômetros com sua família, no percurso da zona rural de Rio Branco até o ramal de Custódio Freire, bairro do Alto Santo, onde se localizava o então Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (CICLU), que posteriormente passou ser conhecido também como “linha do Mestre” ou “linha do Alto Santo”.
Conforme aponta Mortimer (2000), a ligação de Sebastião Mota com o daime foi, desde o princípio, muito intensa. Logo no primeiro ano, ele começou a receber hinos e levar outras pessoas para conhecerem o daime e “entre parentes e vizinhos foi formando um grupo que passou a fazer companhia na ocasião das festas e trabalhos no Alto Santo. Ele sempre chegava acompanhado de um grupo que ia crescendo” (MORTIMER, 2000, p. 67).
Tendo em vista a longa distância que Sebastião e seus seguidores precisavam percorrer para tomar daime no Alto Santo, dentre outros fatores, Mestre Irineu o autorizou a produzir o daime na Colônia Cinco Mil, onde Sebastião morava com seus familiares, com a condição de destinar metade de sua produção para o Alto Santo.
Após a morte de Raimundo Irineu Serra, ocorrida em 1971, ocorreram algumas dissidências no grupo original, como por exemplo, a fundação de algumas igrejas nas proximidades do Alto Santo e a saída de Sebastião Mota de Melo, no ano de 1974, com todos os seus parentes e amigos, além de cem fardados da igreja do Mestre, que viam nele uma figura de liderança.
Sebastião Mota manteve os trabalhos de Daime na Colônia Cinco Mil, em sua casa, onde não paravam de chegar pessoas para serem cuidadas, auxiliadas pelo daime, de modo que sua residência tornou-se pequena para abrigar tanta gente. Além disso, viajantes, vindos de diferentes lugares, começaram a apoiar Sebastião Mota que passou a ser chamado de Padrinho, expressão empregada como forma de respeito e confiança.
Em 1974, com ajuda de alguns intelectuais da cidade que aderiram à liderança do Padrinho Sebastião, fundou-se o Centro Eclético da Fluente Luz Universal Raimundo Irineu Serra – CEFLURIS. Mortimer (2000) ressalta que o Centro foi criado para que, além do reconhecimento das autoridades, Sebastião tivesse mais auxílio em sua obra e as tarefas fossem divididas.
A “linha do Padrinho Sebastião”, como ficou conhecida, apesar de se afirmar como seguidora dos ensinos da escola de Mestre Irineu, possui particularidades que a diferencia do centro fundador. Dentre elas, o ideal de uma vida comunitária, em perfeita harmonia com a natureza, aspectos que levaram Sebastião a conduzir seus seguidores a uma nova localidade, situada no coração da floresta amazônica: a Vila Céu do Mapiá (AM).
Dessa maneira, destaco que a religião do Santo Daime passou a englobar duas vertentes principais, a “linha do Alto Santo” e a “linha do Padrinho Sebastião”. De acordo com Labate, Rose e Santos (2008), “a linha do Alto Santo” permaneceu praticamente restrita ao estado do Acre e, ainda que seus centros funcionem de maneira autônoma, eles reivindicam uma origem comum e procuram manter relações de proximidade entre si.
A linha do Padrinho Sebastião, diferentemente do Alto Santo, possui a característica de ser expansionista. Por volta dos anos 80, por meio do então CEFLURIS, o Santo Daime começou a se espalhar pelos principais centros urbanos do Brasil, contando com aproximadamente cinquenta igrejas no país. Assis e Labate (2014) apontam que o processo de diáspora do Santo Daime alcançou ao menos 43 países, entre eles Estados Unidos, Canadá, México, Espanha, Holanda, Japão entre outros, totalizando cerca de 60 centros no exterior.
Após reestruturações de seus estatutos, em 1998, o CEFLURIS passou a receber o nome de Igreja do Culto Eclético da Fluente Luz Universal Patrono Sebastião Mota de Melo (ICEFLU), que funciona como uma instituição espiritualista organizada na forma de uma sociedade civil sem fins lucrativos que orienta o uso ritualístico do daime entre suas igrejas filiadas. Segundo informações de seu sítio digital13, o ICEFLU conta com cerca de seis mil participantes filiados no Brasil e no
exterior e segue sob a liderança do Padrinho Alfredo Gregório de Melo, filho de Sebastião de Mota Melo e de Rita Gregório de Melo, conhecida como Madrinha Rita.
13 Site do Centro de Documentação e Memória - ICEFLU - Patrono Sebastião Mota de Melo.
De acordo com Assis e Labate (2014), o processo de expansão do Santo Daime proporcionou um movimento de abertura do Daime para novas religiosidades e expressões locais, contribuindo para a autonomia das igrejas em relação à matriz institucional na Amazônia. Essas aproximações com novas práticas e culturas, segundo os autores, particulariza e diferencia os grupos do Santo Daime, “tornando- os mais heterogêneos e produzindo um afastamento dos núcleos daimistas mais ‘duros/fechados’ ou assim chamados ‘tradicionais’” (ASSIS; LABATE, 2014, p. 22).
Dentre as transformações na tradição daimista, marcada por uma organização e hierarquia masculina, Assis e Labate (2014, p. 20) apontam a questão da liderança feminina, como ocorre no Céu de Santa Maria, igreja localizada na Holanda, fundada e dirigida por uma mulher, Geraldine Fijneman. Após seu falecimento em 2016, a igreja continuou a ser dirigida por uma mulher, Liesbeth Van Dorsen. Além disso, os autores apontam:
mudanças sensíveis nas relações familiares e de gênero, que passaram a obedecer cada vez mais aos padrões estéticos e sociais das classes médias do Sudeste (por exemplo, poucos filhos e relativa independência profissional da mulher) em detrimento dos costumes dos fundadores nortistas (ASSIS; LABATE, 2014, p.21).
Fruto do movimento expansionista do Santo Daime, o Céu do Montreal, fundado em 1996 pela terapeuta Jessica Rochester no Canadá, é também uma das poucas igrejas daimistas lideradas por uma mulher. A liderança do Céu do Montreal aborda frequentemente a questão da desigualdade de gênero, buscando o mesmo tipo de responsabilidades e deveres entre homens e mulheres, como o direito de liderar rituais e servir o chá. Resultante disso, a igreja teria enfrentado resistências institucionais no Brasil (LABATE et al, 2016).
No entanto, este não é um fenômeno localizado e individual. Labate, Assis e Cavnar (2016) ressaltam que, quando um movimento se expande para um novo contexto geográfico, social e cultural, aspectos considerados problemáticos, como por exemplo as práticas entendidas como sexistas, podem ser revistos e evitados (LABATE et al, 2016). De acordo com antropóloga Camila Benedito (2019, p. 134):
É possível observar um ponto de resistência feminina, no Santo Daime, pela existência e a liberdade de sua prática religiosa, (...) na valorização do canto, no trabalho mediúnico e ainda nos momentos rituais entre as mulheres – como a colheita e os rituais ou encontros de mulheres.
No entanto, conforme a autora, tal resistência se mostra em grande parte “restrita pelos limites da moldura do essencialismo binário de gênero” (BENEDITO, 2019, p. 134). O que nos possibilita tecer discussões acerca das concepções do Santo Daime enquanto uma doutrina tida por boa parte de seus adeptos como “feminina”.