III CAPITULO.
4- A religiosidade de um monge inquieto.
"Fides, spes, caritas et cetera huiusmodi, pura sunt bona, quia male non possunt vel iuberi vel teneri, bene non possunt vel prohiberi vel non teneri1”.
Nos dois primeiros capítulos, demonstramos a condição social de Bernardo, sua renúncia e vocação de homem religioso, como também, a vocação e disputas em torno da figura de Francisco de Assis. No capítulo três analisamos as influências de suas regiões e até onde estas interferiram nas suas escolhas, sobretudo diante da religiosidade que aí se processava. Por questão de definição, dividiremos as análises de Bernardo e Francisco em dois sub-ítens. No primeiro, analisaremos a religiosidade de Bernardo, sua conduta e as implicações da Ordem de Cister sobre os escritos, bem como o modo como este vê a administração da Igreja. No segundo sub-ítem, o estudo será com Francisco de Assis, a constituição da Ordem Franciscana, e a escolha da pobreza como base para os frades mendicantes que possuíam o conceito despojamento numa Igreja que sofria revés nos séculos XIII.
Bernardo, religioso ortodoxo, originário do levante ocorrido no século XI e que desemboca na Reforma Gregoriana, a qual o Abade procurará dinamizar entre seus contemporâneos no século XII. Bernardo pode ser ainda classificado como um monge despojado, que procuraa Deus na vida humilde e fraterna. Contudo, sua conturbada desavença com a ordem dos cluniacenses nada mais é do que uma busca pela simplicidade na vida cenobítica. Na Apologia a Guilherme, no capítulo X, respondendo a Guilherme de Saint
1 BERNARDO, C. EpB. IN: SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, op. cit. p. 99; A Fé, a esperança, a
caridade e tudo o que com elas se relacionam são bens absolutos, porque o mal não pode nos impô-las ou mandá-las, nem é lícito que nos proíbam ou nos impeçam de fazer o bem. (Documento destinado ao monge Adão, provavelmente de 1125, escrito na tentativa de trazê-lo de volta ao mosteiro de Morimundo, do qual Adão havia saído seguindo ao Abade Arnaldo, que havia deixado a Ordem de Cister).
Thierry, Bernardo fala sobre o luxo e a formosura (elegância, cores, escolha dos melhores tecidos, confecção, onde os homens simples, pouco tinham para usar) nos hábitos religiosos, dizendo:
“Realmente me diz: A religião não consiste no hábito; está no coração. Bem dito. Mas vós, quando, por conseguir com que acostumar vestido, vai de cidade em cidade, andais todos os mercados, correis todas as feiras, entrais em todas as tendas dos mercadores, revolveis todos os gêneros uns depois dos outros, fazeis exibir uma infinidade de peças de panos, os tocais suavemente, os mirais de muito maneiras, os exporem a luz, descartais o que lhes parece muito grosseiro e de má cor, e, achada a tela que mais gosta por sua delicadeza e brilho, fazeis quanto podem por retê-lo a qualquer preço, eu os rogo para dizer-me si fazeis tudo isso por uma inclinação do coração ou por mera simplicidade2”.
O que vemos a seguir, é Bernardo chamando a razão Cluny. Não é só ser Igreja, é ser igual aos Apóstolos, pregadores. Não é só o luxo, é o conjunto da vida do religioso: pobreza, humildade e caridade. Bernardo sabe dos conflitos em Cluny, por isso, lembra-os de terem sido a base da Igreja, num passado não muito distante3. Cluny havia sido no período anterior, essa base, porém, com o seu crescimento, ocorre uma perca para os períodos posteriores. Agora não é só o traje, o problema está no dormir, no utilizar camas macias quando poucos os têm. Para Bernardo, essa escolha também fere com os preceitos da RSB e com grandeza de Cluny frente aos homens. Termina dizendo-lhes que a religião por eles praticada não é exterior, mas interior.
““Esta ordem (Cluny), repito, que tem sido a primeira na Igreja o, mais bem, que há dado o principio a Igreja. Esta ordem, a mais semelhante na terra à ordem dos anjos no céu, a mais próxima de Jerusalém celeste, que é nossa Mãe, e pelo brilho da castidade, e pelo ardor da caridade, esta ordem, que os apóstolos instituíram e começaram aqueles que o Apostolo chama santos. Pois assim como nenhum destes santos reteve nada dos bens que lhes havia pertencido, assim também se dava a cada um, diz a Escritura, aquilo que tinha necessidade e não o que ele quis levar por uma vaidade pueril. Certamente, posto que ninguém recebia mais do que o necessário, não
2 BERNARDO DE CLARAVAL. Apologia a Guilherme, SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. op. cit. p.
845/846.
3 Todos os historiadores são unânimes em dizer que Cluny, enquanto abaciado havia sido no período dos
séculos X-XI, a base de sustentação da Igreja no Ocidente. Foi de suas fileiras que saíram os maiores reformadores da cristandade desse período, como os papas Leão IX (n.1102-1049-1054), Gregório VII e Urbano II (1088-99); o Arcebisto, Sto. Anselmo de Canterbery (1033-1109); além de Humberto de Silva Candida (1000-61) que tornou-se legado papal em Constantinopla.
se permitia supérfluo, nem, com mais razão, nada curioso, nem pomposo. Dava-se, diz o texto sagrado, aquilo dequese tem necessidade4”.
Para Bernardo a ortodoxia não era somente o hábito, mas é também uma questão de fé, de cumprimento das normas da Regra de São Bento. Na Epístola 01, já citada anteriormente, Bernardo exorta a Roberto, monge cisterciense-cluniacense, que a mudança de ordem não condiz com a obediência, sobretudo porque Roberto trocara uma Ordem rude pelas liberalidades da outra. Essa Epístola, conforme demonstramos, é uma síntese das disputas provocadas por um jovem monge, mas pode ser analisada com maior abrangência, uma vez que a partir dela surge a Apologia, tratado, que estamos trabalhando, mostrando as diferenças entre modelos monásticos. Entretanto, não podemos ver a ortodoxia somente para os monges, há de igual maneira por parte de Bernardo Epístolas em que exorta e instrui aqueles de igual cargo: os Abades.
Neste sentido, a Epístola 78 é exortativa. Escrita por volta de 1127, ou seja, com poucos anos do período abacial de Bernardo, direcionada a Suger, Abade de Saint Denis (1085- 1151), é uma exaltação para aquele Abade co-irmão, que ousou transformar internamente sua comunidade por uma opção mais rude e próxima a Regra de São Bento. Para dar coragem a Suger na mudança e não deixá-lo vacilar frente às críticas, Bernardo o felicita, exortando-o a permanecer no cumprimento da pobreza e suportar as calúnias pelas quais estava passando.
“Era a ti que censuravam exclusivamente: corrigindo-te, tu terminarias com a falação. Ao mudar tua conduta, a confusão, em seguida perderias toda a força, e se apaziguariam as irritações. O único que nos desgostava era o luxo de tua indumentária e o fasto de teu séqüito, que delatava tua insolência; só por haver despojado de tanta suntuosidade e luxo teria que suportar a indignação geral. Por isso tu deixaste satisfeitos ao que te acusam e mereceste que te cumulemos de parabéns. Que façanha humana pode ser elogiada com toda justiça se a tua não se considera digníssima de economia? Ainda quando tão repentino mudar tantas pessoas não é uma obra humana, sim divina. A conversão de um só pecador provoca grande alegria no céu. Qual não suscitará a de toda uma comunidade como esta5”?
4 BERNARDO DE CLARAVAL. Apologia a Guilherme, SÃO BERNARDO DE CLARAVAL. op. cit. p.
845.
Mais à frente, diz Bernardo a Suger que as dependências da Abadia eram mais de propriedade temporal do que espiritual. Faz neste caso uma recorrência à citação Bíblica, em que, Jesus diz aos homens para darem a Deus o que é de Deus e a César o que é de César.
“Efetivamente o lugar gozava de uma nobreza muito antiga e se distinguia por sua dignidade régia. Somente usada como palácio real ou militar. Entregava-se a César o seu, sem demora e sem fraude. Mas não se pagava a Deus o que é de Deus com a mesma exatidão e fidelidade. Falo do que tenho ouvido, porém não tenho visto: com freqüência, segundo dizem, o claustro mesmo do mosteiro se lotava de soldados, era uma efervescência de negócios, um estrépito de litígio, e às vezes se abria às mulheres. Quem era capaz de pensar no celeste, espiritual e divino neste ambiente? Mas agora aí se busca a Deus, se cultiva a continência, se vive com vigilância e na disciplina e se freqüentam as leituras santas6”.
Bernardo ainda sugere a Suger que a luta deve ser a do fiel, servindo somente a Igreja e não a dois senhores: (a Igreja e o Rei). Atividade desempenhada em grande medida pelos monges cluniacenses7. Para Bernardo, a medida estava em transformar-se, pois segundo o mesmo “a compulsão da vida anterior atenuaria o rigor da vida nova”.
Esse modelo monástico, Bernardo procurou irradiar pelos seus escritos, a outras regiões, sobretudo porque a tentativa dessa compreensão provocava o embate com os homens que descumpriam os preceitos ai desenvolvidos; provocando, de certa forma, uma certa imposição da experiência no claustro para os outros meios, ou seja, de dentro da Abadia (o claustro) para fora, o homem exterior.
Homem de elucubrações e fiel aos princípios da Regra de São Bento, Bernardo procura na experiência do silêncio o encontro com Deus. Principalmente, como dissemos na Epístola acima, Bernardo discute o problema do relacionamento entre a vontade do homem, a
6 Idem, p. 291-293. Aqui ainda é possível vislumbrar o problema dos monges girógavos existentes no período
de Bernardo e contra quem consta na Regra de São Bento um capítulo dedicado a esse assunto.
7 Já tivemos ocasião de mencionar que nos primórdios dos cluniacenses estes serviam como secretários de
reis, imperadores e mesmo de prelados eclesiásticos nos séculos XI-XII, até o momento em que são questionados pelos cistercienses. Cf. KNOWLES, D., El Monacato Cristiano op. cit. p. 58.
vontade de Deus e os preceitos da Regra de São Bento, que devem reger para o monge esta realidade.
Mas, Bernardo não fala sozinho, visto que busca em outros religiosos os ensinamentos ou suporte para o que escreve, transmitindo-os depois. São religiosos como Santo Agostinho, Anselmo de Cantuária, Bento de Núrcia preceptor pela Regra dos cistercienses, ou contemporâneos a ele com quem troca correspondências como: Pedro, o Venerável (1092- 1156), abade de Cluny a quem Bernardo escreve mais de 10 Epístolas, Guilherme, abade de Saint Thierry, futuro monge cisterciense e secretário de Bernardo que pertence no início à Ordem de Cluny depois Cister, a João de Salisbury (1115-80), monge inglês e professor catedrático, que diante de dificuldades em Inglaterra receberá de Bernardo ajuda nas dificuldades relativas a atividade de lecionar e mesmo de encontrar uma sede onde possa desenvolver suas atividades, ao mestre Hugo de São Vitor (1096-1141), intelectual e com quem discutirá problemas do batismo, e mesmo Pedro Abelardo (1079-1142) de quem leu as correspondências e os livros, não encontrando a principio nada que o desabonasse diante do Abade de Claraval, conforme menciona a Guilherme de Saint-Thierry.
Mesmo com estas ligações sentimentais e espirituais, Bernardo apresenta dois pontos que o atormentavam: a necessidade de sempre estar escrevendo e a necessidade de ausentar-se de sua Abadia. Ausência que faz o sofrer, sobretudo porque trava uma luta em seu intimo, entre a obediência e a solidão. Solidão do homem, mas não de Deus. Várias são as Epístolas neste sentido. Das Epistolas 86 a 91, fala das várias ocupações; das de número 143-145 e 317-327, são as ocupações alheias que lhe toma tempo.
Dentre estas, escolhemos uma já citada por nós, a de número 144. Epístola do período da controvérsia de Anacleto II, escrita na Apúlia em 1137, sul da Itália, quando está fora do claustro, desabafa o Abade:
“Minha alma está triste até que eu volte a vocês e refugia-se noconsolo. [...] Pois a isto se apresenta outro particular, que me traz ao bordel da impaciência porque me obriga a viver sem vocês. Largo sofrimento e espera fastidiosa é permanecer cravado tanto tempo a esta vaidade que se apodera de tudo, versus encerrado em um cárcere horrendo deste corpo corrompido, sentir-se, todavia atado com as correntes da morte e as cordas dos pecados e não estar, todavia com Cristo8”.
Ou quando desenvolve a problemática da separação na Apologia, ao mencionar ainda no prólogo do escrito para Guilherme que: “Previno-lhe, sem embaraço, que todo este comércio de freqüentes escritos me trazem não pouco dano, porque, fazendo-me interromper muitas vezes o exercício da oração, diminui-se em mim o espírito de devoção, especialmente não tendo nem facilidade e nem tempo para escrever?”. Se continuarmos a leitura, veremos o Abade mencionar: “sempre que me pede uma obra nova, não a condescendi ou condescendi forçado. E não porque fizesse pouco caso do que me ordenava, sim porque não me atrevi a empreender o que excedia meu conhecimento9”.
Problemas particulares, a sua eloqüência mostra-o muito distante do claustro e dos filhos prediletos, produzindo uma certa intimidade com os homens seculares, feito que o mesmo acredita não ser edificante para a sua vida. Até aqui, há um caráter particular do claustro que se configurava como um local de intimidade entre o monge e Deus, sobretudo porque no claustro, o monge se entrega sem reserva a uma obediência, à solidão para daí encontrar-se/entregar-se nas mãos de Deus.
Um ponto precisa ficar certo. Estamos escrevendo, neste momento, para vermos a ortodoxia religiosa de Bernardo, a quem atribuímos ser despojado e que tenta levar para os outros este modelo. Fato até aqui visto na Epístola acima mencionada e na Apologia. Para entendermos a necessidade do claustro, vejamos o que diz o Abade.
8 BERNARDO, C. EpB. 144, op. cit. p. 517-519. Na Epístola anterior, também direciona aos monges de
Claraval, Bernardo argumenta a necessidade da humildade para se alcançar a verdadeira pobreza.
Na Epístola 78 ainda, Bernardo diz a Suger que: “O silêncio habitual e a ausência perpetua de todo ruído mundano convida a meditar nas realidades celestes. Ademais, a ascese da continência e o rigor da observância se alternam com doçura dos hinos e dos salmos10”.
O claustro constitui-se, na mentalidade do homem medieval, em um "espaço" definido para além do lugar que separava os homens. Definia-se mais como uma "abertura" ou "porta", aquela que dá passagem a um outro lugar, o além, ou seja, cria uma transcendência na condição terrena para a condição divina. Percebe-se, no entanto, que esta solidão não era para todos os homens. Segundo a concepção dos monges de então, somente alguns poderiam alcançar tal glória. Aos outros, cabiam contar com as intermediações dos "especialistas da fé", cargo ocupado, geralmente, pelos monges reclusos. Assim, separa-se o homem do século (não só espaço, mas tempo também), dos homens da Igreja, dando a estes últimos a prerrogativa para interferirem na vida espiritual e mesmo material dos outros homens. O que faz Bernardo quando escreve algumas de suas Epístolas, como a de número 144.
No entanto, em seu íntimo, ao que nos parece, Bernardo está a sofrer, por ter deixado os seus filhos prematuramente para estar no mundo: “não me deixam educar aos filhos que hei engendrado no Evangelho. Exigem-me abandonar os meus e atender aos alheios. E duvido quase me custar mais, separar-me deles a embrenhar nestes11”.
Não podemos nos prender somente ao íntimo do monge, precisamos ver a disposição deste em abraçar uma causa extra-claustro.
O que diz Bernardo sobre o problema religioso neste momento? E mais, a quem responde? Está sozinho nesta jornada?
10
Idem. EpB. 78, op. cit. p. 293
O problema religioso é sentido em toda a cristandade. No ano de 1122, para resolver as controvérsias entre Igreja e Império, sobretudo para agradar ao imperador do Sacro Império Romano Germânico, Henrique V(1106-1125), a Igreja assina a Concordata de Worms (1122), Bernardo está atento ao tratado que é assinado. Por esta, definia-se naquele momento a atribuição da Igreja e do Império na escolha de bispos e abades locais. A partir de então, coube à Igreja, representada por Calixto II (1119-1124), a “investidura do báculo e do anel”, tendo também a possibilidade de realizar eleições livres para a escolha dos seus membros. De modo geral, eram eclesiásticos com poder e detentores de grandes fortunas que, cumpridores de critérios religiosos e canônicos, muitas vezes, divergiam de seus governantes laicos, provocando intromissões nas administrações locais. Por outro lado, concedeu-se ao Império o direito de participar das eleições eclesiásticas. Não que os reis tenham perdido seu poder nas várias regiões da Europa, mas a começar na Alemanha, desde que consultados os bispos e abades destes territórios, o império manteve sobre sua tutela a investidura do novo prelado no cetro, que representava o poder terreno do novo comandante12. Contudo, sabemos que a Concordata de Worms não pôs fim aos problemas sucessórios, aliás estes transpassaram todo o período da Idade Média Central.
Se recorrermos às Epístolas de Bernardo, veremos uma profusão de escritos que tratam desse assunto. Bernardo não está só preocupado com o problema do Império que diz respeito às regiões da Alemanha, ou da península Itálica.; masao problema religioso que acomete a Igreja, ou seja, a nomeação de prelados. Por isso, o reducionismo não pode ser aplicado a sua atuação, pois entre seus escritos há Epístolas para os reis da Inglaterra e França, para os duques da
12
ARNALDI, G. Igreja e Papado. In: LE GOFF, J. & SCHMITT, J. Dicionário Temático do Ocidente Medieval. op cit. p. 580.
Borgonha e Lorena, também há para o Oriente sobre o problema de como administrar em nome da cristandade.
Para o reino da França, encontramos várias Epístolas a Luís VII. Uma delas, a de número 282, escrita bem depois da realização da Concordata de Worms, em 1152, trata da sucessão na diocese de Auxerre, região a poucos quilômetros de Cister. Bernardo está preocupado com a possível oposição do rei, por isso demarca sua posição na sucessão episcopal, dizendo ao monarca francês que:
“[...] eu assisti pessoalmente a eleição em Auxerre. E foi unânime, porque os clérigos que antes discordavam em pareceres distinto, colocaram-se finalmente em acordo, pela misericórdia de Deus, sem nenhuma disputa. Conheço bem o eleito, e dou testemunha de que é bom. Creio que ninguém dos assistentes a eleição duvida de vossa aprovação, pois nos constava já que estava incluída em vossa carta. Quem ia pensar que se necessitava de outra aprovação, e que não era suficiente com uma, sobre tudo ao não haver –se realizado outra eleição? Acaso precisa-se do apoio do rei sempre que se desentendem os clérigos?”
Mas a frente diz ainda o Abade a seu rei, lembrando-o que o costume se antepõe a razão. “É algo que se opõem à razão ao costume”, mas mais do que isto, Bernardo está preocupado é com a disputa entre Igreja e Império. Se continuarmos veremos o mesmo dizer:
“Assim há acontecido, meu senhor rei; e não tem por que desaprovar uma eleição já realizada, pois consta vosso consentimento para leva-la a cabo. Mas há alguns agitadores que pretendem turbar as Igrejas em busca de seu próprio lucro; e o mais grave, maquinam com um zelo diabólico para romper os laços de amor e concórdia existente entre o Sumo Pontífice e o Augusto Monarca13”.
Quem são os agitadores? Quais os lucros que buscavam? Podemos dizer tratar-se de senhores feudais que ávidos por terras, tinham na Igreja seu maior empecilho, ou ainda, tratar-se de movimentos héticos que buscavam uma Igreja mais zelosa. Sabemos da existência desse na região da França no tempo de Bernardo, para quem o Abade prega a cruzada contra os Albigenses. Contudo, o que podemos afirmar é que a Epístola tem um caráter direito, de manutenção da escolha e da posição da Igreja.
Mas qual a abrangência da personalidade deste monge despojado? Neste sentido e para preservar a vontade da Igreja, Bernardo escreve no início da Epístola mostrando-se inferior ao rei, fiel seguidor dos preceitos divinos.
“Hei pretendido jamais rebaixar a honra do rei e a grandeza do reino? Só
Deus o sabe, e creio que vossa consciência não responderá nada neste assunto. Procure
mais bem que não maquinem contra vós os que perturbam as eleições, com o fim de
que o rei não tenha servidores seus nas Igrejas e eles se aproveitem de suas rendas14”.
Aqui o Abade resolve um problema, a eleição, feita segundo as normas estabelecidas, e mais Bernardo ainda informa ao rei da ligação entre ele próprio e o escolhido (ao que nos parece, monge de Claraval), e que se submeteria ao rei, a quem parece, controlava os