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A República Nova e a Sociedade Urbana-Industrial (1940-1970)

Mapa 5: Proporção de pessoas negras, pobres e indigentes por área de ponderação São Paulo

3. Um Século do Negro em São Paulo: Quilombos Urbanos, Territorialidades Negras e Segregação

3.2. A República Nova e a Sociedade Urbana-Industrial (1940-1970)

As relações territorialidade e segregação, de acordo com o histórico político, social e cultural do contexto brasileiro, tendo como base o trabalho, o racismo e a discriminação (Florestan, 1965; Hasenbalg, 2005), são ao mesmo tempo mecanismos inseparáveis. Não se separam primeiro, porque a política do espaço produz a ação e reação dos indivíduos e grupos que são segregados, em segundo, a reação é a adoção de estratégias para amenizar os sofrimentos e constituir os laços de comunicação e de identidade social, e, em terceiro, na sociedade do trabalho livre, a presença na cidade e em todos os espaços, não se constituiu a garantia dos direitos.

Portanto, território e segregação são fenômenos sociais, urbanos e políticos inscritos na história da cidade de São Paulo. Em determinados momentos, o primeiro se organiza para a defesa dos direitos e para a preservação de seu patrimônio (Rolnik, 1998; Oliveira, 2002). O segundo, entra em cena por condições mais complexas da política da cidade e dos atores, os proprietários dos meios de produção, dos poderes ideológicos e políticos.

Nas páginas precedentes, afirma-se que a população negra, nos primeiros anos pós- abolição, experimentou, na cidade e no mercado de trabalho, os primeiros sentimentos (subjetivos e objetivos) das desigualdades sociais e raciais. Os efeitos que decaíram principalmente na população negra e pobre, formam um bolsão de exclusão e pobreza (Fernandes, 1989).

Os interlocutores negros que viveram e apreenderam a história de seus antepassados, contam como que a cidade, a habitação e as suas funções foram desenvolvidas em São Paulo, segue baixo:

“1950, fêz 50 anos quando eu vim morar aqui. Antes daqui eu morei na Bela Vista, lá naqueles cortiços, aí foram derrubando, derrubando para construir, foram expulsando todo mundo, aí o meu marido veio procurar esta casa, alugar, aí o amigo falou: aqui não se aluga, se compra. Aí ele comprou isso aqui, era um quarto, um banheiro e uma cozinha. Aí daquela cozinha eu fiz a sala, o quarto do menino, o quarto de dispensa, eu fui fazendo, devagarzinho, você sabe que eu estou fazendo ainda” (Cacilda, 79 anos, moradora negra) (Oliveira, 2002).

“Por exemplo, eu sei que a ida daqueles que moravam e trabalhavam na Barra Funda e Bela Vista, também era um grande reduto de pessoas negra, eles foram atraídos por um anúncio da família Peruche, que dava um terreno de 11 de frente e 42 de fundo, eles davam uma casa, era simplesmente um quarto e cozinha,

e tinha no quintal um poço, um tanque e uma privada. E depois cabia então às pessoas que ali estavam dentro das possibilidades pagarem as prestações mensais, tratar de murar” (...) (Adhemar Ferreira, 73 anos, morador negro) (Oliveira, 2002).

Os interlocutores que contribuíram para a Dissertação de Mestrado “A Presença

Negra na Cidade: Memória e Territorialidade Negra na Casa Verde em São Paulo”, moraram nos bairros do Bexiga, Barra Funda, Perdizes, Pompéia, Vila Mariana, Campos Elíseos, Lapa, Liberdade, Sumaré, Pinheiros, Vila Mariana, antes de fixarem residência na Casa Verde.

Nas cidades brasileiras e na capital paulistana não ocorreu a separação entre brancos e negros, mas o enquadramento nos territórios de exclusão social e nos espaços mais pobres, precários e insalubres.

A Casa Verde é um pedaço do retrato “crescimento e pobreza” que estava sendo elaborado em São Paulo. Para a população negra, após a vida nos porões e cortiços, o segundo movimento em direção à perferia, em direção pós-Rio Tietê na Zona Norte.

“Aqui não tinha ninguém, foi chegando aos poucos, eu mesmo quando cheguei aqui em 1938, na Rua Armando Coelho, morava lá embaixo, ai vim aqui até em cima na Estrada da Casa Verde, rapaz, vim aqui. Isto aqui não é lugar de gente. Deus me livre, chegava às 15h30, 16h00, aquele mosquitinho, vamos embora, morava na Avenida Rudge. Você ta louco, eu aqui nesse lugar não fico de jeito nenhum, vamos embora. Eu não gostava daqui de jeito nenhum. Eu não gostava porque estava acostumado com aquele ambiente, no interior está certo, mas aqui estava formando, tinha mato, pernilongo, (...) no fim onde eu parei, da Rua Santa Eudóxia, estou aqui na Rua C, atual Antonio Cavazan, assim é a evolução” (Salvador, 90 anos, morador negro) (Oliveira, 2002).

“Não, era aqui mesmo, nessa casa mesmo, foi aqui nessa casa mesmo, eu tinha um ano de idade quando mudei para cá, só tinha um quarto que a minha mãe contava, e aí foi que devagar que foi aumentando a casa, então já é, bem dizer, eu tenho 72 anos, 71 anos que eu moro aqui, eu me casei, mas fiquei pouco tempo fora e logo meu pai construiu uma casa pra mim nos fundos, porque o terreno era grande, aí eu logo voltei pra cá, fiquei pouco tempo fora, são 71 anos que eu moro aqui então” (Lucinda, 72 anos, moradora negra) (Oliveira, 2002).

A maioria dos 32 interlocutores que conversamos, atestam, por intermédio da memória coletiva, que as primeiras décadas de vida na Casa Verde foram muito difíceis

pelas condições encontradas do local, individual e coletiva; apenas a habitação, sem nenhuma melhoria, equipamentos públicos e estrutura urbana e social.

A formação de antigos bairros negros, como a Casa Verde, Bairro do Limão, Jabaquara, Vila Matilde e outros, no novo cenário das periferias, tiveram grande participação de famílias extensas; no contexto religioso, social e cultural.

Dentre os moradores da Casa Verde que entrevistamos, alguns migraram de cidades do interior do estado. Dos contatos que fizemos e das indicações para as entrevistas, não entrevistamos nenhum migrante de outras regiões do país.

“Meu nome é Arnaldo, 86 anos, nasci em Cerquilho. Eu vim aqui pra poder ter uma vida melhor. Trabalho é lógico, lá eu era funcionário da Sorocabana, entrei em 1934 e sai 1940, seis anos. Morei na Glete, ali no Campos Elíseos mesmo, morei próximo da garagem de bondes. Lá na Pompéia, eu morava numa vila, depois eu fiquei quatro anos e meio na Glete e um ano e meio na Pompéia, por aí. Eu vim pra cá, comprei o terreno aqui, construí, aqui estava vendendo, estavam vendendo os terrenos por aqui tudo. Então viemos aqui, comprei aqui, eu e mais o meu irmão, em 1946 comprei aqui, e em 1947 construí e vim pra cá” (Arnaldo Arruda, 86 anos, morador negro) (OLIVEIRA, 2002).

“Meu pai, ele disse que veio de Taubaté, nasceu em Taubaté e depois veio pra cá com os pais dele. Eles compraram esse terreno aqui de 450m², então já era do meu avô, ele tinha mais irmãos, contava e quando foi na gripe de 1918, a gripe espanhola, então os irmãos dele faleceram todos e só sobreviveu ele e os pais. E ele já era casado, ficou morando aqui e aqui teve oito filhos, um morreu, tinha problema cardíaco, Moacir de Paula, com 22 anos ele morreu” (Sebastião de Paula, 65 anos, morador negro) (OLIVEIRA, 2002).

O povoamento inicial da Casa Verde nas primeiras décadas do século XX é um assentamento espacial da capital e do estado de São Paulo. A presença de migrantes, principalmente os nordestinos, ocorre posteriormente aos primeiros povoamentos, após a década de 1950, como ocorreu na maioria das periferias de São Paulo.

Fernandes (1965), em sua primeira obra, a respeito do negro em São Paulo, defendeu que a herança do passado escravista seria a principal causa de sua situação; pobreza urbana, discriminação e a patologia social. As mudanças e transformações viriam a ocorrer com a inserção, a abertura e a participação no mercado de trabalho urbano e industrial, que paulatinamente mudaria as faces da cidade, dos trabalhadores e para a população recém integrada à sociedade de classes.

As funções exercidas por homens e mulheres negras, em sua maioria, não lhes garantia total inserção no mercado de trabalho competitivo com o trabalhador branco, principalmente o imigrante (italiano, português, espanhol, etc.). A regra continuou sendo a mesma, o trabalho braçal.

“Quando eu vim aqui pro bairro, aí eu comecei a costurar aqui pro bairro, precisava né, eu me lembro como se fosse hoje, eu ganhava um dinheiro no fim da semana, eu comprava um frango e fazia um bolo pra domingo, era tão gostoso, viu! E agora que podia fazer dois, três bolos, não faço nenhum. Aquele tempo eu fazia um bolo, fazia um franguinho, macarronada, que domingo gostoso que era. Mas eu costurava pro povinho daqui” (Cacilda, 78 anos, moradora negra) (Oliveira, 2002).

“Meu pai trabalhava na Sorocabana, ele foi aposentado pela Sorocabana, ele trabalhava aí nos armazéns, aí da Barra Funda, ele trabalhava, e a minha mãe era doméstica” (Lucinda, 72 anos, moradora negra) (Oliveira, 2002).

Superar a condição de “lugar de negro” na sociedade paulistana, exige dos protagonistas negros a qualificação profissional e a superação do racismo no dia-a-dia em um mercado de trabalho competitivo e de segregação racial. A época de nossos interlocutores, a única alternativa foi vender a força de trabalho e fazer parte do exército industrial de reserva, sendo entre os desempregados, a maioria absoluta.

As vicissitudes funcionais do negro em São Paulo, concentraram-se na condição de empregado, proletariado e subproletariado. Os vícios do mercado que relegou aos trabalhadores negros e pobres a sub-representação nas ocupações mais inferiores e o destaque no exército de reserva.

Ocupar a condição de empregador, em uma micro, pequena ou média empresa, para homens e mulheres negros, significa sair da condição de “lugar de negro”e dos trabalhos subalternos, historicamente presente na memória coletiva da população negra da capital paulistana.

“Bom, eu tenho grandes exemplos do meu pai, ele nasceu no Rio de Janeiro, mas morou muito tempo na Penha, os pais dele eram de lá da zona Leste. Então lá ele começou a trabalhar com enfeites de Natal, que eu acho que eram poucas as fábricas que tratavam disso, aí ele saiu de lá e veio montar a fábrica dele aqui na zona norte. Então ele também gerou muitos empregos aqui, fabricando bolinhas e enfeites de natal, só não as árvores. (...) eu poderia dizer que teria uns 40 funcionários trabalhando com ele” (Shirlei Soriano, 36 anos,

moradora negra) (Oliveira, 2002).

“Eu comecei a trabalhar por minha conta, eu trabalhei em minha casa, na Cândido Espinheira. Mas quando eu trabalhava como empregado, eu trabalhei na Praça da Sé, na Rua do Arouche, tinha uma casa na Rua do Arouche que era o Preço Fixo, que era só roupa sob medida, eu trabalhei ali, depois eu vim pra trabalhar por minha conta, montei uma oficina na minha casa, comprei uma máquina Singer. Trabalhei, trabalhei muito tempo por conta, até 1941. Depois deixei a profissão de alfaiate, fui trabalhar com loja de autopeças, aonde meu irmão trabalhava, ele montou uma casa. Eu era uma espécie de gerente da firma. O local do trabalho era na Luz, eu fui trabalhar com ele” (Benedito Marques, 83 anos) (Oliveira, 1998).

O senhor Benedito Marques, atualmente, está prestes a completar 94 anos de idade. Ele e seu irmão, na década de 1940, foram proprietários de uma empresa de autopeças, localizada na região da Luz. Os dois irmãos, durante a década de 1940 se destacaram na condição de empregadores no setor automotivo. Da mesma forma que eles galgaram melhores posições sócio-econômicas, com a entrada das empresas de capital internacional no mesmo setor em que eles estavam trabalhando, paulatinamente, eles foram perdendo espaço, porque não tinham estrutura econômica, técnica e industrial para competir com as grandes empresas.

Realizaram-se três momentos da pesquisa de campo em nossa história de formação acadêmica durante a graduação e a pós-graduação. Em 1998, para a conclusão do TCC, em 2002, para a obtenção da dissertação de mestrado e, no período do doutorado em Ciências Sociais, totalizou-se 100 entrevistas. Somente quatro, conforme os relatos classificaram-se como empregadores, no entanto, as empresas de Benedito Marques e o pai de Shirley Soriano, são as únicas de maior porte e significado número de empregados, as outras duas absorvem apenas a mão de obra dos empregadores.

Com o fim da imigração estrangeira e o início do trabalho urbano-industrial, principalmente o setor metalúrgico, o aumento do número de vagas no mercado de trabalho seria natural para o trabalhador nacional e, em conseqüência, para os homens e mulheres negras (Fernandes, 1989; Andrews, 1998).

O quadro das desigualdades no mercado de trabalho, entre homens e mulheres, brancos e negros, pode ser visto desde os primeiros anos do século XX.

Com a sociedade do trabalho livre, é a mulher negra a principal responsável pela manutenção, a preservação e a segurança, econômica e social no amparo à família.

Quando determinadas funções do mundo do trabalho mudam, são os homens e mulheres negros que são mais afetados, ou seja, os trabalhadores cuja força de trabalho é o menor valor dentre o proletariado e o sub-proletariado.

As mulheres negras da Casa Verde, independente da presença do marido, elas ocuparam o posto de chefe de família; exercendo principalmente as profissões de doméstica, cozinheira, faxineira e outras funções.

“Eu nasci no cortiço, a minha irmã também, a minha mãe morava no porão. Aí quando mudamos pra cá, fomos crescendo, quando eu tinha 13 anos abriu uma cartonagem lá no morro do S, aí meu pai falou: Vou por essas neguinhas pra trabalhar. Meu pai trabalhava de pedreiro e ele gostava de tomar um pouco, tudo isso também para acabar com a saúde dele, então a gente ia trabalhar para ajudar a minha mãe, mas a gente sofreu muito na vida, só não chegamos a passar fome porque minhas irmãs, as duas mais velhas que eram casadas, ajudavam um pouquinho a minha mãe” (Luiza, 67 anos, moradora negra) (OLIVEIRA, 2002)

“Quanto a isso nós tivemos uma sustentação, um pilar foi ela mesmo, vivíamos numa proteção, vivíamos dentro de um invólucro. Os homens mesmo assim, sabiam dos limites porque quando chegavam em casa, ela cobrava de maneira até drástica, mas profissão nós tivemos dentro da capacidade de cada um. Estudo, por exemplo, quem conseguiu foram duas últimas, eu e minha irmã mais nova, a que tinha escola, você entendeu, então minhas irmãs todas trabalhavam, nós também trabalhávamos, ganhávamos pouco, e então havia aquela sustentação pelas outras irmãs para que nós estudássemos, então fomos as duas únicas com nível universitário, que galgamos um posto melhor e elas são todas costureiras, aposentadas hoje. Mamãe também era aposentada, depois foi doméstica muitos anos, depois foi trabalhar como passadeira na Modas Cio, trabalhou muitos anos lá, aposentou e fazia alguns serviços domésticos depois de se aposentar” (Romilda, 61 anos) (Oliveira, 2002).

O trabalho fixo incorporou-se na vida de homens e mulheres negros, quando eles já estavam com a idade mais avançada, entre 25 e 30 anos, idade superior a faixa-etária dos trabalhadores brancos (Fernandes, 1965).

Os interlocutores da Casa Verde adquiriram melhores condições - trabalho fixo -, a partir do momento que entraram para o serviço público, afastando-se do mundo do desemprego.

remuneração, proporciona condições de “conforto” e segurança para quem vive do salário. Há dois fatores que alteram o quadro funcional dos trabalhadores negros na Casa Verde, o primeiro é a atividade de funcionário público e, a segunda, com a entrada da imigração japonesa no distrito, enquanto empregadora do setor de corte e costura.

Os japoneses e seus descendentes que migraram para a Casa Verde no final dos anos 1960 encontraram a região despontando em desenvolvimento e a valorização do mercado imobiliário. O local, em princípio, área de reposição da força do proletariado negro começaria a sofrer as metamorfoses da cidade e do pedaço, como a entrada do japonês. É uma diversidade que se compõe com diferenças múltiplas; classe, raça, cultura, poder econômico e político.

Através da fonte de dados do IBGE e da Fundação SEADE, podemos demonstrar que a população japonesa e descendente (amarela) está sobre-representada; como o tempo médio de escolaridade do chefe de família, a renda média do chefe de família e outros atributos sociais e econômicos acima do patamar sócio-econômico e político da população negra.

“Não acontece, é difícil, eu, por exemplo, como diretora do Fórum, aposentada no Fórum de Santana, diretora do 1° Ofício da família e sucessões, eu dava um duro, porque muitos achavam que vindo trabalhar comigo teriam um espaço mais folgado, e isso nunca. (...) Então eles sempre procuravam um gueto, pra levar vantagens, e não pode ser assim no serviço público, e aonde quer que você se destaque, e a sua cor já é um destaque. Porque aonde você chega o branco olha, será que é, será que não é, e não é um olhar normal” (Romilda, 61 anos) (Oliveira, 2002)

A interlocutora Romilda foi uma exceção dentre os entrevistados, mas a conquista e a vitória têm a marca da família; a mãe e as irmãs exerceram as funções de empregada doméstica e costureira. A mobilidade sócio-econômica das mulheres negras significa um preço muito alto, elas têm que mostrar cotidianamente a sua força e superar as barreiras frontais que se encontram no cotidiano, conforme os lugares de destaque. As conquistas, materiais e não materiais reiteram que tem um preço muito alto, pois tiveram que abrir mão de muitas coisas importantes em suas vidas, como os relacionamentos e a vida familiar, sempre colocando em primeiro plano a carreira profissional (Silva, 1999:74).

“Pra você ver, a nossa raça está dispersando, que morrem os velhos, então os filhos, se não tiver uma base sólida. Então se não tem cabeça, vende. O português ou o japonês vem aqui e nós vamos para onde, para aqueles fundações.

E aqueles fundões já estão muito violentos, e os negros vão lá para o pé da serra. As casas dos negos aqui são as piores, isto também aborrece. Eu não falei para você que a nossa casa foi uma das mais bonitas da rua, ficavam tudo de olho. Era tudo gente de outro nível. Meu pai gostava de viajar, vinha de táxi aqui na porta, viagem com toda a família e a família sempre reunida, e eles sempre de olho. E no hospital ele falou: Não vão perder isso aí, conserva. (Sebastião, 65 anos, morador negro)” (OLIVEIRA, 2002).

Conforme as palavras do senhor Sebastião, a entrada do japonês ou do português, os efeitos seriam no campo do mercado de trabalho, como afirmamos acima e também no espaço da habitação, com a compra de imóveis, principalmente dos moradores negros.

A cidade, para homens e mulheres negros das periferias de São Paulo, é percebida através da análise sociológica e política, os seguintes casos de segregação: a segregação invisível e a silenciosa.

A segregação invisível, do cenário brasileiro e paulistano, é o real que não é visto. A conhecida “democracia” propaga que brancos e negros, pobres e ricos, vivem e compartilham espaços democráticos, ou seja, o acesso à igualdade e os mesmos direitos sociais no cotidiano das cidades.

A segregação silenciosa, na luta pelo espaço e aos melhores lugares na cidade não deixa rastros e não produz sonoridades e barulhos. A luta pelo espaço em São Paulo, os atores políticos que impuseram o silêncio, quiseram silenciar a maioria dos seus direitos, de seus lugares na cidade e o impedimento de uma verdadeira sociedade multirracial e democrática (Fernandes, 1989 e Unesco, 2005).

O cenário na Casa Verde e nas periferias paulistanas em que a população negra (1989-1940) percorreu para a constituição da habitação, da família e dos laços sociais, é o quadro da segregação.

Em toda segregação há o outro lado, nesse caso, nosso olhar é a face do território. Na Casa Verde, além das questões sociais e materiais, os valores culturais e simbólicos, como as escolas de samba, os terreiros de candomblé e umbanda e a irmandade religiosa, são as insígnias, que nos dias de hoje, espelham a herança negra do lugar.

As transformações da Casa Verde e da cidade de São Paulo é vista no decorrer do século XX, a partir dos anos 1960 até o ano 2000.

São Paulo não concentra mais as atividades do setor industrial, assim como foi no final dos anos 1960, 1970 e 1980, nos dias de hoje, novas funções foram incorporadas nas veias e no corpo da cidade: o setor de serviços.

Com as transformações, a cidade e os “pedaços”, pouco a pouco, foram sentindo os reflexos do local e do global.

Na Casa Verde, conforme a tabela abaixo, o crescimento demográfico cresceu nas décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980, e nas duas últimas, 1991 e 2000, o quadro populacional decresceu. Este fenômeno aconteceu em toda a cidade, isto é, nas áreas mais próximas do fluxo de capitais nacional e internacional, de circulação, de valorização imobiliária e da concentração de riqueza. A Casa Verde é próxima da Marginal, que é um ponto estratégico de entrada e saída para outras regiões do estado e do país, é o local que circula e é distribuída parte da riqueza do país. A área está próxima ao centro velho e novo, do conhecido quadrante sudoeste de São Paulo; local de riqueza, de poder político, econômico, social e cultural.

Tabela N°°°° 27 - População da Cidade de São Paulo e do distrito da Casa Verde nos últimos sessenta anos

1950 1960 1970 1980 1991 2000

MSP 2.151.313 3.667.899 5.924.615 8.493.226 9.646.185 10.434.252

Casa Verde 43.371 74.349 92.722 103.455 96.393 83.629

Fonte: IBGE - Censos Demográficos, 1950, 1960, 1970, 1970, 1980, 1991 e 2000. Sinopses Preliminares dos Censos Demográficos de 1950 e 1960

Sempla/Dipro - Retroestimativas e Recomposição para os distritos dos anos 1950, 1960 e 1970

As metamorfoses do capital e do espaço em São Paulo refletiram na CV e no