• Nenhum resultado encontrado

4.2 Curso e Discurso do Processo

4.2.1 A Representação

O Ministério Público é o titular da ação socioeducativa pública, que instaura o procedimento de apuração do ato infracional, mediante o oferecimento da representação ou da denúncia.

Esta peça, a representação, antecede a todos os outros documentos, considerando que ela desencadeia a apuração judicial. Esta promoção deverá trazer em Anexo, cópias da documentação produzida pela autoridade policial, ou seja, boletim de ocorrência, ou relatório policial, devidamente autuado pelo Cartório Judicial, devendo ainda constar a oitiva informal do adolescente realizada quando de sua apresentação ao Ministério Público.

Trata-se de um documento que apresenta, no alto da página, o timbre da instituição, o qual identifica sua procedência em um sentido geral, o Ministério Público do Estado de Sergipe, e específico, que é a 2ª Promotoria da Justiça da Infância e da Juventude. Assim, se apresentando desde o início, este documento já interpela o leitor comunicando algo de sua natureza, criando, por si só, uma expectativa quanto ao seu teor. Este, por sua vez, contém um resumo dos fatos e a classificação do ato infracional, segundo o Código Penal, podendo haver o indicativo do rol de testemunha. Após a identificação do órgão de onde procede a Promoção, esta também passa por um crivo de identificação através de um número no qual consta o ano de ocorrência do feito, vindo, logo depois, o nº de registro dos Autos, o qual acompanha a seqüência numérica do Ministério Público - 2ª Promotoria.

A identificação volta-se agora para o adolescente, este tem um nome, uma filiação, podendo o pai ser referenciado ou não, dependendo se houve reconhecimento legal da paternidade. Esta apresentação inicial traz a indicação do lugar, do registro e de uma data de nascimento. Também identifica o adolescente dizer seu endereço, sua escolaridade, sua situação de trabalho e a descrição do ato. A descrição do ato é uma exigência constitucional,

sendo este o recurso que permite ao adolescente tomar pleno e formal conhecimento da atribuição do ato infracional, de modo a lhe ser possível o contraditório: se houve uma denúncia, ou uma acusação, necessariamente haverá uma defesa, instalando-se assim o litígio (Paula, 1996).

A descrição do ato, segundo o ponto de vista do Ministério Público, busca objetividade na lei através do Código Penal que classifica a conduta criminal, nominando e hierarquizando-a. Nomeia-se também a vítima e dá expressão ao vivido por ela através dessa narrativa, criando uma tensão entre os dois personagens - o adolescente que age e a vítima que reage às circunstâncias. Assim, descrever o ato significa dizer, materializar a cena do crime, deixar que a vítima e o adolescente compareçam com suas intenções e emoções. É deixar que os atos falem por si, desde que sigam uma direção que seria a responsabilização do adolescente diante dos acontecimentos. Por outro lado, essa direção quer dizer uma seqüência de detalhes dentro de uma temporalidade linear de modo a que o ato se sobressaia em seu gesto final e revele sua causa primeira.

Assim, a descrição do ato não se esgota nele próprio, ou seja, os critérios de identificação do adolescente, a reação da vítima, traços das emoções ali vividas por um e outro, são elementos que participam dessa descrição e criam certa expectativa em relação ao acorrido e a uma presunção de culpa. Funcionam como a moldura no interior da qual se inscreve o conteúdo, que é o ato infracional propriamente dito.

(...) o adolescente abordou a senhora X com anúncio de assalto mediante ameaça utilizando uma faca, e em seguida arrebatou da mesma 02 (duas) sacolas contendo kits da festa (Rep. I).

(...) e a vítima gritou ‘Pega Ladrão’! ‘Pega Ladrão’ (Rep. I).

(...) Durante o percurso (...) parte do grupo composta pelos maiores anunciou o assalto, abordou o motorista e o cobrador do veículo apontando-lhes armas de fogo, enquanto os adolescentes representados, em ato contínuo, recolheram da gaveta onde fica o cobrador quantia em dinheiro e vales transportes, bem como outros objetos que encontraram. Sob ameaça dos revólveres os funcionários da Viação nada puderam fazer (Rep. V).

(...) Os integrantes do grupo assaltante saíram correndo do ônibus, alugaram um táxi mais adiante, e foram beber em um bar, onde foram apreendidos por

chamarem atenção pela exibição das armas, que foram encontradas com os imputáveis (Rep. V)

O documento é encerrado com a petição relativa à ação socioeducativa para apuração dos fatos ali narrados, com recomendação da oitiva do adolescente e seus genitores ou representantes e ainda, com indicação das providências a serem tomadas. Dentre elas, a elaboração do estudo interprofissional e a ouvida das testemunhas e da vítima em audiência de instrução. A gravidade do ato infracional pode levar a promotoria a requerer a internação provisória do adolescente, devendo constar na representação, este pedido, devidamente fundamentado e baseado em indícios suficientes de autoria e materialidade, demonstrada a necessidade imperiosa da medida (Art. 108 - ECA).

(...) requer o Ministério Público, seja decretada a internação provisória do adolescente, na forma prevista no art.184 c/c os arts. 108, 122 inciso I e 174, todos do ECA, diante dos seguintes fatores: a) contexto da execução do grave ato infracional com a posse de arma de fogo, bem como em co-autoria; b) necessidade de resguardar a ordem pública, diante da risco da prática de outros atos infracionais semelhantes ao presente; c) inexistência de vínculos sociais capazes de possibilitar sua convivência no momento em sociedade; d) ausência de autoridade familiar capaz de exercer controle sobre o mesmo; e) a necessidade de garantir a segurança da vítima , do próprio infrator; e a necessidade de instrução do procedimento apuratório com a realização das diligências apontadas no item anterior (Rep.IX).

A representação tem como fundamento o boletim de ocorrência ou o auto de apreensão promovida pela autoridade policial especializada e as impressões da promotoria, quando da oitiva informal do adolescente e dos seus pais. Esses últimos, se possível.

A oitiva informal também se transmuta em um relatório, no qual consta uma descrição do ato segundo o ponto de vista do adolescente. Também aí se introduz alguns elementos da dinâmica familiar, estando a promotoria interessada em saber se o exercício da autoridade familiar consegue inibir a conduta do adolescente, impedindo assim a reiteração de atos. Inexistindo essa condição familiar, e, quando esta se combina com as circunstâncias em que o ato foi cometido, no sentido de ter havido violência ou grave ameaça à pessoa, a promotoria pode usar do seguinte argumento para requerer a internação provisória, ou mesmo, a internação como medida socioeducativa:

(...) ausência de autoridade familiar capaz de exercer controle sobre o mesmo... [o adolescente] (Rep.IV, Rep. V, Rep. IX).

Segundo Paula (1996), sendo o Ministério Público representante do Estado- Administração, sua função é “equacionar a necessidade de defesa social com a possibilidade de interferência na educação do adolescente, de modo a buscar a reversão do quadro infracional evidenciado pela incidência em conduta descrita como crime ou contravenção penal” (PAULA, 1996:510)

Cabe, ainda, apresentar o tópico em que o funcionamento familiar entra em julgamento ao fazer parte do conjunto de argumentação para justificar a internação provisória do filho, esta requerida pela promotoria, tal é afirmação: ausência de autoridade familiar capaz de exercer controle sobre o mesmo. Não se trata de uma afirmação dita por qualquer um. Quem o diz está autorizado a dizê-lo, e o diz de um lugar especial, o lugar de saber, a quem é conferido o poder de enunciar discursos os quais são dotados de verdade. Ao fazê-lo, suas palavras criam uma realidade, a de uma família incapaz, mais especificamente, a de uma mãe que não consegue cumprir adequadamente sua função de educar. Sabe-se que a linguagem não tem apenas um caráter descritivo ou conotativo, ela pode vir a se transformar em um ato de fala capaz de fazer o dito ganhar realidade material. Esta seria a sua função declarativa, que, segundo Garapon (1997), garante a força da palavra no Direito, de modo que “o discurso tem valor de ato” (idem, p.143).

A família passa a entrar no debate, dessa feita pelo advogado, que contradiz o discurso da promotoria, isto para fundamentar um pedido de revogação da internação provisória, dizendo que o adolescente:

(...) possui família estruturada, tendo sua genitora autoridade familiar para exercer controle sobre ele, mantendo vínculos sociais capazes de possibilitar sua convivência em sociedade [...] logo as evidências apontam que não há risco à ordem pública (...) (MP VI)

A mãe está no centro das argumentações nesse momento de decisão sobre a revogação da internação provisória do filho. O embate que diante dela acontece é sobre ser o filho uma ameaça à sociedade, ao que ela responde construindo outra imagem do filho:

(...) que o representado é um filho obediente e respeitoso, bom aluno e que não costuma sair de casa; que tem horário para dormir; que acredita que o mesmo se tenha influenciado por más companhias; que o representado estuda há oito anos no mesmo colégio e a depoente acompanha de perto o desempenho do seu filho; que procura está próximo a seus filhos mesmo na recreação; que exerce a função de diarista e é casada (...) (T. Apres. VI)

Por sua vez, o laudo psicossocial diz desde logo, que a elaboração do citado documento tem como referência,

(...) a organização familiar e o clima emocional subjacente à mesma, isto para termos uma ideia do modo como o adolescente vem se conduzindo frente a seus anseios e ao contexto social (Laudo VI).

Ao que se subentende que mais uma vez a caixa de pandora é a família. Decifrando-se seus enigmas, decifra-se o comportamento do adolescente: a mãe está doente; o pai tem uma posição passiva na dinâmica familiar, aparecendo desqualificado porque não consegue ocupar o lugar de provedor e por não saber ler ou escrever. E, ainda, o estagio de desenvolvimento de sua personalidade o deixa vulnerável, sujeito à influencia do grupo, respondendo, inclusive, pelo impulso de roubar. O desfecho deste documento refere uma medida que contemple uma orientação psicossocial individualizada, portanto um tratamento voltado para esse campo de fragilidade e vulnerabilidade que a sua condição de ser adolescente o coloca. O adolescente aparece como vítima dele próprio, de seu estágio de desenvolvimento, visto como uma negatividade. O discurso é então a favor de uma normalização, propondo uma intervenção clínica, e mais, uma clínica de transformação do sujeito em um ser normatizado. Vê-se uma prática “psi”, operando controle e disciplina. O alvo é, portanto, o indivíduo, a mãe ou o adolescente, cada um em sua singularidade.

A mãe captura esse clima de acusação contra ela e se empenha em defender o filho como estratégia também de defender-se, geralmente pautando-se em argumentos morais:

Que passou por situações muito difíceis e seus filhos nunca roubaram nada de ninguém; que depois foi falar com a mãe da vítima e ela lhe disse que acreditava que o filho dela se enganou ao dizer que reconhecia [seu filho] como autor do roubo da bicicleta; que está certo que [seu filho] não participou desse roubo (T. Apres. VII)

A composição da série de documentos revela uma batalha institucional. Não podemos falar apenas de uma polarização entre Família e Estado, ainda que assim o seja na aparência. A tensão envolve o conjunto das instituições entre si, o que estaria significando o Estado contra ele mesmo em razão de diferentes maneiras de pensar a proteção, pois é preciso conciliar, no julgamento, dois fatores antagônicos: a ordem social e os interesses do adolescente. Colaborando para esta perspectiva tem-se o fato de que essas mesmas instituições, que a princípio estariam comungando de um mesmo objetivo – a proteção integral – fiscalizam uma a outra, para evitar os vícios processuais. Mas, antes de seguir na direção das aparências, cabe lembrar as disputas entre as várias versões que as instâncias do judiciário e o réu apresentam sobre o ato investigado. Estas disputas, em que uma versão necessariamente sai vencedora, nos dizem que a intenção não é modificar a estrutura de um julgamento em curso, e mais, não está em questão se a criminalização do adolescente pela via de um processo jurídico guarda ou não coerência com o discurso da proteção integral. No mínino, busca-se preservar as instituições zelando pelo processo. O que podemos dizer dos elementos subjetivos que participam do rito processual, em termos do seu caráter estigmatizante, de forma que o adolescente é envolvido em uma carga de preconceito que não o diferencia do sentido que é atribuído ao termo “Menor”, que não se apresenta de todo superado nos tempos de hoje, mesmo com o Estatuto?

O que se assiste, então, é o Estado cumprindo seu papel enquanto instância julgadora, que empreende esforço para cumprir a lei, assegurando o princípio do contraditório, evitando assim um julgamento ou punições arbitrárias. A esta altura do Processo, os documentos encontram-se, então, assim dispostos: a Representação do Ministério Público, a oitiva informal do adolescente e seus pais neste órgão, e as cópias do relatório policial que deu causa à petição da promotoria.