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A representação do calor: um sorriso amargo

6.2 A não-caricatura do negro

6.2.1. A representação do calor: um sorriso amargo

Nas primeiras linhas de O Mulato, o leitor percebe uma alteração estilística significativa em relação a Uma lágrima de mulher. Vejamos novamente a primeira linha do romance de 1881: “Era um dia abafadiço e aborrecido.” Assim como em Uma lágrima de mulher, o narrador de Aluísio Azevedo começa a construir o seu quadro, destacando alguns elementos; contudo, notam-se, imediatamente, duas mudanças. Primeiro, a descrição inicial do quadro torna-se bastante pormenorizada, depois, um novo aspecto do real recebe a atenção do narrador: o clima. Acerca da pormenorização, verificamos na seção anterior: a descrição não é uma finalidade em si mesma, havendo uma cuidadosa elaboração de imagens sequenciais, buscando a composição de um cenário intenso e socialmente crítico. Quanto ao calor enquanto temática principal da narrativa, Aluísio dá seguimento em sua obra a dois aspectos abordados no capítulo acerca de Uma lágrima de mulher: a questão dos determinismos e do interesse dos leitores.

A relação dos habitantes com a cidade em que residem, em termos deterministas, é uma das questões-chave na composição de Rosalina, de seu pai e de Miguel. Inquieta em Lípari, Rosalina parece cumprir sua vocação social somente após mudar de cidade e de classe social. A importância do local em que a ação se passa se verifica também quando se nota que o nome da cidade aparece na primeira linha em Uma lágrima de mulher, e na segunda linha em O mulato. Já a questão social aparece tanto no primeiro parágrafo de O mulato, primeiro com os aguadeiros, depois com os negros, os únicos a trabalharem em meio aos “prédios adormecidos”, como no segundo parágrafo de Uma lágrima..., quando o narrador chama a atenção para os “meios escassos de vida de Maffei e sua família”. Assim, o intenso calor de São Luís e a relação entre os que precisam trabalhar no sol indicam o tom do livro.

Quanto à escolha de São Luís, além das razões imediatamente mais lógicas – por ser a cidade natal do autor e por ser a cidade em que estava no momento da escrita –, pode-se incluir um outro elemento, associado ao jornalismo. Enquanto esteve no Rio de Janeiro, uma seca sem precedentes arrasou o Nordeste em 1877, com o Maranhão acolhendo retirantes:

A seca tornou-se assunto de Estado e tema principal da imprensa do Rio de Janeiro. A atitude do governo, as campanhas de solidariedade, a administração das províncias atingidas pela seca, o êxodo de parte da população eram objetos de longas crônicas e polêmicas. Alguns diários do Rio de Janeiro chegaram mesmo a

120 enviar repórteres aos locais da seca. (...) Os eventos ligados à seca (...) suscitaram inúmeras reações da imprensa satírica particularmente apreciada no Rio de Janeiro há alguns anos194.

Aluísio, desta maneira, esteve em contato com a questão do calor extremo e suas implicações sociais a partir da imprensa ilustrada em que trabalhou. Familiarizou-se com o modo de caricaturar o problema, de modo a torná-lo crítica social, além de inteirar-se dos debates relativos aos culpados e inocentes tanto pela imprensa como em seu círculo de amizades. José do Patrocínio, por exemplo, então repórter da Gazeta de Notícias, foi um dos enviados ao Nordeste para cobrir o evento climático em 1878 e, no ano seguinte, colocaria a sua experiência na forma de romance com o folhetim Os retirantes. Analisemos o quarto parágrafo desse romance:

Desde dezembro uma tristeza, densa como um nevoeiro, tinha empanado os espíritos ao verem a florescência dos cajueiros esperdiçada aos calores crus do estio. Nem um suor de tempestade embaciou a atmosfera, sempre de limpidez cristalina. Começou desta data a devoção solene, mas foi inteiramente vão o apelo para o céu diante da misantropia da natureza. Os dias secos e ardentes continuaram a devastar o gado, as plantações e as pastagens, ao passo que os rios e os açudes empobreciam como fidalgos pródigos195.

Patrocínio chama a atenção para o estado de espírito da população cearense, em tom sério e poético, comparando-o a um denso nevoeiro, porém, ao fim do parágrafo, surge a caricatura, quando compara a baixa dos rios à falência de fidalgos pródigos. Em sua narrativa, predomina o tom sério, poético, com um resquício de caricatura. Em Aluísio ocorre o inverso, predomina a caricatura com o elemento sério, surgindo em meio às imagens como intrusos, como acréscimos que fogem ao tom da narrativa: “os aguadeiros, em mangas de camisa” encerram a sequência de imagens, como a provocar no leitor a sensação de engolir em seco. O procedimento se repetirá na sentença seguinte: “Em certos pontos não se encontrava viva alma na rua; tudo estava concentrado, adormecido; só os pretos faziam as compras para o jantar ou andavam no ganho.” O negro, assim como o aguadeiro, parece surgir para estragar a graça, tornando o sorriso amargo. Um sorriso que deixa de ser sorriso: somente se pode saber o que o seu autor pretende representar quando o quadro termina de ser composto.

Nestes detalhes nota-se, com mais clareza, como a técnica literária se assemelha à técnica do desenho – neste caso, com as técnicas caricaturais. A atenção dada aos detalhes dos objetos não indica a ineficácia do olhar de Aluísio enquanto romancista para compreender o conjunto social. Pelo contrário, ele evita a síntese propositalmente, procurando detalhe

194 MÉRIAN, Jean-Yves. Idem. p. 103.

121 significativos dentro de milhares possíveis. Cabe ao caricaturista localizar os traços socais mais característicos após uma análise intensa do todo social. É assim que da imagem, lenta e comicamente construída, brotam trabalhadores e negros.