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A REPRESENTAÇÃO DO COLONIZADOR E DO COLONIZADO

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 32-36)

1 A IDENTIDADE CULTURAL BRASILEIRA E O DESEJO DO OUTRO

1.1 A REPRESENTAÇÃO DO COLONIZADOR E DO COLONIZADO

Segundo Albert Memmi (1967), a imagem produzida do colonizador é a de quem visava ao progresso social e econômico; em contrapartida, a do colonizado representava a debilidade, a perversidade e o ócio; portanto, precisava da proteção do colonizador para defendê-lo de si mesmo. O sentimento de inferioridade e de impotência deste contribuiu para que ele se submetesse cada vez mais à cultura do colonizador, o que de acordo com o autor contribuiu para sua desumanização.

Este trecho vem reforçar a concepção sobre o colonizador e o colonizado:

Os preguiçosos, os espíritos lentos, mesmo que tenham as forças físicas para cumprir todas as tarefas necessárias, são por natureza servos. […] Tais são as nações bárbaras e desumanas, estranhas à vida civil e aos costumes pacíficos. E será sempre justo e conforme o direito natural que essas pessoas estejam submetidas ao império de príncipes e de nações mais cultas e humanas, de modo que, graças à virtude destas e à prudência de suas leis, eles abandonem a barbárie e

se conformem a uma vida mais humana e ao culto da virtude. E se eles recusarem esse império, pode-se impô-lo pelo meio das armas, e essa guerra será justa, bem como o declara o direito natural que os homens honrados, inteligentes, virtuosos e humanos dominem aqueles que não têm essas virtudes. (LAPLANTINE, 2012, p. 39)

Com o fim do colonialismo, a escravidão se tornou crime; todavia, após três séculos de colonização, observa-se ainda o discurso de “complexo de inferioridade” de

quem foi “colonizado”. A título de exemplo, determinados brasileiros ainda

culpabilizam o ócio e a preguiça como heranças indígenas que comprometem o desenvolvimento econômico, político e social do Brasil e desconsideram as péssimas condições de trabalho, a falta de qualidade de vida, a desigualdade social e a corrupção como os fatores que colocam o país em tal posição (CALLIGARIS, 1996).

Com relação ao complexo de inferioridade do povo do Brasil, o psicanalista italiano Contardo Calligaris (1996) relata ter se surpreendido com o número expressivo de brasileiros que lhe proferiram sem pudor o enunciado “Este país não presta”, quando ele anunciava que pretendia viver no país. Em sua concepção, esse tipo de enunciação só seria pertinente se seu enunciador fosse um estrangeiro. Acrescenta que um europeu poderia criticar o governo, a situação econômica de seu país, mas não sua terra. É pertinente elucidar que a fala de Calligaris não apenas serve para perceber a visão do brasileiro sobre sua nação e cultura, mas também a do autor sobre o modo como vê o brasileiro, o Brasil e sua cultura.

Quanto ao complexo de inferioridade do brasileiro, para Calligaris, a explicação de tal fenômeno está relacionada com o passado, a constituição histórica do país. Menciona que os discursos dos brasileiros se assemelham aos do colono explorado e do colonizador explorador. Diz: “O colonizador veio então gozar a América, por isso deve esgotá-la, mas sabe que não era a América que queria fazer gozar” (1996, p. 19). A respeito dos colonos, comenta que a maioria se constituía em imigrantes que vieram na

busca de uma nova língua e de um novo “pai”. Todavia, ao chegar aqui, não tiveram a acolhida esperada. Na verdade, foram tratados como escravos brancos.

Ao tentar analisar o sistema de imigração, Calligaris elucida que o governo dos Estados Unidos agiu contra a importação de escravos brancos. Os colonos que foram para a fronteira norte-americana receberam terras para trabalhar, o que talvez tenha favorecido o surgimento de um sentimento de gratidão pela acolhida recebida.

Calligaris acrescenta que o comportamento do colonizador em relação aos brasileiros pode ser depreendido na forma de tratamento atribuído às empregadas domésticas. Além dos baixos salários e dos diversos casos de assédio sexual que essas profissionais sofreram ao longo da história, ele se surpreendeu com o fato de as crianças terem o consentimento dos pais de ordenar e de comandar os funcionários. Em sua concepção, isso lhe remete à busca do colonizador de permitir a seus descendentes o mesmo prazer e gozo que lhe foi dado.

No artigo “A celebração do Outro na constituição da identidade” (2003), com base na psicanálise lacaniana e nas teorias do discurso, Maria José R. F. Coracini assevera que as imagens dos estrangeiros sobre os brasileiros e dos brasileiros sobre si mesmos provêm de uma memória histórica. Com o intuito de confirmá-las, a autora se valeu de textos publicados na imprensa escrita.

Com relação aos enunciados dos estrangeiros sobre os brasileiros, Coracini

depreendeu tais estereótipos: “O brasileiro é desorganizado e indisciplinado”; “O

brasileiro é desonesto, caloteiro e explora os estrangeiros”; “Os brasileiros confiam no

‘seu jeitinho’”; “Os brasileiros fogem da responsabilidade”; “O Brasil é um país dependente”. Nas falas a seguir, a autora procurou retratar o modo como os brasileiros

se identificam: “Tudo o que é estrangeiro [americano e europeu] é melhor”; “O brasileiro só tem a aprender com o estrangeiro [sobretudo com o americano]”; “É bom

ser brasileiro, mas seria melhor ser estrangeiro”; “Os Estados Unidos e os americanos são bons e solidários”.

Assim como Bhabha (2013), Coracini enxerga que a identidade subjetiva, social e nacional se tece por meio das narrativas, dos discursos pedagógicos que são transmitidos aos sujeitos como se fossem verdades inquestionáveis. Os autores compartilham da concepção de que a identidade vai se construindo nessa relação conflituosa entre o eu e o Outro.

No artigo “Sujeito entre lugares: o lugar do brasileiro e a produção de conhecimento” (2006), Deusa Maria de Souza-Pinheiro Passos, apoiada nas reflexões de Mignolo (2000), Melman (2000) e Bhabha (2013) sobre a noção de colonialismo e pós- colonialismo, versa sobre o “complexo de inferioridade” brasileiro concernente ao saber científico. Com o intuito de confirmar a preocupação dos pesquisadores em legitimar suas investigações ao saber “de fora”, Passos cita esta enunciação de Orlandi sobre a produção científica brasileira:

Intelectualmente, continuamos terra virgem. Nossas ideias são nomeadas sem nós. Nas relações de sentidos, na reflexibilidade entre textos, são nossos textos que têm de encontrar filiações em cientistas de outras línguas, de preferência em inglês. (PASSOS, 2006 apud ORLANDI, 2003)

Orlandi acrescenta ainda que essa atitude contribui para que a produção intelectual brasileira se realize condicionada, dependente do dizer do Outro. Quanto a seu efeito, tem-se uma atuação que coloca o brasileiro como não sujeito da ciência, do conhecimento.

Assim como Calligaris (1996), Passos faz também referências aos estudos psicanalíticos, apropriando-se da metáfora paterna na abordagem da identidade

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 32-36)