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A REPRESENTAÇÃO DO EMPRESARIADO: A ACRJ E O PARTIDO

No documento priscilamusquimalcantaradeoliveira (páginas 74-123)

Ao longo dos primeiros anos da década de 1930, João Daudt d’Oliveira deixa de ser apenas um industrial de renome, bem relacionado com a elite carioca, e passa a se inserir em instituições de representação do empresariado em um novo contexto político, iniciado com a Revolução de 1930. Nesse contexto, em que diversos setores buscam garantir os seus interesses junto ao governo, é que se torna nítido o esforço do empresariado em assegurar sua participação e influência na formulação da política econômica e social. Verifica-se uma gradual aproximação entre seus principais líderes com os novos grupos detentores do poder.

Nesse sentido, este capítulo tem como objetivo analisar a inserção e atuação de João Daudt d’Oliveira nas esferas de representação do empresariado, que se inicia justamente com a Revolução de 1930 e com a ascensão de seu amigo Getúlio Vargas ao Executivo Nacional. Esta análise engloba o Governo Provisório e o governo constitucional de Vargas, portanto, entre 1930 e 1937 e marca um período de ascensão para Daudt, enquanto representante do empresariado, e também de conflitos e rupturas dentro do grupo político de gaúchos anteriormente unidos em torno da Aliança Liberal. É pela mão de Serafim Valandro que Daudt se insere na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), ocupando o tímido cargo de diretor, como outras dezenas de empresários. Porém, ao lado de Valandro, conquista voz ativa e reconhecimento na entidade e funda com ele o Partido Economista, que pretendia ser o porta- voz das classes produtoras.

As fontes principais utilizadas neste capítulo são periódicos da imprensa carioca, em especial, O Jornal de Assis Chateaubriand – disponibilizados pela Hemeroteca Digital Nacional – e correspondências e registros feitos no Diário de Getúlio Vargas.

2.1: Depois da Revolução: o cenário político e econômico do Brasil

A Revolução de 1930, nome com o qual é tratado pela historiografia o movimento que derrubou o governo de Washington Luís da Presidência e conduziu ao poder o grupo político ligado à Aliança Liberal, não inaugurou uma fase de consenso e estabilidade na política nacional. As múltiplas forças que compuseram a Aliança Liberal, unidas especialmente pelo objetivo de combater as oligarquias políticas tradicionais, não formularam um projeto político aprofundado. Mesmo obtendo a vitória, nenhum dos grupos aliancistas possuía força suficiente para assumir os rumos da política de forma exclusiva, abrindo-se um vazio de poder.169.

Logo teve início os embates entre os diferentes grupos que participaram da Aliança Liberal. Uma das primeiras questões de difícil consenso foi a respeito da duração do Governo Provisório. As primeiras medidas adotadas se caracterizaram por um aspecto intervencionista e centralizador, a exemplo do Sistema de Interventorias, por meio do qual o governo nomeava os chefes dos executivos estaduais e estes nomeavam interventores municipais. No campo econômico, também prevaleceu a condução de uma política centralizadora e intervencionista. O governo criou logo em maio de 1931 o Conselho Nacional do Café, com o objetivo de esvaziar o controle paulista sobre a política cafeeira. Outros órgãos semelhantes foram criados, a exemplo dos institutos do Cacau e do Açúcar e Álcool170.

A economia nacional sofria naquele contexto os efeitos da Crise de 1929. A produção industrial, que vinha apresentando índices expressivos de expansão, crescendo a uma média de 5,3% ao ano ao longo da década de 1920, recuou 7,1% em 1930. A crise internacional ocorreu

169 O golpe de 1930 tem sido tratado pela historiografia a partir de diferentes vertentes de interpretação, sendo que desde a década de 1980, consolidaram-se as análises que revisam o caráter revolucionário de tal movimento e a desqualificação de 1930 como marco revolucionário. Tais análises consideram que o golpe de 1930 foi uma ação preventiva do empresariado contra o movimento operário, sendo o verdadeiro momento revolucionário o ano de 1928 e a ação do Bloco Operário Camponês (BOC). Ver: DE DECCA, Edgard S. O silêncio dos vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1981.; TRONCA, Ítalo. A Revolução de 1930: a dominação oculta. São Paulo: Brasiliense, 1982. Uma visão mais ponderada a esse respeito é proposta por Luciano Martins, que considera 1930 como um marco por conta de seu caráter catalizador para se captar aspectos da cultura política, das aspirações e demandas de vários atores participantes do processo. Ver: MARTINS, Luciano. A Revolução de 1930 e seu significado

político. In: CPDOC/FGV. A revolução de 1930: seminário internacional. Brasília: Ed. UnB, 1983. Boris Fausto

defende a tese de que a solução encontrada para o impasse acerca do grupo que conduziria os rumos políticos foi uma espécie de acordo firmando entre os grupos aliancistas, sem vínculos de representação direta, o que classifica como um Estado de compromisso – Cf. FAUSTO, Boris. A Revolução de 1930. Historiografia e história. São Paulo: Brasiliense, 1970. p.104. Um balanço da literatura a respeito de 1930, o qual utilizamos como referência nesta tese, é apresentado no artigo de Marieta de Morais Ferreira e de Surama Conde Sá Pinto, intitulado A crise dos anos 1920 e a revolução de 1930. Ver: FERREIRA, Marieta de Morais. PINTO, Surama Conde Sá. A crise dos anos 1920 e a Revolução de 1930. In: FERREIRA, Jorge. DELGADO, Lucília de Almeida Neves. (org). O

Brasil republicano. 2 ed. vol.1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006.

170 PALDOLF, Dulce. Os anos 1930: as incertezas do regime. In: FERREIRA, Jorge. DELGADO, Lucília Almeida Neves. O Brasil Republicano. 2 ed.Vol.2, Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2007. p. 18-21.

em um momento em que o Brasil enfrentava o problema da superprodução cafeeira. Seguiu-se então uma queda do preço internacional do produto, acompanhada da redução da receita cambial e da suspensão de investimentos externos no país. No setor industrial, o período mais crítico compreende-se entre os anos de 1929 e 1931171.

Em que pese o fato de a década de 1930 ter sido um período de incerteza no campo político e econômico, tanto internamente quanto no contexto internacional, a economia brasileira não tardou se recuperar e alcançar desempenhos positivos nos primeiros anos após a Revolução de 1930. Maria Antonieta Leopoldi destaca que foram os anos dourados de crescimento para o setor industrial, em especial, entre os anos de 1933 e 1936, por contra, entre outros fatores, da redução das importações em função da crise de 1929 e, em sua sequência, da recessão internacional, fomentando um processo de substituição interna dos bens que não podiam ser importados. Outro fator diz respeito às políticas governamentais de atendimento às demandas setoriais, que incluíram medidas de proteção à indústria e a criação de uma infraestrutura de apoio às indústrias brasileiras172.

Ainda segundo Leopoldi, o governo, embora tenha empreendido medidas no sentido de equilibrar a situação do café no mercado internacional, buscou diminuir o modelo agroexportador, dando apoio a industrial nacional. Tais medidas não compunham, no entanto, um projeto de política econômica previamente elaborado. Conforme afirma Leopoldi, “foi sendo construído em cima dos acontecimentos, respondendo aos desafios conjunturais, e só pode ser compreendido se visto de uma perspectiva histórica”.173

Nos primeiros passos desse processo de mudanças na economia, que foi acompanhado de uma participação cada vez mais expressiva do empresariado, especialmente do setor industrial, nos rumos da política econômica e social, Daudt permanecia muito próximo a Vargas, situação que vinha desde os anos de articulação da Aliança Liberal, quando os gaúchos estreitaram de maneira significativa a amizade. Ainda no processo de articulação da Aliança, Daudt e Stella, sua esposa, preparavam-se para receber em casa a família de Vargas. Chegaram a preparar um quarto especial para o casal, o qual Stella Daudt apelidara de “quarto da Darcy”174. Por conta da turbulência política e das agitações em torno da Aliança Liberal e do

171 LEOPOLDI, Maria Antonieta. A economia política do primeiro governo Vargas (1930-1945). In: Ferreira, Jorge; Delgado, Lucília de Almeida Neves (Org.). O Brasil Republicano. v.2: o tempo do nacional-estatismo: do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. p. 244- 245.

172 Ibidem. p. 247-248. 173 Ibidem. p. 248.

174 Ver: Cartas de João Daudt de Oliveira a Getúlio Vargas colocando-se à disposição; sugerindo que se dê publicidade a sua (GV) administração; informando sobre a projeção do Rio Grande do Sul no tocante à sucessão

Golpe de 1930, a visita foi adiada. Quando as famílias finalmente puderam se encontrar, Daudt continuava, em certa medida, atuando como um articulador entre setores da imprensa carioca e Vargas, especialmente com relação a Assis Chateaubriand175. Ao longo daquela visita, o empresário discutiu com Getúlio acerca da viabilidade de atender a um insistente pedido de Chateaubriand, de conceder a primeira entrevista aos Diários Associados. Afobado, Chateaubriand não esperou nem ao menos a resposta. Resolveu aparecer sem avisar à casa de Daudt, no intuito de tentar persuadir Vargas a dar a tão desejada entrevista176. Apesar de

atrapalhado o primeiro encontro entre os Daudt e os Vargas após outubro de 1930, as famílias seguiram próximas, visitando uns aos outros com frequência em encontros de natureza particular, entre os anos de 1930 e 1932177.

Além disso, a proximidade se estendia a outro membro da família. Vargas nomeou, a pedido do empresário, seu primo, o engenheiro Yêddo Daudt Fiúza, para uma interventoria – a de Petrópolis. A cidade, localizada na região serrana do estado do Rio de Janeiro, funcionava como residência de veraneio da Presidência da República, sendo um local para onde Vargas costumava se instalar nos meses mais quentes do ano não só para lazer, mas também para trabalhar178. Em Petrópolis, Fiúza e sua esposa eram incluídos em programas familiares e de lazer com Getúlio e Darcy Vargas. Eram também confidentes179. Além disso, segundo a biografia de Vargas escrita em 2013 por Lira Neto, o presidente contava com Fiúza para auxiliá- lo em seus encontros extraconjugais com Aimée Simões Lopes em Petrópolis. Fiúza, nesse sentido, aparece como álibi e também motorista de Vargas180.

presidencial; comentando a atuação de João Neves como líder da bancada gaúcha na Câmara Federal; relatando encontro de Assis Chateaubriand com Antônio Carlos sobre a posição de Minas face o problema sucessório e enviando artigos do "O Jornal". Junto, resposta de João Pinto da Silva em nome de Getúlio Vargas. Rio de Janeiro, Porto Alegre. Classificação: GV c 1929.01.16. Série: c - Correspondência

Data de produção: 16/01/1929 a 21/01/1929 (Data certa). Quantidade de documentos: 2 (14 folhas) Microfilmagem: rolo 1 fot, 0475/1 a 0477/5. CPDOC-FGV.

175 Situação observada no capítulo anterior.

176 MORAIS, Fernando. Chatô, O Rei do Brasil. São Paulo: Círculo do Livro, 1994. p. 253-254. Dias depois do encontro, os seis jornais de Chateaubriand publicaram em uma página inteira uma extensa reportagem com Vargas, em que o gaúcho explicitou detalhadamente os dezessete pontos de sua plataforma de governo.

177 Ver: VARGAS, Getúlio. Getúlio Vargas: Diário. São Paulo: Siciliano. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Vol. 1. (1930-1936). p. 26, 32, 35, 41, 54, 61, 77, 97 e 130 (entre novembro de 1930 e fevereiro de 1932, quando há uma ruptura entre ambos, conforme analisado ainda neste capítulo da tese).

178 Cf. ALCÂNTARA, Priscila Musquim. O candidato civil do PCB: a trajetória política do engenheiro Yêddo Fiúza (1930-1947). Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora. Dissertação de Mestrado. 2012.

179 Proprietário de terras na região de Areal (RJ). Cf. VARGAS, Diário (1930-1936). op. cit. p. 58. Mais encontros são registrados no Diário de Vargas, que incluem programas familiares com Darcy Vargas e com a esposa de Fiúza

180 Nos dois volumes do Diário de Vargas, são numerosas as aparições de Fiúza na agenda do presidente. Em uma das citações, Vargas menciona que foi procurado pelo engenheiro para uma espécie de desabafo. Segundo o presidente, seu amigo encontrava-se “atormentado com o seu caso doméstico de incompatibilidade de gênios”. (ver. VARGAS, Getúlio. Getúlio Vargas: Diário. São Paulo: Siciliano; Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas. Vol. 1. (1937-1942). p. 200 – 11 fev. 1939). Quanto ao caso extraconjugal ao qual Lira Neto menciona, há duas

Daudt chegou, portanto, ao fim do movimento de 1930, como um articulador político respeitado e influente. Na imprensa, era tratado sempre como o industrial João Daudt d’Oliveira. Figura constante nas linhas d’O Jornal de Assis Chateaubriand, não eram economizados elogios nas colunas sociais ao empresário e um dos principais anunciantes. “Sócio da firma Daudt Oliveira e C., figura de relevo no alto comércio do Rio de Janeiro e um dos grandes impulsionadores da indústria farmacêutica em nosso país”, descrição feita pel’O Jornal em 16 de novembro de 1930181 e que se repetiu por muitas vezes ao longo da trajetória

do empresário, bem como o investimento em publicidade feito por Daudt junto aos Diários Associados.

2.2: A representação do empresariado via associações e sindicatos: o ingresso de Daudt na diretoria da ACRJ

Quando Jango estabeleceu o seu laboratório no Rio de Janeiro, a cidade, além de Distrito Federal, era também um expressivo centro industrial do país e sua hegemonia só foi superada por São Paulo já no contexto da Primeira Guerra Mundial, em 1914182. Concentrava, portanto, não só empresas de peso no cenário nacional, mas também entidades de representação dos interesses do empresariado. Jango, no Rio de Janeiro, adquiriu elevado status entre as associações farmacêuticas. Recebeu ao longo de sua trajetória na capital o título de presidente de honra da Associação Brasileira de Farmacêuticos e do Sindicato da Indústria de Produtos

passagens, no segundo volume dos Diários de Vargas em que o presidente descreve que foi, conduzido por Fiúza, a um encontro amoroso. Em 1º dez. 1937, Vargas registra: “Após as audiências, saí com o Fiúza e fui ver a bem-

amada. Encontrei-a depois, à hora do jantar. Que duas vidas tão diferentes, a de então e a de agora”. A outra passagem, de 29 de maio daquele mesmo ano, assim está registrada: “Retirei-me ao meio dia com o Fiúza, que me deixou no ponto combinado. Daí fui ver a bem-amada. Era uma despedida. Almoçamos juntos e passamos uma tarde deliciosa, toda de encanto, afastando a tristeza de separações. Regressei quase à noite”. Não há registro

do nome da “bem-amada”. Afirma Lira Neto tratar-se de Aimée, que era esposa de Luís Simões Lopes. Vale ressaltar o parentesco entre as famílias Daudt e Simões Lopes. Luís era primo de Haidée, esposa de Jango. Cf: LIRA NETO. Getúlio. 1930-1945. Do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo. São Paulo: Companhia das Letas, 2013.

181 HÓSPEDES e viajantes. O Jornal, Rio de Janeiro, 16 nov. 1930. p.12.

182 LEOPOLDI. Maria Antonieta. Política e interesses na industrialização brasileira. As associações industriais, a política econômica e o estado. São Paulo: Paz e terra, 2000. p. 41-52. Segundo Leopoldi, esse fato não significou um processo de decadência do setor industrial carioca, e sim uma diminuição de seu ritmo de crescimento, por fatores que tem origem na multiplicidade de funções exercidas no Distrito Federal, que além de sede do governo federal era ainda um centro financeiro, portuário e comercial. Além disso, em função de seu caráter diversificado, o parque industrial carioca sofreu com a concorrência de novas áreas industriais no país, que começaram a se especializar em setores específicos da indústria. Conforme Leopoldi, “o intenso crescimento da indústria paulista

desde os primeiros anos deste século, em lugar de esvaziar de imediato a indústria carioca, como num jogo de soma zero, causou um descompasso no ritmo de crescimento industrial dos estados do Sudeste. A indústria do Distrito Federal continuou a crescer durante as três primeiras décadas do século XX, mas de forma lenta, enquanto o parque industrial se expandia rapidamente na cidade e no interior de São Paulo”. p. 57-59.

Farmacêuticos do Rio de Janeiro. Foi agraciado ainda com título de membro honorário da Academia Nacional de Farmácia183. Seu sobrinho, embora participasse dos quadros de associados de tais entidades, não exerceu funções expressivas na representação dos interesses específicos dos farmacêuticos. Daudt inseriu-se na Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ), em um contexto de turbulência na entidade.

A direção da Associação foi contrária à candidatura de Getúlio Vargas. Dois dias após a posse do Governo Provisório, Ernesto Pereira Carneiro, que era também proprietário do Jornal do Brasil, renunciou ao cargo de presidente da entidade, acompanhado de outros 19 diretores. Em conformidade com os estatutos da ACRJ, o grande número de renúncias implicou na extinção dos poderes dos remanescentes, uma vez que mais da metade da direção entregou os seus cargos184. Nova eleição foi marcada para 5 de dezembro de 1930. Formou-se uma chapa, liderada pelo gaúcho Serafim Valandro, que ingressou na direção da ACRJ um ano antes. Valandro nasceu em Santa Maria (RS). Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1909 e montou um estabelecimento de comercio de charque e cereais. Em 1922, foi designado representante de Santa Maria junto a Federação das Associações Comerciais do Brasil (FACB), sendo, portanto, um empresário bem conhecido na capital185. Tão logo teve início as articulações para a composição de sua chapa, Valandro pediu a Daudt que ingressasse nela, candidatando-se ao cargo de diretor186.

Na chapa de Valandro, constavam como vice-presidentes os nomes dos empresários Pedro Vivacqua, ligado ao comércio de exportação de café e de José Mendes de Oliveira Castro, que vinha de uma família de comerciantes e financistas187. Muitos dos diretores eleitos com Pereira Carneiro e que foram obrigados a abandonar seus cargos por força do estatuto da ACRJ, migraram para a chapa de Valandro. A campanha, no entanto, não passou sem turbulências. Houve oposição e críticas ao candidato gaúcho, considerado detentor de um pensamento associado ao do Governo Provisório. Formou-se uma chapa encabeçada pelo empresário Othon

183 DAUDT FILHO, João. Memórias. 2 ed. Santa Maria: Ed.UFSM, 2003. p.187

184 ASSOCIAÇÃO COMERCIAL: RENÚNCIA DO SR. CONDE PEREIRA CARNEIRO E DE 19 DIRETORES.

Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 6 nov. 1930. p.6.

185 DIAS, Sônia. Serafim Valandro. (Verbete). ABREU, Alzira Alves. BERLOCH, Israel. LATTMAN- WELTMAN, Fernando. LAMARÃO, Sérgio. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro - DHBB. Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil - CPDOC. Fundação Getúlio Vargas, 2000. Disponível em: http://www.fgv.br/cpdoc/busca/Busca/BuscaConsultar.aspx. Acesso em: 1 jul. 2014.

186 Dois anos mais tarde, Daudt, em homenagem ao amigo, discursou a respeito dos anos de amizade mantidos com Valandro. “Sempre aproximados pelos laços que o berço comum estreita e fortalece, vimos caminhando solidários há mais de três decênios desde a camaradagem infantil, entre as serranias azuis de Santa Maria da Boca do Monte, até esta etapa ruidosa na capital da República. Nada liga mais os homens pela vida afora do que a identidade de objetivos e de ideias”. AS CLASSES CONSERVADORAS LANÇAM AS BASES DE UM GRANDE PARTIDO ECONÔMICO NACIONAL. O Jornal, Rio de Janeiro, 1 mai. 1932. p. 1

Leonardos, diretor da Sociedade Cooperativa O Crédito Popular e cônsul geral do Peru no Rio de Janeiro, que, no entanto, não ganhou adesão que ameaçasse o grupo de Valandro. A empresa de Leonardos se encontrava em processo de falência naquela ocasião e seu nome era identificado com o governo deposto. Além disso, não havia um único nome da diretoria anterior em sua chapa. Esses fatores causaram desconfiança entre os associados da ACRJ e a chapa de Valandro saiu vitoriosa188.

Em seu discurso de posse, Valandro deixou explícita a relação que os novos dirigentes da ACRJ objetivavam manter com o governo.

Agora que está renovando a própria estrutura da nacionalidade, a classe precisa, mais do que nunca, que a sua legítima representante, a Associação Comercial, colabore com o poder público nas medidas cuja aplicação incida sobre nossas atividades. (...)

Relevante e difícil será a nossa coadjuvação em toda esta jornada de patriotismo, se o Governo, como tudo indica, nos quiser ouvir e atender, agindo de modo diverso do que se fazia no passado, quando éramos chamados a colaborar para compartilharmos das responsabilidades, mas as nossas sugestões [...] eram integralmente postas de lado189.

Era, portanto, em tom de crítica ao governo anterior e expectativa com os rumos do país tendo Vargas à frente do Executivo Nacional que a nova diretoria da ACRJ se pronunciava. A expectativa da diretoria era garantir canais de diálogo com o novo governo para aquela entidade

No documento priscilamusquimalcantaradeoliveira (páginas 74-123)

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