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3.3 O imaginário pictórico nas “Composições Alegóricas” de Lídia

3.3.1 A representação do nacionalismo e da identidade

Os temas referentes ao nacionalismo e à identidade podem ser

encontrados, principalmente, em três obras de Lídia Baís: “Dr. Getúlio

Vargas – Composição”

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(pintura), “Lídia na Bandeira” (foto-montagem)

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e “Retrato da Família Baís” (pintura)

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.

Referindo-se aos temas do nacionalismo e identidade na obra de

Lídia Baís, a professora Alda Couto considera que “a vertente temática do

nacionalismo na pintura de Lídia Baís está representada pela homenagem

a Getúlio Vargas, que tem sua imagem ligada à Napoleão Bonaparte” e

acrescenta que “é ousada a posição de Lídia, considerando-se parte

integrante da nação, quando as conquistas da cidadania, pelas mulheres,

eram incipientes” (COUTO, 1999a, p. 24).

Na pintura “Dr. Getúlio Vargas” pode ser observada a evidente

relação que Lídia Baís estabelece entre Getúlio Vargas e Napoleão

Bonaparte (ANEXO 3.4). Getúlio Vargas é representado vestindo o traje

típico do Rio Grande do Sul – botas e bombachas – como um “autêntico

gaúcho”, símbolo da cultura sul-rio-grandense. Da mesma forma, Napoleão

Bonaparte também é representado da maneira em que usualmente aparece

em suas diversas representações neoclássicas: sempre triunfante, em

uniforme militar, montado sobre um cavalo branco.

Ambos os chefes de estado, Getúlio e Napoleão, estabelecem um

diálogo, proposto intencionalmente pela artista, sob a égide do emblema da

bandeira brasileira, que também está representada no canto superior direito,

sobre a cabeça de Napoleão. Ao mesmo tempo em que Lídia “homenageia”

Getúlio e Napoleão, a artista reafi rma sua ousada atitude de cidadania ao

“comentar” política numa época em que, provavelmente

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, as mulheres

para representar uma idéia, um ser físico ou moral: a bandeira é o emblema da pátria; a coroa de louros, o da glória. O atributo corresponde a uma realidade ou imagem, que serve de signo distintivo de uma personagem, uma coletividade, um ser moral: a balança, são atributos da justiça, as asas, de uma companhia de navegação aérea. A alegoria é uma figuração que toma com maior freqüência a forma humana, mas por vezes toma a forma de um animal ou de um vegetal ou, ainda, de um feito heróico, a de uma determinada situação, a de uma virtude ou a de um ser abstrato. Por exemplo: uma mulher alada é a alegoria da vitória. A metáforadesenvolve uma comparação entre dois seres ou duas situações, como, por exemplo, qualificar de dilúvio verbal a eloqüência de um orador” (CHEVALIER; GHEERBRANT, 1999, p. XI-XX). 63 A esse respeito, ver BAÍS, [ca. 1960]b, p. 21; BAÍS, [ca. 1960]c, p. 06.

64 A esse respeito, ver BAÍS, [ca. 1960]b, p. 41.

65 A esse respeito, ver BAÍS, [ca. 1960]b, p. 16; BAÍS, [ca. 1960]c, p. 38.

66 A palavra “provavelmente” é inserida no texto, tendo em vista que as representações pictóricas ‘da artista não possuem data, impossibilitando uma ordenação cronológica.

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ainda não tinham nem o direito ao voto

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e eram desconsideradas enquanto

sujeitos sociais e históricos. Ao comparar Getúlio a Napoleão, Lídia

compara também a política brasileira da época, mais precisamente, a Nova

República, com o absolutismo francês e sua política autoritária do século

XIX. Assim, a pintura “Dr. Getúlio Vargas” evidencia a visão crítica da

artista diante da política de sua época e o seu repúdio ao presidente Getúlio

Vargas, haja vista que foram as tropas enviadas, sob a ordem de Getúlio,

que combateram a revolta defl agrada no estado de Mato Grosso em 1932

e puseram fi m ao governo provisório de Vespasiano Barbosa Martins,

cunhado de Lídia Baís e um dos líderes da revolta

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.

A afi rmação da identidade da artista, da sua cidadania brasileira, do

seu lugar na Pátria como a estrela maior do Brasil, é confi rmada em sua

foto-montagem, que tem como título “Devido uma visão, Lídia Baís, foi

colocada dentro da Bandeira Brasileira!”. Esse trabalho traz duas inscrições

entre parênteses logo abaixo do título, nas quais se pode ler: “(mais

tarde entenderão porque!...)” e “(representa Universal ou universalista)”

(ANEXO 3.4). Nessa colagem, Lídia apropria-se da mesma imagem que

utiliza em um dos quatro cartões de visita que imprimiu como veículo de

divulgação do “Museu Baís”.

A atitude da artista de inserir-se na bandeira nacional, na parte superior

do círculo, logo acima da inscrição “Ordem e Progresso”, justamente no

lugar da “estrela maior” – que representa o Estado do Pará –, “refl ete o

nacionalismo da artista como traço de uma identidade nacional que passa

pela necessária valorização do indivíduo, como agente da história”. Pois,

segundo Orlandi, “[...] temos, de um lado, a materialidade do símbolo (da

bandeira) com sua força produtora de sentidos, de outro, um ser marcado pela

sua necessidade social, na qual, historicamente, se marca o desejo de ‘ter uma

pátria’, ‘pertencer’ a um país” (ORLANDI apud COUTO, 1999, p. 26).

O terceiro trabalho de Lídia Baís que representa, ainda, questões

relativas ao nacionalismo e à identidade é um retrato de sua família intitulado

“Retrato da Família Baís (Represento uma Família Universal)” (ANEXO

67 Foi Getúlio Vargas quem instituiu o voto feminino em 1932.

68 Segundo Marisa Bittar, “[...] no início de outubro cessou o movimento e confirmou-se a hegemonia das forças ligadas a Vargas. Para Mato Grosso a derrota dos paulistas implicou na retomada do controle político pelos grupos do centro-oeste e no imediato desmonte do efêmero governo de Vespasino Barbosa Martins, que, então, a exemplo de tantos outros chefes políticos mato-grossenses, exilou-se no Paraguai. Da cidade de Pedro Juan Caballero, onde viveu com a família, de outubro de 1932 a abril de 1933, enviou carta a um irmão na qual revela “não estar arrependido” de seu “proceder, isto é, de haver combatido uma ditadura”. (BITTAR, 1997, p.136).

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3.5). Nessa pintura, a professora Alda Couto considera que a artista

evidencia elementos da pintura ingênua e da arte popular – que lembra

painéis religiosos, a nobreza européia do antigo regime vista com galas de

divindade, a iconografi a ofi cial com seus bustos inseridos em medalhões e

suas fl âmulas (COUTO, 1999a, p. 28).

A artista enfatiza, nessa pintura, uma família com ares aristocráticos e

de nobreza européia, na qual aparecem, inseridos no centro da representação,

seus pais, unidos por uma fi ta aos fi lhos, genros e netos, constituindo-se numa

espécie de representação da própria “árvore genealógica” de Lídia Baís.

Nessa composição, todas as personagens mais importantes da família Baís

são representadas de forma circular, lembrando antigos retratos ou fotografi as

inseridas em medalhões. A fi ta que une as personagens é construída com as

cores vermelho, verde e branco, numa alusão às cores da bandeira Italiana,

indicando a origem comum de todos os descendentes da família Baís.

Essa pintura pode ser percebida, ao mesmo tempo, tanto como uma

homenagem à nobreza aristocrática da monarquia quanto uma exaltação à

cidadania universal, ao cidadão do mundo, já que o próprio título da obra

nos remete nessa direção. Não somente por isso, mas, também, porque as

“fl âmulas” inseridas na composição são bandeiras de vários países distintos

e, ainda, porque os pais de Lídia estão vestindo trajes e adereços típicos

da realeza, sobretudo a mãe, que aparece usando uma coroa de ouro e um

luxuoso manto de peles brancas. A própria artista se auto-representa, logo

abaixo dos pais, cercada por diversas bandeiras, entre as quais

destacam-se a bandeira da França, da Suíça, da Itália e dos Estados Unidos. Do lado

esquerdo da imagem, está representado o globo terrestre, com o mapa das

Américas em destaque sobre a fi ta que une a artista a uma de suas irmãs.

Na parte inferior do lado esquerdo, entre o globo e um de seus irmãos,

Lídia insere o brasão do império brasileiro e, simultaneamente a este, insere

também, no lado direito, o brasão da República do Brasil, colocando lado

a lado símbolos muito signifi cativos na construção identitária da nação

brasileira. Tudo isso é animado por uma banda musical de anjos e querubins,

composta por sobrinhos da artista que tocam diversos instrumentos na parte

superior da representação, proporcionando um clima festivo, que lembra

festas folclóricas italianas.

Assim, pode-se constatar que o único traço de ingenuidade nessa

pintura de Lídia Baís é evidenciado apenas pela forma de construção plástica

e pictórica da obra, pois toda a representação está emoldurada por guirlandas

de fl ores que lembram rosas de plástico e a distribuição das personagens na

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composição é feita a partir da união dos diversos retratos familiares por

uma fi ta construída com cores contrastantes, oferecendo elementos para a

comparação com os procedimentos pictóricos da arte ingênua e popular.

Mas é somente por isso, pois a representação da “Família Baís” é, em si,

uma aguda crítica à república e aos valores do nacionalismo republicano, já

que a artista marca sua representação com ares de realeza e universalidade,

indicando sua preferência pelo regime monarquista (ou anarquista?).

Diante disso, podemos afi rmar que as questões referentes ao

nacionalismo, à identidade e à alteridade são abordadas de maneira muito

peculiar pela artista na construção de seu imaginário pictórico, pois a

mesma utiliza-se de procedimentos técnicos supostamente “ingênuos” para

elaborar uma aguda crítica política e social à república, ao bairrismo, ao

localismo e ao próprio nacionalismo.

Além disso, Lídia Baís afi rma a identidade nacional e o nacionalismo

com a inserção de sua imagem na bandeira brasileira e, ao mesmo tempo,

nega essa identidade, requisitando, através da representação de símbolos

signifi cativos, uma cidadania universal. Enquanto pessoa e artista, Lídia

quer pertencer ao mundo.