6.1 Representação Social da Atividade Socioeducativa
6.1.5 A Representação sobre a perspectiva da comunidade
As atividades socioeducativas assim como a própria Assistência Social se destinam aqueles que delas necessitarem (PNAS, 2004), sendo a comunidade, onde os equipamentos desta política estão, o seu maior alvo.
Na tentativa de compreensão da forma como as psicólogas analisam a percepção da comunidade sobre as atividades socioeducativas, é possível visualizar semelhanças na forma como elas acreditam ser o entendimento dos outros profissionais e da comunidade sobre estas.
NL reafirma que a comunidade não entende e acredita ser também por preconceito, como no caso dos outros profissionais da Assistência Social, em sua opinião. Se não entendem não ajudam, afirma.
(...) como eu falei a comunidade em geral não participa muito desta questão (...) talvez mesmo porque do preconceito de algumas pessoas. Mas também pela falta de divulgação deste programa. Ela não entende, então a gente tem algumas pessoas, alguns órgão que ajudam, mas ela é uma minoria. (NL)
A falta de entendimento por parte da comunidade se deve na opinião da psicóloga NL, a falta de divulgação dos programas que desenvolvem as atividades socioeducativas.
No sentido oposto temos a opinião da psicóloga BDN, afirmando que a comunidade gosta e participa pelo fato de as atividades socioeducativas proporcionarem um espaço onde os participantes podem ser ouvidos, por acontecerem em um grupo menor que o grupo da escola, no qual estes participantes, devido ao tempo e aos objetivos conteudistas da mesma, não possuem espaço de falarem sobre temas que lhe chamam a atenção, experiência vivenciada em ambos locais pela psicóloga, uma vez que ela também trabalha como docente.
(...) trabalhava com adolescentes e eu sentia que eles gostavam muito. Eles participavam muito, gostavam muito e os pais também. Eles gostavam porque nas atividades socioeducativas ele tem um espaço onde eles podem ser ouvidos. Acho que isto, eu percebo assim na escola, onde também eu trabalho, mas como professora, às vezes, até é uma falha do professor, a gente não tem tempo. Não tem. Você tem um conteúdo para passar e você tem que parar e trocar de turma. Dentro da sala de aula você não tem muito tempo para ficar abrindo espaços individuais para falar sobre alguma coisa, você tem que ir pro coletivo, infelizmente. E ali [na atividade socioeducativa] não, eles se sentem a vontade de falar sobre o que eles querem e o grupo é menor então acaba que você consegue maior atenção. (BDN)
Partilhando da mesma percepção que NL, para a psicóloga TL, a comunidade não compreende as atividades socioeducativas. Esta não se apropria destas, tal fato em sua opinião, se deve aos entraves advindos da mudança de gestão municipal que promove a troca de técnicos frustrando os profissionais e tornando “fria” a execução de tais atividades.
A comunidade não compreende as atividades socioeducativas (...) tu vês que hoje a comunidade ela não se apropria (...) eles vinham e sabiam que eles seriam escutados que eles iriam ser acolhidos, que aqui de algum jeito a gente iria tentar resolver ou ajudá-lo a resolver, ajudar a perceber as suas possibilidades que ele tinha e hoje a coisa é fria. Não chamo mais de Casa da Família [nome sugerido pelo Ministério do Desenvolvimento Social ao CRAS] esta mudança tem a ver com Gestão porque você vê a troca de técnicos. Muita gente saiu nesta frustração. Gestão totalmente. (TL)
Para a psicóloga TR a comunidade percebe as atividades socioeducativas como uma via para prevenir o envolvimento dos filhos desta comunidade com coisas e situações de violência. Acredita ser um espaço onde ocorrem estas atividades seguro e de menor risco, sendo uma prisão para a proteção, afirma TR.
Neste momento a comunidade só vê como uma forma de tirar seus filhos de uma violência maior, do uso das drogas. (...) as mães e os pais quer dizer, as mães porque os pais estão desaparecidos, não sei se em todas as camadas sociais, mas nesta população de vulnerabilidade social, de alta vulnerabilidade social, os pais estão desaparecidos. Então, as mães querem de alguma forma trancafiar seus filhos dentro de algum lugar que elas acham ser mais protegido. É assim que a comunidade, pelo menos do meu ponto de vista, elas querem um lugar que possa oferecer menos risco é lá que eu vou trancar meu filho. (TR)
Para a psicóloga FB a comunidade não entende também o que sejam as atividades socioeducativas, só quando estão precisando de algo (algum benefício) é que começam a compreender a política pública, mas ainda assim acredita que algo fica em suas vidas mediante a participação nestas atividades.
A comunidade é pior ainda porque a comunidade não tem noção quando chega aqui, elas não tem noção do que vão fazer. Temos grupos aqui onde as pessoas são
aprender sobre política pública, vou entender um pouco mais sobre política pública. Não! Eles começam a entender quando eles têm uma dificuldade, buscam uma informação, vem aqui no CRAS que eles possam ter uma resposta pras dificuldades deles e como grupos socioeducativo durante nossas palestras, mas acho até humano você não tá precisando, não tá passando por aquilo ali daí não prestam muita atenção. Quando você precisa ai você presta atenção. Mas eu não acho que seja um serviço jogado fora não, é uma semente que a gente lança. (FB)
Baseados nas representações que as psicólogas têm acerca da opinião que a comunidade em geral faz sobre as atividades socioeducativas, pudemos construir a seguinte matriz de síntese.
Matriz de síntese n.º 9 – A Representação sobre a perspectiva da comunidade Entrevistadas
Dimensões
NL BDN TL TR FB
Não compreende X X X
Gosta e ver como um espaço de escuta X
Percebe como um espaço de segurança X
A maioria das entrevistadas afirma claramente que a comunidade não compreende, NL advoga que tal fato se dá pela falta de divulgação destas e TL diz que se dá pelos entraves criados pela troca de profissionais ordenada pela mudança de gestão municipal, FB afirma que é mediante a própria participação nos grupos que esta pode vir a entendê-las.
BDN pontua que os participantes gostam destas atividades e TR afirma que os pais destes percebem como um lugar onde seus filhos estão protegidos das drogas e da violência.