8. A LIBERDADE APRISIONADA E ROBOTIZADA
8.4. A representação social do futebol e a subjetividade
“... dança é liturgia com os pés [...] O futebol parece ser o sucedâneo moderno desse tipo de dança, concorrencial e sacrificial [...] (FRANCO JUNIOR, 2007, p.225).”
Por meio de um exercício de imaginação, tentar comparar o modelo de esporte nos primórdios do século XX com o modelo que se conhece hoje parece uma aventura sem fim, marcada, por um lado, pelo saudosismo dos mais antigos e, por outro, por uma atitude quase grotesca para os mais jovens.
Entretanto, parece que o esporte, especificamente o futebol, no caso deste estudo, sempre fez parte desse mundo globalizado, intermediado pelas tecnologias, o que obriga os deslocamentos dos jovens em busca de glória, de fama, de status social, de atributos físicos específicos para a sua prática, que de certa maneira têm um clamor de liberdade, mas ao mesmo tempo ficam aprisionados em mundos de efemeridades e situações subjetivas.
Rodrigues Filho (2003) mostra que o futebol foi tratado como um fenômeno que demarcava e regulava as ações sociais, os comportamentos, os hábitos e os costumes de uma época. Metaforicamente, os deslocamentos individuais podem ser considerados como a capacidade dos atletas de serem elevados a um nível de reconhecimento social e serem igualados a outras autoridades com igual poder e prestigio, como um chefe de estado, por exemplo.
A ingenuidade, uma das características que marcaram o início das práticas do futebol, parece ser um bom argumento para essa análise comparativa, uma vez que o conjunto de representações sociais e valores atribuídos às práticas não era divulgado na velocidade dos dias atuais. Entretanto, mesmo assim, tudo era carregado de subjetividades, simbolismos e rituais que distinguiam a formação social.
As interpretações subjetivas e simbólicas que envolviam os participantes desse processo, como jogadores, torcedores, dirigentes, associados, entre outros, davam-se em um ambiente físico específico, concreto, fixo, regionalmente localizado, provocando um balizamento singular na formação do sujeito.
Os territórios de atuação eram rigidamente definidos, na medida em que ocorria uma elitização da prática do futebol por uma população exclusivamente rica, branca de origem europeia (FRANCO JUNIOR, 2007; RODRIGUES FILHO, 2003). Assim, o conhecimento, a formação dos valores, a definição dos papéis sociais, os atributos de gênero e a organização das classes como parte das representações sociais são marcas históricas e, portanto, culturais, relacionadas pela prática do futebol.
Ocorre, portanto, a formação de uma micro sociedade regulada por leis próprias, específicas, invioláveis e não compartilhada com outros ambientes, com as quais seus integrantes terão que compactuar, conviver e absorver para compor um personagem e desempenhar um papel de acordo com o que se espera socialmente (MOIOLI, 2004).
Nesse ambiente desenrolam-se todos os conflitos existênciais e as lutas pessoais para construir o conjunto de valores que acompanharão o indivíduo na sua trajetória esportiva e pessoal. Mediado pelos outros integrantes desse grupo social, o atleta transforma a subjetividade derivada desse ambiente para modelar-se, experimentar-modelar-se, transformar-se e dialogar com o mundo exterior. (ibid, 2004).
Na comunicação com o mundo exterior, projeta-se o ideal de homem e os atributos específicos para esse papel, o que significa carregar a marca do macho predador, viril, duro e inflexível diante de uma emoção qualquer. Belo, tatuado e hipertrofiado para combinar com os predicados de força e poder, formando um conjunto de qualidades que registra uma imagem sensualizada e erótica, mas virilizada em resposta à avaliação da sociedade. (MACHADO, 2011; MOIOLI, 2004; MOIOLI et al, 2013).
Portanto, esta é a imagem captada pelas mídias e utilizada para simbolizar o modelo que melhor se adequa ao contexto social o qual é marcado pela necessidade da hiperexposição do homem de acordo com as proposições do
mundo pós-moderno. Em decorrência, as subjetivações ganham outros significados e são interpretadas de acordo com o desejo do sujeito.
A importância atribuída pelas mídias às competições internacionais possibilitou a mercantilização desse esporte e intensificou o desejo de ser reconhecido. O futebol passa então a ser um espelho que promove a visibilidade individual ou do grupo perante a sociedade. A valorização desse espetáculo eleva na mesma proporção, a valorização dos seus participantes. (FRANCO JUNIOR, 2007).
O ambiente esportivo no qual se encontram os atletas jovens, apesar do significativo interesse feminino pelo futebol, quando invadido pelas novas mídias virtuais e pelas tecnologias de informação, mantém-se como ambiente de participação exclusivamente masculina.
Com isso, parece que essas mídias produzem, promovem e reforçam um ambiente carregado de simbolismos que continuam despertando entre os jovens e adolescentes o desejo de pertencer a ele. Mesmo que para isso tenham que se submeter aos interesses de outros e pagar um preço elevado para tal conquista.
As representações sociais de um fenômeno, como lembra Moscovici (2001), contribuem para armazenar na consciência do sujeito formas de linguagem (verbal, corporal ou imagética) e transformar as subjetividades em atos concretos do cotidiano. Assim, pensando o futebol como uma representação social, pressupõe-se que os integrantes desse ambiente serão ungidos pelas subjetividades, pelas leis dos vestiários, pelas passagens abstratas, pela interpretação do outro na tentativa de construir os comportamentos individuais e coletivos.
No ambiente esportivo do futebol constroem-se significados individuais concretos a partir das subjetividades do outro coletivo. Como representação social, requer pensar o futebol a partir da sua dimensão coletiva. Tudo se torna complexo e coletivo e as relações acontecem de um para muitos e de muitos para um, do micro para o macro e do macro para o micro, promovendo-se trocas afetivas, sociais, psicológicas e emocionais para a manutenção da ordem.
Esse jogo de trocas não acontece apenas entre os atletas, mas também é construído na relação dos atletas com a torcida, por exemplo.
Uma recente publicação da foto do jogador Sheik beijando um amigo, nas redes sociais virtuais (TOMAZ, 2013), provocou a ira de parte da torcida corintiana por ela considerar que tal comportamento não se adequa àquilo que se espera de um atleta de futebol e ainda mais pelo medo da possibilidade de associar uma imagem homossexual aos torcedores da equipe. Essa atitude da torcida reforça o poder do coletivo na avaliação das condutas individuais no ambiente esportivo.
As ameaças dos torcedores contra o referido jogador com pichações de frases como “viado não”, ou, “vai beijar na p.q.p”, e ainda, “gay não joga no time porque futebol é lugar de homem” (ibid, 2013, p. on-line), não apenas representam um comportamento homofóbico, mas sobretudo a indicação de leis específicas que os participantes desse ambiente devem seguir.
Pois, nas palavras de Franco Junior (2007), na representação de coletivo, a relação da torcida com a equipe de dá de forma narcísica, corporal, é a maneira encontrada de projetar-se na habilidade, na capacidade física dos jogadores que aquela admira. “Para cada torcedor, estar ali é uma forma inconsciente de receber atenção e afeto (p.311)”.
Nessa relação de transferência, não se admite a possibilidade de outras configurações sexuais, além daquelas estabelecidas e reconhecidas socialmente, que combinam qualidades específicas para o homem e para a mulher. Um ambiente endeusado, idolatrado e recoberto por aforismos sagrados e profanos não convive muito bem com a presença de atletas homossexuais no futebol (MOIOLI et al., 2013).
Portanto, as individualidades agrupadas e reordenadas no coletivo transformam o torcedor solitário em uma entidade dotada de força para impor os desejos do grupo, muitas vezes conquistadas por meio da força e da violência (FRANCO JUNIOR, 2007). Assim:
“Comportamento originado e justificado pela relação especular que une esses indivíduos. Eles desqualificam o Outro, no qual são projetados os sentimentos negativos do Eu. A violência, que é não-estima em relação ao Outro, torna-se então mecanismo de auto-estima (FRANCO JUNIOR, 2007, p.312)”.
A partir dessa personalidade coletiva, que conduz as normas individuais, o torcedor não pode admitir a existência de um atleta que não se ajuste às características da maioria, devendo, portanto, ser heterossexual, viril e vencedor.
Ora, se o mundo do futebol não tem espaço para a existência de jogadores homossexuais, o que poderia representar a fragilidade do sujeito, por analogia, imagina-se que este esporte também não seja adequado para as mulheres (MACHADO, 2011; MOIOLI, 2004).
Daí a razão de os espaços e a valorização da prática do futebol feminino não recebem a atenção por parte do público, da imprensa, dos patrocinadores e em última instância, tampouco das instituições que administram essa modalidade.
De acordo com Machado (2011), é uma maneira de reforçar as representações sociais desejadas a partir de um discurso mobilizador para perpetuar as diferenças de gênero. Futebol é coisa para macho e não combina com a docilidade que se espera da mulher.
Para Moscovici (2001), as representações sociais expressam de forma concreta as subjetividades e intersubjetividades contextualizadas pelos sujeitos, determinando a formação das ideias, teorias, pressupostos culturais, valores e normas, balizando a sua relação com o mundo objetivo. A partir dessa contextualização, submetem-se às regras do coletivo.
Portanto, as diferenças entre aquilo que é adequado para o homem e o que é socialmente apropriado para a mulher decorrem de um fator culturalmente construído de acordo com as condições sociais e econômicas, reforçado pelos padrões institucionais da família, da escola, da religião, das antigas e novas mídias.
Deste modo, as situações envolvendo as preferências sexuais daqueles que protagonizam o ambiente do futebol são balizadas de acordo com as raízes culturais do grupo, ficando, preferencialmente, na obscuridade para não
comprometer o ideal masculinizado desse ambiente. O anonimato de certa forma preserva o conflito moral motivado por essas escolhas.
Para Moioli (2004); Moioli et al. (2013), as relações homoafetivas formadas no futebol configuram-se permeadas por trocas materiais e de ganhos circunstanciais, puramente objetais, sem vínculos afetivos e muitas vezes baseados em chantagens emocionais e psicológicas.
De fato, o atleta percebe rapidamente que, para sobreviver em um ambiente hostil e com fortes concorrências individuais, precisa submeter-se às regras exclusivas desse ambiente. Mesmo que para isso, tenha que aceitar os caprichos sexuais de outro do grupo, seja o treinador, o diretor ou alguém que detenha o poder (Moioli, 2004).
Negar a homossexualidade faz parte do jogo de papéis em um mundo marcado pelos atributos masculinos. Nesse caso, o jovem deve comprovar ser homem heterossexual que joga futebol e demonstra força, virilidade, coragem, despido de dor física ou psicológica.
Para o atleta adolescente, conviver em um ambiente referendado por decisões intensas e contornar as demandas afetivas de um ambiente onde as subjetividades e as representações sociais direcionam para um mundo masculinizado e ao mesmo tempo compensar os impulsos e os assédios sexuais masculinos, coloca esse sujeito em um campo minado pela vulnerabilidade, no qual tem de jogar com dilemas de ordem moral (MOIOLI et al., 2013).
No ambiente do futebol, as subjetividades que provocam o delineamento estrutural do sujeito com ele mesmo são balizadas pelas leis dessa modalidade e pelas leis do vestiário. O atleta e seu corpo se inserem num complexo jogo de normas e códigos que regulam e regem suas condutas dentro e fora do campo.
Refere-se a um controle do que é permitido e proibido realizar em público e nos vestiários. O corpo do estádio pode não ser o corpo da rua, o homem do estádio pode não ser o homem da rua.
Na mesma proporção em que o comportamento do jogador corintiano que publicou nas redes sociais virtuais o beijo dado no amigo provocou intensa revolta e crítica dos torcedores, essa atitude não receberia nenhuma manifestação
contrária se tivesse ocorrido com outro jogador da equipe para comemorar um gol. Além de não ser reprovado, esse gesto seria calorosamente incentivado e aplaudido.
Hoje as mídias digitais reforçam e massificam os atributos masculinos ideais com mais intensidade, do que aquilo que no passado era realizado apenas por aqueles que estavam diretamente evolvidos com o fenômeno, em um espaço geográfico físico demarcado pelos atletas e torcedores.
O futebol, portanto, continua representando o ideal de vida de grande parte dos adolescentes, seja por meio da prática, pela incorporação de hábitos, do controle midiático ou em batalhas virtuais.
Entretanto as novas mídias de comunicação virtual atropelam o tempo e o espaço para a compreensão das subjetividades desse ambiente como território formador dos sujeitos. O futebol como elemento de representação social manipulado pela mídia representa um ambiente de ganhos parciais para atletas adolescentes.