Com o escopo de realizar o planejamento da área central da Vila de Caia e o projeto arquitetônico do novo mercado, iniciou-se, a partir das orientações do Plano de Ordenamento Territorial e Urbanização, o levantamento dos mercados existentes na vila e nos distritos vizinhos e a avaliação da área destinada ao novo mercado.
3.3.1 Mercados existentes
O levantamento dos mercados de Caia e dos distritos vizinhos teve como objetivos: Conhecer os produtos e os serviços ofertados dentro e ao redor das estruturas dos
mercados;
Avaliar os espaços destinados para vendedores, compradores e mercadorias em termos de dimensão e disposição;
Observar os fluxos resultantes do armazenamento, distribuição e venda de produtos;
Identificar os materiais utilizados nas construções tradicionais e nas novas construções;
Avaliar a potencialidade para novos produtos e serviços; Colher opiniões de usuários.
A Vila de Caia possui três mercados principais: os mercados formais do Centro e das Calamidades no bairro da Vila, e o mercado informal no bairro da Chirimba; além de atividades de comércio próximas aos pontos de parada de ônibus. Foram analisados apenas os três mercados devido à sua maior representatividade.
O mercado do Centro possui ainda parte das paredes externas do mercado colonial português. Sua planta quadrada preservou as entradas da frente e dos fundos compondo um grande corredor central que conduz a outros corredores de barracas. Internamente, a estrutura é de alvenaria com mesas para a exposição de produtos. Os produtos ainda são expostos em barracas centrais de madeira ou no chão.
A parte dos fundos do mercado possui um grande corredor onde barracas e pequenos negócios expõem seus produtos no fachada. Deste corredor partem dois outros que retornam à frente do edifício colonial. Os produtos vendidos neste mercado são: verduras, frutas, carne, peixe, mercadorias de uso cotidiano em pequenas quantidades, e em menor escala tecidos.
Figura 22 Mercado do Centro – vista da fachada externa e interna
Figura 23 Mercado do Centro – vista interna do mercado
Autor: Akiyama 2007
Figura 24 Mercado do Centro – vista dos corredores laterais
Autor: Akiyama 2007
Em frente ao mercado do Centro, localiza-se o mercado das Calamidades. Resultado da expansão do mercado do Centro, é um único corredor de cerca 100 m, com barracas feitas em madeira e palha, dispostas uma ao lado da outra. A maior disponibilidade de espaço permite que as barracas tenham aproximadamente 7 m de largura e 3 m de profundidade, além de uma área frontal para a exposição de produtos. Neste mercado são vendidas vestimentas e artigos relacionados, e se oferece alguns serviços de costura. Figura 25 Mercado das Calamidades – vista geral
O mercado de Cima, localizado no bairro Chirimbas, é composto por barracas de diversas dimensões, que se instalaram espontaneamente a céu-aberto, sem seguir uma pré-orientação. Os corredores são em sua maioria estreitos e dispostos aleatoriamente. Embora este mercado seja informal, apresenta a maior variedade de produtos, que vão desde industrializados à produtos artesanais. Sem limites definidos, cresce rapidamente com a adesão de novas barracas construídas em madeira e barro.
Figura 26 mercado de Cima – vista das barracas de exposição
Autor: Akiyama 2007
Estima-se que a vila de Caia possua no bairro da Vila cerca de 100 vendedores e no bairro de Chirimbas outros 150. O responsável pelo Gabinete do Plano, senhor Plínio Pinto, acredita que a demanda por postos de venda tende a crescer a partir da construção do novo mercado, que atrairia vendedores de outras regiões.
Figura 27 Imagens dos mercados de Caia – Central, Calamidades e de Cima
Fonte: Imagem satélite 2004
Outros três mercados foram estudados tendo em vista a proximidade com a Vila de Caia, a recente reestruturação ou construção, e a diversidade de materiais e formas utilizados.
CALAMIDADES
CENTRAL
O mercado do Rio Pungue localiza-se ao longo da EN1, aproximadamente a 150 Km da Vila de Caia em direção à cidade de Beira, nas proximidades do Parque Nacional da Gorongosa. Em 2006, o antigo mercado, formado por barracas de madeira, barro e palha, foi substituído por uma construção em bambu, cimento e telha de zinco. A obra é de autoria e financiamento de uma organização sem fins lucrativos alemã.
O mercado projetado previa apenas cinco espaços fechados para a venda de produtos industrializados e dois grandes espaços para a exposição de peixes e verduras. Provavelmente, no período em que foi realizado, comportaria todos os vendedores do local. Entretanto, com o afluxo de novos vendedores ao local o novo mercado não consegue atender as exigências atuais. Devido à sua forma e aos materiais utilizados, a ampliação da estrutura não é viável e novas barracas estão sendo construídas ao seu redor. Os usuários apreciam a sombra e o frescor produzido pela estrutura alta e aberta, porém reclamam que nos dias de chuva a água entra com o vento forte.
Figura 28 Mercado do Rio Pungue
Autor: Akiyama 2007
O Mercado de Sena está localizado no distrito de Caia a cerca de 50 Km da Vila de Caia, em direção ao Malawi pela ER 231. Inicialmente localizava-se no centro de Sena, próximo à rodovia, mas recentemente foi deslocado 500m para o interior, em uma grande área capaz de atender as demandas atuais e futuras. Apenas 50% do seu espaço é hoje utilizado por 200 barracas do mesmo tamanho (6m x 6m), dispostas lado a lado, formando longos corredores paralelos de aproximadamente 100m cada. O mercado é um exemplo de uma solução em auto construção, no qual foram utilizados materiais e mão de obra locais.
Figura 29 Mercado de Sena
O mercado de Marromeu localiza-se aproximadamente a 80Km da Vila de Caia em direção à foz do rio Zambeze. Projetado e financiado por uma organização não governamental austríaca, que o está sendo construído desde 2005.
O mercado é formado por duas grandes construções octogonais em alvenaria, cobertas com telhado de zinco pintado de verde. Estas estruturas comportam cada uma 114 lugares de aproximadamente 2m x 2m. A disposição e forma dos postos de venda, entretanto, não são adequados à venda de todos os tipos de mercadorias. Em função disso, várias barracas, principalmente de roupas, se estendem pelas ruas que conduzem à sede do Mercado.
Além das duas grandes construções octogonais, existem duas construções retangulares que abrigam espaços maiores para a prestação de serviços, matadouro e sanitários. As duas estruturas octogonais são divididas por função, sendo a primeira destinada à venda de alimentos e a segunda destinada à venda de mercadorias várias. Para evitar o roubo e atender adequadamente aos clientes, os vendedores se posicionam de frente às mercadorias no espaço destinado à circulação dos compradores.
Figura 30 Mercado de Marromeu
Autor: Mattiucci 2007
3.3.2 Pesquisa de campo
Em primeira visita à área, notou-se a rápida densificação das unidades habitacionais comparadas àquelas registradas pelo POTU no período de sua elaboração. A presença de cartazes advertindo a reserva da área para o uso do mercado não impediu que a ocupação por parte de moradores se efetivasse.
Em reunião com o administrador do Distrito de Caia ressaltou-se a necessidade de fiscalização na área, a importância do local para a construção do novo mercado e as dificuldades de implantação caso a ocupação pela população continuasse a aumentar. Compreendendo o posicionamento estratégico do novo mercado e a dificuldade posterior de relocação de muitas famílias, o administrador Lucas Renzo propôs a realização do levantamento das construções existentes para que, a partir do registro daqueles imóveis, não se permitisse nenhuma nova construção. Foi assim definido, que o projeto do mercado procurasse conservar as edificações existentes o máximo possível. Ainda, para estabelecer um pacto com a comunidade, estabeleceu-se que o levantamento realizado e a proposta preliminar do mercado fossem apresentados para o Conselho Local no prazo de sete dias, tempo restante da missão na Vila.
Avaliando as recomendações do administrador de Caia e sendo conscientes da concentração de casas na área destinada ao mercado, foram consideradas para a
pesquisa outras duas áreas próximas ao local. Para se diferenciar estas áreas foram estabelecidas as seguintes denominações:
Área POTU: àquela definida pelo plano, localizada do lado oeste da estação ferroviária e na margem norte da estrada que vai para a localidade de Phaza; Alternativa 1: localizada no lado oeste da estação e na margem sul da estrada
que vai para a localidade de Phaza;
Alternativa 2: localizada no lado oeste da estação ferroviária e nos dois lados da estada que vai para a localidade de Phaza.
A pesquisa foi realizada em dois dias, entre elaboração, sistematização, aplicação e tabulação. Participaram das atividades o engenheiro do Consórcio Associações com Moçambique, os técnicos do Gabinete do Plano, o arquiteto Corrado Diamantini e as arquitetas Cristina Mattiucci e Renata Akiyama.
A planilha aplicada em cada núcleo familiar continha as seguintes informações: o uso da edificação, o número da foto de referência, as coordenadas geográficas, a dimensão da edificação, o material da parede e o material da cobertura. Estes dados tinham como objetivo identificar e localizar as antigas e novas edificações nas áreas selecionadas, bem como avaliar a viabilidade de implantação do mercado e os custos eventuais de relocação e/ou indenização de famílias. Esclarece-se que cada núcleo familiar é composto por diferentes edificações que se dispõem ao redor do centro do terreno, tendo cada uma usos diferentes. Foram levantados 48 núcleos familiares, em um total de 85 construções. Tabela 5 Modelo para a pesquisa de edificações
MAT. PAREDE COBER-TURA
USO FOTO PONTO DIMENSAO
C A N IÇ O P A U -A -P IQ U E T IJ O L O C R U T IJ O L O Q U E IM A D O O U T R O S C A P IM C H A P A CASA MACHESSA DEPOSITO LATRINA OUTROS
A análise apresentada a seguir levou em consideração o aumento das edificações a partir de 2004, ano de referência do mapeamento do Plano de Ordenamento Territorial e Urbanização. A ausência de informações quanto ao tipo de material das construções e a delimitação dos núcleos familiares em 2004, restringiu a análise ao aumento das edificações verificado no período entre 2004 e 2007.
A área do POTU apresentava, em 2004, 16 construções dispersas nos 4,1 hectares do terreno. Em 2007, esse número aumentou para 36 construções, das quais 72% eram feitas de materiais frágeis (caniço e pau-a-pique). Nota-se, porém, que os 28% das construções restantes, feitas de material resistente (tijolo cru ou queimado), representam mais da metade dos núcleos familiares presentes na área (17 núcleos familiares).
Em 2004, a área da alternativa 1 apresentava 17 construções, passando a 49 construções em 2007, que correspondem a 31 núcleos familiares. As construções são em sua maioria feitas de tijolo cru ou queimado, e apenas 47% em caniço ou pau-a-pique.
A alternativa 2 apresentava 2 edificações em 2004, aumentando para 12 em 2007. O aumento verificado, porém, é representado pelas edificações presentes nos terrenos da área do POTU e da alternativa 1, que fazem parte da área que compõem a alternativa 2. A tabela e os mapas a seguir caracterizam o crescimento das edificações no período e localizam as novas construções.
Tabela 6 Pesquisa de Campo
CARACTERISTICAS AREA POTU ALTERNATIVA 1 ALTERNATIVA 2
Dimensão 4,1 ha 4 ha 3,2 ha Construções em 2004 16 17 2 Construções em 2007 36 49 12 AREA POTU AREA ALTERNATIVA 1 AREA ALTERNATIVA 2
AREA POTU FERROVIA
PHAZA AREA POTU AREA POTU FERROVIA FERROVIA PHAZA PHAZA 12
3.3.3 Adequação Urbana
Após a aprovação do plano em novembro de 2006, iniciaram-se os Projetos de Recuperação Urbana 1 e 2, e o projeto de expansão A1/1 (ver figura 21). Iniciou-se o mapeamento destes projetos de forma a possibilitar uma visão integrada das ações que estão sendo realizadas e de suas implicações em todo o contexto urbano.
Os Projetos de Recuperação Urbana promoveram a abertura de vias e a adequação dos terrenos às novas áreas comuns. O deslocamento da população, que antes ocorria por dentro dos terrenos, passou a ser orientado e planejado. De acordo com as prioridades do POTU, os projetos foram implantados na área PRU 1 ao sul da pista do aeroporto no bairro da Vila, e na área PRU 2 a oeste da estação ferroviária e limítrofe à área de realização do novo mercado.
O projeto de expansão A1/1, por sua vez, tratava-se da abertura de novas áreas para ocupação, com isso um grande loteamento foi realizado. A existência porém, de uma inadequação do mapa de propostas do POTU com referência aos limites da Escola Agrária, provocou a realização do loteamento em uma área maior e mais afastada da região central da vila, englobando também a área de expansão A2/1.
Figura 31 Projeto de Expansao A1/1 antes e depois modificação dos limites da escola
Tendo em vista os projetos realizados e a nova área definida para o mercado da vila, foi realizada uma proposta de adequação da malha viária principal, que possibilitasse a conexão entre o loteamento projetado nas áreas de expansão A1/1 e A2/1, as novas vias implantadas do PRU1 e PRU2 e o novo mercado.
A proposta de adequação urbana levou em consideração também a transposição da margem leste da rodovia EN1 (bairros Nhampunga, Nhamomba, Malocoterra, Chirimba) para a margem oeste (áreas de expansão) sem a necessidade da abertura de uma via internamente à estação ferroviária.
Destaca-se a proposta de uma via paralela à rodovia EN1, que conecta o bairro Daf e o bairro da Vila, passando atrás da estação ferroviária e nos limites da área de influência do mercado (tema abordado no item a seguir).
Figura 32 Mapa da Proposta Urbana
3.3.4 Projeto Arquitetônico
A definição do programa do projeto de arquitetura foi realizada a partir de uma pesquisa quantitativa e qualitativa a respeito dos usos e melhorias para o mercado. Tal pesquisa foi realizada por meio de entrevistas com comerciantes, fornecedores e usuários do mercado, e da participação dos técnicos do Gabinete do Plano. A tabela a seguir traz a síntese desta pesquisa setorizada por usos.
Tabela 7 Tabela de Usos do novo Mercado
ALIMENTOS ROUPAS OUTROS PRODUTOS SERVICOS RESTAURANTE E BAR LUGARES 110 lugares 150 lugares 40 lugares 10 a 15 lugares 10 lugares
DIMENSAO média de 15m2 média de 15m2 média de 15m2 de 6m2 a 15m2 VARIAVEL
TIPOS AGRICOLA CONSTRUçAO BARBEIRO RESTAURANTE
FRIOS CASA ARTESANATO BAR
COZINHA BICICLETA
ETC SAPATARIA
ETC MECANICA ETC
ALIMENTOS INDUSTRIALIZADOS
As três áreas de relevância para o mercado, localizadas ao longo das vias de acesso ao mesmo, destinam-se ao apoio e complementação das atividades do mercado. São elas:
Área de relevância norte: função de estacionamento e área de carga e descarga de mercadorias;
Área de relevância sul: possível área de expansão do mercado;
Área de relevância leste: função de abrigar pequenos espaços de descanso e lazer.
O projeto arquitetônico considerou a articulação do terreno em quatro áreas menores aproveitando-as para a setoriazação dos produtos e dos serviços do mercado. Uma grande área foi destinada ao descanso e alimentação no local, prevendo a construção de um edifício ‘ícone’ do mercado, destinado à função de restaurante. Este edifício representa uma grande machesa, local de encontro e socialização também fora do horário de venda de produtos. As demais áreas são destinadas à venda de produtos alimentícios, roupas entre outros como mostra o esquema a seguir. As barracas de prestação de serviços porém, localizam-se nos limites do terreno, fazendo frente para ambos os lados (interno e externo).
Figura 33 Implantação do novo Mercado
Foram idealizados vários modelos de barracas para facilitar a adaptação dos diversos usos. O material utilizado e as técnicas de construção são locais, o que possibilita a autoconstrução, a construção por etapas e futuras ampliações. O desenho a seguir mostra as possibilidades de construção das barracas.
Figura 34 Modelos de barracas do novo Mercado
RESTAURANTE LAZER E DESCANSO OUTROS PRODUTOS SERVIÇOS ALIMENTOS MATADOURO SERVIÇOS ROUPAS SERVIÇOS ESTACIONAMENTO CARGA E DESCARGA LAZER EXPANSAO