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A RESERVA LEGAL E O “SEQUESTRO” DE CARBONO

O aumento exacerbado da poluição atmosférica e o consequente aumento do efeito estufa são fatos que causam extrema preocupação, por se tratarem de questões não apenas regionais, mas que atingem toda a população mundial.

No caso do Brasil, estima-se que o maior impacto será na alteração do regime de chuvas e da temperatura, acarretando graves consequências sobre a agricultura e a biodiversidade. Quanto à biodiversidade, a Amazônia será a região certamente mais afetada. “A ocorrência de desastres naturais e de quebras de safra também poderá se tornar mais frequente e intensa. O risco de enxurradas e deslizamentos de terra tenderá a aumentar.” (MMA, 2007)179

Por estes e outros motivos, mais de 160 países assinaram a Convenção- Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas180 realizada durante a Eco- 92 no Rio de Janeiro.

Os países signatários da referida Convenção reconheceram, em seu texto, que mudanças climáticas são uma preocupação da humanidade, e propuseram-se a elaborar uma estratégia global para a proteção dos sistemas climáticos. O principal objetivo das COPs seria a adoção de compromissos que fossem além de uma cláusula geral de estabilização, adotados na 3ª COPs, em 1997, realizada em Quioto-Japão, dando origem ao Protocolo de Quioto.

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MMA – Ministério do Meio Ambiente. Disponível em: < http://www.mma.gov.br/ index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=45>. Acesso em: 25/01/2008.

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A Convenção entrou em vigor em 21 de março de 1994, 90 dias após sua 50ª ratificação. No Brasil, foi aprovada pelo Congresso Nacional mediante o Decreto Legislativo n.º 1, de 03.02.1994 e promulgada pelo Decreto n.º 2.652, de 01.07.1998.

A Convenção já estabelecia que os países signatários deveriam estabilizar suas emissões de gases poluentes. O Protocolo, por sua vez, define o compromisso de uma redução coletiva de pelo menos 5% em relação aos níveis de 1990 no período de compromissos de 2008 - 2012 para o CO2, CH4 e N2O em relação aos níveis de emissões estabelecidos em 1995 para os HFCs, PFCs e SF6. Além disso, estabelece o compromisso de um "progresso demonstrável" e revisões periódicas das metas.

A assinatura do Protocolo de Quioto foi um grande avanço no combate das mudanças climáticas globais. Ele prevê a redução das emissões dos gases que provocam o efeito estufa por parte dos países desenvolvidos. Segundo o Ministério do Meio Ambiente,

Para entrar em vigor, o protocolo precisava ser ratificado por países responsáveis por pelo menos 55% das emissões. Essa meta foi atingida em novembro do ano passado com a adesão da Rússia, segundo maior emissor de gases do mundo. O governo dos Estados Unidos, os maiores emissores [sic], com mais de 36% do total mundial, optou pela não- ratificação. (MMA, 2007)181

Esse Protocolo prevê alguns mecanismos de flexibilização visando o cumprimento dos objetivos firmados a partir da Convenção, considerando as necessidades dos países em desenvolvimento. São os mecanismos: de implementação conjunta (JI – Joint Implementation); o comércio das emissões (Emission Trade); e o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL - em inglês, Clean Development Mechanism - CDM). O único que envolve a participação de países em desenvolvimento, como o Brasil, são os projetos de MDL, instituído com base em uma proposta da comissão brasileira em 1997. Os projetos de MDL possibilitam a transferência de recursos e tecnologias limpas de países desenvolvidos para países em desenvolvimento. Estima- se que China, Brasil e Índia serão os maiores receptores desse tipo de projeto. (MMA, 2007)182

O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) é o instrumento que permite aos países desenvolvidos (de acordo com o anexo I do instrumento) efetuarem contratos com países em desenvolvimento (não-anexados) para a realização de projetos que visem à redução ou “sequestro” (captura) de gases de

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MMA, op.cit.

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efeito estufa183. Caso os países desenvolvidos não atinjam as metas de redução a que estejam comprometidos, podem contribuir financeiramente para que os países em desenvolvimento, como o Brasil, possam se beneficiar com a realização de atividades por meio de projetos previamente aprovados. Os projetos deverão promover a padronização da redução de emissão dos mencionados gases, efetuando emissão de certificados negociáveis, denominados Reduções Certificadas de Emissões (CERs).

Esta redução certificada dos gases dá origem aos "Créditos de Carbono" que podem ser comercializados dentro de um esquema de mercado internacional, compensando as metas não atingidas pelos países desenvolvidos signatários. Esses créditos gerados sob o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) precisam ser "adicionais às que ocorreriam na ausência da atividade certificada de projeto”.184

Diversos artigos do Protocolo de Quioto fazem menção a inclusão de Atividades Florestais de Uso da Terra e Modificação do Uso da Terra (land use,

land-use change and forestry - LULUCF) como parte de seus esforços para aplicar o

Protocolo de Quioto e contribuir para a diminuição nas mudanças climáticas. Dois dos mecanismos de flexibilização do Protocolo de Quioto fazem menção para a implementação de projetos baseados no LULUCF. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), de acordo com o artigo 12 do Protocolo, limita a aplicação de projetos de reflorestamento e de florestamento em países não incluídos no anexo I (como o Brasil).(UNFCCC, 2008)185

De acordo com o glossário elaborado pelo Governos Locais pela Sustentabilidade (ICLEI), Secretariado para América Latina e Caribe (LACS) entende-se por reflorestamento e florestamento:

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Basicamente, esse mecanismo (MDL), consiste na possibilidade de um país desenvolvido financiar projetos em países em desenvolvimento como forma de cumprir as metas firmadas para redução de emissões de gases de efeito estufa, como por exemplo, investir em sumidouros, tecnologias limpas, eficiência energética e fontes alternativas.

184 MMA, op.cit., artigo 12.5 – Protocolo de Quioto, 1997.

185 “Several Articles of the Kyoto Protocol make provisions for the inclusion of land use, land-use

change and forestry activities by Parties as part of their efforts to implement the Kyoto Protocol and contribute to the mitigation of climate change. Two of the flexible mechanisms of the Kyoto Protocol make provisions for the implementation of LULUCF project activities by Parties. The clean development mechanism (CDM) under the Kyoto Protocol (Article 12) allows for the implementation of LULUCF project activities, limited to afforestation and reforestation, in non-

Annex I countries". Tradução do autor. In:_____UNFCCC – LULUCF. Disponível em: <

Reflorestamento / Florestamento (Reforestation / Aforestation) Reflorestamento é a conversão, induzida pelo homem, de terra não-

florestada em terra florestada por meio de plantio, semeadura e/ou a promoção induzida pelo homem de fontes naturais de sementes, em área que foi florestada, mas convertida em terra não-florestada. Para o primeiro período de compromisso, as atividades de reflorestamento estão limitadas ao reflorestamento que ocorra nas terras que não continham floresta em 31 de dezembro de 1989. Florestamento é a conversão induzida, diretamente pelo homem, de terra que não foi florestada por um período de, pelo menos, 50 anos, em terra florestada por meio de plantio, semeadura e/ou a promoção induzida pelo homem de fontes naturais de sementes. No âmbito do MDL, as definições e as modalidades de reflorestamento e de florestamento para o primeiro período de compromisso deverão ser desenvolvidas de modo a considerar as questões de não-permanência, adicionalidade, fuga, incertezas e impactos sócio-econômicos e ambientais, inclusive, neste caso, os impactos sobre a biodiversidade e os ecossistemas naturais. Decisões sobre essas definições e modalidades foram tomadas na Nona Sessão da Conferência das Partes - COP-9, realizada no final do ano de 2003, em Milão. [grifos do autor](ICLEI, 2006)186

Estes projetos auxiliam os países membros do Anexo I a atingirem seus compromissos de redução das emissões dos gases de acordo com o artigo 3 do protocolo, enquanto que, ao mesmo tempo, auxiliam os países não membros do Anexo I a atingir um desenvolvimento sustentável.(UNFCCC, 2008)187

Quanto a quem poderá participar dos projetos de MDL, entende-se que os principais atores são chamados de investidores e anfitriões. Os investidores são Partes do Anexo I (empresas, ONGs e agências governamentais) que investem em projetos de MDL em países não Anexo I e recebem créditos, na forma de Reduções Certificadas de Emissões (RCEs ou CERs, da sigla em inglês) em troca. Anfitriões são as entidades das Partes Não Anexo I que recebem investimentos de MDL em seus países. (ICLEI, 2006)188

Apesar do Brasil não possuir metas, há um comprometimento voluntário do País para redução de suas emissões, tendo como principais desafios, o combate às queimadas e ao desmatamento. “O Ministério do Meio Ambiente tem conduzido ações que terão reflexo no modelo de desenvolvimento, na ocupação da terra e no futuro da Amazônia, bioma com importância fundamental na regulação do clima

186

ICLEI - Governos Locais pela Sustentabilidade, Secretariado para América Latina e Caribe – LACS. Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Limpo: oportunidades para governos locais. Rio de Janeiro: ICLEI, 2006. p.107.

187 “These project activities assist Annex I Parties in achieving compliance with their emission

reduction commitments under Article 3, while simultaneously assisting non-Annex I Parties to achieve sustainable development”. Tradução do autor. In:_____UNFCCC – LULUCF, op.cit.

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global.” (MMA, 2007)189

. Destacam-se, dentre as iniciativas governamentais: o Plano de Desenvolvimento Sustentável para a Área de Influência da BR-163 e o Plano para de Ação para a Prevenção e o Controle do Desmatamento Ilegal na Amazônia, que integram o Plano Amazônia Sustentável.(MMA, 2007)190

Quanto às florestas, o novo Programa Nacional de Florestas já possibilitou um aumento significativo na área de florestas plantadas. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, entre 2002 e 2004, a área plantada passou de 320 mil hectares para 475 mil hectares. Em 2006, este número aumentou consideravelmente para 627 mil hectares de acordo com o Programa Nacional de Florestas. (PNF, 2007)191. O cultivo de florestas é fundamental para a fixação de carbono, contribuindo para a redução dos efeitos do aquecimento global. (MMA, 2007)192

Assim sendo, os efeitos jurídicos desse mercado de carbono ainda são desconhecidos. Ao passo que o desenvolvimento de mecanismos legais capazes de garantir o direito de propriedade, principalmente, no pertinente ao instituto da Reserva Legal são imprescindíveis para a demonstração de confiabilidade e segurança no cenário internacional quanto a efetiva captura, ou sequestro de carbono.

O critério de adicionalidade, mencionado anteriormente, é o fator que atualmente impede a utilização de áreas de Reserva Legal para a obtenção de créditos de carbono no mercado de Quioto. De acordo com o critério de adicionalidade, como as Reservas Legais devem ser instituídas de qualquer maneira, visto ao fato de serem uma obrigação imposta pela lei, não gerariam a criação de novas áreas de floresta para realizarem a captura do carbono. Entretanto, a Bolsa do Clima de Chicago (Chicago Climate Exchange) aceita os projetos de criação dessas áreas e, devido a isso, há a possibilidade delas também integrarem o protocolo de Quioto, que está sendo discutido na esfera internacional defendido inclusive pelo Brasil.

189 MMA, op.cit. 190 Id. 191

PNF – Programa Nacional de Florestas. Disponível em: <http://www.mma.gov. br/index.php?ido=conteudo.monta&idEstrutura=5&idMenu=1194&idConteudo=5666>. Acesso em: 25/01/2008.

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Acredita-se que, no Brasil, com a prática da certificação do sequestro de carbono, possam ser consideradas possibilidades de obtenção de grandes lucros com essas áreas de conservação, por meio da certificação garantida sobre essas áreas pelos projetos orientados sob o MDL. Entretanto, as emissões de "créditos de carbono" ainda geram certo desconforto a algumas entidades no que tange às verdadeiras intenções de sua comercialização, se de efetiva captura desses gases de efeito estufa com a ampliação ou aproveitamento de Reservas Legais ou, contrariamente, de mera exploração econômica dessas áreas.