As sedes dos órgãos de poder
2. O Palácio da Assembleia Nacional
2.4. A residência oficial do Presidente do Conselho
Em 1935, Óscar Carmona promulgou uma lei reconhecendo o direito de o Presidente do Conselho e o Ministro dos Negócios Estrangeiros habitarem, com a respetiva família, numa propriedade estatal, a efetivar mediante intervenção do Ministro das Obras Públicas487.
Aquando do fracassado atentado ocorrido a 04.07.1937, Salazar residia na Rua Bernardo Lima n.º 64, em Lisboa, que ocupara aquando da tomada de posse como Presidente do Conselho488. O próprio recordou, em conversa com a jornalista francesa Christine Garnier, no verão de 1951, que esse acontecimento despoletou a mudança para uma nova residência, referindo a aflição de quem o rodeava, apressando-o “a instalar-me aqui [junto do Palácio da Assembleia Nacional]. Garantiam que seria maior a minha segurança”489.
Para residência oficial do Presidente do Conselho foi adquirido um palacete oitocentista, que havia em tempos sido arrendado por Joaquim Sottomayor490 e que à data era ocupado por freiras, então temporariamente transferidas para edificações no novo manicómio de Lisboa491. A aquisição, que pretendia isolar o edifício no jardim que comunicava com o palácio, implicou a expropriação de terrenos envolventes, situação que levou alguns proprietários a manifestar, em cartas a Salazar, o desagrado relativamente aos baixos valores de compensação, aquém das necessidades de sustento futuro492. O Presidente do Conselho despachou acerca da inscrição de uma verba no orçamento do MOPC para este tipo de expropriações, bem como de uma verba
486 ICOMOS, Carta de Veneza sobre a conservação e o restauro de monumentos e sítios, 1964: Art.º 6.º.
487 Lei n.º 1912, Diário do Governo, I série, n.º 117, 23.05.1935, p. 727.
488 Após 1974, o edifício foi ocupado como sede da União Democrática Popular (UDP). Em 2014, encontrava-se devoluto e foi colocado à venda, aparentemente sem comprador uma vez que atualmente permanece, apenas, a fachada principal. Agência Lusa, “Casa onde Salazar viveu e que foi sede da UDP à venda por cinco milhões de euros”, Observador, 27.07.2014: https://www.publico.pt/2014/07/27/sociedade/noticia/casa-onde-viveu-salazar-a-venda-por-cinco-milhoes-de-euros-1664461 (acesso a 05.08.2021).
489 Garnier, Férias com Salazar, 62.
490 França, O Palácio de São Bento, 181.
491 Ofício do Diretor-Geral da Saúde para o Diretor-Geral da DGEMN, 02.08.1937. DGPC/SIPA:
PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/01, TXT.04949219-TXT.04949220.
492 Carta de Maria Sancha da Silva Cayres para o Presidente do Conselho, 06.08.1937, ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 10, fls. 248-250.
destinada às obras de adaptação e reparação da sua residência oficial; despesas com obras externas à residência, a realizar na casa do motorista ou no parque, seriam pagas pela verba destinada às obras do Palácio da Assembleia Nacional493. Denota-se, portanto, a importância adscrita ao empreendimento.
O estudo das obras necessárias no palacete e sua envolvente decorreu em 1937, sob alçada da delegação dirigida por Leal de Faria, com orientação direta e atenta de Salazar, que lhe expunha as suas opiniões e necessidades494. As obras iniciaram-se a 16 de agosto desse ano, numa altura em que a pasta das Obras Públicas e Comunicações era ocupada pelo major de engenharia Joaquim Silva Abranches (1888-1939), e terminaram a 8 de junho seguinte495. O ministro apelara para que se atentasse no caráter de urgência que detinham, instando a que apenas fossem empegados trabalhadores “de absoluta confiança”496.
Fig. 21. Residência oficial do Presidente do Conselho. S.d.
493 Despacho de António de Oliveira Salazar, 17.08.1937 [dactilografado]. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx.
476, pt. 10, fls. 255.
494 Leal de Faria referiu por diversas vezes as conversas que tinham sobre as obras na residência. Cf., p.ex., Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 10.05.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.04949722-TXT.04949723.
495 Teófilo Leal de Faria, Relatório das obras e diversos trabalhos realizados na residência oficial do Prof. Doutor A. de Oliveira Salazar, em S. Bento, 1938, p. 1. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 15, fl. 399.
496 Ofício do Diretor-Geral da DGEMN para Leal de Faria, 27.08.1937. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/01, TXT.04949202.
O Presidente do Conselho delineou diretrizes para cada divisão dos quatro pisos que compunham o edifício (cave, rés-do-chão, 1.º piso e sótão), indicando aspetos como aproveitamento de mobiliário que já possuía noutros escritórios e aquele que era necessário adquirir, bem como sua localização espacial, abertura de vãos e portas, cuidados a ter com a escolha da cor das paredes e materiais para iluminação de salas com fraca incidência de luz natural, a decoração a integrar conforme a finalidade da sala, ou detalhes das instalações de aquecimento e água497. Leitão de Barros registou que, por vezes, ao domingo à tarde, Salazar visitava de forma minuciosa o palacete para ficar a par da evolução das obras: “inspecciona, corrige, orienta, aconselha ele próprio todos os pormenores da sua residência, na parte utilitária que interessa ao «inquilino»”498.
Segundo as notas de Salazar, foi seguido o critério de aproveitamento máximo do existente, não alterando o traçado e a divisão interna499. A cave integrava a cozinha, copa com elevador para transporte de refeições e dispensa, áreas para arrecadação, engomadoria e instalação da caldeira, três compartimentos aptos para depósito de livros ou arquivo e um vestíbulo. As dependências no rés-do-chão e no primeiro piso encontravam-se distribuídas em torno de um corredor central. A entrada no palacete fazia-se através da fachada sul, dando para um vestíbulo. No lado nascente do rés-do-chão, localizava-se um escritório de trabalho vocacionado para receção, uma biblioteca (também designada como “sala de fumo”500) e a sala de jantar, separada pelo corredor da copa, já do lado oposto e junto de uma pequena sala de costura e do vão da escada principal, perto de outra entrada e de uma casa de banho; desse lado poente, com acesso direto através do vestíbulo de entrada, existia ainda uma sala de receber, que ficou conhecida como “sala das pretas”. O primeiro andar comportava uma secção de trabalho, com uma sala prevista para a realização eventual de reuniões do Conselho de Ministros, conforme necessidade, ou outras reuniões de trabalho, e um gabinete de trabalho particular para Salazar, e a zona mais privada da residência, com quarto, divisões de banho e wc e sala de jantar privativa do presidente do Conselho, bem como quarto e sala de estar para hóspedes com quarto de banho próprio, e ainda um pequeno quarto de cama. O Presidente do Conselho possuía um oratório particular, tendo Salazar reclamado com o estado gasto, sujo, e,
497 Notas de António de Oliveira Salazar: sem data; 16.08.1937; 03.03.1938 [datilografadas]. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 9, fl. 165-205; 206-222; 223-229.
498 Leitão de Barros, “Como vive e trabalha o Sr. Dr. Salazar”, O Século, n.º 20177, 21.05.1938, p. 3.
499 Notas de António de Oliveira Salazar, sem data [datilografada]. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 9, fl. 196-205.
500 Teófilo Leal de Faria, Relatório das obras e diversos trabalhos realizados na residência oficial do Prof. Doutor A. de Oliveira Salazar, em S. Bento, 1938: planta do rés-do-chão. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 15.
portanto, inadmissível, de grande parte dos paramentos que o compunham501, procedendo-se à cedência de peças de coleções estatais através da DGFP502. Finalmente, no sótão, Salazar indicara a conservação da casa-de-banho existente, detetando-se nas plantas, adicionalmente, dez compartimentos destinados a quartos, arrecadações e espaço para engomar, para os criados ao serviço desta habitação. Para além dos necessários arranjos interiores, incluindo tarefas como melhoria dos pavimentos, pinturas e estucagem de paredes, e execução e compra de mobiliário, realizaram-se obras de reparação exterior, como substituição das guardas das escadas e das grades das janelas, arranjo de telhados, pintura das fachadas, e construção do terraço e de uma escadaria na fachada posterior, por exemplo503. Alguns meses após a mudança para a residência, planeou-se a integração de um elevador, que implicava a remoção de uma escada em caracol que ligava a cave ao rés-do-chão504.
Fig. 22. Planta geral do parque e residência de S. Ex.ª o Presidente do Conselho: rede de canalizações. 1937.
501 [António de Oliveira Salazar], Nota, 07.08.1938. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1 cx. 476, pt. 14, fl. 381.
502 [António de Oliveira Salazar], Despacho [manuscrito], 17.08.1938. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1 cx. 476, pt.
14, fl. 382-390.
503 Obra da residência de S. Ex.ª o Senhor Presidente do Conselho, s.d. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 9, fl. 233-246.
504 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 19.11.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.04949868.
Fig. 23. Residência do Presidente do Conselho: planta do 1.º andar. [1938].
O arranjo da sala de jantar, gabinete de trabalho, gabinete do secretário, sala de receção e sala do Conselho coube, como a restante habitação, ao arquiteto António Lino, cujo projeto foi apreciado pela 1.ª subsecção da 6.ª secção da JNE. No parecer de aprovação assinado pelo vogal Tertuliano de Lacerda Marques, apesar de pontuais sugestões de modificação, salientou-se a distribuição lógica e equilibrada, o agradável aspeto e a generalizada simplicidade dos elementos do projeto, que lidou com uma edificação preexistente com caráter acentuadamente oitocentista505.
No final da intervenção, Leal de Faria elaborou um relatório detalhado, com o qual procurou demonstrar como empregara as facilidades e a confiança que lhe haviam sido consignadas para o empreendimento: referindo que, durante o processo, por diversas vezes Duarte Pacheco apresentara relutância em assinar portarias para dotações, encarava o relatório como evidência da sua reta conduta, e no caso de o ministro manter essa atitude, decidira apresentar a demissão imediata por não desejar continuar a dirigir a delegação sem a sua completa confiança506. Leal de Faria anteciparia assim a demissão, que iria requerer em novembro, por não considerar
505 Cópia do parecer da JNE, 17.11.1937. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/01, TXT.04949369-TXT.04949370.
506 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 11.08.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3888/01, TXT.04948544-TXT.04948541.
adequado que se continuasse a despender o salário de um engenheiro enquanto a Direção de Edifícios de Lisboa (DEL) poderia encarregar um dos seus funcionários para essa tarefa.
Mencionou que já em março de 1935 pedira rescisão de contrato e exoneração de todos os cargos que então ocupava no MOPC, como na Junta de Construções para o Ensino Técnico e Secundário ou na direção de obras em outros palácios nacionais, o que lhe foi concedido à exceção da direção das obras em São Bento. Embora não se ultrapasse a esfera da especulação, intuem-se conflitos entre o jovem ministro que rapidamente ascendera de professor de Engenharia Eletrotécnica a diretor do IST, renovador do ramo das obras públicas como suporte do programa ideológico do regime em ascensão, e o major de engenharia e lente da Escola Militar, que durante as obras no Palácio da Assembleia Nacional foi demonstrando o seu gosto de pendor tradicionalista. Não obstante, Leal de Faria permaneceria à frente da delegação até 1943507.
O relatório permite averiguar que foram empregues materiais de construção e objetos utilitários
“da melhor qualidade que se encontrou no mercado”508. O engenheiro justificou o facto de não terem sido abertos concursos para fornecimento de mobiliário e decoração pela urgência envolvida na conclusão da obra, tendo encarregado diretamente diversas firmas após os estudos das peças necessárias. Refira-se, a título de exemplo, as empresas Móveis Olaio, Companhia dos Grandes Armazéns Alcobia e Barbosa & Costa, que colaboraram regularmente nos interiores de equipamentos públicos promovidos pelo regime. Integraram-se, adicionalmente, peças do Museu de Arte Antiga, do Palácio Nacional de Sintra e do Ministério do Interior, como uma cómoda em estilo Luís XVI para o quarto de hóspedes ou uma papeleira D. João V para o vestíbulo de entrada. Em termos estilísticos, predomina a tendência de integrar peças de cariz historicista, como garante da solenidade exigida para uma residência oficial, e na continuidade de um gosto previamente fixado: na habitação de Salazar na Rua Bernardo Lima já existiam mobília de estilo Luís XVI e peças com forros de veludo509.
No que respeita à decoração, deteta-se o recurso a obras de arte – particularmente pinturas – provenientes de museus e palácios nacionais em regime de empréstimo, que decoravam tanto as salas e os gabinetes de trabalho, como os corredores e os quartos, quer do Presidente do
507 Ofício do Diretor-Geral da DGEMN para o Chefe da Secção das Finanças do 2.º Bairro, 18.05.1943.
DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-PESSOAL-0015/09, TXT.1205708.
508 Teófilo Leal de Faria, Relatório das obras e diversos trabalhos realizados na residência oficial do Prof. Doutor A. de Oliveira Salazar, em S. Bento, 1938, p. 21-22. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1, cx. 476, pt. 15, fl. 418-419.
509 Barros, “Como vive e trabalha o Sr. Dr. Salazar”, p.2.
Conselho, quer dos empregados510. Uma percentagem foi alvo de restauro prévio.
Predominavam telas dos séculos XVII, XVIII e XIX, representando tanto temas históricos, como a Guerra Peninsular, como religiosos e mitológicos, bem como cenas de caça, naturezas-mortas e paisagens, tanto nacionais como italianas. No quarto de cama de Salazar foram colocadas cinco pinturas sobre cobre, também do MNAA, figurando temas bíblicos:
Anunciação, Fuga para o Egipto, Natividade, Adoração dos Magos, e Virgem com o Menino, enquanto no seu gabinete de estudo privativo constavam duas telas retratando ruínas e uma representação do interior da catedral de Milão. Previamente, Leal de Faria visitara o Palácio da Ajuda com António Lino e Guilherme Possolo (1889-1973)511, por forma a verificar a existência de quadros passíveis de decorar a residência, tendo selecionado 12 das galerias e cinco telas de Silva Porto de uma das salas do palácio, que o engenheiro categorizava como
“quadros modernos”512 – evidência de um gosto conservador, pautado pela estética naturalista, considerando que Silva Porto falecera nos finais do século XIX. Nessa visita, o grupo observara também um conjunto de utensílios de prata que julgou conveniente para recheio da residência.
Para escolha de peças para a sala de receção, vestíbulo de entrada e patim da escada principal, o engenheiro esteve também no Museu de Arte Antiga com o seu diretor, João Couto, e Guilherme Possolo, e no Palácio da Ajuda com o último, local onde identificaram um tapete persa adequado para o chão da receção, embora carecendo de restauro513. Possolo indicou ainda a existência de três tapeçarias do tipo Gobelins e três cómodas – uma delas de estilo Luís XVI – no Palácio Nacional de Sintra, sem inconveniente de serem retiradas por se encontrarem em corredores. Perante essas incursões, Henrique Gomes da Silva alertou Leal de Faria de que não competia à DGEMN a transferência de peças de palácios e museus, e uma vez que figuras como Possolo não faziam parte dessas instituições, seria prudente que os verdadeiros responsáveis elencassem o que consideravam adequado para apreciação direta do Presidente do Conselho514. O engenheiro teve necessidade de justificar a sua conduta, referindo que o conteúdo da
510 Do conjunto de 33 telas cedidas pelo PNA e pelo MNAA, identificou-se que quatro regressaram entre 1990 e 2017 ao PNA (Inv. PNA 54994(a), 58429, 58428, 58432), e que duas estão atualmente a decorar gabinetes no Palácio de São Bento (Inv. PNA 58875 e 58876).
511 Guilherme Possolo, formado em Direito, tornou-se num reputado connaisseur de artes decorativas no meio português, privando com antiquários e colecionadores, particularmente com Ricardo do Espírito Santo Silva. Cf.
Hugo Xavier, “O modelo decorativo para o gabinete do governador do BNU: reconstituição de uma encomenda especial”, in Nacional e Ultramarino: o BNU e a arquitectura do poder: entre o antigo e o moderno, coord.
Bárbara Coutinho, Conceição Amaral (Lisboa: CML/MUDE, 2012), 102.
512 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 09.04.1938, p. 1. DGPC/SIPA:
PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/01, TXT.04949672.
513 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 06.05.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3890/03, TXT.04950160.
514 Ofício do Diretor-Geral da DGEMN para Leal de Faria, 10.05.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3890/03, TXT.04950161.
residência se encontrava igualmente a seu cargo: recorrera a especialistas, nomeadamente Raul Lino, delegado da JNE, para o acompanhar em visitas a antiquários lisboetas, e a outros peritos para observar os espólios museológicos nacionais, por forma a estipular uma relação de mobiliário a submeter ao escrutínio da 6.ª secção da JNE, cuja consulta era obrigatória515. Contou ainda com o auxílio de Fiel Viterbo516 (1873-1954) para a aquisição de mobiliário, como camas D. Maria I, cadeiras e cortinas, em antiquários e outros fornecedores517.
O processo de decoração da residência foi apreciado pela Conselho Permanente de Ação Educativa (CPAE) e pela JNE. O parecer assinado por Reinaldo dos Santos apoiou-se na informação prestada por João Couto relativa ao pedido que fora endereçado por Leal de Faria.
João Couto advogava que o palacete deveria ser decorado com “a máxima dignidade, procurando-se a maior harmonia entre a decoração mural das salas e o mobiliário e adornos”518. Revelou que para a sala de visitas se pretendeu um estilo francês, solicitando-se o empréstimo de uma cómoda Regência, uma credência Luís XIV, quatro cadeiras e uma bèrgere, um tapete persa, três quadros e algumas peças da China. Sugeriu-se a cedência de uma cómoda que decorava a sala da baixela Germain e de uma credência que integrava o arranjo da sala Luís Fernandes, alertando-se para o facto de os tapetes persas atingirem elevados valores no mercado e não se prestarem a serem colocados no chão e, consequentemente, pisados, devendo ser resguardados. Adicionalmente, acedia ao empréstimo de algumas peças de porcelana chinesa e de duas pinturas atribuídas a Pietro Longhi, adquiridas no leilão Burnay de 1934519, cujo retorno seria imperioso aquando da abertura das salas do novo anexo do museu. Alertava que o museu tinha poucas peças decorativas relevantes de grandes dimensões, como móveis, tapeçarias e porcelanas, o que condicionava o empréstimo e constituía um problema, dada a ampla extensão das salas do novo anexo. Reinaldo dos Santos mostrou-se favorável à cedência
515 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 14.05.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3890/03, TXT.04950180-TXT.04950182.
516 Fiel da Fonseca Viterbo destacou-se na decoração de interiores e na reestruturação de espaços, particularmente de edifícios portuenses. Maria de São José Pinto Leite, “O edifício do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (1933-1937). Percurso da renovação decorativa dos seus interiores”, Revista de Artes Decorativas 6 (2012-2014):
227-228.
Fiel Viterbo viria também a propor a aquisição de quatro gravuras para adorno de salas no Palácio de São Bento.
Ofício do Secretário da Assembleia Nacional para o Presidente da JNE, 09.05.1939. AHSGEC:
PT/MESG/AAC/JNE/G-A/02531 – Fundo JNE, cx. 323, proc. 44.
517 Fiel Viterbo, Proposta, 14.06.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3890/03, TXT.04950289.
518 Cópia da informação do Director dos Museus Nacionais de Arte Antiga [João Couto, 17.05.1938]. AHSGEC:
Fundo JNE, cx. 249, proc. 74.
519 No catálogo do leilão surgem discriminadas, com o n.º 359 e provenientes da sala amarela do palácio na Junqueira, duas pinturas atribuídas a Pietro Longhi / Escola Veneziana, do século XVIII, retratando cenas interiores com diversas personagens. Catálogo dos quadros, objectos de arte, porcelanas e mobiliário que pertenceram aos 1.os Condes de Burnay e a cujo leilão de procederá no Palácio da Junqueira em 1934 (Lisboa:
Oficina Gráfica, 1934), 49-50.
das quatro cadeiras e dos quadros atribuídos a Longhi, e que o diretor do museu selecionasse as peças de porcelana com outros membros da comissão; porém, indicou que tanto o tapete persa do PNA como a cómoda e a credência do MNAA, aí em exposição, não deveriam ser
“desviados do papel que estão representando”520.
A aquisição de outros objetos, como um lustre antigo de vidro para a sala de receção, que Leal de Faria identificara no antiquário lisboeta Salão de Arte Antiga, também passou pelo crivo da junta521. Pouco antes da instalação do Presidente do Conselho na residência, o mobiliário selecionado para a sala de receção e para o vestíbulo foi aí reunido para ser examinado pela JNE522. Raul Lino, em comunicação verbal, considerou que o conjunto possuía a dignidade necessária para as funções que viria a desempenhar523. Ricardo do Espírito Santo Silva forneceu peças de mobiliário para a residência que considerava necessitarem de avaliação por peritos, por forma a estabelecer o preço de aquisição pelo Estado. Dado que as verbas para esse edifício se encontravam esgotadas, Leal de Faria propôs, como meio de agilizar e acelerar o processo e os pagamentos, que o lote fosse adquirido por dotação especial “a exemplo do que foi feito quando o Estado adquiriu mobiliário diverso e objectos d’arte no leilão do recheio da casa do falecido Conde de Burnay”, cujas peças se destinavam aos palácios nacionais, insistindo que a residência do Presidente do Conselho também era “incontestavelmente, um Palácio Nacional”524. Numa apreciação do gosto decorativo da residência, José-Augusto França classificou-o como “luxo solene e banal que competia à função”525.
A sala destinada a reuniões do Conselho de Ministros foi apetrechada com cartografia. Refira-se, a título de exemplo, que a Livraria Sá da Costa forneceu dois atlas, um mapa de Portugal e uma carta roteiro de Angola526, e ainda dois mapas assinados por João Soares, referentes ao Império colonial e discriminando, respetivamente, os territórios no ocidente e no oriente527. A firma Castello Branco forneceu material cartográfico publicado pela editora Justus Perthes:
cartas da Europa, Austrália, América do Norte, América do Sul, do mundo, da Europa de 1815
520 Cópia de Parecer da 6.ª Secção da JNE, 26.05.1938. AHSGEC: Fundo JNE, cx. 249, proc. 74.
521 Vários ofícios, maio 1938. AHSGEC: Fundo JNE, cx. 249, proc. 74.
522 Ofício de Leal de Faria para o Presidente da JNE, 30.05.1938. AHSGEC: Fundo JNE, cx. 249, proc. 74.
523 Ofício do Presidente da JNE para Leal de Faria, 01.06.1938. AHSGEC: Fundo JNE, cx. 249, proc. 74.
524 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 02.06.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3890/03, TXT.04950258.
525 1999, 154.
526 Livraria Sá da Costa, Proposta, 06.11.1937. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/01, TXT.04949336.
527 Livraria Sá da Costa, Fatura, 09.07.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.04949766.
a 1914, da divisão de África antes de 1914 e da divisão colonial do mundo nesse ano, e uma referente às raças europeias528.
Um dos assuntos que preocupou Salazar respeitava as ligações de acesso entre a residência e o exterior, como anteriormente referido, nomeadamente para entradas do pessoal ou de externos para entregas, que não deveria ser feito pelo portão da Rua da Imprensa, por forma a não utilizar a entrada principal e evitar o cruzamento direto com figuras como ministros529. Analisou também a necessidade de dispositivos elétricos como campainhas e de policiamento. Junto do referido portão de entrada encontrava-se um compartimento para o piquete da PVDE, que recebeu, em 1943, algumas modificações para obtenção de privacidade na zona destinada às chamadas telefónicas530. Atendendo a desejos do Presidente do Conselho531, Leal de Faria apresentou também um estudo para uma comunicação privativa subterrânea entre a residência e o Palácio da Assembleia Nacional, prevendo uma passagem partindo do torreão junto da Calçada da Estrela até à zona do corredor da fachada sul do palácio, incluindo um elevador que estabeleceria ligação do exterior com a antecâmara do gabinete da Presidência do Conselho532. Porém, Duarte Pacheco entendeu que tais trabalhos, nos moldes propostos, não eram essenciais533.
Para além da residência, os jardins integravam a habitação do motorista, a garagem, o alojamento do guarda e algumas dependências de suporte. Salazar planeou integrar nesse parque o seu ideal ligado à vida rural, baseado na autossubsistência como garante de uma existência moralmente sã, que expôs em entrevista a António Ferro enquanto caminhavam por um dos bairros de casas de renda económica promovidos pelo Governo534. António Lino projetou dependências para animais (capoeiras, coelheiras, pombal) e lavadouro com tanque
528 Firma Castello Branco, Proposta, s.d. [1937]. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/01, TXT.04949549.
529 [António de Oliveira Salazar], Casa de S. Bento: Ligações da casa com o exterior, 03.03.1938. ANTT: Arquivo Salazar, OP-1 cx. 476, pt. 12, fl. 351-353.
530 Ofício de A. Luiz Gomes (Diretor-Geral da DGFP) para o Diretor-Geral da DGEMN, 19.08.1943.
DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.04950008.
531 Ofício de Leal de Faria para o Diretor-Geral da DGEMN, 10.05.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.04949722-TXT.04949723.
532 Estudo da ligação reservada entre o jardim da futura residência de Sua Ex.ª o Senhor Presidente do Conselho e o Palácio da Assembleia Nacional, 09.05.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.04949744- TXT.04949746.
533 Ofício do Diretor-Geral da DGEMN para Leal de Faria, 08.06.1938. DGPC/SIPA: PT/DGEMN/DSARH-005/125-3889/02, TXT.049497478.
534 Ferro, “7.ª Entrevista. Salazar princípio e fim [1938]”, Entrevistas a Salazar, 169-170.