Análise da Situação Atual e dos Atores Envolvidos 4.1 Introdução
ESTIMATIVA DA PERDA DE RECEITA ANUAL R$ MILHÕES
4.11 A Resolução 456/00 da ANEEL e as Perdas Comerciais
A Resolução 456/00, da ANEEL, de 29 de novembro de 2000, que dispõe sobre Condições Gerais de Fornecimento de Energia Elétrica, publicada pela Agência Nacional de Energia Elétrica, define como devem ser as relações comerciais entre as concessionárias e as unidades consumidoras. Essa resolução, que veio substituir a Portaria 466/97 do Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica – DNAEE, está fundamentada na lei 8.987/95, que normaliza as concessões públicas.
A Resolução 456/00, também tem com fundamento o Código de Defesa do Consumidor, buscando estabelecer as condições de equilíbrio entre o concessionário e seus clientes. Tal postura deve-se ao conceito de hiposuficiência, que o código entende ter o consumidor perante os seus fornecedores.
Para atender ao Código de Defesa do Consumidor, a Resolução 456/00 obriga o concessionário do serviço público de eletricidade a possuir uma boa estrutura, não só de recursos humanos, mas também de logística e de sistema de informação que atenda a todos os requisitos da legislação, para promover o equilíbrio das relações comerciais, considerando as peculiaridades de cada concessionária / região.
As perdas comerciais de energia elétrica estão diretamente relacionadas com o perfil de consumo do produto e com a capacidade financeira das pessoas em honrar seus compromissos contraídos. É histórico, e de conhecimento geral, os problemas que os países latino-americanos têm em honrar suas dívidas externas, por total incapacidade de gerar poupança. Diferentemente dos países bem sucedidos, o normal é não pagar, não respeitar as leis e os costumes de burlar, subtrair, enganar, etc., ao invés renunciar hoje para viver melhor amanhã.
A cidade de Manaus possui uma população de 1.527.314 habitantes [IBGE, 2000], com um consumo médio mensal de 225 kWh [810 MJ] por habitante [Manaus Energia, 2002], caracterizando-se como um dos mais elevados índices do país. Este perfil de consumo é muito elevado para o poder aquisitivo da população da cidade. Neste perfil de consumo, existe uma participação muito acentuada da cultura do desperdício, associada ao baixo nível de escolaridade da população. Como as pessoas não possuem renda para manter seu status quo, elas buscam abrigo no ilícito para garantir o seu conforto. Tal estado de coisas não é diferente em outras cidades da região ou do país. No caso das cidades da Região Norte, a situação é mais acentuada, devido ao elevado consumo per capita, decorrente das condições de temperatura ambiente e do requerido conforto térmico.
O artigo 72 da resolução 456/00 orienta sobre os procedimentos a serem adotados por parte da concessionária no sentido de buscar recuperar receita em face da ocorrência de irregularidades na medição. Adicionalmente, o artigo 90 da citada resolução diz que a concessionária poderá suspender o fornecimento, de imediato, quando verificar a ocorrência de procedimentos irregulares por parte do consumidor.
Entretanto, a materialização do crime não se concretiza mesmo que o consumidor assine o Termo de Ocorrência de Irregularidade. É necessária a prova criminal, sendo que os consumidores são orientados por advogados a dizerem que foram coagidos a assinarem e que não conhecem nada de eletricidade, ficando o dito pelo não dito. Além do mais, quando permitido, pelo consumidor, o acesso ao equipamento de medição, localizado no interior do imóvel [o normal é impedir], normalmente a carga levantada não é reconhecida pelo cliente, alegando que a maioria dos aparelhos não funciona, sendo, portanto, ilegítima. Hoje em dia, não existe mais a aceitação pura e simples dos dados apresentados pelo concessionário dos valores subtraídos, faz- se necessário inclusive descrever qual a carga, por fase, efetivamente desviada para fins de comprovação em juízo.
Como determinar a carga desviada se o consumidor impede os prepostos da empresa de entrar em sua residência? Em muitos casos, os consumidores estão acusando os prepostos de extorsão ou de responsabilidade por danos aos equipamentos eletrodomésticos. A solução da questão é viável, porém requer que os concessionários despendam mais recursos para o suporte e montagem dos processos que, nem sempre, são concretizados, ampliando, assim, as perdas comerciais.
Quanto à suspensão de fornecimento, definida no artigo 90 da resolução 456/00, o Código de Defesa do Consumidor, em seu artigo 22, define que os serviços essenciais devem ser contínuos, não cabendo a suspensão de fornecimento, devendo a concessionária, segundo entendimento de alguns juízes, materializar a questão e acionar os responsáveis pela irregularidade, em esfera adequada. Tal postura vigiu em vários fóruns sendo, atualmente, consolidada sua inadequação, uma vez que incentivava a ação ilegal, por parte daqueles que usam de artifícios menores para se beneficiarem, em detrimento do bem-estar das demais pessoas usuárias dos serviços públicos. Agindo assim, tais juízes deixavam de lado a Lei 8.987/95, que possui o mesmo nível hierárquico do CDC22. Ainda sobre esta questão, foi evidenciado que serviço contínuo não significa que omesmo não possa ser interrompido, quer por inadimplência quer por contingências do sistema elétrico, o que se requer é que o mesmo tenha um índice satisfatório e adequado de disponibilidade aos usuários do mesmo.
Outro ponto importante de ser observado é o parágrafo 3º do artigo 70 em conjunto com os incisos I, II e III do artigo 48, da dita resolução, que determinam valores mínimos de energia a ser faturada, caso não haja equipamento de medição instalado na unidade consumidora. Sabedores disso, elementos inescrupulosos estão orientando os consumidores a não providenciarem a devida adequação de suas instalações elétricas ficando taxadas pela carga por um período de 90 dias; após tal prazo, o faturamento automaticamente cai para os valores mínimos. O procedimento a ser adotado pelo concessionário seria suspender o fornecimento, por não atendimento às normas técnicas. Porém, o Código de Defesa do Consumidor impede a suspensão do fornecimento, haja vista ser um serviço essencial. O exemplo dado refere-se não a novas ligações, mas a uma alteração no número de fase ou problemas de deteriorização da caixa do medidor, quando o equipamento de medição é retirado, a pedido do cliente, ficando a unidade consumidora taxada pela carga, por 90 dias. Talvez seja um problema de procedimento da concessionária que não ataca a questão em sua plenitude.