CAPÍTULO II. Das Responsabilidades, Obrigações, Deveres, Formação Médica, Dano e Culpa
2.1 A responsabilidade civil decorrente da ação humana
Diz-se, inicialmente, que a responsabilidade civil decorre da ação humana e possui como pressupostos a existência de uma conduta voluntária, um dano injusto sofrido por outrem. Apesar de sua complexidade jurídica, a responsabilidade civil, em restrita síntese, é o prejuízo de ordem material, moral ou estético que o agente se vê obrigado a reparar devido a um descumprimento contratual, ou quando por ação/omissão (negligência, imprudência e imperícia) venha a causar dano à vítima. Esse dano pode ser patrimonial ou extrapatrimonial.
A palavra responsabilidade origina-se do latim respondere, que transporta a ideia de segurança ou garantia da restituição ou composição do bem sacrificado. Tem, assim, o sentido de recomposição, obrigação de restituir ou ressarcir.
No sistema jurídico brasileiro são caracterizados como elementos formadores da obrigação de reparar: a) a existência de uma ação ou omissão; b) o dano; c) a culpa e o nexo causal. O artigo 186 do Código Civil estabelece a regra da responsabilidade civil subjetiva. O agente somente pode ser responsabilizado quando, culposamente, não respeita um dever de cuidado objetivamente devido (sua conduta é ilícita).
De modo geral, a responsabilidade subjetiva é aquela em que além do ato lesivo do agente causador de lesão, do dano estar presente no lesado e do nexo causal estar estabelecido entre o ato lesivo e o dano ao lesado, tem que se achar presente, nesta relação, a culpa do
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agente causador do dano. E, esta culpa, caracteriza-se pela presença no agir com dolo ou pela presença somente de culpa no sentido estrito, ou seja, de imprudência ou negligência ou imperícia profissional.
Consoante Fabrício Zamprogna Matielo (1998, p. 15): “O liame entre dano e responsabilidade é fundamental para a existência da obrigação de reparar, vista aquela sob o ângulo subjetivo. (...) Essa espécie é dita subjetiva porque estratificada na convicção de que está presente, no caso concreto, a ligação psíquica do agente com o resultado danoso, de modo que este quer diretamente produzir o efeito que efetivamente veio a ser constatado ou no mínimo se porta de modo a aceitar como perfeitamente viável a ocorrência do evento a partir da conduta assumida.”
Compreende-se, portanto, que a responsabilidade civil do médico advém, também, da regra geral. Trata-se de responsabilidade civil subjetiva. O médico deve atuar de forma diligente, valendo-se de todos os meios adequados, com um cuidado objetivo. Deve, pois, somente, ser indenizado, aquele que, submetido a tratamento médico, venha, por causa deste tratamento e de culpa do profissional, a sofrer um prejuízo, seja de ordem material seja imaterial - patrimonial ou não patrimonial.
No entendimento de Delton Croce (2002, p. 3): “(...) Se denomina responsabilidade médica situação jurídica que, de acordo com o Código Civil, gira tanto na orbita contratual como na extracontratual estabelecida entre o facultativo e o cliente, no qual o esculápio assume uma obrigação de meio e não de resultado, compromissando-se a tratar do enfermo com desvelo ardente, atenção e diligência adequadas, a adverti-lo ou esclarecê-lo dos riscos da terapia ou da intervenção cirúrgica propostas e sobre a natureza de certos exames prescritos, pelo que se não conseguir curá-lo ou ele veio a falecer, isso não significa que deixou de cumprir o contrato.”
As ideias de Croce são complementadas por Fabrício Zamprogna Matielo (1998, p.66): “No que concerne à responsabilidade civil dos médicos, segue-se a regra geral da imprescindibilidade da demonstração da culpa do agente, amenizadas as exigências quanto à prova inarredável e profunda de sua ocorrência ante os termos consignados na legislação, quando a natureza da demanda ou as circunstâncias concretas apontarem para a responsabilidade mediante a produção de elementos de convicção mais singelos. (...) Em princípio, a contratação não engloba qualquer obrigação de curar o doente ou de fazer melhorar a qualidade de vida desfrutada, porque ao profissional incumbe a tarefa de empregar
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todos os cuidados possíveis para a finalidade última – e acima de tudo moral – de todo tratamento, ou seja, a cura seja alcançada. Todavia, a pura e simples falta de concretização do desiderato inicial de levar à cura não induz a existência da responsabilidade jurídica, que não dispensa a verificação da culpa do médico apontado como causador do resultado nocivo.”
Por outro lado, há para considerar que o profissional médico não tem obrigação de cura. Não há qualquer presunção de culpa do médico em razão da não consecução de um determinado resultado, isso porque, como se disse alhures não há obrigação de cura. O que é sustentado por Nery Tadeu Câmara Souza (2002, p. 42-44): “A doutrina e a jurisprudência, como regra, determinam a necessidade de que o paciente prove que o médico agiu com culpa. Portanto, trata-se de um contrato sui generise seu inadimplemento, quando este se configurar, caracteriza a presença de um tipo especial de culpa do médico. Esta culpa é especial pois, mesmo se tratando de um contrato não cumprido pelo contratado, a culpa do médico deve ser provada pelo paciente, não havendo a presunção de culpa do contratado – o médico – presunção esta característica dos contratos, em nosso ordenamento jurídico, quando a obrigação contratual não for satisfeita pelo contratado. Prevalece, na relação contratual não adimplida, no caso de médico e paciente, a necessidade do paciente que acusa provar a culpa do médico.”
No Brasil há muitos casos de denúncias por erro ou negligência médica. Ambos acarretam culpa. Um exemplo disso são os dados estatísticos trazidos por Marcos Vinicius Coltri (2010) em seu ensaio “Alerta no Centro Cirúrgico”. Ele aponta que no estado de São Paulo houve o crescimento de 75% (setenta e cinco por cento) no número de denúncias e processos judiciais e de 120% (cento e vinte por cento) no de processos ético-profissionais, na última década. Todavia, as mesmas estatísticas revelam que somente 20% (vinte por cento) das ações são procedentes.
Em verdade, grande parte das demandas está amparada na alegação de falta de informação por parte do profissional liberal. Ocorre que, tendo em vista os posicionamentos jurisprudenciais acima expostos, sempre em que não se restar comprovada a culpa médica, será incabível qualquer responsabilização. E essa conduta deve ser seguida tanto pelo médico quanto pelo paciente, onde o diálogo e a informação são imprescindíveis ao alcance de bons resultados. É imprescindível que o paciente seja detidamente esclarecido sobre os riscos e diagnósticos de seu tratamento, inclusive com a formulação do Termo de Consentimento Informado. Ademais, é importante que o médico se estruture para o exercício profissional.
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A responsabilidade civil do médico, tomando-se por base o Código de Defesa do Consumidor, está lastreada na culpa, dizendo-se “subjetiva”. Ademais, entre o profissional e o paciente estabelece-se uma obrigação de meio, sendo necessário o emprego de métodos adequados, atenção e zelo, sem, contudo, a garantia de cura.
O médico somente poderá ser responsabilizado quando agir de modo imprudente, negligente ou imperito, haja vista que a ciência médica não é exata. É nessa direção que o expressivo aumento das demandas judiciais acerca do “erro médico” demonstra a necessidade de maior informação, tanto por parte dos médicos quanto dos pacientes. A relação de diálogo, entre ambos, é de suma relevância e deve ser permeada de confiança, conversa e esclarecimento exaustivo e preciso sobre o problema do paciente em questão.
É consenso geral entre os teóricos que o paciente tem todo o direito de conhecer os riscos e eventuais consequências a que se encontra sujeito em determinado procedimento, ao passo que o médico tem o direito de se resguardar, inclusive com a elaboração de Termo de Consentimento Informado. Dessa forma, a relação entre médico e paciente será clara, objetiva, usufruindo, ambos, de seus direitos.