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5 A RESPONSABILIDADE CIVIL DOS CÔNJUGES ENTRE SI POR DANOS

5.1 A Responsabilidade Civil dos cônjuges um para com o outro

O debate sobre a possibilidade, ou não, da responsabilidade civil do cônjuge pela violação do dever de fidelidade (seja de forma física ou virtual), reclama, previamente, uma análise sobre a própria circunstância de lesante e lesado unidos pelo vínculo do matrimônio, e se este fator afastaria a aplicação das regras gerais sobre responsabilidade civil – ou se, pelo contrário, este não constituiria um óbice à reparabilidade do dano moral.

Com efeito, a questão da admissibilidade, ou não, da responsabilidade civil dos cônjuges entre si somente pode ser adequadamente respondida a partir de uma análise acerca dos fundamentos utilizados para a exclusão ou limitação da responsabilidade dos cônjuges entre si, o que perpassa pela referência a ordenamentos jurídicos estrangeiros acerca do tema.

Ao sistematizar a análise dos princípios ou fundamentos excludentes ou limitantes da reparação de danos entre os cônjuges, Rodríguez (2017) os sintetiza nos seguintes termos:

Cuando de habla de daños en el marco de las relaciones familiares se suele relacionar su possible exigibilidad com la presencia de los princípios que funcionan de modo excluyente o limitativo de este tipo de acciones:

La llamada inmunidad de la família frente a la producción de daños.

La autossuficiência de las reglas des Derecho de família a la hora de dar solucíon a los conflitos entre familiares.

Junto a ellos se Suelen apuntar otros argumentos a favor de la resticción de estas acciones como la necessidade de preservar la paz familiar; la conveniencia del mantenimiento del patrimonio de la familia; el rechazo a pretensiones que no reporten nigún beneficio a la família; la solidaridad entre familiares; las reglas no escritas de moralidad y los usos sociales; el peligro de proliferación de este tipo de demandas; incluso la presencia de límites institucionales como los cortos plazos de prescripción que desincentivan el ejercicio de acciones (RODRÍGUEZ In AMADO, 2017, p. 25).

Entrementes, é possível observar que, no sistema do common law, o uso do termo

interpousal immunity ou imunidade conjugal traduziu a impossibilidade de um cônjuge pleitear a reparação pelo dano causado em virtude de um ato ilícito cometido pelo outro cônjuge – o que implicaria um privilégio que afastaria, no âmbito conjugal, a regra fundamental que obriga o autor de um ato ilícito a indenizar o lesado pelo dano dele decorrente (CERDERA, 2000).

Já no ordenamento jurídico anglo-saxônico, as decisões mais antigas que consagram este princípio tinham como fundamento o princípio do unity of spouses (CERDEIRA, 2000, p.

19), segundo o qual marido e mulher constituíam juridicamente uma só pessoa, donde resultava, tanto sob o ponto de vista substantivo quanto processual, obstaculizada a possibilidade de responsabilizar o cônjuge, civilmente, pela violação a direitos do outro cônjuge, ficando a regra excepcionada, todavia, no âmbito penal.

Ao analisar o princípio da imunidade familiar nos ordenamentos anglo-saxônicos Rodríguez (2017) esclarece que:

La conocida como regla de inmunidad de la familia, más propia de los tribunales de los ordenamentos anglosajones, no permitia las reclamaciones de daños entre familiares o esposos por uma serie de argumentos (substantivos e procesales) basados en la unidad del matrimonio (el matrimonio es uma sola persona, las reclamaciones se traducirían en un prejuicio patrimonial de la propia familia, etc.). (RODRÍGUEZ In AMADO, 2017, p. 26).

Há que se observar, contudo, que, com a evolução dos costumes e da família, este princípio do unity of spouse entrou em declínio, especialmente quando considerado em face de leis editadas na Inglaterra e Estados Unidos, que impunham sensível alteração na condição da mulher casada.

Não obstante, a lógica da imunidade remanescia sob o argumento da negativa da possibilidade de responsabilização civil do cônjuge pela violação aos direitos do outro cônjuge, dada a exigência de manutenção da paz doméstica e a tutela da harmonia familiar – embora se admitisse a ação proposta pela mulher no sentido de salvaguardar os seus bens.

Para Cerdeira (2000),

[...] a uma concepção hierárquica da família, que identificava no marido o chefe da família, correspondia a inaplicabilidade das regras sobre a responsabilidade civil. Todos os conflitos eram, pois, resolvidos no seio da própria família, de acordo com a vontade do marido-pai, considerado, assim, como uma verdadeira fonte do Direito. (CERDEIRA, 2000, p. 27).

Atribui-se à evolução social, cultural e à própria ruptura com o modelo patriarcal e hierarquizado da família o declínio da imunidade interconjugal, que veio, posteriormente, a ter o seu afastamento normatizado na Inglaterra.

Nos Estados Unidos, a derrogação da imunidade dos cônjuges se deu por meio do contrato de seguro. Isto porque se admitiu a obrigação da seguradora de indenizar os danos porventura provocados por um cônjuge ao outro. Por conclusão lógica e mediante exclusão do terceiro (seguradora), era forçoso reconhecer a possibilidade de um cônjuge responder frente ao outro por eventuais danos decorrentes da violação de direitos.

No que concerne a esta superação da regra de imunidade da família, Rodríguez (2017) sinaliza que:

Esa tendência va abandonándose a lo largo del siglo passado especialmente por la implantación de seguros y proliferación de acidentes de tráfico que permiten reclamaciones entre familiares que no prejudican el patrimônio ( si bien no es uma matéria exenta de problemas), fatisfaciendo los daños sufridos; así como por la distinta consideración de la posición de los cónyuges dentro del matrimonio, ya en plano de igualdad. (RODRÍGUEZ In AMADO, 2017, p. 26).

Neste particular, e sobre o sistema do Common Law, contudo, Espinoza (2016) observa que, apesar de se admitir a reparação de danos entre os cônjuges diante do descumprimento dos deveres matrimoniais, esta reparação somente terá cabimento se os cônjuges cometerem um ilícito de forma intencional ou gravemente negligente. Neste sentido, sua responsabilização em tal circunstância não é senão uma consequência da lógica da compensação ressarcitória de caráter punitivo. Assim, conclui a referida autora que:

Mas esta definición ha quedado expresada en casi todas las decisiones de los tribunales de justicia y, certamente, em las condenas que se determinan en el caso de la vulneración de bienes extra patrimoniales de los cónyuges, sin prejuicio de los estados experimentados em torno a dicha admisibilidad, independentemente de cuál fuese el motivo de la acción, tan solo basados em la inmunidad conyugal.

Em la actualidad solo quedan resabios de la teoría; son muy pocos los tribunales que niegan el derecho a reclamarle a uno de los cónyuges los daños y prejuicios derivados de su acionar. Sin embargo, la regla aludida, las exigências probatorias y las defensas argumentadas revelan que hasta ahora la tendência no ha cambiado em su totalidad. Aunque em un sistema jurídico em constante cambio como este, es perfectamete posible que la conducta grave e intencional o manifestamente negligente no se requiera em el futuro. (ESPINOZA, 2016, p, 258).

Já nos ordenamentos jurídicos da Europa Ocidental, Cerdeira (2000, p. 31) observa que, embora a imunidade interconjugal não decorresse de uma corrente jurisprudencial firme, esta podia ser observada nos respectivos sistemas, diante da ausência de decisões judiciais sobre a matéria, a exemplo da França e Itália.

Na Alemanha, não se vislumbrava no casamento um obstáculo, em si, à aplicação das regras gerais sobre responsabilidade civil, rejeitando a doutrina e jurisprudência alemãs a existência de uma renúncia tácita dos cônjuges ao ressarcimento de danos porventura provocados por um ao outro.

Na sociedade contemporânea, contudo, é preciso destacar que o princípio da

interpousal immunity – acima mencionado – se revela incompatível com a própria evolução da família. Como visto, a própria concepção de família sofreu sensíveis modificações, com também relevantes alterações dos papéis exercidos pelos membros da entidade familiar.

A família ganhou uma feição instrumentalizada e funcionalizada, atualmente regida pelos princípios da dignidade da pessoa humana – igualdade, liberdade, autonomia,

pessoalidade, dentre outros – e, assim sendo, esta concepção de família no século XXI já não se compatibiliza com a lógica da imunidade interconjugal.

Segundo Cerdeira (2000):

Em suma, queremos salientar a importância para a nossa investigação, das consequências determinadas pela diferente posição do indivíduo, enquanto familiar, em matéria de responsabilidade civil. Essas consequências podem ser sintetizadas na afirmação de que o sujeito goza, hoje, de todas as prerrogativas garantidas pelo ordenamento jurídico, mesmo no interior da família e, nesse sentido, as normas que tutelam a pessoa devem ser aplicadas, no círculo familiar, sem quaisquer obstáculos. (CERDEIRA, 2000, p. 53).

Diante do exposto, considerando o conceito de família na pós-modernidade, seus novos contornos e princípios de regência, revela-se incontroversa a possibilidade de responsabilização dos cônjuges entre si pela eventual violação a deveres recíprocos. No que concerne à violação dos deveres conjugais – e especificamente do dever de fidelidade –, contudo, esta conclusão reclama uma análise particularizada, dada a peculiar e especial natureza destes deveres no contexto da comunhão de vidas e afetos estabelecida pelo matrimônio, o que será feito na seção seguinte.