• Nenhum resultado encontrado

4. EFEITOS DECORRENTES DA NOVA CAPACIDADE CIVIL

4.1. A Responsabilidade civil no código de 2002

Importa ao presente estudo discutir os efeitos da lei 13.146/2015 no sistema de responsabilidade civil para a pessoa com deficiência. Ao ser considerada plenamente capaz, acredita-se que a pessoa com deficiência não mais estará amparada por um sistema especial de responsabilidade civil, atualmente previsto no artigo 928 do código civil.

Desse modo, serão abordados aspectos pertinentes aos atuais paradigmas da responsabilidade civil que dialogam com a responsabilidade civil do incapaz, discutindo-se como será a perspectiva em torno da responsabilidade imputável à pessoa com deficiência, a partir da nova lei.

A responsabilidade civil consiste na obrigação de ressarcir em decorrência do dano causado a terceiro. Segundo Orlando Gomes (2011, p. 92), possui responsabilidade: “Quem infringe um dever jurídico lato sensu, causando dano a outrem, fica obrigado a ressarci-lo. A infração pode ser de dever estabelecido numa relação jurídica ou na própria lei, ou do princípio geral de que ninguém deve prejudicar os outros”.

O código civil de 2002 incorporou mudanças ocorridas ao longo do século XX no tema de responsabilidade civil. De acordo com Cavallieri (2003), em artigo sobre o tema, a revolução na matéria não decorreu do código civil, mas sim a partir da Constituição Federal de 1988, em especial, na previsão contida no artigo 37, parágrafo 6° com a responsabilidade objetiva do Estado sobre os prestadores de serviço público. Igualmente, considera o autor que o Código de defesa do consumidor, ao estabelecer a responsabilidade objetiva nos artigos 12 e 14 para os

fornecedores de serviço e produto, alterou profundamente as bases da responsabilidade civil, já que as relações de consumo representam um grande volume na sociedade atual.

Com isso, o autor destaca que o código de 1916 era subjetivista, tendo a culpa como núcleo do dever de reparar, o que se tornou um obstáculo para a vítima obter a reparação, concluindo que “o novo código civil não fez e nem fará nenhuma revolução em sede de responsabilidade civil, porque a revolução já havia ocorrido antes dele. Mas, enfatizo, o novo Código fez uma mudança profunda na disciplina, no sistema que estava previsto no Código de 1916” (CAVALLIERI, 2003, p. 33).

Observa-se que a atual legislação ampliou a responsabilidade objetiva através de duas cláusulas gerais, presentes nos artigos 187 combinado com o artigo 927 e no 927, parágrafo único. A primeira prevê a responsabilidade no caso de abuso de direito, independente da intenção do agente e a segunda estabelece a responsabilidade independente de culpa nas atividades de risco (CAVALLIERI, 2003).

Destaque-se que durante muito tempo a culpa fora o fundamento do dano, pois se acreditava que a intenção de transgredir, o ato voluntário do causador do dano o é que possuía caráter reprovável. Contudo, a mudança de fundamento passou a priorizar a reparação do dano, sendo voltado para o próprio fato da coisa, daí a teoria do risco da atividade. Assim, como já anunciado, o instituto jurídico em análise tem se modificado. Ressalte-se que dois eram os pilares enfrentados pelas vítimas em busca de ressarcimento: o filtro da culpa e o do nexo de causalidade, os quais funcionavam como barreiras para obtenção de indenizações. Destaca que a própria justiça enxergava que sem tais filtros, existiria um aumento considerável de demandas (SCHREIBER, 2013).

O autor entende que tais filtros têm passado por um processo de erosão em que suas bases foram flexibilizadas ou até desconsideradas para facilitar o ressarcimento:

Longe de ser restrita ao âmbito probatório, esta flexibilização indica uma alteração gradativa e eminentemente jurisprudencial na estrutura da responsabilidade civil, a refletir a valorização de sua função compensatória e a crescente necessidade de assistir a vítima em uma realidade social marcada pela insuficiência das políticas públicas na administração e reparação de danos. Neste contexto, os pressupostos da responsabilidade civil relacionados à imputação do dever de indenizar (culpa e nexo causal) perdem relevância em face de certa ascensão daquele elemento que consiste, a um só tempo, no objeto e na ratio da reparação: o dano (SCHEREIBER, 2013, P. 83).

Observa-se dessa análise a importância atribuída ao dano propriamente e não a análise do culpado. Impende destacar ainda que tal mudança de paradigma denota a crescente preocupação com a dignidade humana, princípio básico constitucional que passou a permear as relações privadas.

Entre as mudanças presentes no atual código civil, importa a esse estudo tratar da responsabilidade civil pelo fato de outrem. Essa modalidade de responsabilidade se embasa na necessidade de se garantir a efetividade do dever de reparar em alguns casos que é preciso ir além da pessoa que de fato causou o dano. O código de 2002 inaugurou a ideia de responsabilidade objetiva para esses casos, substituindo a concepção de culpa presumida nas situações de responsabilidade do pai pelo filho menor, do empregador pela conduta do empregado, do tutor e curador pelo pupilo e curatelado (FARIAS E ROSENVALD, 2016).

Os artigos 932 e 933 do código civil estabeleceram essa responsabilidade pelo fato de outrem de forma objetiva, em que o causador do dano e os responsáveis legais responderão de forma solidária perante a vítima. Será abordado no presente estudo de forma mais aprofundada a questão do incapaz e de seu representante legal.

4.1.2 A possibilidade de reparação por parte do incapaz e de seus representantes legais no Código Civil de 2002.

O código civil de 2002 prevê a responsabilidade civil do incapaz, o que mitiga a ideia do direito clássico de que a ausência de discernimento impede o dever de reparação pessoalmente por parte do incapaz causador do dano (FARIAS E ROSENVALD, 2016).

Com isso, o código civil no artigo 928 estabelece uma responsabilidade civil subsidiária e equitativa, que atinge o patrimônio do incapaz apenas quando os seus responsáveis legais não tiverem como arcar com eventual indenização e desde que não prive o incapaz e seus dependentes do mínimo existencial. Com isso, a pretensão indenizatória deve ser dirigida ao responsável legal e somente quando não houver patrimônio suficiente recairá sobre o patrimônio do incapaz e desde que, não acarrete a supracitada privação (FARIAS E ROSENVALD, 2016).

Por outro lado, se o responsável legal possui condições de arcar com a indenização, este apenas terá a possibilidade de ação de regresso posterior contra o incapaz, se este não for seu descendente, conforme disposto nos artigos 932 e 934 do código civil (FARIAS E ROSENVALD, 2016).

Esse sistema de reparação busca conciliar a proteção à vítima e ao incapaz, à medida que o juiz tende a impor indenizações, que não deixem o incapaz sem o mínimo existencial, mas que consigam representar uma compensação à vítima, que, ao menos, não ficará desprotegida, como ocorria no sistema do código de 1916 (FARIAS E ROSENVALD, 2016).

Cavallieri (2003) afirma que o fundamento dessa inovação trazida pelo código de 2002 encontra-se na equidade, pois se o incapaz tem patrimônio próprio é justo que a vítima seja amparada. O autor destaca que para a equidade não importa se houve ilicitude ou violação a dever jurídico, mas sim a realização da justiça.

Desse modo, observa-se que a responsabilidade civil do incapaz prevista na atual codificação permite que o seu patrimônio seja excepcionalmente atingido, caso o seu representante legal não tenha essa possibilidade econômica. Esse panorama se aplicava à pessoa com deficiência, considerada como absolutamente incapaz antes da vigência da lei 13.146/2015. Contudo, importa discutir a atual responsabilidade civil aplicável à pessoa com deficiência, uma vez que, em regra, não há mais incapacidade.