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A Responsabilidade Civil Objetiva do Fornecedor

No documento Abuso de direito nas relações de consumo (páginas 56-59)

A necessidade de efetiva proteção ao consumidor contra os danos em decorrência de acidentes de consumo conduziu à responsabilidade civil do fornecedor. Coube à jurisprudência, inicialmente nos Estados Unidos e, posteriormente, na Europa, a partir da imposição dos fatos, estabelecer a ruptura do sistema tradicional de responsabilidade civil.

Ao consumidor era muito difícil fazer prova da ocorrência de culpa do fabricante, dos fornecedores em geral, em relação ao defeito no produto ou no serviço que lhe causara o dano.

Entretanto, o passo definitivo para o reconhecimento da responsabilidade objetiva do fornecedor por acidentes de consumo ocorreu, na década de sessenta, nos Estados Unidos. Em 1962, o caso Greenman v. Yuba Powers Products Inc. representou o leading case na adoção pela doutrina da “estrita responsabilidade pelo produto” (strict product liability). Em 1965, essa teoria foi consagrada no Second Restatement of Torts155, que, em seu parágrafo

402-A, consolidou a regra da responsabilidade do fabricante ou vendedor de produtos defeituosos perigosos pelos danos físicos e patrimoniais sofridos pelo consumidor ou pelo usuário, deixando claro que a obrigação de indenizar é independente da ocorrência de culpa ou de relação contratual direta entre o vendedor e o usuário156.

Essa compilação americana influenciou muita a comissão de juristas europeus, que elaboraram o projeto que culminou na Diretiva do Conselho da Comunidade Européia (CEE) nº. 85/374157, consagrada por ocasião da sua edição. O seu art. 1º privilegiou a

responsabilidade objetiva do produtor sem mencionar o elemento culpa, a saber: “O produtor

155SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Op. cit. p. 51, apud GIFIS, Steven. Barrow’s law dictionary, New

York: Prior Editions, 1975, p. 417. O Restatement é uma compilação organizada pelo American Law Institute, entre os juristas norte-americanos, em face da autoridade da entidade que o organiza. Indica o direito vigente em determinada área, as mudanças em curso e as reformas sugeridas pela doutrina.

156 Ibid. p. 54.

é responsável pelos danos causados por um defeito de seu produto”. Na exposição de motivos, o Conselho da Comunidade Européia deixou clara a sua intenção de introduzir uma nova modalidade de responsabilidade objetiva independente de culpa: “que somente a responsabilidade do produtor, independente de sua culpa, constitui uma adequada solução do problema, específico de uma época caracterizada pelo progresso tecnológico, de uma justa distribuição dos riscos inerentes à produção técnica moderna”158.

De acordo com José Reinaldo de Lima Lopes159, “a responsabilização civil do

fornecedor já não tem um caráter de mácula moral, mas deve ser encarada como sistema de prevenção e reparação de danos acidentais inevitáveis, em que a avaliação da conduta de uma das partes (o fornecedor) conta pouco ou simplesmente não conta”.

A responsabilidade objetiva é decorrente da simples colocação no mercado de determinado produto ou prestação de dado serviço, que é a Teoria do Risco do Empreendimento, conforme já mencionada. Com isso, ao consumidor é conferido o direito de intentar as medidas contra todos os que estiverem na cadeia de responsabilidade que propiciou a colocação do mesmo produto no mercado, ou então a prestação do serviço160.

A responsabilidade civil objetiva tem como fundamento a referida Teoria, que consiste na obrigação de indenizar o dano produzido por atividade exercida no interesse do agente e sob seu controle, sem que haja qualquer indagação sobre o comportamento do lesante, fixando-se no elemento objetivo, isto é, na relação de causalidade entre o dano e a conduta de seu causador161.

Sob uma perspectiva histórica, os precursores do abandono do pressuposto da culpa e sistematização da responsabilidade objetiva foram os franceses Saleilles e Josserand, os quais se deram conta, no final do século passado, de que o Código de Napoleão era insuficiente para responder aos reclamos da sociedade em pleno processo de industrialização e massificação162.

Portanto, na responsabilidade civil objetiva, a atividade que gerou o dano é lícita, de modo que aquele que a exerce terá o dever de indenizar simplesmente pelo nexo de

158 SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Op. cit. p. 54, apud Diretiva nº. 85/374/CEE: “Considerando que

somente a responsabilidade do produtor, independente de sua culpa, constitui uma adequada solução do problema, específico de uma época caracterizada pelo progresso tecnológico, de uma justa distribuição dos riscos inerentes à produção técnica moderna”.

159 STOCO, Rui. Op. cit. p. 443. apud LOPES, José Reinaldo de Lima. Responsabilidade Civil do fabricante e

a defesa do consumidor. Instituto Brasileiro de Política e Direito do Consumidor. São Paulo, Ed. RT, v.3, 1992, p. 145-146.

160 GRINOVER, Ada Pellegrini et al. Op cit. p. 169.

161 BOLSON, Simone Hegele. Direito do Consumidor e Dano Moral. Rio de Janeiro. Ed. Forense, 2002, p.

123.

causalidade, isto é, aquele que se beneficia com uma situação deve responder pelo risco ou pelas desvantagens dela resultantes.

No Brasil, formou-se um consenso, no momento em que se passou a regulamentar a responsabilidade pelo fato do produto ou pelo fato do serviço, em torno da necessidade de também se dispensar a presença de culpa no suporte fático do fato ilícito de consumo, tornando objetiva a responsabilidade do fornecedor. O CDC deixou expresso em seus arts. 12 e 14 que os fornecedores de produtos e serviços respondem pelos danos causados ao consumidor “independentemente da existência de culpa”. Portanto, optou-se por um regime de responsabilidade objetiva não culposa do fornecedor de produtos e de serviços163.

Estabeleceu, ainda, o CDC a “responsabilidade por vício do produto ou do serviço (arts. 18 a 25)”. Segundo Artur Marques da Silva Filho164, “a dicção que se infere é de que

todas as pessoas que introduzem qualquer produto no mercado de consumo, independentemente de culpa, são responsáveis pela reparação de danos causados aos consumidores”.

Desse modo, o consumidor prejudicado está dispensado de comprovar a culpa do fornecedor. Pelo contrário, compete ao fornecedor a comprovação das causas de exclusão previstas restritamente na legislação para excluir a sua responsabilidade.

Segundo Nelson Nery Júnior165:

“O regime da responsabilidade objetiva do CDC deve aplicar-se, de conseguinte, a todas as hipóteses de relação de consumo quando surgir a questão do dever de indenizar o consumidor pelos danos por ele experimentados. Isto porque o fundamento da indenização integral do consumidor, constante do art. 6º, VI, do CDC, é o risco da atividade, que encerra em si o princípio da responsabilidade objetiva praticamente integral, já que insuscetível de excluir do fornecedor o dever de indenizar mesmo quando ocorrer caso fortuito ou força maior”.

A justificativa para a adoção do sistema da responsabilidade civil objetiva pelo CDC se dá em razão do próprio tipo das relações que este tutela. As relações de consumo estabelecidas entre o consumidor e o fornecedor/prestador de serviço são relações em que há o reconhecimento da vulnerabilidade de um dos pólos, assim, evidente que a adoção da responsabilidade objetiva era a mais adequada, pois fundada na Teoria do Risco do Empreendimento. Em verdade, o sistema da responsabilidade adotado pelo CDC decorre do 163 SANSEVERINO, Paulo de Tarso Vieira. Op. cit. p. 55.

164 STOCO, Rui. Op. cit. p. 444. apud FILHO, Artur Marques da Silva. Código do Consumidor –

Responsabilidade civil pelo fato do produto e do serviço. RT 666/35.

165 JUNIOR, Nelson Nery. Os Princípios Gerais do Código Brasileiro de Defesa do Consumidor. In: Revista

próprio fato da proteção do consumidor estar impregnada pela idéia da desproporção de forças entre o consumidor e o fornecedor166.

Soma-se a isso, a influência do sistema norte-americano e o da Comunidade Européia através da Diretiva 374/85, conforme já mencionados.

No plano prático, a aplicação do sistema da responsabilidade objetiva às relações de consumo possibilitou ao consumidor um dos mais efetivos instrumentos na defesa de seus direitos posto que, na maioria dos casos, seria impossível apurar-se e provar-se a culpa do agente. Contudo, a exclusão do elemento subjetivo culpa na aferição da responsabilidade não exclui os pressupostos do dano efetivo, moral ou patrimonial e o nexo de causalidade entre o defeito do produto e a lesão167.

Entretanto, deve-se mencionar que existem algumas hipóteses elencadas pelo CDC, em seu art. 12, §3º, chamadas de causas excludentes, que mitigam o sistema da responsabilidade civil objetiva.

No documento Abuso de direito nas relações de consumo (páginas 56-59)

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