SOCIEDADE DE HIPERCONSUMO
3.3. A REDUÇÃO DE EMBALAGENS NA POLÍTICA NACIONAL DE RESÍDUOS SÓLIDOS
3.3.2. A responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida das embalagens
A necessidade de ações integradas e encadeadas durante o ciclo de vida dos produtos e embalagens, envolvendo os diversos sujeitos que o integram, foi devidamente percebida pela lei 12.305/2010. Para tanto, instituiu o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida, art. 6º, inciso VI, como uma forma de auxiliar na prevenção de geração de resíduos e na prevenção de danos ambientais. Ela visa que todos os atores da rede de produção e consumo de produtos que resultam em resíduos sólidos, sejam responsabilizados com a finalidade de diminuir os impactos ao longo do ciclo de vida dos produtos e os danos pós-consumo.
A responsabilidade compartilhada é enunciada pela PNRS como, art. 3º, XVII: “[...] conjunto de atribuições individualizadas e encadeadas dos fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, dos consumidores e dos titulares dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo dos resíduos sólidos [...]”. Ela visa diminuir o volume de resíduos e reduzir o impacto à saúde e ao meio ambiente em tudo o que disser respeito ao resíduo. (MACHADO, 2011)
Alguns dos objetivos da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, previstos pela Lei 12.305/2010, art. 30º, parágrafo único, II, III, IV, V, VII, são: promover o aproveitamento de resíduos sólidos, direcionando-os para a sua cadeia produtiva ou para outras cadeias produtivas; reduzir a geração de resíduos sólidos, o desperdício de materiais, a poluição e os danos ambientais; incentivar a utilização de insumos de menor agressividade ao meio ambiente e de maior sustentabilidade; estimular a produção e o consumo de produtos derivados de materiais reciclados e recicláveis; incentivar as boas práticas de responsabilidade socioambiental.
Mesmo estabelecendo um tipo de responsabilidade que envolve todos os que entram no ciclo de vida do produto (que envolve obtenção
de matérias-primas e insumos, o processo produtivo, o consumo e a disposição final), ela não retira a individualização de cada ação. Para tornar a produção e o consumo de embalagens sustentável, são necessárias diferentes práticas dos sujeitos nas fases do ciclo de vida.
Sendo assim, dentro da responsabilidade compartilhada, encadeada e individualizada, a lei prevê algumas práticas para os sujeitos que a compõem. Primeiramente, é necessário que a produção seja sustentável. Essa parte é de responsabilidade dos fabricantes e importadores que devem produzir ou importar embalagens e produtos embalados, conforme a Lei 12.305/2010: com base no princípio da ecoeficiência; com materiais não poluentes e menos impactantes; com menor quantidade de materiais; não sobre-embalar; utilizar embalagens reutilizáveis ou recicláveis; colocar as devidas informações dos materiais que as compõem e do destino que deve ser dado a elas, por meio da rotulagem ambiental; informar os distribuidores e comerciantes da gestão que deve ser feita; implementar o sistema de logística reversa; dar a destinação apropriada. Para a destinação ambientalmente adequada, devem ser instalados postos de coleta ou remunerando quem execute o serviço em seu lugar, conforme art. 27º e 33º , §7º.
Em seguida, os sujeitos responsáveis por elas são os comerciantes e distribuidores, que devem prestar informações aos consumidores sobre os produtos que vendem e a destinação adequada dos mesmos após o consumo, receber e armazenar produtos devolvidos no âmbito da logística reversa e posteriormente devolvê-los aos respectivos fabricantes ou importadores, conforme art. 33, parágrafos 3º e 4º, da lei 12.305/2010. Eles podem, também, optar pela venda e distribuição de produtos menos agressivos ao meio ambiente, podem buscar alternativas de venda mais ecologicamente favoráveis.
Após a venda, as embalagens tornam-se de responsabilidade dos consumidores, que devem optar pelos produtos com menos embalagens, atentar-se a sua rotulagem, optar por embalagens reutilizáveis, recicláveis e menos poluentes. Dita o Decreto 7404/2010, art. 6º, que os consumidores são obrigados a “acondicionar adequadamente e de forma diferenciada os resíduos sólidos gerados e a disponibilizar adequadamente os resíduos sólidos reutilizáveis e recicláveis para coleta ou devolução.” Eles têm o papel fundamental de depositá-las seletivamente ou devolve-las para local responsável, deve também suportar uma parte proporcional ao custo do sistema de gestão dos resíduos. (ARAGÃO, 2009).
Alem disso, diz a Lei 12.305/2010, eles poderão ser responsabilizados se entregarem os resíduos a pessoas não previstas na
lei, e ou se deixarem os produtos mencionados no art. 33 em locais inadequados. A responsabilidade dos consumidores, conforme a Lei 12.305, art. 28º, cessa com a disponibilização adequada para a coleta ou devolução ao devido local.
Aos consumidores cabe também a prevenção de resíduos, sendo que devem ser responsáveis e ter um papel ativo na gestão de resíduos (ARAGAO, 2009). Porém, sem a conscientização dos cidadãos consumidores será difícil conter a degradação ambiental.
Um consumidor bastante importante é o poder público, sendo que a lei 12.305/2010 prevê, como um de seus objetivos, que as aquisições governamentais deem prioridade para produtos reciclados e recicláveis, além de bens, serviços e obras que considerem critérios compatíveis com padrões de consumo sustentáveis.
O poder público já é o responsável pelo serviço de coleta de resíduos, devendo cumprir com esse encargo de forma efetiva e satisfatória, além de dar a destinação final apropriada aos resíduos e adotar procedimentos para reaproveitá-los, conforme lei 12.305/2010, art. 26º e 36º. Também deve, conforme art. 14 da lei, promulgar os Planos de Resíduos Sólidos Nacional, Estaduais, Regionais e Municipais.
Outro dever que incumbe ao poder público, dentro da responsabilidade compartilhada, é o de fiscalização das práticas efetuadas pelos particulares e a fiscalização do cumprimento da lei. O poder público deve impedir formas indevidas ou ilegais de eliminação dos resíduos, citadas no art. 47º da lei 12.305/2010, tais como: disposição em lixões, queima a céu aberto, o abandono, a emissão para rios ou mares, a eliminação em partes das estradas, em terrenos baldios.
Mediante a adoção por parte dos sujeitos que integram o ciclo de vida das embalagens de todas as práticas enunciadas, será possível a sustentabilidade da produção e consumo de embalagens. A responsabilidade pelo ciclo de vida das embalagens é compartilhada porque sem a ação de todos os sujeitos que fazem parte desse ciclo de vida, não seria possível solucionar a problemática existente.
As mudanças trazidas pela responsabilidade compartilhada, prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos, além de possibilitarem a redução da geração de resíduos, a reutilização e reciclagem de embalagens, possibilitam a redução da utilização de matérias- primas.
A responsabilidade compartilhada trazida pela lei 12.305/2010 somada à aplicação de instrumentos previstos, que serão agora tratados, permite a produção e consumo mais sustentável de embalagens.
3.4. INSTRUMENTOS DA POLÍTICA NACIONAL DE