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A RESPONSABILIDADE DIRETA DO NOTÁRIO E DO REGISTRADOR

No documento EDITOR CHEFE (páginas 35-42)

3. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO POR ATOS NOTARIAIS E DE REGISTRO

3.6 A RESPONSABILIDADE DIRETA DO NOTÁRIO E DO REGISTRADOR

No tocante à responsabilidade civil do notário e do registrador, a doutrina e a jurisprudência brasileiras majoritária defendem a responsabilidade objetiva desses profissionais. Essa posição, entretanto, nas lições de Loureiro (2018, p. 313), é diversa da

75 QUARANTA, Roberta Madeira. A atividade dos notários e registradores e o sistema de responsabilidade civil no Direito brasileiro.

Dissertação (mestrado). Universidade de Fortaleza, 2009. p. 134.

76 STOCO, Rui. Tratado de Responsabilidade Civil. 6. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2004. P. 994.

77 STF: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=404603&caixaBusca=N. Acessado em: 30.05.2019.

encontrada no direito comparado, não obstante a similaridade das normas e princípios que regem a instituição do notariado nos ordenamentos jurídicos pertencentes à família do direito continental ou romano-germânico.

Os debates acerca da responsabilidade civil aplicável aos tabeliães e aos registradores dividiram a doutrina em cinco correntes78. Para a primeira corrente a responsabilidade civil dos notários e registradores seria objetiva, diante da aplicação do art. 37, § 6º, da Constituição Federal, não sendo considerado o teor do texto da Lei 8.935/1994. A segunda corrente, interpretando o texto original da norma, entende que a responsabilidade seria direta e objetiva, fundada no risco. A terceira corrente entende a responsabilidade dos notários e registradores como direta e objetiva, diante da teoria da culpa do serviço (faute du servisse).

A quarta corrente entende a responsabilidade dos tabeliães e registradores como direta e objetiva, em contraposição à exigência do elemento subjetivo exigido para o exercício do direito de regresso em face do preposto. A quinta corrente, majoritária, sustenta que a responsabilidade civil dos tabeliães e dos notários como direta e subjetiva, fundada na culpa.

Na visão de Loureiro, os argumentos utilizados para fundamentar as decisões que consagram a responsabilidade objetiva desses profissionais partem de premissas errôneas, que devem ser discutidas e analisadas à luz da dogmática jurídica ou da teoria geral do direito.

Ensina que a solução adotada no direito comparado é a responsabilidade do notário baseada na culpa ou no dolo.

No campo legislativo, a responsabilidade civil dos notários está prevista no art. 22 da Lei 8.935/1994 (Lei dos Serviços Notariais e de Registro – LNR), no art. 38 da Lei 9.492/1997 (Lei dos Protestos de Títulos) e no art. 28 da Lei 6.015/1973 (Lei de Registros Públicos), a seguir:

Lei 8.935/1994:

Os notários e oficiais de registro são civilmente responsáveis por todos os prejuízos que causarem a terceiros, por culpa ou dolo, pessoalmente, pelos substitutos que designarem ou escreventes que autorizarem, assegurado o direito de regresso.

Lei 9.492/1997:

Art. 38. Os Tabeliães de Protesto de Títulos são civilmente responsáveis por todos os prejuízos que causarem, por culpa ou dolo, pessoalmente, pelos substitutos que designarem ou Escreventes que autorizarem, assegurado o direito de regresso.

Lei 6.015/1973:

Art. 28. Além dos casos expressamente consignados, os oficiais são civilmente responsáveis por todos os prejuízos que, pessoalmente, ou pelos prepostos ou substitutos que indicarem, causarem, por culpa ou dolo, aos interessados no registro.

78 . Manual de Responsabilidade Civil: volume único. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2018, p. 1260.

Além das disposições legais alhures, o Código Civil de 1916 e o de 2002 trataram do assunto nos em seus artigos 159 do CC/16; 186, 189 e 927, do CC/02. No âmbito jurisprudencial, o tema tem sido debatido e decisões conflitantes sempre surgiram, como os arestos a seguir, colhidos no âmbito do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Agravo interno no recurso especial. Responsabilidade civil cartorária.

Indenização por dano causado. Lei 8.935/1994. 1. Responsabilidade objetiva na época do fato. Precedentes. 2. Reconhecimento, ademais, no acórdão recorrido da existência de atos negligentes e imperitos, os quais não podem ser objeto de revisão junto a esta Corte Superior. Atração de Enunciado 7/STJ. Responsabilidade extracontratual. Termo inicial. Evento danoso. Súmula 54/STJ. 4. Pretensão de discussão de tema pacificado nesta Corte Superior. Manifesta improcedência do recurso. Aplicação de súmula.

5. Agravo interno desprovido, com aplicação de multa. (STJ, Ag. Int. no REsp 1.471.168/RJ, 3ª Turma, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseveriano, j.

12.09.2017, DJe 18.09.2017). (negritamos e sublinhamos).

DIREITO CIVIL. RESPONSABILIDADE CIVIL DO REGISTRADOR PÚBLICO. LAVRATURA DE ASSENTO DE NASCIMENTO COM INFORMAÇÕES INVERÍDICAS. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. FILHA PRIVADA DO CONVÍVIO MATERNO. DANOS MORAIS. VALOR DA COMPENSAÇÃO. MAJORAÇÃO. 1. A doutrina e a jurisprudência dominantes configuram-se no sentido de que os notários e registradores devem responder direta e objetivamente pelos danos que, na prática de atos próprios da serventia, eles e seus prepostos causarem a terceiros. Precedentes. 2. Da falta de cuidado do registrador na prática de ato próprio da serventia resultou, inequivocamente, a coexistência de dois assentos de nascimento relativos à mesma pessoa, ambos contendo informações falsas. Essa falha na prestação do serviço, ao não se valer o registrador das cautelas e práticas inerentes à sua atividade, destoa dos fins a que se destinam os registros públicos, que são os de “garantir a publicidade, autenticidade, segurança e eficácia dos atos jurídicos”, assim como previsto no art. 1º da Lei n.º 8.935, de 1994. (...). (STJ, REsp 1.134.677/PR, 3ª Turma, Rel. Min. Nancy Andrighi, j. 07.04.2011, DJe 31.05.2011). (negritamos e sublinhamos).

PROCESSO CIVIL. ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO. NOTÁRIOS E OFICIAIS DE REGISTRO.

CERTIDÃO CONTENDO INFORMAÇÕES INVERÍDICAS.

RESPONSABILIDADE SUBJETIVA. ANÁLISE ACERCA DO DOLO OU CULPA. IMPOSSIBILIDADE. INCIDÊNCIA DO ENUNCIADO SUMULAR Nº 7/STJ. DIVERGÊNCIA JURISPRUDENCIAL. COTEJO ANALÍTICO.

NÃO REALIZAÇÃO. 1. Pretende o Recorrente provar não ter agido nem com dolo, nem com culpa, o que é inviável em sede de recurso especial. Para proceder a tal análise, faz-se necessário o revolvimento de matéria fático- probatória, sabidamente obstado pelo enunciado nº 7 da Súmula desta Corte de Justiça. 2. O Recorrente não cuidou de realizar o necessário cotejo analítico entre os arestos, ou colacionar aos autos a cópia integral dos acórdãos, em evidente desconformidade com o disposto no parágrafo único do artigo

541 do CPC e no artigo 255 do RISTJ, que exigem a comprovação e a demonstração da divergência, com o devido cotejo analítico entre a situação concreta e o acórdão paradigma. 3. Recurso Especial não conhecido. (STJ, REsp 817.856/MG, 2ª Turma, Rel. Min. Carlos Fernando Martins [Juiz Convocado do TRF 1ª Região], j. 03.06.2008, DJe 19.06.2008). (negritamos e sublinhamos).

Segundo Flávio Tartuce79, essas divergências e a falta de clareza sobre a natureza da responsabilidade civil motivaram alterações no texto legal, entre as quais se destaca o art.

22 da Lei 13.286/2016, que assim dispõe: “os notários e os oficiais de registro são civilmente responsáveis por todos os prejuízos que causarem a terceiros, por culpa ou dolo, pessoalmente, pelos substitutos que designarem ou escreventes que autorizarem, assegurado o direito de regresso”.

Desse modo, Tartuce afirma que não restam dúvidas de que foi colocado fim à controvérsia acerca da responsabilidade civil dos notários e dos registradores, quanto à responsabilidade direta e pessoal desses profissionais, conforme entendimento da quinta corrente doutrinária exposto alhures, ou seja, a responsabilidade subjetiva, mediante dolo ou culpa. Tal conclusão, porém, não se coaduna com os mais recentes julgados do STJ e do STF, que entendem trata-se de responsabilidade objetiva, o que trata-se mostra propenso ao alongamento dos debates sobre o tema.

CONCLUSÃO

Com vistas à compreensão dos contornos jurídicos que receberam as atividades cartorárias no ordenamento jurídico brasileiro, em que pese a estagnação experimentada ao longo da história, a nova ordem constitucional estabelecida a partir de 1988 inaugurou um

“novo marco” para as atividades notariais, ao estabelecer que seriam exercidas em caráter privado, por delegação do Poder Público, com a entrega das serventias ao particular por meio de sua aprovação em concurso público.

Com efeito, a partir da Constituição Federal de 1988 - cujo art. 236 foi regulamentado pela Lei nº 8.935/1994 – é que foram verificadas mudanças positivas para a disciplina dos registros públicos no País, tendo sido fixadas as diretrizes básicas, bem como os princípios fundamentais da matéria no ordenamento jurídico pátrio.

A partir do estudo apresentado no primeiro capítulo, observou-se que os serviços notariais e registrais revestem-se de natureza pública, uma vez que são tidos como capazes de certificar os atos praticados por particulares, dando-lhes fé pública, que, para ser exercida, envolve parcela de autoridade pública, dado que esse princípio é inerente ao poder estatal.

A assertiva de que as atividades notariais estão compreendidas no âmbito dos serviços públicos, pode ser confirmada por meio dos princípios aplicáveis aos serviços notariais. Tal atividade, em função de sua complexidade, é permeada de características peculiares que funcionam como verdadeiros postulados orientadores dos profissionais encarregados da execução desses serviços.

79 TARTUCE, Flávio. Manual de Responsabilidade Civil: volume único. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2018, p. 1263.

Destaca-se que a doutrina aponta alguns princípios que são aplicáveis especificamente às atividades notarias, visto que constituem diretrizes do Direito Notarial e são caracterizados como princípios de técnica jurídica.

Diante do destaque que a atividade notarial tem na sociedade, o tabelião e o registrador, em observância ao princípio da rogação, não podem agir de ofício, devendo, pois, aguardar a recepção de demandas dos interessados nos serviços notariais. Disso, observa-se que os serviços notariais, por se revestirem de segurança jurídica, são submetidos a normas especificas que lhes confere autenticidade e credibilidade perante terceiros.

No que tange à relevância social dessas atividades, tratada no segundo capítulo, verificou-se que os verificou-serviços notariais e registrais possuem aptidão para inibir litígios, evitando, desta feita, que muitos conflitos adentrem a esfera judicial, já tão sobrecarregada.

Pode-se dizer, com isso, que as atividades cartorárias têm evoluído com o Direito e com os interesses da sociedade, que, cada vez mais ávida por rapidez na resolução das questões cotidianas e por segurança jurídica, busca nos serviços cartorários a “solução” de suas necessidades diárias, utilizando-se da qualificação técnica dos notários e registradores, pessoas profissionalmente preparadas para tal mister.

A partir do que foi pesquisado, percebeu-se que os titulares das serventias extrajudiciais, como delegados instituídos pelo Estado, desempenham função natureza pública, enquadrados pela doutrina na categoria de agentes públicos (servidores públicos em sentido amplo), que agem em colaboração com o Poder estatal por meio do instituto da delegação. Essa delegação, por seu turno, se opera de maneira sui generis, ou seja, por meio de concurso público e não de licitação, como comumente é de se observar.

Em relação à responsabilização civil dos notários, tema tratado no terceiro capítulo, entende-se que deve prevalecer o critério subjetivo para aferição do dever de ressarcir ou reparar eventuais danos a terceiros, decorrentes da atividade notarial. Nesse contexto, destaca-se que a complexidade do tema decorre, especialmente, da abertura da norma contida no parágrafo único do art. 927 do Código Civil de 2002, uma vez que a natureza da atividade notarial, salvo melhor juízo, não implica risco aos direitos de terceiros.

Pelo critério da reponsabilidade civil subjetiva do notário, em que pese a natureza e a relevância das atividades exercidas, a parte que alegar o dano deve comprovar o dolo ou a culpa do agente, a fim de obter a reparação do mal sofrido.

Desse modo, mesmo que o Código Civil de 2002 tenha inovado no sentido de prever no parágrafo único de seu art. 927 uma cláusula geral de responsabilidade objetiva – demonstrando a tendência atual de ampliação das hipóteses de responsabilização independente de demonstração de culpa – esse fato não foi o bastante para alterar a disciplina de responsabilização dos notários e registradores, porque se trata de lei geral e, nesse sentido, não tem o condão de revogar as normas específicas sobre a matéria consubstanciada na Lei nº 6.015/1973, arts. 28 e 157, e na Lei nº 9.492/1997, art. 3880.

Com relação à responsabilidade civil do Estado em decorrência das atividades notariais e de registro, verificou-se divergência na doutrina e na jurisprudência. Alguns doutrinadores

80 QUARANTA, Roberta Madeira. A atividade dos notários e registradores e o sistema de responsabilidade civil no Direito brasileiro.

Dissertação (mestrado). Universidade de Fortaleza, 2009. p. 184.

advogam a tese de que esta responsabilidade será subsidiária, e não direta, sendo este o entendimento majoritário da doutrina.

Outros posicionamentos, porém, evidenciam a valoração da assunção de riscos próprios por parte do titular da serventia não-oficializada, o que justifica o recebimento integral dos emolumentos por parte dos notários e registradores, implicando, por conseguinte, a atribuição de responsabilidade ao delegado, retirando do Estado o dever de responder diretamente pelos danos causados por notários e registradores, visto que restaria sem sentido a inovação constitucional, quando atribui caráter privado ao modo de exercício dessas atividades.

No âmbito jurisprudencial, encontram-se posicionamentos conflitantes no que tange à responsabilidade civil do Estado em relação a atos notariais que causaram dano a terceiro.

Contudo, o STF no julgamento do RE 842846 firmou o entendimento segundo o qual “O Estado responde, objetivamente, pelos atos dos tabeliães e registradores oficiais que, no exercício de suas funções, causem dano a terceiros, assentado o dever de regresso contra o responsável, nos casos de dolo ou culpa, sob pena de improbidade administrativa”.

Diante disso, observa-se que a jurisprudência tende a pacificar o entendimento de que o Estado responde objetivamente pelos atos notariais e de registro que causem danos a terceiros, o que se mostra compatível com a relevância e com a natureza jurídica das atividades notariais, uma vez que se trata de serviços públicos cuja execução é delegada ao particular, que a faz em nome do Estado, com observância das regras e normas de direito aplicáveis.

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O ASSÉDIO SEXUAL NAS RELAÇÕES DE EMPREGO

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