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A NECESSIDADE DOS STUDIAS HUMANITATIS

3.4 A responsabilidade do Homem

Seis argumentos afirmando a responsabilidade do Homem mesmo na hipótese de que o saber profano possa ser inspirado divinamente.

a) O esforço individual

Mesmo que verdadeira, a inspiração divina do conhecimento profano seria exceção que não dispensa o esforço individual: antes de discutir a hipótese da inspiração divina da ciência pagã, Erasmo procura reduzir sua importância apontando a raridade dos casos reais em que ela é supostamente observada. E cita a obra De Doctrina Christiana de Agostinho, quanto ao modo pelo qual ele propõe uma cultura cristã:

Pela primeira vez vemos exposto um programa de estudos superiores que constituirão uma formação completa do espírito, e que são concebidos unicamente em função do escopo religioso que o cristianismo determina à vida intelectual. Até aqui a inteligência cristã ficava de certo modo enxertando sobre o robusto organismo da civilização antiga, e participava da vida desta; doravante, ela se separa e vai constituindo um organismo autônomo. O segundo livro do De doctrina

christiana coloca o problema em toda sua generalidade: não se trata mais de saber simplesmente se o cristão receberá ou não a educação liberal, o que deverá reter ou esquecer. Santo Agostinho levanta um vasto inventário de todos os aspectos da cultura antiga, classifica-os, julga-os do ponto de vista cristão, e dessa operação preliminar extrai um programa de formação onde nada entra senão aquilo que servirá à alma cristã, que procura pelo estudo da Escritura possuir do melhor modo o tesouro de sua fé. [tradução nossa] (MARROU, 1949, p. 398)

Para Agostinho, de fato, a base de toda a erudição cristã deve ser a instrução sobre o modo como tratar as Escrituras, a tratactio Scripturarum, constituída basicamente por dois estudos: pelo entendimento bíblico (livros I a III) e pela exposição das Escrituras (livro IV) essa tratactio, porém, pode utilizar também vários tipos de conhecimento e disciplinas da cultura pagã, desde que sejam convenientes e úteis à fé e à verdade cristã.

b) A refutação da permanente assistência intelectual divina

O argumento contra a ideia de uma permanente assistência intelectual divina fundada no Evangelho: para continuar a ideia de que a possibilidade de a ciência profana ser inspirada não desobriga ninguém do estudo. Erasmo passa a tratar do caso sempre lembrado do Apóstolo Paulo que teria recebido revelações divinas em um evento sobrenatural36. O autor torna favorável para si o argumento freqüente de seus adversários, lembrando que, se este Apóstolo teve o privilégio de ser transportado misticamente ao terceiro céu, ele, ainda assim, pediu por carta que lhe mandassem alguns manuscritos37 e, depois, os examinou com Pedro e outros Apóstolos para melhor ajuizar sobre algumas questões de fé e lembra que, mesmo os Apóstolos tiveram freqüentes discussões e que Pedro foi corrigido por Paulo à viva voz38. Erasmo provoca e pergunta: “Onde o Espírito Santo descansava naquele momento?” E ainda: “Por que deixava Paulo ler, Pedro errar e que todos os outros tivessem dúvidas como este?” No entanto, o corolário deste argumento é encontrado apenas mais à frente: não se pode ficar a esperar o Espírito Santo, pois precisa-se das disciplinas liberais.

36 [...] foi arrebatado até o paraíso ouviu palavras inefáveis, que não é lícito ao homem repetir.

(2Cor 12,4)

37 Traze-me, quando vieres, [...] os livros, especialmente os pergaminhos. (2Tm 4,13)

38 Mas quando vi que não andavam retamente segundo a verdade do evangelho, eu disse a

Pedro diante de todos: se tu, sendo judeu, vives à maneira dos gentios e não dos judeus, por que forças os gentios a viverem como judeus? (Gl 2,14)

c) Pedir sabedoria para Deus não desobriga ao estudo

O autor deve enfrentar outra convicção do senso comum que desvaloriza o esforço individual do estudo, pois é seduzido pela atração do que é maravilhoso, pelo conforto do providencialismo, acreditando que basta pedir a Deus a sabedoria necessária para obtê-la como se pode entender, inadvertidamente, na passagem da epístola de Tiago39 que diz que aquele que tiver necessidade de sabedoria pode pedi-la a Deus, pois ele a dá a todos em abundância e não recrimina.

Erasmo, então, repetindo sua estratégia usual de não resistir à força, mas desviá-la, aceita a fórmula costumeira, a proposição vulgar, a opinião geral, mas matizando sua significação sempre em favor da importância da iniciativa humana. Assim, aceita que se deve pedir a Deus a sabedoria, mas exige que se compreenda corretamente como fazê-lo, pois deve-se pedi-la como se faze a propósito do alimento, do vestuário e de outras coisas de que o homem tem necessidade para viver. É um preceito que se deva pedir a cada dia o pão quotidiano e, de fato, este é dado diariamente, mas não sem fazer nada.

Pede-se o que vestir e se o recebe, mas trabalhando e, do mesmo modo, pede-se a sabedoria sem que isto implique qualquer desvalorização do esforço humano. E pergunta: ou os bens do corpo são obtidos apenas com o esforço, enquanto aqueles da alma são recebidos gratuitamente? Recebe o pão apenas quem se esforça em consegui-lo e a sabedoria deveria ser inspirada durante o sonho? Se considera um miserável, um assassino de si mesmo quem se deixa morrer de fome, esperando que lhe caia o maná do céu, ao invés de escapar da morte comendo o pão que é fruto do trabalho humano e se deveria tomar por um homem santo quem preferiria a vergonha da ignorância ao útil ensinamento dos homens? Erasmo conclui este raciocínio com o seguinte corolário: o Evangelho não proíbe que se trabalhe para ganhar o pão, mas exorta a evitar uma ânsia mesquinha e injustificada pelo futuro.

Erasmo lembra que uma profecia havia prometido para Salomão a sabedoria e a seu pai o reino de Israel, mas nem um nem outro confiaram excessivamente na

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Se alguém dentre vós tem falta de sabedoria, peça-a a Deus, que a concede generosamente a todos, sem recriminações, e ela ser-lhe-á dada. (Tg 1,5)

profecia. Davi não poupou nenhum esforço humano para mostrar-se digno do favor divino40, enquanto Salomão continuou a estudar com o mesmo empenho de antes41.

d) A ajuda de Deus exige a contrapartida do homem

Este argumento é outra abordagem que visa à mesma valorização da iniciativa e esforço intelectual individual, mas que toma a seu favor uma opinião do senso comum baseada na práxis mercantil e que supõe para a relação com a divindade o mesmo critério de equilíbrio ideal nos negócios entre os homens. Na esteira da citação dos célebres talentos de Davi e Salomão, Erasmo observa que estes entendiam de fato, como verdadeiramente profundo, o ditado que afirma que Deus nos vende tudo em troca de nossa fadiga. Tudo será dado para quem trabalha, mas acumularão sabedoria só aqueles que se empenham; garantirão sua continência só aqueles que se esforçam por possuí-la; serão ensinados, só aqueles que estudam e serão ajudados, mas só aqueles que lutam. Erasmo conclui em tom severo: não serão abandonados a não ser aqueles que faltam para consigo mesmo.

e) O conhecimento pagão como algo bom e desejável

O argumento de que, se o conhecimento pagão é ocasionalmente obtido por inspiração divina, então se segue que ele é algo bom e desejável e deve ser buscado pelo estudo: esta é uma consequência inescapável para quem, fugindo do esforço do estudo, quer e acredita que pode receber o conhecimento dos estudiosos por inspiração divina. Erasmo extrai esta conseqüência acrescentando que, se seus adversários insistem que os autores eclesiásticos obtiveram sua erudição através de rezas e não com o estudo, é possível devolver contra eles o mesmo argumento.

De fato, se dizia que São Bernardo, santo homem e escritor de erudição e estilo, com as próprias palavras teria reconhecido que não teve por mestres outros que não os carvalhos sob os quais se sentava. Ora, se São Bernardo teve uma erudição não só filosófica, mas também poética e, assim, certamente profana deve- se então perguntar como é possível criticar aqueles que se esforçam para obter com os próprios meios, aquilo que o Espírito Santo inspirou a poucos eleitos? Então, se a

40

Cf. 1Cr 11ss

erudição pagã pode ser um dom do Espírito Santo, logo é algo de bom e de desejável, porque Deus não é causa dos males. Mas ressalte-se que Erasmo trata aqui, como sempre, da inspiração divina de ciência profana de maneira condicional, como hipótese.

f) A inspiração divina é complementar

Nos casos em que se alega a inspiração divina, esta reconhece o esforço individual já feito e, então, ela é complementar. Depois de apontar a diferença entre a preparação intelectual de Paulo e a de Pedro e lembrar que também os doutores da Igreja revelam enormes diferenças de estilo e erudição, Erasmo nota que, se, ocasionalmente, entre os primeiros cristãos, a sabedoria foi divinamente inspirada, isto não ocorreu de maneira uniforme e que, se a divindade que a inspirou é a mesma, então é evidente que o Espírito Santo não encontrou em todos o mesmo grau de erudição e que, portanto, este faz crescer e desenvolver a parte da atividade humana, promove os estudos, encoraja os esforços.

Erasmo, pedindo licença ao leitor para introduzir um exemplo tirado dos mitos pagãos a título de ilustração, propõe que se deve imitar Prometeu, que ousou pedir aos astros que insuflassem vida na estátua de barro que havia plasmado, mas só depois de haver colocado naquele trabalho todos os artifícios humanos conhecidos. Desta imagem, será tirado um ensinamento de aparente interesse da religião e da erudição, mas ancorado em um argumento moral que valoriza e preceitua o esforço intelectual individual e acusa o fato de que o homem, diferentemente de Prometeu, oferece ao Espírito Santo uma matéria disforme e espera que, enquanto dorme, este faça tudo por ele.

Logo à frente, depois de lembrar que Paulo, mais erudito que os demais Apóstolos, discutia freqüentemente com estes para melhor ajuizar sobre as questões de fé, mesmo depois de ter sido levado misticamente ao terceiro céu, Erasmo insiste em observar que os dons do Espírito Santo não tornaram supérflua a atividade humana, mas a ajudaram e a integraram, e faz a ressalva de que esta ação divina foi, ocasionalmente, presente em forma sobrenatural, segundo a narrativa bíblica, ressalte-se, mas apenas quando a situação claramente exigia um milagre e o esforço humano riscava não ser suficiente.

No entanto, esta exegese é surpreendentemente seguida, em um lugar pouco mais à frente, pela contrastante, desencantada e taxativa proposição de que a erudição de cada um é proporcional à inteligência natural e ao empenho no estudo e ajuíza que muitos receberam gratuitamente a inteligência, que é um dom da natureza, mas que a virtude e a erudição não são jamais presenteadas. Ora, então, há finalmente um evidente posicionamento do autor contrário à concepção geral de que, assim como muitos podem nascer com talento e índole, assim também poderiam por inspiração divina obter instantaneamente a virtude e a erudição: em uma curta sentença, o autor recusa esta concepção geral e postula que a inteligência e o caráter são dons da natureza, enquanto virtude e erudição, por exclusão, pertencem ao campo do esforço pessoal – studio – então, à liberdade da iniciativa humana; há, portanto, uma diferença entre a ambição e o comodismo de quem pede um grande presente e todo gratuito, o que Erasmo recusa, e a possibilidade de ação sobrenatural que pode ser julgada necessária pela Divina Providência.